domingo, 21 de outubro de 2007

Cansei

Não. Eu não aderi a essa campanha da moda. A corrupção no Brasil? Simplesmente "passei", faço a minha parte e pronto. Não vou ser eu quem vai "evangelizar" alguém - pra começar, o brasileiro é pouco chegado a uma crítica, ou melhor, a uma auto-crítica, pois pra criticar os outros!...

Eu cansei foi de ser tolerante. Porque às vezes eu sinto que ninguém reconhece meus esforços para conviver com as diferenças, mas muito pouca gente tem boa vontade com as minhas particularidades. Nesse caso, as coisas se tornam um esforço duplo pra mim: aceitar os outros e aceitar não ser aceita por eles. Isso não é justo, a longo prazo mata qualquer boa vontade.
Viver com gente diferente até um certo ponto nos enriquece, mas é muiiito tedioso e às vezes até penoso. Outro dia estava pensando que o meu expert no mundo das novelas vem em grande parte da minha falta de oportunidade de travar uma conversa consistente com 90% das pessoas que passa(ra)m na minha vida (e olha que eu tô sendo generosa nessa minha "estatística").
Com a esmagadora maioria delas eu não posso falar de literatura, de cinema, de música, de relacionamentos, do sentido da vida, fazer o meu tipo de humor ou comentar aforismos. Sobra-me, não tem jeito, a novela ou algo que valha. Ultimamente a coisa anda feia pro meu lado, nesse sentido, pois nem novela eu tenho visto. Porém pior do que lidar com gente sem conteúdo, é lidar com gente impertubável. Sabe aquele tipo que tem até cacife para travar uma conversa mais pensante e verdadeira, mas não gosta disso, não quer pensar "em problemas"? Com esses eu falo de cinema ou de seriados...
Então acaba que você passa quase o tempo todo gastando saliva com o que lhe diz pouco e não tem a oportunidade de falar do que realmente te interessa. Você até gosta da esmagadora massa de gente superficial que te cerca, mas, no fundo, isso traz uma bruta frustração pessoal, como disse acima, e como essas pessoas não te instigam muito, não há o impulso de dar atenção a elas, o que gera muita culpa pois há afeto no meio, então há também um certo "dever" de querê-las mais do que realmente quer. E aí quando gasta o seu tempo com essas pessoas, vem uma pontada de culpa de estar desperdiçando-o, de algum modo, e não estar utilizando esse precioso recurso da existência com quem realmente interessa ou com você mesmo.
Lógico que falar besteira de vez em quando é bom e tem a sua função. Mas quando isso é a sua única ponte com a maioria dos que te cercam, é de lascar. No meu caso, esse tipo de deslocamento se torna duplo. Explico: do mesmo modo que o "povão" me deixa o vazio de não poder travar uma conversa de verdade, a elite e a intelectualidade também me trazem o mesmo problema, com a diferença que a superficialidade deles vêm de um excesso de informação. Então tudo vira o que Lacan disse, o que Bergman fez, o que Rilke escreveu e a pessoa parece que perde a capacidade de elaborar um conjunto de saberes e sentidos próprios. É como ser subnutrido tendo comida à vontade. Um grande balde de água fria...
Decidi que não vou fazer mais isso comigo, não. Meu ponto de corte vai ser a fluência na conversa, a convergência de valores e de nível mental. As diferenças pesam com o passar do tempo. É bobagem negar.
Vai ser uma briga das boas. De um lado, a minha educação doméstica, de "dar atenção a gente simples". Do outro, minha falta de gosto por relacionamentos, minha pouca disposição para a sociabilidade... Aliás, eu ando meio marrenta nesse sentido. Eu não devo ficar constrangida porque gosto de pensar e da idéia de viver para ser melhor. A esmagadora maioria das pessoas que eu conheço e que não tem conteúdo, que não se aperfeiçoam "por dentro", não o fazem porque não querem. Por que eu tenho que me ajustar? É um deserviço que presto a elas (que se acomodam) e a mim (que alimento culpa injusta).
Quando eu digo que quero largar o Jornalismo, as pessoas não entendem. Eu gosto de criar e tenho o mesmo interesse por gente que eu tenho pelos animais do zoológico, é um treco bom de observar. O Jornalismo não dá muita oportunidade para criar e me faz entrar em contato com o pior lado das pessoas: a vaidade e o orgulho. Ainda por cima, paga muito, muito mal.
Pois é, tô colada nos 30 anos. Meu retorno de Saturno me cobra uma atitude meio Titãs, e eu só quero saber do que pode dar certo. Não tenho tempo a perder.
Gastar nossa vida com o que não nos diz nada é avareza, maldade com a gente mesmo.
Por que é tão difícil arranjar quem fale a mesma língua? Simplesmente não entendo!...
Cansei.

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