Ao contrário da continuação desta letra, não queria mais desta série, não. Terminou na hora certa e eu acho que essa última temporada foi corrida, mal feita. Mas, enfim, não foi ruim, valeu pelo conjunto.
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
terça-feira, 2 de novembro de 2021
No me puedes dejar así...
domingo, 24 de outubro de 2021
Velho testamento
As pessoas são muito engraçadas. Elas acham sinceramente que Deus se ocupa de cobrar os maus feitos dos homens. Mas Deus não pune ninguém. Na verdade, Deus criou um sistema de autogestão da Humanidade, em que pouco dependemos da intervenção dele. Somos dirigidos pelos nossos próprios complexos, o que quer dizer que ninguém vai pagar por algo que não se sinta culpado e, ao mesmo tempo, alguém que nada fez pode sofrer as consequências do que achou que fez. Eu vejo bem isso no mundo real, na realidade. Mas as pessoas ainda acreditam num Deus irado, do Velho Testamento. Tsc, tsc, tsc... Deus só está interessado que a gente aprenda, e isso acontece pelo amor, pelo ódio, pelo acerto, pelo erro, etc. Qualquer que seja a ação humana, o resultado vai ser o mesmo: aprendizado.
sábado, 23 de outubro de 2021
Jonicaelização do eu
domingo, 10 de outubro de 2021
Dancing in the Dark
Bruce, por problemas que remontam a família de origem, sofreu com depressão a vida inteira adulta mesmo tendo tido muito sucesso e família.
Muitos de nós somos Bruce sem fama e dinheiro. Chega uma hora na vida de todo mundo em que o trabalho de base não feito vem cobrar a sua conta.
Especialmente no caso de nós, mulheres, há muito o que fazer. Pensei nisso vendo neste final de semana a minissérie "Maid". Toda mulher deveria assistir aquilo. Ensinam várias mentiras pra gente enquanto a gente cresce e se livrar disso dá trabalho. A protagonista, aliás, chama a atenção por duas coisas que nos faltam nessas ocasiões: determinação para ultrapassar o desespero e a dor; e amorosidade quando o mundo é pura hostilidade com você. No caso da personagem, essa amorosidade vem do amor da filha.
O amor sempre foi uma armadilha para as mulheres, isso porque até hoje não somos amadas. Acho que é por isso que a maternidade tem aquele apelo ainda para as mulheres. Quem gosta de mulher - de mãe - é criança pequena. Nas gerações anteriores, a gente deixava de existir em nome desse tal de amor. Na nossa, crescemos aprendendo que o amor é inimigo de existir. Então primeiro você garante o dinheiro, a independência - o que é de fato muito importante -, depois o amor. O que não nos contam é que o amor é o combustível do sucesso. Vejo muita mulher murcha, inclusive profissionalmente, por falta disso. Os homens, talvez intuitivamente, sabem disso, porque nunca falta mulher e eles sabem como isso os beneficia de variadas maneiras. E acho que é assim que eles descontam a raiva que têm da gente quebrando as nossas pernas através do afeto, nos proporcionando más experiências nas relações.
segunda-feira, 27 de setembro de 2021
Risos de nervoso
Eu ri, mas fiquei tensa com isso. Se com nove anos ela tá nessa letargia, imagina quando cair na batalha da vida adulta.
Sério.
Depois da psicopatia, meu maior medo quanto aos meus sobrinhos é que eles sejam pessoas desinteressadas. Quanto mais eu vivo, mais estou convicta que uma boa vida depende em boa medida de paixões, interesses, projetos. Quem tem projeto tem por que viver até 80 anos, quem não tem morre de tédio, a conta-gotas.
Eu tenho uma prima, que tem hoje 20 e tantos anos, que era assim que nem essa menina do papel. Inteligente - pulou dois anos na escola -, o pai dava tudo, mas ela não se interessava por nada. Hoje tá aí tomando remédio para depressão e impaciente com a vida.
A parte material importa muito, mas a alma é o motor de tudo, não tem pra onde correr.
Mas a questão é que esse encontro com o que move a nossa alma é o nosso quê de sorte na vida - todo o resto, até a malandragem pra conseguir as coisas, coloco na cesta "trabalho", mas os encontros da vida vão na cesta "sorte". Só buscar não é o suficiente, tem que ter a sorte de estar no lugar certo e na hora certa também, tem que conseguir a sintonia. Como dizia o poeta, "viver é a arte dos encontros embora haja tantos desencontros".
quarta-feira, 22 de setembro de 2021
O brasileiro gosta de ter filho, mas não gosta de criança
Brasileiro ama ostentar filhos, que, apesar de tudo, conferem o status de adulto responsável/validado, e, no caso das mulheres, da fêmea completa, da que em algum momento foi escolhida e pariu. Como já li por aí - e sempre observei antes disso -, do mesmo modo que essa sociedade odeia mulher, endeusa a mãe. Então não dá pra ser só mulher, se quiser ser olhada um pouquinho melhor, tem que virar mãe.
Conto nas mãos os adultos que conheço que tiveram paciência e dedicação com as suas crianças. Lógico, o adulto precisa ter a sua individualidade, a sua vida, mas se você pôs no mundo, faça direito, ceda uma parte do seu tempo pra formar aquela pessoa. Se bem feito, aos poucos você se tornará desnecessário. Infelizmente, a maioria terceiriza a criação das crias. Já ouvi de minha irmã que ela se achava uma mãe melhor que as do condomínio dela só por não contratar folguista pra ficar com os filhos nos finais de semana. Descobri outro dia que quem criou os filhos de Caetano foi a babá, que eles inclusive são evangélicos por causa dela.
Ninguém tem paciência com criança. Adulto foge de criança, acha chato, detesta ter o trabalho. Mas é justamente a janela que se tem pra fazer o que tem que ser feito em termos de hábitos, educação e laços. Por isso que olho com muita desconfiança quem cobra certas coisas do filho depois de adulto. Como será que era essa relação na infância? Casa e comida é o básico do básico, mas isso não gera laços. É ser humano, não gado.
Crescer sozinho, mesmo quando "dá certo", deixa sequelas. O comando que sempre recebi, em casa, de forma implícita, foi: "Se vire com o que tem, não encha o meu saco e dê o máximo resultado". Se eu falhasse, não ia ser por falta dos meus pais, mas porque eu tinha algum problema, era de alguma forma incapaz. E não foi coincidência eu ter batido em 98% de portas que se fecharam na minha cara ao longo da vida. Toda vez que achava que podia ter o apoio de alguém, me descobria sozinha. Não foi por acaso, foi pra confirmar aquela crença que aprendi em casa, na infância.
Faz toda diferença ter rede de apoio. Primeiro, que você se sente mais autorizado a experimentar, a se lançar, porque há alguém segurando a sua mão, para amparar o seu erro. E é fazendo isso na primeira parte da vida que você se torna um adulto capaz de tomar boas decisões na idade adulta. Segundo, que você aprende a pedir ajuda. Gente que se cria sozinha não sabe pedir ajuda, porque você foi ensinado que pedir ajuda é incomodar, ser alguém desagradável e, acima de tudo, incompetente.
O tecido social coeso, o espírito comunitário, solidário, começa nas famílias (e lógico que não estou falando aqui de uma galera que foi animalizada por gerações e gerações, mas de gente que teria condições de exercer uma parentalidade de qualidade). Se é cada um por si e Deus por todos, ficamos nisso aí que vemos hoje no Brasil: um farinha pouca, meu pirão primeiro. E quem teria condições de pressionar por mais solidariedade social e melhores condições para os mais vulneráveis não o faz, aprende a defender só o seu.
terça-feira, 14 de setembro de 2021
Eu não me chamo Emily Rose
Em 2008, eu desbloqueei o nível 1 da desesperança, aquele em que, se você não tiver mesmo vocação pra ser boa pessoa, se torna alguém má, que repassa a sua dor aos outros. Sobrevivi.
Este ano, desbloqueei o nível 2, em que você começa a entender qual é a graça de usar drogas. Não sei se sobreviverei, apenas não quero chegar ao nível 3, por favor!
O caso agora nem é mais de terapia, mas de exorcismo.
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
Vida e morte de Amy Winehouse
Acabei de assistir "Amy: the girl behind the name", documentário de 2015, de Asif Kapadia, que conta a história da cantora Amy Winehouse. Ela foi mais um caso de gente boa que não soube lidar com as próprias dores, deixando esse mundo cedo demais, aos 27 anos, em julho de 2011.
De acordo com o documentário, Amy era uma pessoa meiga, talentosa, mas bastante carente, alguém que nunca se recuperou da separação dos pais e, a partir desse desamparo, desenvolveu compulsões e comportamentos autodestrutivos. Em um trecho ela comenta que nunca foi abusada na infância, como infelizmente acontece com muitas crianças, mas que houve uma tristeza por causa dessa separação.
Temos duas observações a fazer aí: a primeira é a de que o trauma tem mais a ver com o modo como alguém sentiu o evento do que com o evento em si. A segunda é que um acompanhamento bem feito da menina Amy poderia, talvez, ter mudado radicalmente o curso da adulta. É importante que os adultos se esforcem para fazer esse rompimento da relação da forma mais respeitosa possível, pois a criança sente tudo, mas tem pouca clareza mental quanto ao que está sentindo. A tendência dos filhos, ao verem os pais sofrendo e se desentendendo, é achar que são os culpados, os responsáveis. E há, ainda, uma crença equivocada entre os adultos de que a juventude supera tudo, de que não há tristeza e depressão entre crianças e adolescentes. Ledo e Ivo engano...
Acrescida à falta de assistência familiar veio a pressão do estrelato e os altos e baixos de um relacionamento abusivo que a afundou mais ainda nas drogas e na bulimia, ambos problemas que remontavam à adolescência da artista.
É do octogenário (à época) e ídolo de Amy, com quem ela fez sua última parceria, Tony Bennett, a frase mais comovente do filme:
"Se ela estivesse viva, eu iria dizer: pare um pouco. Você é muito importante. A vida te ensina a viver se você conseguir viver o suficiente."
Ao que Bennett disse, acrescentaria: se sentir que não vai conseguir chegar até lá, não hesite em procurar ajuda.
A Amiga Genial
Semana passada terminei de assistir as duas primeiras temporadas da quadrilogia italiana, escrita por Elena Ferrante, na HBO. Confesso que, apesar de toda a raiva que passei com Lenu e Lila, fiquei com saudades.
As meninas são gente como a gente e me causou pavor ver o que era a condição da mulher num tempo pertinho daqui. Lenu e Lila passam longe de serem obedientes, apesar de Lenu ser retraída, e, mesmo assim, a sociedade da época, principalmente a parte masculina, é cruel com elas. Isso torna o quadro mais desesperador ainda, porque dá a sensação de jogo que nunca vai ser vencido.
Lila e Lenu se conheceram crianças num bairro muito pobre de Napoles, no pós guerra - aliás, nunca pensei de ver o Cabula VI na HBO. Lenu queria muito ser a melhor aluna, era competitiva, mas como boa virginiana, na linha boa menina (ela é de 25 de agosto e Lila, leonina de 11 de agosto). Lila era aquela menina que ninguém chegava perto até virar amiga de Lenu. A meu ver, essa foi a desgraça da filha do contínuo. Dali por diante, especialmente quando elas se separaram na escola, Lenu se ejetou do próprio corpo e viveu em função de Lila, ao ponto de escrever sobre ela - a origem da quadrilogia - mesmo idosa e já consagrada. Passou uma vida se achando menos que a outra que, a qualquer oportunidade, a sacaneava, especialmente nas situações em que Lenu, excepcionalmente, conseguia alguma coisa. Na boa, por mais que vínculos de infância sejam fortes, eu teria dado o toco nela ali mesmo, depois do exame da escola, quando ela se mostrou perversa pela primeira vez, atitude que duraria pelo resto da vida. Definitivamente, nunca mais iria atrás dela depois do que houve em Ischia.
Mas o legal de "A Amiga Genial" é a dualidade das protagonistas. Eu sou team Lenu, mas ela também incomoda pela passividade e por essa postura maluca de se botar numa posição inferior em relação a Lila, de uma submissão ridícula, de uma inveja envergonhada que nunca passa e que, no fundo, não tem razão de ser. Ela nunca seria Lila, até porque ambas são muito diferentes. E, pelo visto, a criatura envelhece nessa maluquice. Um dos livros deveria se chamar "Procura-se Lenu desesperadamente", porque a figura se perdeu legal de si mesma por causa desse apego. Antes ela nunca tivesse conhecido Lila e Nino. Lenu era uma criança ativa, que começou a se apagar quando começou a se comparar com Lila.
Eu terminei a segunda temporada com verdadeiro ranço de Lila, mas algumas coisas a gente tem que admitir sobre a personagem. A primeira delas é que, se Lenu é melhor pessoa, é Lila quem carrega a história nas costas e movimenta esse negócio. A segunda coisa é que apesar de ter inveja de Lenu, Lila não se limita por causa dela, como a outra faz em relação a ela. Lila joga a bola pra frente, perde, ganha, mas se arrisca e segue como dá. Apesar disso, é muito triste ver que toda vez que a pobre da criatura tenta mudar de vida, fazer algo grandioso, alguém joga areia na tentativa dela e das formas mais mesquinhas. Rino foi uma das piores desilusões dessa história. Do pai dela, de Stefano e do embuste-mor do Nino a gente já esperava.
Aliás, só tem homem ruim nessa história, impressionante. O único que presta, Franco Mari, primeiro namorado de Lenu na universidade, não dura um episódio. E, na boa, pouca coisa mudou nos dias de hoje. É triste também ver que a "amizade" de Lenu e Lila é o tom de muitas amizades, onde tem até afeto, mas também rancor ou menosprezo; a pessoa até quer que o outro se dê bem, mas não melhor que ele/a; há compartilhamento da vida, mas não da intimidade, com medo daquilo ser usado contra. A violência sobrepõe-se ao amor. É como disse Jung: amor e poder não ocupam o mesmo espaço; onde entra um, sai o outro.
Na minha interpretação, vejo as duas como representantes de dois mundos que se encontram e se chocam no pós-guerra: Lenu é o espírito de conservação, da tradição, do elitismo, da coerência, enfim, é o resgaste de um mundo asséptico que foi interrompido pela guerra; Lila é a destruição do status quo, representa o olhar para o futuro, a aventura, a mudança de um modelo que já não serve mais, que não responde mais a algumas demandas. Lenu é impulsionada pelo medo; Lila é pela raiva.
sábado, 17 de julho de 2021
O que a vida nos roubou
O melhor das novelas mexicanas são os títulos (ou, quem sabe, a tradução do SBT).
Mas não vim falar disso, não. Vim falar das coisas que a vida nos tira, à revelia da nossa vontade.
Quem não esteve em coma durante esses 17 meses de pandemia sabe muito bem do que estou falando. No entanto, a pandemia apenas deixou mais intenso um processo que é da vida. Tudo que ela quer da gente é coragem, como disse Guimarães Rosa. Eu gosto de uma outra palavra, e que neste contexto tem quase o mesmo sentido: flexibilidade.
Flexibilidade para aceitar que é isso mesmo e não tem muito o que fazer. Parar de achar que há "perdedores", porque todo mundo perde ao longo do caminho. Aliás, sem perder não se abre lugar para o novo entrar. Largar mão, também, de tapar o sol com a peneira e dizer que tudo vira ganho. Às vezes, não há ganho que console a perda. Como disse um meme sobre relacionamentos, que ficou popular por esses dias, não há aprendizado que cubra a frustração de quem queria um relacionamento e saiu com o saldo de um workshop.
Flexibilidade para não se afundar na lista de perdas e ir atrás de outros ganhos.
O que é roubado nunca nos pertenceu (não há solução) ou o que não está em nossa posse está adormecido e pode ser resgatado (está nas nossas mãos).
quinta-feira, 24 de junho de 2021
Questões de comunicação
Problemas do ano 2021: metade das pessoas têm um discurso ruim, insuportável, a outra metade é insuportável porque quer que você pense exatamente como eles.
sábado, 19 de junho de 2021
The awful truth
É triste quando você constata que vai melhor sem 90% das pessoas de que você gosta. A gente se faz a pergunta "para quê?", a gente sabe que isso demanda da gente uma mudança de postura, mas não é uma constatação boa, não. Mas, enfim, sigamos.
quarta-feira, 9 de junho de 2021
You live, you learn...
Engraçado, eu passo o dia todo em raivas que Bolsonaro e cia me fazem, mas na hora de refletir, até esqueço dele, que é esquecível realmente.
Outro dia, vendo uma palestra espírita, me dei conta de que a espiritualidade não está nem aí pra se somos felizes ou tristes, simplesmente porque o nosso objetivo aqui é aprender, e fazemos isso tanto no sofrimento quanto na felicidade. Para o objetivo da existência, tanto faz. O que eles podem fazer por nós é nos inspirar soluções e nos confortar.
E o erro só serve para isso. Culpa é algo inútil, inútil, só serve para criar complexo para atrapalhar a vida. Vamos entrar então o erro como erro, como um dado, não como uma âncora? Ninguém se importa se a gente sofre, quem arrasta a corrente é só a gente.
sexta-feira, 28 de maio de 2021
A culpa é de quem?
Outro dia li algo na internet que faz todo sentido e vou deixar registrado aqui pra nunca mais esquecer:
Toda vez que você não souber por que alguém agiu assim com você, o problema não está em você. Quando está com a gente, sabemos muito bem os motivos, porque aconteceu.
segunda-feira, 24 de maio de 2021
Uma comorbidade chamada Brasil
Estou com um pé e meio numa crise de ansiedade. Sério mesmo. É uma mistura das coisas que eu tenho de fazer (e não alivia nunca) e que me aconteceram ultimamente, mas especialmente da pandemia e de: 1) um governo que não providencia vacina, estimula o caos e dá de ombros à desgraça nacional; 2) a situação de impotência que a impunidade a tudo isso me dá; 3) a raiva de gente aglomerando, tratando quem se cuida como otário e aumentando o risco para todos nós; 4) a ansiedade sobre quando vou me vacinar toda vez que vejo alguém se vacinando; 5) a falta de sensibilidade dos vacinados curtindo e postando no Instagram enquanto há tanta gente sem vacina, temendo sair de casa; 6) ter que trabalhar presencialmente e num lugar cheio de gente; 7) o ódio de gente que ainda apoia o promotor dessa carnificina. Não necessariamente nessa ordem, mas é isso aí. Ou a gente se vacina logo ou eu saio logo do Brasil, ou não vou aguentar o tranco. É muita ansiedade, muita adrenalina. Não tem corpo humano que suporte. Acho que vou ter que entrar com medicação, mas pire aí: tomar remédio por causa do seu país!
sexta-feira, 2 de abril de 2021
Eu sou praticamente uma ONU (saiu o resultado do meu teste de ancestralidade!)
Fiquei chocada pra esse percentual de Ásia (já que não temos nenhum antepassado asiático conhecido, portanto é uma porcentagem expressiva), mas, calma, pois acho que tenho a explicação: essa genética asiática vem das Filipinas, país com 300 anos de colonização espanhola. Esses 2% devem estar dentro da herança ibérica, acho. Ou, segundo eu vi num estudo, pode vir de indígenas do sertão nordestino, que são geneticamente semelhantes ao pessoal do leste da Ásia.
Outra coisa que me chocou foi o resultado da Europa. Eu achava que só ia dar Ibérico (Portugal e Espanha). Deu só 28% para essa região. Fiquei surpresa com 8% de italiano, mas, enfim, faz parte da brasilidade essa herança, no entanto fiquei de queixo caído com 21% de ancestralidade da Europa Ocidental (França, Alemanha, Áustria, Suíça, Bélgica, Holanda, Irlanda, Reino Unido, Liechtenstein e Luxemburg). Também caí para trás com 5% de ascendência basca (região ali entre a Espanha e a França). Como é que interpreto isso? Invasões holandesas e francesas no Nordeste. Minhas famílias, dos bisavôs pra trás, são nordestinas, do Maranhão por parte de pai e da Bahia, por parte de mãe. Esse sangue basco ou veio desse parentesco francês ou a gente tem algum parente argentino ou uruguaio, de origem basca, que veio para o Brasil. A Argentina foi o principal destino dos bascos nas Américas. Geralmente esse povo vai para a região Sul, mas eu tenho registro da família em todas as regiões, menos nessa. Se bem que só conheço três gerações atrás de mim...
Na parte americana, leia-se indígena, também tive surpresa. Metade da herança indígena vindo da Amazônia faz total sentido porque, de novo, a família do meu pai está há muitos anos em Tocantins, depois que saíram do Maranhão, e esse estado, que antes era o norte de Goiás, hoje é região Norte e tá colado com o Pará. Herança indígena andina (3%) e da patagônia (1%) não me surpreenderam porque são regiões vizinhas. Agora herança indígena norte-americana (1%) me impressionou. Se bem que já li que quando os espanhóis chegaram no México e os ingleses na área dos EUA e Canadá, muitos desses povos originários da América do Norte desceram para a América do Sul. Meus ancestrais gastaram sola do pé, viu, bicho...
A única parte que não me surpreendeu foi a africana. Meus antepassados de lá foram realmente de regiões de africanos escravizados: 8% do oeste da África, que é ali Congo, Angola e Namíbia (Sudeste brasileiro), 8% costa da mina, que é ali a Nigéria, Gana (Bahia) e 4% do leste da África, onde está Moçambique e Zimbabue (Sudeste). Repare que eu tenho genética de todas as rotas da escravidão, do século XVI ao XIX. Esses 4% aí devem ter vindo, inclusive, de um antepassado recente (suspeito que de minha avó materna), já que essa migração do leste da África, especialmente de Moçambique, veio da última rota de escravizados, do século XIX, quando a Inglaterra começou a dificultar esse comércio pelas rotas tradicionais. Há 1% aí que é do Chifre da África, uma região ali pela Etiópia colada com o Oriente Médio, que eu acho que deve estar dentro da minha herança árabe. Porque eu acho isso? Porque esse 1% está muito mais distante das outras regiões da África que eu tenho ascendência. Mais provável que tenham migrado para a península arábica.
Tenho ainda 5% de Oriente Médio e Magrebe, 3% da Arábia mesmo, que eu subiria para 4% com esse 1% do Chifre da África, região praticamente colada a Península Arábica. 2% são de Magrebe, norte da África, que todo mundo diz, nos fóruns, que é pra contar como Ibéria, porque os mouros de Magrebe dominaram essa região por anos.
Então como acho que é realmente esse meu resultado:
10% indígena, metade disso de linhagens do Norte e da América do Sul;
20% africana, das rotas de escravizados que vieram para o Brasil: Angola, Nigéria e Moçambique;
70% europeia, englobando 2% de Magrebe, 4% de Oriente Médio e 2% de Ásia. Daí talvez seria 10% italiana, adicionando 2% de Magrebe, já que houve uma grande migração desse povo pra a Itália. Ou esse Magrebe pode ter vindo da Ibéria (Portugal ou Espanha), que com esses 2% somaria 30%. A mesma dúvida tenho quanto à herança árabe, que eu acho que deve vir dessa parte ibérica. De qualquer forma, tenho por baixo 40% de ascendência dessa parte do sul da Europa.
É isso aí, minha gente. Só ficou faltando Oceania pra eu ser um mapa mundi genético, hehe. Ameeei...
Uma coisa que me emociona nisso tudo: o clamor da ancestralidade africana para que seja vista. Observe bem: na maioria dos brasileiros, não ultrapassa 25% da herança genética, mas está bem marcada no fenótipo de 53% da população. É um pedido por inclusão, e falo isso bem dentro da perspectiva da Constelação Familiar. Precisamos fazer essa reparação, Brasil.
***
Coloquei no Gedmatch. Deu bem próximo. Vejamos:
Europa deu 62,7%, com mais ênfase no Norte.
África deu 17,11%
América deu 8,32%
Magrebe e norte da África 4,83%
Oriente Médio ou Mar Vermelho como eles chamam 4,6¨% (viu como eu tinha razão em puxar 1% do Chifre da África para Arábia?)
Ásia 2,45% (0,81% de Oceania)
Bem parecido com o resultado do Genera, alterando pouquinha coisa (lembrando que o Genera não dá percentuais quebrados, portanto isso pode explicar a pouca diferença, por exemplo, entre indígena nessa calculadora e no Gedmatch). A grande diferença é que uma parte de África, quase 3%, o Ged identificou como Norte da África, que é árabe e engloba também o Magrebe, e isso quase dobrou a porcentagem de Oriente Médio e Magrebe de 5% para 9,43%. Ah, sim, a herança basca desapareceu e apareceu uma báltica. É tudo Europa, no frigir dos ovos.
sexta-feira, 26 de março de 2021
#FreeJuly
Essa discussão do Free Britney me trouxe memórias. Boas, por sinal, de um tempo feliz. Eu adorava Britney porque eu sempre amei o pop. E também porque ela tem uma mistura de animação com melancolia de quem poderia ser feliz se não fossem as circunstâncias da vida. É aquela coisa do lado mais fraco que puxa a nossa empatia. Ficava nítido que ela só tinha a mãe e a irmã e que a fama era demais pra ela. Beyonce é excelente artista, mas perfeitinha demais. Christina forçava a barra.
Cara, eu amo esse período de 1998 a 2003. Sério. Eu fui feliz. Tirando o ecossistema, que sempre foi uma merda, eu gostava de explorar a cidade, aprender coisas novas, ir ao cinema e amava assistir MTV e séries. Eu era feliz só com isso. Pena que uma hora você tem que sair da ilusão, porque não dá pra sustentar uma encarnação só de MTV e audiovisual. Eu era mais feliz ainda sozinha. Minha melhor fase foi quando tínhamos um quarto enorme em Amaralina e Renata dormia na casa do namorado e eu ficava com ele só pra mim, e depois quando ocupei o mezanino no duplex do Farol. Devo admitir: eu sou feliz sozinha. Me dê uma boa casa/apartamento e uma renda pra viver com dignidade e eu te garanto que sou feliz sozinha toda a vida, assistindo meus trecos, lendo, fazendo meus cursos, passeando, viajando, comprando minhas bugigangas... Universo, por favor, free July, vai!
sábado, 20 de fevereiro de 2021
"Só é seu aquilo que você dá"
Se tem uma coisa que apequena uma pessoa é ficar jogando as coisas que fez por você na cara. Eu já tive momentos desses também, mas tomei vergonha na cara. Por trás disso, está carência e barganha e não generosidade, e é por isso que a pessoa fica com raiva quando o que pensou ganhar em troca não veio. Uma vez, uma pessoa desabafou comigo, quase chorando: "Eu faço o que todo mundo quer. Por que ninguém faz o que eu quero?". Não era verdade nem uma coisa nem outra. Ninguém é esse alecrim dourado todo. E mais: a errada nessa história era a própria pessoa queixosa, que estava sendo falsa. Os outros de fato recebiam mais do que davam, mas estavam sendo ao menos eles mesmos. Gente que faz tudo pelos outros não é generosa, é controladora. Experimenta contrariar a criatura pra ver a ira dela entrando em cena.
Obviamente, viver em sociedade implica em ceder e se dar em alguma medida. Faz parte do pacto. Gente que não sai de si é tão ruim quanto os controladores que fazem tudo. Mas há três regras do dar: 1) saber se o outro quer aquilo (afinal o erro clássico é oferecer o que o outro nem tem interesse de receber), 2) é importante respeitar desejos e limites, para depois não se sentir usurpado e 3) o equilíbrio entre dar e receber (por incrível que pareça, às vezes dá mais certo dois egoístas juntos que um generoso com um egoísta; receber demais é bom até certo ponto, pois gera rancor e inveja no "devedor").
Quando você faz porque você quer, nunca vai pagar o mico de fazer essa cena do "Eu fiz muito por você", pois fez porque te deu prazer, porque você quis, porque não te fez falta, porque subjetivamente você também ganhou com aquilo, enfim, não foi um peso. Pessoas realmente generosas nem notam que são de fato assim. Se você sente que só o outro está aproveitando, está tudo errado, a começar pela motivação para agir. Olha, tem gente que se auto abandona e depois reclama das faltas dos outros. Não se começa uma casa pelo teto, né?
No final das contas, a gente não faz nada aos outros, mas para a gente mesmo, nos bons e nos maus atos. Nunca esqueço de quando atrasei uma vez numa sessão de terapia, e entrei pedindo desculpas à terapeuta, que me deu uma resposta ótima: "Peça desculpas a você mesma, que perdeu tempo da sua sessão". O bem que a gente faz também é nosso. Quem já fez trabalho voluntário sabe o que estou dizendo. Na verdade, como diz a canção: "Só é seu aquilo que você dá".
Inveja
Se tem um papo que me dá tédio é esse de: "Ai, meu Deus, estão me invejando". Não que eu não acredite em inveja. Vivemos em uma época em que as pessoas vivem para serem invejadas e invejar - o Instagram está aí pra provar. Mas 1) há um certo gozo mal disfarçado em quem publiciza isso, um pouco de egotrip e 2) a não ser que essa inveja venha acompanhada de puxada de tapete, é problema do invejoso. Pessoalmente, me preocupo com as minhas invejas, com o que isso quer me comunicar: uma base da minha autoestima que anda ruim ou um desejo que eu ainda não tinha muito claro para mim.
Sim, todo mundo sente inveja (por isso não engulo esse falso pudor de quem se diz invejado). Ninguém progride na vida sem ter invejado primeiro. E todo mundo é invejado por alguém. Como diz um trecho do poema "Desiderata", se a gente se compara, vai ficar vaidoso ou amargo, porque sempre haverá gente em pior e em melhor condição.
E digo mais: inveja só penetra com força em terreno mal cuidado. Você se intoxica menos pela potência do outro e mais pela sua própria vulnerabilidade.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
"Só os egoístas sobrevivem"
Ouvi essa frase da psicóloga do Barcelona. Claro, fiquei chocada. Hoje em dia acho que a mulher entende dos paranauês.
Se você não se prioriza, não foca nos seus projetos, vai viver uma vida paupérrima. Os outros, mais egoístas, vão te cooptar para os problemas deles, sem dar nada em troca e sem nunca mudar (e é pra isso que a gente ajuda, né? Esperamos por mudanças que nunca vêm). Não vale a pena. Mas toda a ladainha social diz o contrário. Olha, quem vai nessa é coelho!...
Quando a gente se volta pra gente, não no sentido de se isolar, mas de centrar na gente mesma, as coisas melhoram. Os Três Porquinhos philosophy: casa bem construída Lobo Mau não derruba.












