


Esta semana recebi um telefonema. Um daqueles que a gente preferia não ter atendido. Soube, por uma fonte fidedigna, que Camarada abandonou a causa socialista para se tornar mais uma a sucumbir ao mundo capitalista. "Ela comprou uma tela LCD para o computador, e ainda ficou frustrada porque não pôde colocar internet a cabo. Camarada não repete roupa na redação do jornal e anda pagando um carro 0 Km", relatou-me a fonte, espantada com a transformação da amiga. Desliguei, e, completamente chocada e desgostosa da vida, fui encher a cara, afogar as mágoas... com Coca-Cola – fiz questão que fosse com um dos maiores ícones do Capitalismo.
Dias depois, ainda sem conseguir acreditar no que ouvi, resolvi checar as informações. Liguei. Ela não estava. Viajou. "O que é isso, companheira?! Viajando no meio da semana?! Está virando uma personagem de novela de Manoel Carlos, vivendo como moradora do Leblon!", pensei com os meus botões. Alguns dias mais tarde, liguei novamente. Ela atendeu dessa vez. "Camarada, é verdade?". Ela confirmou, sem um pingo de constrangimento. E ainda disse mais: quando perguntei sobre a casa de veraneio na Ilha, deu de ombros e respondeu: “Ah, essa eu já doei!”. Quem joga dinheiro pela janela ou é socialista, ou é maluco ou tá podendo. Camarada pode e não nega.
"Quem te viu, quem te vê" – Há exatos nove meses, estava eu na rua com Camarada após mais um dia de reportagens para uma publicação na qual estávamos trabalhando. Ela me conduziu por um caminho que achei estranho, e, de repente, fiquei sabendo que estávamos em frente ao bandejão da residência universitária. Disse-me o seguinte: “Vou tentar falar com o cara, que é meu amigo, para ver se a gente come aqui (o restaurante serve refeições gratuitas)”. Eu a olhei ainda curiosa, e ela se apressou: “Pagar todo dia R$ 5 de almoço é quebrança, né!”, justificou.
Mês passado, estava Camarada numa cantina com um amigo, quando esse observou que a moça não se incomodava nem um pouco pelo fato do preço do seu almoço ter entrado na casa dos dois dígitos à esquerda. “É que a gente vai se acostumando a um determinado padrão, e passa a viver dentro dele”, filosofou, colocando a mão acima da cabeça enquanto pronunciava a palavra “padrão”. Seu acompanhante se defendeu: “Alto lá, Camarada! Fale por você. Meu padrão ainda está na altura do peito”.
Nota: Ela não se abalou com a observação do interlocutor. Vermelho?! Mas nem na face mais! Como costumava dizer um ex-presidente neoliberalista, assim não pode, assim não dá. "Até tu, Brutus?!"
Este blog pede ao seu leitor que faça um minuto de silêncio pela memória da luta da ex-companheira. Obrigada.
Legendas:
1 e 2 A estátua do Camarada Lênin fica sabendo da transformação da brasileira, e resolve partir de vez. Amigos dizem que Lênin declarou que, "após a abertura da China, o casaquinho de grife de Fidel e o almoço de dois dígitos da camarada do Brasil", não via mais motivos para prosseguir na luta.
3 Camarada Kerner comenta com o filho, Alex, a mudança da companheira de causa: "A queda do muro de Berlim eu até consigo digerir, mas Camarada ter sucumbido ao estilo de vida do Leblon é demais para mim. Quero voltar ao coma!", lamentou.
Entendo o seu sentimento. Eu, como observador de antigos camaradas, não escondo o orgulhoso de vê-los trabalhando e escrevendo coisas bacanas. Inclusive você, com este texto delicioso. Beijos. Dan
ResponderExcluirAh, o endereço do blog é www.comunicacao.blogspot.com
Dan, obrigada mesmo pelo elogio, mas, parafraseando a comunidade braun, me tire de problema! Yo no soy camarada!(risos)
ResponderExcluirEssa esquerda!...Está que nem aquela canção do Falcão (com as devidas adaptações na letra): "Eu sei que a burguesia fede, mas agora tenho dinheiro pra comprar perfume. Lálálálálá"...hahaha
juju, e eu não te contei a história da companheira com os contratos... Mais uma traição aos velhos ideais de esquerda.
ResponderExcluirAgora sou eu quem vai "virar a casaca" (tenho que fazer uma média com a Camarada, né?). Nossa amiga, apesar de ter sucumbido ao Capitalismo, felizmente preserva o coração socialista, e nem de longe cultiva o individualismo yuppie. Camarada, como costumo dizer, é mais eficiente que o SIMM; sempre lembra dos amigos na hora de recrutar novos colegas de trabalho.
ResponderExcluirSim! "Ela é uma boa companheira! Ela é uma boa companheira! Ela é uma boa companheeeeiraaaa!... Ninguém pode negar!!!".
Aliás, essa observação também se estende a você e a Camarada Débora, que também sucumbiu ao Leblon (o guarda-roupa) e agora fala francês, mas preserva a mesma generosidade de antes!