Há três meses, numa consulta com uma taróloga - que depois soube que é médium da umbanda - ouvi uma coisa que foi direto ao coração (é impressionante como um desconhecido te lê melhor que gente que anda com você):
- Olha, parece que você se esforça, trabalha e nunca dá em nada, mas continue fazendo os seus corres, que você está no caminho certo. Você tá desanimada, mas você tem um leão no peito.
E tenho mesmo, senão nem estaria viva pra contar esta história. Porque, velho, se a vida é a arte dos encontros, eu domino com louvor a dos desencontros. Nunca fui amada sequer do jeito que eu amei as pessoas ou como mereço. Ou seja, nunca fui amada e ainda joguei meu amor nas pessoas e metas erradas. Ok, tudo é caminho, o erro é aprendizado, mas sofrer tira a energia da alma da gente.
A moça do tarô não foi a primeira a me dizer algo do tipo; uma cromoterapeuta uma vez me disse que eu era um animal brigando pra viver. Só tendo mesmo um coração selvagem, um leão no peito pra continuar em frente mesmo de tanque vazio.
Muita gente no meu lugar já teria desistido, mas eu não consigo. Schopenhauer tem absoluta razão quando diz que a gente tem livre arbítrio pra fazer o que desejar, mas não pra desejar o que deseja. Eu desejo coisas que só uma criatura com a minha resistência poderia ainda desejar a essa altura do campeonato. Sim, eu sou forte, mas odeio que as pessoas usem isso contra mim, negando a minha humanidade, como se eu fosse obrigada sempre a aguentar. Pouca gente me trata/ me tratou como pessoa ao longo da vida. Hoje em dia, não vejo mais porque aturar isso. Nova regra da casa: quem não me trata como gente, não merece nada além da minha resignação. É assim, aliás, que muitos afetos morrem. Não existe isso da pessoa gostar de você, mas desconsiderar seus sentimentos, desrespeitar sua humanidade. Simplesmente não gosta de você.
Cansei de ser sensata, vou ouvir meu instinto felino que eu ganho mais.
Eu estava olhando uma foto minha de criança: super expressiva, animada, amorosa, alegre... Mas foi tanta cacetada, muitas delas gratuitas, que eu tô exausta. Essa menina aí ainda existe, mas é cada vez mais um segredo só meu. Eu e ela. Ela e eu.
Eu não acredito mais no afeto na minha vida. Eu não acredito em amizades, em família, eu não acredito mais em parceria e cada vez menos eu tenho vontade de estabelecer laços. Abracei mesmo a "carreira solo". Sabe aquela máxima de "goste do vizinho, mas proteja a sua cerca"? Pois é, finalmente aprendi. Eu interajo com as pessoas, mas não espero muito e me boto em primeiro lugar. E é até melhor assim, porque se sofre menos, se tem um olhar mais objetivo e distanciado para situações e pessoas. Vivi tanto tempo comigo mesma, que acho que já não sei mais andar com outra pessoa só por andar; tem que valer muito a pena. Gosto mais hoje de ficar só do que jamais gostei na vida. Já quis muito resgatar o sentido de comunidade que experimentei nos meus primeiros anos, mas acho que nesta encarnação não vai rolar e é preciso aceitar isso.
Brincava outro dia com um amigo que o lance era virar budista: sem alimentar expectativa, na aceitação dessa sansara, esperando pelo nirvana. Cansei de ter esperança, no sentido de esperar mesmo. O desejo não controlo, mas a esperança não quero mais cultivar, não. É erva daninha. Não quero, aliás, mais nenhum ranço do cristianismo em mim: nem esperança; nem culpa; nem essa coisa de que ser melhor pros outros que pra si mesmo é o certo; nem esse endeusamento do sacrifício; muito menos essa noção ridícula de pecado, que só traz atraso de vida. O cristianismo é uma fábrica de fazer neuróticos. Também não quero mais saber de previsão do futuro e coisas afins. Pra mim, pessoalmente, isso não funciona. Eu quero é fazer, viver, me desenvolver. Serva do meu desejo porque não tem outro jeito. Que esse leão no peito me leve aonde ele tem que levar, e fim.











