segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Aftersun

Escolha mais que acertada ter visto este filme hoje, primeiro dia do ano. Leve, mas profundo, a depender do que você conseguir extrair dele. Se bem que eu acho que no final a diretora deixa a intenção dela ficar mais explícita pro espectador, que vai ser direcionado pra algo além de uma memória sobre as férias de um pai e de uma filha. 

Enfim, fiquei pensando neste filme o dia inteiro. 


Aftersun é sobre o relacionamento de Sophie e de seu pai, Calum. O filme não entrega muitos detalhes sobre a relação deles, mas, se eu entendi bem, apesar deles morarem em cidades diferentes, na infância dela, são ligados e costumam passar alguns dias de férias no ano. Apesar de Calum não ter recebido muito afeto dos pais e dele mesmo estar passando por uma crise (que não sabemos se é apenas emocional, ou se está doente, até porque não sabemos se ele morre por volta da época em que Sophie adulta acessa essas memórias ou se morreu pouco tempo depois daquelas férias), ele se esforça para dar as melhores férias para a filha. Ela é uma criança que está na beirada da adolescência, com 11 anos recém completados. Ele é um sujeito de quase 31 anos que, portanto, foi pai quase menino. Por isso é fácil pra eles se conectarem e, apesar disso, a paternidade é uma das pontas da vida adulta que, de um modo geral, não está sendo fácil pra Calum atravessar. Pra quem é, pelo amor de Deus?!  

Sophie sonha com o pai dançando com ela quando se torna mãe e revira o baú da memória mais especial que tem dele, as tais férias na Turquia. Ela remonta este pai agora de uma perspectiva adulta e materna. A criança não via a complexidade do que ele estava vivendo. A filha não sabia o quanto custa estar no lugar de pai ou mãe quando você nem sabe direito o que fazer consigo mesmo. A filha adulta agora percebe aquele pai que a inocência da infancia não deixou ver e teve empatia. 

Por fim, o botão mais foda que este filme aperta é o da saudade de quem é parte constitutiva da gente, da nossa história. Há pessoas que são impossíveis de serem deixadas pra trás, e com algumas a gente não quer mesmo que isso aconteça.  

Chorei, não vou mentir!

domingo, 18 de setembro de 2022

Aladin

 



Quando eu era pequena havia os discos com historinhas, contos de fada. Eu tinha vários, mas o que mais me marcou foi o disquinho do Aladin, um azul, que eu tocava, tocava e tocava. Morria de medo da parte em que ele ficava preso na caverna. Até aí normal, o maior medo de toda criança é ficar sozinha. 
Mas eis que cresci e comecei a estudar a teoria junguiana, com seus mitos e arquetipos. Ouvindo uma palestra da professora Lúcia Helena Galvão, descobri porque essa história sempre me marcou tanto: porque fala da minha relação sempre difícil com Deus. Explico: sempre achei que Deus fazia-se de surdo pros meus desejos, que eu nunca era atendida. Já pensei muito, durante a vida, em como acessar esse poder espiritual. Aladin faz desejos a um gênio (Deus) preso numa lâmpada. Ao final, ele para de querer desejos realizados e liberta o gênio do confinamento. Neste momento, o gênio/Deus está em todo lugar e ele não precisa mais desejar nada. 

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Dancing with myself

 Oh, oh, oh, oh...

Depois de uma viagem simpática e de três meses dentro de casa com minha mãe, enfim tô sozinha em casa, e adorando. 

Como eu gosto de ficar sozinha em casa!

Posso fazer o que eu quero, no meu tempo, não tenho a carga mental de ter que conciliar minha vida com as dos outros. 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

El deseo

 



Esta noite, refletindo, tive que admitir que a vida vai bem: tenho saúde, dinheiro pro básico, uma reservinha, companhia, moro na beira da praia, tenho emprego e não trabalho aos finais de semana, todo mundo vivo ainda... O problema é o desejo, das coisas que ainda não tenho (materiais) e das coisas que nem sei direito que quero. "O que eu quero não tem nome". Um desejo lispectoriano, ainda por cima. Talvez esse desejo lispectoriano seja um propósito ainda não descoberto, que faça enfim desejar algo concreto...
Não sei mais o que fazer com isso, na moral. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Pronta pra errar?

Eu acho que sim. Ao contrário de quando eu era nova, quando eu não era validada pelos outros (continuo não sendo), eu hj sou validada pela minha própria história. Se eu errar, hoje eu sei que não sou meu erro. Tenho uma história que me faz maior do que momentos isolados. 

O lado mãe do tempo, aliás.

domingo, 31 de julho de 2022

Olhando o mapa dos meninos - parte 1 Eduardo

Vou fazer uma série aqui lendo o mapa da meninada da família. Vamos ver se bate com a personalidade deles quando crescerem. Vou começar por Eduardinho, que nasceu anteontem. O mapa dele é esse:


Planeta
Signo
Casa
Grau
Sol

Sol

Leão

Leão

11
6°23'
Lua

Lua

Leão

Leão

12
14°49'
Mercúrio

Mercúrio

Leão

Leão

12
19°48'
Vênus

Vênus

Câncer

Câncer

10
13°52'
Marte

Marte

Touro

Touro

8
16°27'
Júpiter

Júpiter

Áries

Áries

7
8°43'
Saturno

Saturno

Aquário

Aquário

6
23°5'
Urano

Urano

Touro

Touro

8
18°39'
Netuno

Netuno

Peixes

Peixes

7
25°11'
Plutão

Plutão

Capricórnio

Capricórnio

5
27°8'

Ascendente

Virgem

Virgem

1
21°37'

Meio do Céu

Gêmeos

Gêmeos

10
24°15'

Descendente

Peixes

Peixes

7
21°37'

Fundo do Céu

Sagitário

Sagitário

4

24°15'

Ele é uma mistura fogo-terra. Sendo esta mistura capitaneada por leão e virgem, e ainda mais com a educação que os homens recebem, vale muito trabalhar a empatia e a sensibilidade. Pois Eduardinho justamente tem bloqueio de ar-água, que são elementos mais relacionais. Ele tem muita força (Sol e Plutão/ Marte em Touro na 8) e terá sorte e altos ideais (bons aspectos de júpiter). Possui um mapa que eu leria como o de um potencial artista: sol, lua e mercúrio em leão, casa 12 (análoga a peixes) bem ativada, meio-céu em gêmeos ativado com vênus em câncer ali, casa 7 (a do público) também ativada e plutão na 5 (análoga a leão). Apesar de ser uma pessoa de fogo, vai ter um diálogo muito interno; ele tem 4 planetas retrógrados (plutão, jupiter, saturno e netuno), ou seja, as energias desses planetas não vão ser dirigidas para o exterior, mas para o interior, num movimento de revisão e ajustes. 

Eduardo herdou um mesmo aspecto da mãe dele, minha prima, e que eu também tenho (é super comum em famílias certos aspectos se repetirem): lua em tensão com marte. Traduzindo em miúdos, significa a tendência de ter o território invadido. Traduzindo mais ainda, mamãe é meio helicóptero e tende a ser uma figura invasiva. As nossas mães realmente têm muita dificuldade de ocuparem os espaços delas e o tempo todo nos tratam como extensões delas mesmas. Se a mãe de Eduardo não tomar cuidado, vai repetir a mesma história.

Enfim, provavelmente Eduardo será uma pessoa realizadora, generosa e carismática. O único porém mesmo é a sensibilidade aos sentimentos dos outros (bloqueio de água) e a tendência a tomar tudo como pessoal (bloqueio de ar), até porque ele tem muitos signos fixos, o que, aliado com excesso em fogo, pode dar uma tendência a teimosias, chiliques e explosões.

Livre-arbítrio?


Vendo agora o doc sobre o assassinato de Daniela Perez, aumentei meus questionamentos sobre o livre-arbítrio. Parece que tudo ali não tinha como não acontecer. Foi a tempestade perfeita.

Eu tô achando que a gente mais reage que escolhe.

Mas, na aula, o professor de filosofia joga esta: "Ah, se não houver livre arbítrio, o que nós estamos fazendo aqui?".

Amore, e se for esse o exercício: aceitar que não podemos e tentar fazer banquete com as migalhas de liberdade que o universo nos concede?

domingo, 24 de julho de 2022

O início de um sonho

 


Já conheci muita criança massa, mas ela segue sendo minha # 1. 
Eu era figura e posso provar.
Alguns meses depois desta foto aí, estava eu caminhando na colônia de férias, em Salvador, para a qual a minha e outras famílias iam todo ano, quando cruzei com um amigo meu mais velho, já adolescente, comendo um pacote de biscoitos. Detalhe: ele era conhecido por odiar dividir a comida dele. Dizia que preferia dar outro inteiro a ceder um pedaço. Mas como a gente era bróder e eu era criança pequena, então acho que bateu a dor na consciência e ele excepcionalmente me ofereceu um, ao que respondi:

- Um não; quero dois! Um você dá a qualquer pessoa e eu não sou qualquer pessoa.

Ele deu risada e eu saí dali com meus dois biscoitos.
[e um bocado de gente adulta aceitando de bom grado umas migalhas...]

Legenda alternativa desta foto: a dupla mais estourada do Bloco P, Samenina & Samambaia.


PS.: Quando der tudo certo, eu posto a foto da adulta aqui

Os trabalhadores da última hora

 Sempre me intrigou a parábola dos trabalhadores da última hora, aqueles que, embora tenham chegado no finalzinho do dia, foram pagos como os trabalhadores que chegaram no início da jornada. 

No século 21, isso renderia um belo processo trabalhista.

Mas, voltando à reflexão espiritual da coisa, acho que finalmente entendi. Acho. Penso que o que se quis dizer é que Deus premia o mérito, a diligência e a obediência, mas recompensa mais a entrega da fé e a coragem. Os trabalhadores da última hora queriam apenas trabalhar. Se jogaram sem saber ao certo o que iam receber por isso. Foram premiados com o equivalente a um dia inteiro de trabalho. Um ato de fé recompensado. 

UM LEAO NO PEITO

 


Há três meses, numa consulta com uma taróloga - que depois soube que é médium da umbanda - ouvi uma coisa que foi direto ao coração (é impressionante como um desconhecido te lê melhor que gente que anda com você):

- Olha, parece que você se esforça, trabalha e nunca dá em nada, mas continue fazendo os seus corres, que você está no caminho certo. Você tá desanimada, mas você tem um leão no peito.

E tenho mesmo, senão nem estaria viva pra contar esta história. Porque, velho, se a vida é a arte dos encontros, eu domino com louvor a dos desencontros. Nunca fui amada sequer do jeito que eu amei as pessoas ou como mereço. Ou seja, nunca fui amada e ainda joguei meu amor nas pessoas e metas erradas. Ok, tudo é caminho, o erro é aprendizado, mas sofrer tira a energia da alma da gente. 

A moça do tarô não foi a primeira a me dizer algo do tipo; uma cromoterapeuta uma vez me disse que eu era um animal brigando pra viver. Só tendo mesmo um coração selvagem, um leão no peito pra continuar em frente mesmo de tanque vazio. 

Muita gente no meu lugar já teria desistido, mas eu não consigo. Schopenhauer tem absoluta razão quando diz que a gente tem livre arbítrio pra fazer o que desejar, mas não pra desejar o que deseja. Eu desejo coisas que só uma criatura com a minha resistência poderia ainda desejar a essa altura do campeonato. Sim, eu sou forte, mas odeio que as pessoas usem isso contra mim, negando a minha humanidade, como se eu fosse obrigada sempre a aguentar. Pouca gente me trata/ me tratou como pessoa ao longo da vida. Hoje em dia, não vejo mais porque aturar isso. Nova regra da casa: quem não me trata como gente, não merece nada além da minha resignação. É assim, aliás, que muitos afetos morrem. Não existe isso da pessoa gostar de você, mas desconsiderar seus sentimentos, desrespeitar sua humanidade. Simplesmente não gosta de você.

Cansei de ser sensata, vou ouvir meu instinto felino que eu ganho mais.   

Eu estava olhando uma foto minha de criança: super expressiva, animada, amorosa, alegre... Mas foi tanta cacetada, muitas delas gratuitas, que eu tô exausta. Essa menina aí ainda existe, mas é cada vez mais um segredo só meu. Eu e ela. Ela e eu.  

Eu não acredito mais no afeto na minha vida. Eu não acredito em amizades, em família, eu não acredito mais em parceria e cada vez menos eu tenho vontade de estabelecer laços. Abracei mesmo a "carreira solo". Sabe aquela máxima de "goste do vizinho, mas proteja a sua cerca"? Pois é, finalmente aprendi. Eu interajo com as pessoas, mas não espero muito e me boto em primeiro lugar. E é até melhor assim, porque se sofre menos, se tem um olhar mais objetivo e distanciado para situações e pessoas. Vivi tanto tempo comigo mesma, que acho que já não sei mais andar com outra pessoa só por andar; tem que valer muito a pena. Gosto mais hoje de ficar só do que jamais gostei na vida. Já quis muito resgatar o sentido de comunidade que experimentei nos meus primeiros anos, mas acho que nesta encarnação não vai rolar e é preciso aceitar isso.

Brincava outro dia com um amigo que o lance era virar budista: sem alimentar expectativa, na aceitação dessa sansara, esperando pelo nirvana. Cansei de ter esperança, no sentido de esperar mesmo. O desejo não controlo, mas a esperança não quero mais cultivar, não. É erva daninha. Não quero, aliás, mais nenhum ranço do cristianismo em mim: nem esperança; nem culpa; nem essa coisa de que ser melhor pros outros que pra si mesmo é o certo; nem esse endeusamento do sacrifício; muito menos essa noção ridícula de pecado, que só traz atraso de vida. O cristianismo é uma fábrica de fazer neuróticos. Também não quero mais saber de previsão do futuro e coisas afins. Pra mim, pessoalmente, isso não funciona. Eu quero é fazer, viver, me desenvolver. Serva do meu desejo porque não tem outro jeito. Que esse leão no peito me leve aonde ele tem que levar, e fim. 

terça-feira, 14 de junho de 2022

Sonhos

 


Primeiro semestre de 2022

Sonho 1

Praia de noite - missa de Padre Fábio a esquerda; pessoas em situação de rua cobertas por lençol branco no centro; ritual de umbanda no canto direito da areia. Eu vejo através do vidro do meu quarto. 


Sonho 2

Rio Ganges - eu passo de um lado a outro, com cuidado pra não deixar ir com a corrente meus poucos pertences. Estou feliz de estar vendo mais uma maravilha.


Sonho 3

Água entrando por um filete pela janela do meu quarto. Eu dizendo que preciso me mudar, minha mãe olhando e meu pai ignorando a cena.

Desço a Princesa Isabel e encontro Yuri numa barraca de frente ao Porto. Ele se aborrece com algo que falo e segue amigos do movimento negro que entram no mar. Eu demoro um pouco e sigo atrás. O mar segue quase até o Farol. Eu volto quando vejo que estou me afastando do Porto pra ir pra casa.


Sonho 4

Estou com colegas da Faculdade no mar. Combinamos de pegar um barquinho pra ir mais fundo mais tarde. Volto pra casa, tomo banho e me vem um cansaço tão grande que não consigo me levantar pra voltar pra praia e pegar o barco com meus colegas.


Sonho 5

A turma de Direito faz uma atividade artística, de pintura em tecido. Eu chego atrasada. A turma tem gente da Fdufba, mas tem gente como Alexandre Galvão, jornalista que começou a estudar Direito. Quem não for bem na atividade, vai sair do curso. Eu e Alexandre somos reprovados.


Sonho 6

Estou na Tancredo Neves e vejo Thais trabalhando, eu roubo comida japonesa sem ninguém perceber. Terena também me encontra no café e me paga o café. Renata encontra comigo no mesmo lugar, ela está muito magra. 

Encontro com Neto e ele está solto, fazendo uma participação numa novela de Walcyr Carrasco.


Sonho 7

Estou em Acapulco num grupo, numa mistura de familia e pessoas amigas que não conheço. Estou numa espécie de quiosque e quero apreciar o mar de Acapulco. O dia está caindo, já tá ficando escuro e um monte de gente passa na minha frente, pra lá e pra cá, atrapalhando minha apreciação e minhas fotos. 


Sonho 8

Eu voltando à escola. 


Sonho 9

Estou participando de um reality show, e essa é uma competição muito difícil. Gente que considero talentosa falhou. Não me recordo bem qual era o tipo de trabalho, mas acredito que era algo de produção textual. Mesmo assim sigo, achando que logo serei eliminada. Corta pra final. Eu e um cara todo riponga, que lembra Raul (jornal) estamos competindo pelo título. Eu acho que posso ganhar. Venço e descubro que tinha uma torcida grande. Eu fico eufórica, dá uma sensação muito boa de realização. 


Segundo semestre

Sonho 10

Estou com Anderson e Flavimir pela noite. Primeiro estamos numa espécie de lanchonete e algo que não lembro nos incomoda numa mesa próxima. 

Depois vamos para uma festa numa casa grande e ótima. Não consigo me sentir à vontade, embora as pessoas estejam sendo simpáticas. Sinto que não eu a minha turma. Espero os meninos manifestarem o mesmo pra gente ir embora. Não quero ir embora pra casa sozinha de noite.


Sonho 11

Meu cunhado está prestes a aceitar o trabalho com uma figura que é pedófila e pode ameaçar meus sobrinhos, mas eu não consigo falar.

Antes eu vou com uma turma, incluindo Heide, em algum festival e rola algum exercício em relação a um filme erótico e isso vira resenha depois da seção - não consigo lembrar direito o que foi.


Sonho 12

Estou em cima da minha cama escondendo os meus pés, o meu corpo, de várias cobras que estão coladas a cama, no chão. Um cachorro chega e engole as cobras, me salvando do ataque.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Encanto


Com muito atraso, comento aqui "Encanto", o último desenho animado da Disney. O filme, que se passa na Colômbia, tem como personagens os membros da família Madrigal, formada por pessoas com poderes/ talentos mágicos que os destacam do restante da cidade. Só que isso tudo anda ameaçado e a pessoa que decide ir em busca de uma solução é a única Madrigal sem um talento mágico, Maribel. 

O que a história de "Encanto" vai nos mostrando, aos poucos, é que manter uma identidade, viver em cima de uma característica, da utilidade que essa pode ter, tem um custo pessoal grande. E não é o que fazemos pela vida? Nos apegamos às identidades profissionais e às relacionais, de tal modo que, para muitas pessoas, sem aquele emprego, relação, status ou habilidade, não se é ninguém. Só que manter essas identidades exige um controle, que por sua vez demanda muita energia, ou seja, nos aprisiona. Ao começar a perder a força extraordinária, Luiza, prima de Maribel, começa a entrar em crise. No fundo, a família Madrigal tem medo mesmo é de deixar de ser querida se não for útil, se não der aos outros o que eles esperam (e o final do filme traz uma bela resposta a essa insegurança). Assim também é na vida da gente. Alimentamos as crenças de que se não formos o que os outros esperam de nós, se não oferecermos algo que lhes interesse, não seremos amados. Pare e pense em quantas coisas a gente faz não exatamente porque são importantes pra gente, mas por querer a atenção dos outros. Sempre tem. Neste ponto, é interessante a história de Bruno, cuja habilidade era a de prever o futuro, que nem sempre correspondia às idealizações dos outros, e por isso foi banido. 
De tanto controle, os Madrigal perderam o controle. Por fim, Maribel salva a casita usando o único "dom" que ela tinha: o grande amor pela sua família. E do que mais alguém precisa?
 

domingo, 7 de novembro de 2021

Love changes everything

Outro dia vi a foto de um ex amigo em um lugar que gostaria de conhecer e não senti vontade de estar lá. Porque apesar do lugar, eu não queria estar mais com aquela pessoa. Enfim, eu realmente me fodi, porque sou o tipo de pessoa que me motivo a depender do ambiente. As pessoas são a chave do meu engajamento - e século 21 não é época propícia a isso.

E vi que algo mudou profundamente. Hoje eu consigo dar um corte em pessoas que me fizeram mal (veja, não estou dizendo que elas são ruins, apenas que me causaram dano). Esta semana só lembrei do aniversário de uma ex amiga porque vi que era aniversário da sobrinha. Até tomei um susto porque eu não esqueço datas, nunca. E quer saber? Na minha interpretação, isso são boas notícias. Que essas pessoas morram mesmo no coração e na memória da gente, assumindo o lugar que elas devem ocupar de fato. 

... Love makes the rules 


terça-feira, 2 de novembro de 2021

No me puedes dejar así...

 Ao contrário da continuação desta letra, não queria mais desta série, não. Terminou na hora certa e eu acho que essa última temporada foi corrida, mal feita. Mas, enfim, não foi ruim, valeu pelo conjunto.


A série, que, acho, foi a mais sincera possível - porque tem coisas que a gente não conta nem ao médium depois de morto/a - confirmou a minha hipótese de que Luis Miguel meio que morreu depois da tríade morte dos pais, fim do relacionamento com Issabela Camil e morte de Hugo López, ali no final da primeira metade dos anos 90. É só pegar os vídeos e ver que a vibe da criatura era outra, completamente. 
Tem perdas que desestruturam mesmo a gente, matam algo que é difícil replantar, fazer renascer. Acrescido a isso, teve a traição do pai, que foi terrível em vários sentidos. Acho que isso o tornou meio incapaz de se relacionar. Já com Issabela, cujo relacionamento começa por essa época, ele passou a tratar as pessoas como um sol mesmo, esperando que elas girassem em torno dele, dando pouco e querendo sempre muito, enfim, super na defensiva. Um porco espinho dourado. Junta isso com o sucesso depois de "Romance" e os golpes sucessivos de gente próxima, e a coisa foi ficando mais aguda, até ele ter bugado ali por volta dos 40 anos. 
Achei interessante e ao mesmo tempo tosco terem mostrado como a ideia da série surgiu. Penso que, talvez, assim como o público, ele deve ter tido a oportunidade de rever a história dele com outros olhos, mas, se por um lado temos um artista nato, alguém que fez história na música, uma pessoa que, na origem, dava pra ver que era alegre e feliz - talvez por isso goste muito da primeira temporada, em que essa natureza dele fica bem evidente -, vemos alguém bastante solitário e orgulhoso (la bikina! hehe) na fase madura. E acho que o que quebrou ali nunca mais vai ser consertado, que não vai ter casamento, nem família, nem laço algum. O que sobrou pra ele foram um irmão, um amigo de infância e os filhos aos trancos e barrancos, mais por mérito dessas pessoas. Não vou dizer "que triste",  porque ele recebeu muito da vida mesmo assim. Mas poderia ter sido diferente e muito melhor. Quase sempre, né? 
Depois da série entendi várias declarações soltas dele, que soavam enigmáticas, como quando ele disse que poderia ter morrido ou enlouquecido, mas que havia sobrevivido. De fato. E a lição que tiro dessa biopic é que, sem dúvida, há dores e sacrifícios dos quais ninguém sabe, só a gente que passa mesmo.  


domingo, 24 de outubro de 2021

Velho testamento

 


As pessoas são muito engraçadas. Elas acham sinceramente que Deus se ocupa de cobrar os maus feitos dos homens. Mas Deus não pune ninguém. Na verdade, Deus criou um sistema de autogestão da Humanidade, em que pouco dependemos da intervenção dele. Somos dirigidos pelos nossos próprios complexos, o que quer dizer que ninguém vai pagar por algo que não se sinta culpado e, ao mesmo tempo, alguém que nada fez pode sofrer as consequências do que achou que fez. Eu vejo bem isso no mundo real, na realidade. Mas as pessoas ainda acreditam num Deus irado, do Velho Testamento. Tsc, tsc, tsc... Deus só está interessado que a gente aprenda, e isso acontece pelo amor, pelo ódio, pelo acerto, pelo erro, etc. Qualquer que seja a ação humana, o resultado vai ser o mesmo: aprendizado. 

sábado, 23 de outubro de 2021

Jonicaelização do eu

Já fui inteligente. Sim, já fui - e hoje sei que era. Mas entrei em processo de alienação feat. deterioração - aliás, estou desaprendendo algumas palavras. Não me sinto mais capaz de reter nada, sem saco pra ir atrás das coisas, até perdendo o fôlego pra opinar.
Isso me lembra um professor da Facom, que as pessoas diziam ter sido brilhante na juventude, mas era quase um boneco de posto na meia idade, quando o conheci. Eu me perguntava como podia isso, agora eu sei - e olha que nem me envolvi com drogas... e também não fui brilhante.
(Eu estou, aos poucos, ficando offline...)

domingo, 10 de outubro de 2021

Dancing in the Dark


Ouvia outro dia Dancing in the dark, que é uma música de Bruce Springsteen que tem um arranjo muito feliz e uma letra bem depressiva, assim como a vida do próprio artista. 

Bruce, por problemas que remontam a família de origem, sofreu com depressão a vida inteira adulta mesmo tendo tido muito sucesso e família. 

Muitos de nós somos Bruce sem fama e dinheiro. Chega uma hora na vida de todo mundo em que o trabalho de base não feito vem cobrar a sua conta. 

Especialmente no caso de nós, mulheres, há muito o que fazer. Pensei nisso vendo neste final de semana a minissérie "Maid". Toda mulher deveria assistir aquilo. Ensinam várias mentiras pra gente enquanto a gente cresce e se livrar disso dá trabalho. A protagonista, aliás, chama a atenção por duas coisas que nos faltam nessas ocasiões: determinação para ultrapassar o desespero e a dor; e amorosidade quando o mundo é pura hostilidade com você. No caso da personagem, essa amorosidade vem do amor da filha. 

O amor sempre foi uma armadilha para as mulheres, isso porque até hoje não somos amadas. Acho que é por isso que a maternidade tem aquele apelo ainda para as mulheres. Quem gosta de mulher - de mãe - é criança pequena. Nas gerações anteriores, a gente deixava de existir em nome desse tal de amor. Na nossa, crescemos aprendendo que o amor é inimigo de existir. Então primeiro você garante o dinheiro, a independência - o que é de fato muito importante -, depois o amor. O que não nos contam é que o amor é o combustível do sucesso. Vejo muita mulher murcha, inclusive profissionalmente, por falta disso. Os homens, talvez intuitivamente, sabem disso, porque nunca falta mulher e eles sabem como isso os beneficia de variadas maneiras. E acho que é assim que eles descontam a raiva que têm da gente quebrando as nossas pernas através do afeto, nos proporcionando más experiências nas relações.


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Risos de nervoso

 


Eu ri, mas fiquei tensa com isso. Se com nove anos ela tá nessa letargia, imagina quando cair na batalha da vida adulta.

Sério.

Depois da psicopatia, meu maior medo quanto aos meus sobrinhos é que eles sejam pessoas desinteressadas. Quanto mais eu vivo, mais estou convicta que uma boa vida depende em boa medida de paixões, interesses, projetos. Quem tem projeto tem por que viver até 80 anos, quem não tem morre de tédio, a conta-gotas. 

Eu tenho uma prima, que tem hoje 20 e tantos anos, que era assim que nem essa menina do papel. Inteligente - pulou dois anos na escola -, o pai dava tudo, mas ela não se interessava por nada. Hoje tá aí tomando remédio para depressão e impaciente com a vida. 

A parte material importa muito, mas a alma é o motor de tudo, não tem pra onde correr. 

Mas a questão é que esse encontro com o que move a nossa alma é o nosso quê de sorte na vida - todo o resto, até a malandragem pra conseguir as coisas, coloco na cesta "trabalho", mas os encontros da vida vão na cesta "sorte". Só buscar não é o suficiente, tem que ter a sorte de estar no lugar certo e na hora certa também, tem que conseguir a sintonia. Como dizia o poeta, "viver é a arte dos encontros embora haja tantos desencontros".

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O brasileiro gosta de ter filho, mas não gosta de criança


Brasileiro ama ostentar filhos, que, apesar de tudo, conferem o status de adulto responsável/validado, e, no caso das mulheres, da fêmea completa, da que em algum momento foi escolhida e pariu. Como já li por aí - e sempre observei antes disso -, do mesmo modo que essa sociedade odeia mulher, endeusa a mãe. Então não dá pra ser só mulher, se quiser ser olhada um pouquinho melhor, tem que virar mãe.  

Conto nas mãos os adultos que conheço que tiveram paciência e dedicação com as suas crianças. Lógico, o adulto precisa ter a sua individualidade, a sua vida, mas se você pôs no mundo, faça direito, ceda uma parte do seu tempo pra formar aquela pessoa. Se bem feito, aos poucos você se tornará desnecessário. Infelizmente, a maioria terceiriza a criação das crias. Já ouvi de minha irmã que ela se achava uma mãe melhor que as do condomínio dela só por não contratar folguista pra ficar com os filhos nos finais de semana. Descobri outro dia que quem criou os filhos de Caetano foi a babá, que eles inclusive são evangélicos por causa dela. 

Ninguém tem paciência com criança. Adulto foge de criança, acha chato, detesta ter o trabalho. Mas é justamente a janela que se tem pra fazer o que tem que ser feito em termos de hábitos, educação e laços. Por isso que olho com muita desconfiança quem cobra certas coisas do filho depois de adulto. Como será que era essa relação na infância? Casa e comida é o básico do básico, mas isso não gera laços. É ser humano, não gado. 

Crescer sozinho, mesmo quando "dá certo", deixa sequelas. O comando que sempre recebi, em casa, de forma implícita, foi: "Se vire com o que tem, não encha o meu saco e dê o máximo resultado". Se eu falhasse, não ia ser por falta dos meus pais, mas porque eu tinha algum problema, era de alguma forma incapaz. E não foi coincidência eu ter batido em 98% de portas que se fecharam na minha cara ao longo da vida. Toda vez que achava que podia ter o apoio de alguém, me descobria sozinha. Não foi por acaso, foi pra confirmar aquela crença que aprendi em casa, na infância. 

Faz toda diferença ter rede de apoio. Primeiro, que você se sente mais autorizado a experimentar, a se lançar, porque há alguém segurando a sua mão, para amparar o seu erro. E é fazendo isso na primeira parte da vida que você se torna um adulto capaz de tomar boas decisões na idade adulta. Segundo, que você aprende a pedir ajuda. Gente que se cria sozinha não sabe pedir ajuda, porque você foi ensinado que pedir ajuda é incomodar, ser alguém desagradável e, acima de tudo, incompetente. 

O tecido social coeso, o espírito comunitário, solidário, começa nas famílias (e lógico que não estou falando aqui de uma galera que foi animalizada por gerações e gerações, mas de gente que teria condições de exercer uma parentalidade de qualidade). Se é cada um por si e Deus por todos, ficamos nisso aí que vemos hoje no Brasil: um farinha pouca, meu pirão primeiro. E quem teria condições de pressionar por mais solidariedade social e melhores condições para os mais vulneráveis não o faz, aprende a defender só o seu. 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Eu não me chamo Emily Rose

 


Em 2008, eu desbloqueei o nível 1 da desesperança, aquele em que, se você não tiver mesmo vocação pra ser boa pessoa, se torna alguém má, que repassa a sua dor aos outros. Sobrevivi.

Este ano, desbloqueei o nível 2, em que você começa a entender qual é a graça de usar drogas. Não sei se sobreviverei, apenas não quero chegar ao nível 3, por favor!

O caso agora nem é mais de terapia, mas de exorcismo.