Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
terça-feira, 2 de agosto de 2022
El deseo
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
Pronta pra errar?
Eu acho que sim. Ao contrário de quando eu era nova, quando eu não era validada pelos outros (continuo não sendo), eu hj sou validada pela minha própria história. Se eu errar, hoje eu sei que não sou meu erro. Tenho uma história que me faz maior do que momentos isolados.
O lado mãe do tempo, aliás.
domingo, 31 de julho de 2022
Olhando o mapa dos meninos - parte 1 Eduardo
Vou fazer uma série aqui lendo o mapa da meninada da família. Vamos ver se bate com a personalidade deles quando crescerem. Vou começar por Eduardinho, que nasceu anteontem. O mapa dele é esse:
Planeta
Signo
Casa
Grau

Sol
Leão

Lua
Leão

Mercúrio
Leão

Vênus
Câncer

Marte
Touro

Júpiter
Áries

Saturno
Aquário

Urano
Touro

Netuno
Peixes

Plutão
Capricórnio
Ascendente
Virgem
Meio do Céu
Gêmeos
Descendente
Peixes
Fundo do Céu
Sagitário
24°15'
Ele é uma mistura fogo-terra. Sendo esta mistura capitaneada por leão e virgem, e ainda mais com a educação que os homens recebem, vale muito trabalhar a empatia e a sensibilidade. Pois Eduardinho justamente tem bloqueio de ar-água, que são elementos mais relacionais. Ele tem muita força (Sol e Plutão/ Marte em Touro na 8) e terá sorte e altos ideais (bons aspectos de júpiter). Possui um mapa que eu leria como o de um potencial artista: sol, lua e mercúrio em leão, casa 12 (análoga a peixes) bem ativada, meio-céu em gêmeos ativado com vênus em câncer ali, casa 7 (a do público) também ativada e plutão na 5 (análoga a leão). Apesar de ser uma pessoa de fogo, vai ter um diálogo muito interno; ele tem 4 planetas retrógrados (plutão, jupiter, saturno e netuno), ou seja, as energias desses planetas não vão ser dirigidas para o exterior, mas para o interior, num movimento de revisão e ajustes.
Eduardo herdou um mesmo aspecto da mãe dele, minha prima, e que eu também tenho (é super comum em famílias certos aspectos se repetirem): lua em tensão com marte. Traduzindo em miúdos, significa a tendência de ter o território invadido. Traduzindo mais ainda, mamãe é meio helicóptero e tende a ser uma figura invasiva. As nossas mães realmente têm muita dificuldade de ocuparem os espaços delas e o tempo todo nos tratam como extensões delas mesmas. Se a mãe de Eduardo não tomar cuidado, vai repetir a mesma história.
Enfim, provavelmente Eduardo será uma pessoa realizadora, generosa e carismática. O único porém mesmo é a sensibilidade aos sentimentos dos outros (bloqueio de água) e a tendência a tomar tudo como pessoal (bloqueio de ar), até porque ele tem muitos signos fixos, o que, aliado com excesso em fogo, pode dar uma tendência a teimosias, chiliques e explosões.
Livre-arbítrio?
Vendo agora o doc sobre o assassinato de Daniela Perez, aumentei meus questionamentos sobre o livre-arbítrio. Parece que tudo ali não tinha como não acontecer. Foi a tempestade perfeita.
Eu tô achando que a gente mais reage que escolhe.
Mas, na aula, o professor de filosofia joga esta: "Ah, se não houver livre arbítrio, o que nós estamos fazendo aqui?".
Amore, e se for esse o exercício: aceitar que não podemos e tentar fazer banquete com as migalhas de liberdade que o universo nos concede?
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domingo, 24 de julho de 2022
O início de um sonho
Já conheci muita criança massa, mas ela segue sendo minha # 1.
Legenda alternativa desta foto: a dupla mais estourada do Bloco P, Samenina & Samambaia.
PS.: Quando der tudo certo, eu posto a foto da adulta aqui
Os trabalhadores da última hora
Sempre me intrigou a parábola dos trabalhadores da última hora, aqueles que, embora tenham chegado no finalzinho do dia, foram pagos como os trabalhadores que chegaram no início da jornada.
No século 21, isso renderia um belo processo trabalhista.
Mas, voltando à reflexão espiritual da coisa, acho que finalmente entendi. Acho. Penso que o que se quis dizer é que Deus premia o mérito, a diligência e a obediência, mas recompensa mais a entrega da fé e a coragem. Os trabalhadores da última hora queriam apenas trabalhar. Se jogaram sem saber ao certo o que iam receber por isso. Foram premiados com o equivalente a um dia inteiro de trabalho. Um ato de fé recompensado.
UM LEAO NO PEITO
Há três meses, numa consulta com uma taróloga - que depois soube que é médium da umbanda - ouvi uma coisa que foi direto ao coração (é impressionante como um desconhecido te lê melhor que gente que anda com você):
- Olha, parece que você se esforça, trabalha e nunca dá em nada, mas continue fazendo os seus corres, que você está no caminho certo. Você tá desanimada, mas você tem um leão no peito.
E tenho mesmo, senão nem estaria viva pra contar esta história. Porque, velho, se a vida é a arte dos encontros, eu domino com louvor a dos desencontros. Nunca fui amada sequer do jeito que eu amei as pessoas ou como mereço. Ou seja, nunca fui amada e ainda joguei meu amor nas pessoas e metas erradas. Ok, tudo é caminho, o erro é aprendizado, mas sofrer tira a energia da alma da gente.
A moça do tarô não foi a primeira a me dizer algo do tipo; uma cromoterapeuta uma vez me disse que eu era um animal brigando pra viver. Só tendo mesmo um coração selvagem, um leão no peito pra continuar em frente mesmo de tanque vazio.
Muita gente no meu lugar já teria desistido, mas eu não consigo. Schopenhauer tem absoluta razão quando diz que a gente tem livre arbítrio pra fazer o que desejar, mas não pra desejar o que deseja. Eu desejo coisas que só uma criatura com a minha resistência poderia ainda desejar a essa altura do campeonato. Sim, eu sou forte, mas odeio que as pessoas usem isso contra mim, negando a minha humanidade, como se eu fosse obrigada sempre a aguentar. Pouca gente me trata/ me tratou como pessoa ao longo da vida. Hoje em dia, não vejo mais porque aturar isso. Nova regra da casa: quem não me trata como gente, não merece nada além da minha resignação. É assim, aliás, que muitos afetos morrem. Não existe isso da pessoa gostar de você, mas desconsiderar seus sentimentos, desrespeitar sua humanidade. Simplesmente não gosta de você.
Cansei de ser sensata, vou ouvir meu instinto felino que eu ganho mais.
Eu estava olhando uma foto minha de criança: super expressiva, animada, amorosa, alegre... Mas foi tanta cacetada, muitas delas gratuitas, que eu tô exausta. Essa menina aí ainda existe, mas é cada vez mais um segredo só meu. Eu e ela. Ela e eu.
Eu não acredito mais no afeto na minha vida. Eu não acredito em amizades, em família, eu não acredito mais em parceria e cada vez menos eu tenho vontade de estabelecer laços. Abracei mesmo a "carreira solo". Sabe aquela máxima de "goste do vizinho, mas proteja a sua cerca"? Pois é, finalmente aprendi. Eu interajo com as pessoas, mas não espero muito e me boto em primeiro lugar. E é até melhor assim, porque se sofre menos, se tem um olhar mais objetivo e distanciado para situações e pessoas. Vivi tanto tempo comigo mesma, que acho que já não sei mais andar com outra pessoa só por andar; tem que valer muito a pena. Gosto mais hoje de ficar só do que jamais gostei na vida. Já quis muito resgatar o sentido de comunidade que experimentei nos meus primeiros anos, mas acho que nesta encarnação não vai rolar e é preciso aceitar isso.
Brincava outro dia com um amigo que o lance era virar budista: sem alimentar expectativa, na aceitação dessa sansara, esperando pelo nirvana. Cansei de ter esperança, no sentido de esperar mesmo. O desejo não controlo, mas a esperança não quero mais cultivar, não. É erva daninha. Não quero, aliás, mais nenhum ranço do cristianismo em mim: nem esperança; nem culpa; nem essa coisa de que ser melhor pros outros que pra si mesmo é o certo; nem esse endeusamento do sacrifício; muito menos essa noção ridícula de pecado, que só traz atraso de vida. O cristianismo é uma fábrica de fazer neuróticos. Também não quero mais saber de previsão do futuro e coisas afins. Pra mim, pessoalmente, isso não funciona. Eu quero é fazer, viver, me desenvolver. Serva do meu desejo porque não tem outro jeito. Que esse leão no peito me leve aonde ele tem que levar, e fim.
terça-feira, 14 de junho de 2022
Sonhos
Sonho 1
Praia de noite - missa de Padre Fábio a esquerda; pessoas em situação de rua cobertas por lençol branco no centro; ritual de umbanda no canto direito da areia. Eu vejo através do vidro do meu quarto.
Sonho 2
Rio Ganges - eu passo de um lado a outro, com cuidado pra não deixar ir com a corrente meus poucos pertences. Estou feliz de estar vendo mais uma maravilha.
Sonho 3
Água entrando por um filete pela janela do meu quarto. Eu dizendo que preciso me mudar, minha mãe olhando e meu pai ignorando a cena.
Desço a Princesa Isabel e encontro Yuri numa barraca de frente ao Porto. Ele se aborrece com algo que falo e segue amigos do movimento negro que entram no mar. Eu demoro um pouco e sigo atrás. O mar segue quase até o Farol. Eu volto quando vejo que estou me afastando do Porto pra ir pra casa.
Sonho 4
Estou com colegas da Faculdade no mar. Combinamos de pegar um barquinho pra ir mais fundo mais tarde. Volto pra casa, tomo banho e me vem um cansaço tão grande que não consigo me levantar pra voltar pra praia e pegar o barco com meus colegas.
Sonho 5
A turma de Direito faz uma atividade artística, de pintura em tecido. Eu chego atrasada. A turma tem gente da Fdufba, mas tem gente como Alexandre Galvão, jornalista que começou a estudar Direito. Quem não for bem na atividade, vai sair do curso. Eu e Alexandre somos reprovados.
Sonho 6
Estou na Tancredo Neves e vejo Thais trabalhando, eu roubo comida japonesa sem ninguém perceber. Terena também me encontra no café e me paga o café. Renata encontra comigo no mesmo lugar, ela está muito magra.
Encontro com Neto e ele está solto, fazendo uma participação numa novela de Walcyr Carrasco.
Sonho 7
Estou em Acapulco num grupo, numa mistura de familia e pessoas amigas que não conheço. Estou numa espécie de quiosque e quero apreciar o mar de Acapulco. O dia está caindo, já tá ficando escuro e um monte de gente passa na minha frente, pra lá e pra cá, atrapalhando minha apreciação e minhas fotos.
Sonho 8
Eu voltando à escola.
Sonho 9
Estou participando de um reality show, e essa é uma competição muito difícil. Gente que considero talentosa falhou. Não me recordo bem qual era o tipo de trabalho, mas acredito que era algo de produção textual. Mesmo assim sigo, achando que logo serei eliminada. Corta pra final. Eu e um cara todo riponga, que lembra Raul (jornal) estamos competindo pelo título. Eu acho que posso ganhar. Venço e descubro que tinha uma torcida grande. Eu fico eufórica, dá uma sensação muito boa de realização.
Segundo semestre
Sonho 10
Estou com Anderson e Flavimir pela noite. Primeiro estamos numa espécie de lanchonete e algo que não lembro nos incomoda numa mesa próxima.
Depois vamos para uma festa numa casa grande e ótima. Não consigo me sentir à vontade, embora as pessoas estejam sendo simpáticas. Sinto que não eu a minha turma. Espero os meninos manifestarem o mesmo pra gente ir embora. Não quero ir embora pra casa sozinha de noite.
Sonho 11
Meu cunhado está prestes a aceitar o trabalho com uma figura que é pedófila e pode ameaçar meus sobrinhos, mas eu não consigo falar.
Antes eu vou com uma turma, incluindo Heide, em algum festival e rola algum exercício em relação a um filme erótico e isso vira resenha depois da seção - não consigo lembrar direito o que foi.
Sonho 12
Estou em cima da minha cama escondendo os meus pés, o meu corpo, de várias cobras que estão coladas a cama, no chão. Um cachorro chega e engole as cobras, me salvando do ataque.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
Encanto
Com muito atraso, comento aqui "Encanto", o último desenho animado da Disney. O filme, que se passa na Colômbia, tem como personagens os membros da família Madrigal, formada por pessoas com poderes/ talentos mágicos que os destacam do restante da cidade. Só que isso tudo anda ameaçado e a pessoa que decide ir em busca de uma solução é a única Madrigal sem um talento mágico, Maribel.
domingo, 7 de novembro de 2021
Love changes everything
Outro dia vi a foto de um ex amigo em um lugar que gostaria de conhecer e não senti vontade de estar lá. Porque apesar do lugar, eu não queria estar mais com aquela pessoa. Enfim, eu realmente me fodi, porque sou o tipo de pessoa que me motivo a depender do ambiente. As pessoas são a chave do meu engajamento - e século 21 não é época propícia a isso.
E vi que algo mudou profundamente. Hoje eu consigo dar um corte em pessoas que me fizeram mal (veja, não estou dizendo que elas são ruins, apenas que me causaram dano). Esta semana só lembrei do aniversário de uma ex amiga porque vi que era aniversário da sobrinha. Até tomei um susto porque eu não esqueço datas, nunca. E quer saber? Na minha interpretação, isso são boas notícias. Que essas pessoas morram mesmo no coração e na memória da gente, assumindo o lugar que elas devem ocupar de fato.
... Love makes the rules
terça-feira, 2 de novembro de 2021
No me puedes dejar así...
Ao contrário da continuação desta letra, não queria mais desta série, não. Terminou na hora certa e eu acho que essa última temporada foi corrida, mal feita. Mas, enfim, não foi ruim, valeu pelo conjunto.
domingo, 24 de outubro de 2021
Velho testamento
As pessoas são muito engraçadas. Elas acham sinceramente que Deus se ocupa de cobrar os maus feitos dos homens. Mas Deus não pune ninguém. Na verdade, Deus criou um sistema de autogestão da Humanidade, em que pouco dependemos da intervenção dele. Somos dirigidos pelos nossos próprios complexos, o que quer dizer que ninguém vai pagar por algo que não se sinta culpado e, ao mesmo tempo, alguém que nada fez pode sofrer as consequências do que achou que fez. Eu vejo bem isso no mundo real, na realidade. Mas as pessoas ainda acreditam num Deus irado, do Velho Testamento. Tsc, tsc, tsc... Deus só está interessado que a gente aprenda, e isso acontece pelo amor, pelo ódio, pelo acerto, pelo erro, etc. Qualquer que seja a ação humana, o resultado vai ser o mesmo: aprendizado.
sábado, 23 de outubro de 2021
Jonicaelização do eu
domingo, 10 de outubro de 2021
Dancing in the Dark
Bruce, por problemas que remontam a família de origem, sofreu com depressão a vida inteira adulta mesmo tendo tido muito sucesso e família.
Muitos de nós somos Bruce sem fama e dinheiro. Chega uma hora na vida de todo mundo em que o trabalho de base não feito vem cobrar a sua conta.
Especialmente no caso de nós, mulheres, há muito o que fazer. Pensei nisso vendo neste final de semana a minissérie "Maid". Toda mulher deveria assistir aquilo. Ensinam várias mentiras pra gente enquanto a gente cresce e se livrar disso dá trabalho. A protagonista, aliás, chama a atenção por duas coisas que nos faltam nessas ocasiões: determinação para ultrapassar o desespero e a dor; e amorosidade quando o mundo é pura hostilidade com você. No caso da personagem, essa amorosidade vem do amor da filha.
O amor sempre foi uma armadilha para as mulheres, isso porque até hoje não somos amadas. Acho que é por isso que a maternidade tem aquele apelo ainda para as mulheres. Quem gosta de mulher - de mãe - é criança pequena. Nas gerações anteriores, a gente deixava de existir em nome desse tal de amor. Na nossa, crescemos aprendendo que o amor é inimigo de existir. Então primeiro você garante o dinheiro, a independência - o que é de fato muito importante -, depois o amor. O que não nos contam é que o amor é o combustível do sucesso. Vejo muita mulher murcha, inclusive profissionalmente, por falta disso. Os homens, talvez intuitivamente, sabem disso, porque nunca falta mulher e eles sabem como isso os beneficia de variadas maneiras. E acho que é assim que eles descontam a raiva que têm da gente quebrando as nossas pernas através do afeto, nos proporcionando más experiências nas relações.
segunda-feira, 27 de setembro de 2021
Risos de nervoso
Eu ri, mas fiquei tensa com isso. Se com nove anos ela tá nessa letargia, imagina quando cair na batalha da vida adulta.
Sério.
Depois da psicopatia, meu maior medo quanto aos meus sobrinhos é que eles sejam pessoas desinteressadas. Quanto mais eu vivo, mais estou convicta que uma boa vida depende em boa medida de paixões, interesses, projetos. Quem tem projeto tem por que viver até 80 anos, quem não tem morre de tédio, a conta-gotas.
Eu tenho uma prima, que tem hoje 20 e tantos anos, que era assim que nem essa menina do papel. Inteligente - pulou dois anos na escola -, o pai dava tudo, mas ela não se interessava por nada. Hoje tá aí tomando remédio para depressão e impaciente com a vida.
A parte material importa muito, mas a alma é o motor de tudo, não tem pra onde correr.
Mas a questão é que esse encontro com o que move a nossa alma é o nosso quê de sorte na vida - todo o resto, até a malandragem pra conseguir as coisas, coloco na cesta "trabalho", mas os encontros da vida vão na cesta "sorte". Só buscar não é o suficiente, tem que ter a sorte de estar no lugar certo e na hora certa também, tem que conseguir a sintonia. Como dizia o poeta, "viver é a arte dos encontros embora haja tantos desencontros".
quarta-feira, 22 de setembro de 2021
O brasileiro gosta de ter filho, mas não gosta de criança
Brasileiro ama ostentar filhos, que, apesar de tudo, conferem o status de adulto responsável/validado, e, no caso das mulheres, da fêmea completa, da que em algum momento foi escolhida e pariu. Como já li por aí - e sempre observei antes disso -, do mesmo modo que essa sociedade odeia mulher, endeusa a mãe. Então não dá pra ser só mulher, se quiser ser olhada um pouquinho melhor, tem que virar mãe.
Conto nas mãos os adultos que conheço que tiveram paciência e dedicação com as suas crianças. Lógico, o adulto precisa ter a sua individualidade, a sua vida, mas se você pôs no mundo, faça direito, ceda uma parte do seu tempo pra formar aquela pessoa. Se bem feito, aos poucos você se tornará desnecessário. Infelizmente, a maioria terceiriza a criação das crias. Já ouvi de minha irmã que ela se achava uma mãe melhor que as do condomínio dela só por não contratar folguista pra ficar com os filhos nos finais de semana. Descobri outro dia que quem criou os filhos de Caetano foi a babá, que eles inclusive são evangélicos por causa dela.
Ninguém tem paciência com criança. Adulto foge de criança, acha chato, detesta ter o trabalho. Mas é justamente a janela que se tem pra fazer o que tem que ser feito em termos de hábitos, educação e laços. Por isso que olho com muita desconfiança quem cobra certas coisas do filho depois de adulto. Como será que era essa relação na infância? Casa e comida é o básico do básico, mas isso não gera laços. É ser humano, não gado.
Crescer sozinho, mesmo quando "dá certo", deixa sequelas. O comando que sempre recebi, em casa, de forma implícita, foi: "Se vire com o que tem, não encha o meu saco e dê o máximo resultado". Se eu falhasse, não ia ser por falta dos meus pais, mas porque eu tinha algum problema, era de alguma forma incapaz. E não foi coincidência eu ter batido em 98% de portas que se fecharam na minha cara ao longo da vida. Toda vez que achava que podia ter o apoio de alguém, me descobria sozinha. Não foi por acaso, foi pra confirmar aquela crença que aprendi em casa, na infância.
Faz toda diferença ter rede de apoio. Primeiro, que você se sente mais autorizado a experimentar, a se lançar, porque há alguém segurando a sua mão, para amparar o seu erro. E é fazendo isso na primeira parte da vida que você se torna um adulto capaz de tomar boas decisões na idade adulta. Segundo, que você aprende a pedir ajuda. Gente que se cria sozinha não sabe pedir ajuda, porque você foi ensinado que pedir ajuda é incomodar, ser alguém desagradável e, acima de tudo, incompetente.
O tecido social coeso, o espírito comunitário, solidário, começa nas famílias (e lógico que não estou falando aqui de uma galera que foi animalizada por gerações e gerações, mas de gente que teria condições de exercer uma parentalidade de qualidade). Se é cada um por si e Deus por todos, ficamos nisso aí que vemos hoje no Brasil: um farinha pouca, meu pirão primeiro. E quem teria condições de pressionar por mais solidariedade social e melhores condições para os mais vulneráveis não o faz, aprende a defender só o seu.
terça-feira, 14 de setembro de 2021
Eu não me chamo Emily Rose
Em 2008, eu desbloqueei o nível 1 da desesperança, aquele em que, se você não tiver mesmo vocação pra ser boa pessoa, se torna alguém má, que repassa a sua dor aos outros. Sobrevivi.
Este ano, desbloqueei o nível 2, em que você começa a entender qual é a graça de usar drogas. Não sei se sobreviverei, apenas não quero chegar ao nível 3, por favor!
O caso agora nem é mais de terapia, mas de exorcismo.
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
Vida e morte de Amy Winehouse
Acabei de assistir "Amy: the girl behind the name", documentário de 2015, de Asif Kapadia, que conta a história da cantora Amy Winehouse. Ela foi mais um caso de gente boa que não soube lidar com as próprias dores, deixando esse mundo cedo demais, aos 27 anos, em julho de 2011.
De acordo com o documentário, Amy era uma pessoa meiga, talentosa, mas bastante carente, alguém que nunca se recuperou da separação dos pais e, a partir desse desamparo, desenvolveu compulsões e comportamentos autodestrutivos. Em um trecho ela comenta que nunca foi abusada na infância, como infelizmente acontece com muitas crianças, mas que houve uma tristeza por causa dessa separação.
Temos duas observações a fazer aí: a primeira é a de que o trauma tem mais a ver com o modo como alguém sentiu o evento do que com o evento em si. A segunda é que um acompanhamento bem feito da menina Amy poderia, talvez, ter mudado radicalmente o curso da adulta. É importante que os adultos se esforcem para fazer esse rompimento da relação da forma mais respeitosa possível, pois a criança sente tudo, mas tem pouca clareza mental quanto ao que está sentindo. A tendência dos filhos, ao verem os pais sofrendo e se desentendendo, é achar que são os culpados, os responsáveis. E há, ainda, uma crença equivocada entre os adultos de que a juventude supera tudo, de que não há tristeza e depressão entre crianças e adolescentes. Ledo e Ivo engano...
Acrescida à falta de assistência familiar veio a pressão do estrelato e os altos e baixos de um relacionamento abusivo que a afundou mais ainda nas drogas e na bulimia, ambos problemas que remontavam à adolescência da artista.
É do octogenário (à época) e ídolo de Amy, com quem ela fez sua última parceria, Tony Bennett, a frase mais comovente do filme:
"Se ela estivesse viva, eu iria dizer: pare um pouco. Você é muito importante. A vida te ensina a viver se você conseguir viver o suficiente."
Ao que Bennett disse, acrescentaria: se sentir que não vai conseguir chegar até lá, não hesite em procurar ajuda.
A Amiga Genial
Semana passada terminei de assistir as duas primeiras temporadas da quadrilogia italiana, escrita por Elena Ferrante, na HBO. Confesso que, apesar de toda a raiva que passei com Lenu e Lila, fiquei com saudades.
As meninas são gente como a gente e me causou pavor ver o que era a condição da mulher num tempo pertinho daqui. Lenu e Lila passam longe de serem obedientes, apesar de Lenu ser retraída, e, mesmo assim, a sociedade da época, principalmente a parte masculina, é cruel com elas. Isso torna o quadro mais desesperador ainda, porque dá a sensação de jogo que nunca vai ser vencido.
Lila e Lenu se conheceram crianças num bairro muito pobre de Napoles, no pós guerra - aliás, nunca pensei de ver o Cabula VI na HBO. Lenu queria muito ser a melhor aluna, era competitiva, mas como boa virginiana, na linha boa menina (ela é de 25 de agosto e Lila, leonina de 11 de agosto). Lila era aquela menina que ninguém chegava perto até virar amiga de Lenu. A meu ver, essa foi a desgraça da filha do contínuo. Dali por diante, especialmente quando elas se separaram na escola, Lenu se ejetou do próprio corpo e viveu em função de Lila, ao ponto de escrever sobre ela - a origem da quadrilogia - mesmo idosa e já consagrada. Passou uma vida se achando menos que a outra que, a qualquer oportunidade, a sacaneava, especialmente nas situações em que Lenu, excepcionalmente, conseguia alguma coisa. Na boa, por mais que vínculos de infância sejam fortes, eu teria dado o toco nela ali mesmo, depois do exame da escola, quando ela se mostrou perversa pela primeira vez, atitude que duraria pelo resto da vida. Definitivamente, nunca mais iria atrás dela depois do que houve em Ischia.
Mas o legal de "A Amiga Genial" é a dualidade das protagonistas. Eu sou team Lenu, mas ela também incomoda pela passividade e por essa postura maluca de se botar numa posição inferior em relação a Lila, de uma submissão ridícula, de uma inveja envergonhada que nunca passa e que, no fundo, não tem razão de ser. Ela nunca seria Lila, até porque ambas são muito diferentes. E, pelo visto, a criatura envelhece nessa maluquice. Um dos livros deveria se chamar "Procura-se Lenu desesperadamente", porque a figura se perdeu legal de si mesma por causa desse apego. Antes ela nunca tivesse conhecido Lila e Nino. Lenu era uma criança ativa, que começou a se apagar quando começou a se comparar com Lila.
Eu terminei a segunda temporada com verdadeiro ranço de Lila, mas algumas coisas a gente tem que admitir sobre a personagem. A primeira delas é que, se Lenu é melhor pessoa, é Lila quem carrega a história nas costas e movimenta esse negócio. A segunda coisa é que apesar de ter inveja de Lenu, Lila não se limita por causa dela, como a outra faz em relação a ela. Lila joga a bola pra frente, perde, ganha, mas se arrisca e segue como dá. Apesar disso, é muito triste ver que toda vez que a pobre da criatura tenta mudar de vida, fazer algo grandioso, alguém joga areia na tentativa dela e das formas mais mesquinhas. Rino foi uma das piores desilusões dessa história. Do pai dela, de Stefano e do embuste-mor do Nino a gente já esperava.
Aliás, só tem homem ruim nessa história, impressionante. O único que presta, Franco Mari, primeiro namorado de Lenu na universidade, não dura um episódio. E, na boa, pouca coisa mudou nos dias de hoje. É triste também ver que a "amizade" de Lenu e Lila é o tom de muitas amizades, onde tem até afeto, mas também rancor ou menosprezo; a pessoa até quer que o outro se dê bem, mas não melhor que ele/a; há compartilhamento da vida, mas não da intimidade, com medo daquilo ser usado contra. A violência sobrepõe-se ao amor. É como disse Jung: amor e poder não ocupam o mesmo espaço; onde entra um, sai o outro.
Na minha interpretação, vejo as duas como representantes de dois mundos que se encontram e se chocam no pós-guerra: Lenu é o espírito de conservação, da tradição, do elitismo, da coerência, enfim, é o resgaste de um mundo asséptico que foi interrompido pela guerra; Lila é a destruição do status quo, representa o olhar para o futuro, a aventura, a mudança de um modelo que já não serve mais, que não responde mais a algumas demandas. Lenu é impulsionada pelo medo; Lila é pela raiva.
sábado, 17 de julho de 2021
O que a vida nos roubou
O melhor das novelas mexicanas são os títulos (ou, quem sabe, a tradução do SBT).
Mas não vim falar disso, não. Vim falar das coisas que a vida nos tira, à revelia da nossa vontade.
Quem não esteve em coma durante esses 17 meses de pandemia sabe muito bem do que estou falando. No entanto, a pandemia apenas deixou mais intenso um processo que é da vida. Tudo que ela quer da gente é coragem, como disse Guimarães Rosa. Eu gosto de uma outra palavra, e que neste contexto tem quase o mesmo sentido: flexibilidade.
Flexibilidade para aceitar que é isso mesmo e não tem muito o que fazer. Parar de achar que há "perdedores", porque todo mundo perde ao longo do caminho. Aliás, sem perder não se abre lugar para o novo entrar. Largar mão, também, de tapar o sol com a peneira e dizer que tudo vira ganho. Às vezes, não há ganho que console a perda. Como disse um meme sobre relacionamentos, que ficou popular por esses dias, não há aprendizado que cubra a frustração de quem queria um relacionamento e saiu com o saldo de um workshop.
Flexibilidade para não se afundar na lista de perdas e ir atrás de outros ganhos.
O que é roubado nunca nos pertenceu (não há solução) ou o que não está em nossa posse está adormecido e pode ser resgatado (está nas nossas mãos).













