"Sou uma ótima dona de casa: sempre que me divorcio, eu fico com a casa!"
(Zsa Zsa Gabor, atriz húngara)
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Frase da Semana
Os meninos da quadra
Olha, eu não conheço os meninos da vila, mas daqui da minha janela, vejo um bando de meninos boleiros, todos os dias. Todos os dias mesmo. Faça chuva ou faça sol, até em feriado, vejo-os, da janela do meu quarto, dando o sangue na pelada (por isso, brinco que essa quadra é a ala vip da Febem! hahaha).
Hoje deve estar havendo algo de importante pra essa garotada, algum campeonato ou alguma peneira (note que a arquibancada está preenchida).
Ê, como é bom ser criança!... Tudo é festa nessa idade... Mas, por outro lado, como brinca Medrado, eu não queria voltar de jeito algum a estudar o cateto da hipotenusa. rsrsrs
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Essa tal de assessoria de imprensa
A assessoria de imprensa é anti-jornalismo. No começo, essa ideia era apenas uma suspeita; hoje, é certeza. Esse cargo ficaria melhor na mão de publicitários e RPs, enfim, de gente habilidosa em vender (da série "Coisas que nunca diria, assim, para profissionais concorrentes").
Não que o jornalista de redação não faça isso. Jornalismo é imparcialidade e objetividade, certo? Mas quando um jornalista pega uma pauta, geralmente ele constrói a matéria com um dos lados da balança mais baixo que o outro (isso fica bem visível, por exemplo, em alguns pedidos de fontes que vejo no Twitter). Ainda assim é raro ver alguém distorcendo fatos em uma redação. Já na assessoria...
Não quero dizer com isso que jornalistas de redação sejam mais éticos. A questão é a própria natureza do trabalho, mesmo. Se fosse só vender, como disse um pouco atrás, até que estava bom, mas muitas vezes o assessor se vê obrigado a "jogar para ver se cola".
Sim, porque já foi o tempo em que "o cliente tem sempre razão". Estava outro dia almoçando com uma colega advogada e ela falava que, atualmente, algumas empresas não se importam de iludir o consumidor se o custo disso for menor que dizer a verdade. Sobra para o departamento jurídico e também para o de comunicação limpar a sujeirada.
É esse o meu ponto: estão reduzindo o assessor, que é um cargo bacana, a uma espécie de gari(apesar de reconhecer que não levo muito jeito para isso, admiro quem leva. Há que ser um bom estrategista e é preciso ser bem articulado, também, para exercer tal função. Um dos meus ex-chefes é um exímio assessor; eu ficava impressionada vendo-o com a imprensa).
Vai ver foi sempre assim nessa atividade, e agora é mais visível, apenas. E, sim, é óbvio que quanto menor é a empresa/organização menos pressões desse tipo sofre o assessor de imprensa. Fico tão confusa com isso quanto quando penso que promotores de justiça e criminalistas são "servos" da mesma lei.
Acho que deveríamos pensar mais sobre isso, inclusive com a mediação dos sindicatos. O pessoal costuma debater o que se passa na redação e esquece-se do mundo das assessorias.
Acho que deveríamos pensar mais sobre isso, inclusive com a mediação dos sindicatos. O pessoal costuma debater o que se passa na redação e esquece-se do mundo das assessorias.
OBSIMP Acabei de ver a seguinte manchete em Veja: "A Força do Capim Talismo". Será que dá realmente pra brincar um pouco ou o jornalismo deve ser sério mesmo? Um título criativo é mais que bem-vindo, mas tenho minhas dúvidas quanto a esse tipo de trocadilho barato.
DROPS! Num final de expediente desses, resolvi espantar o tédio assistindo "Rent" no Youtube. A peça se passa na Nova Iorque dos anos 80, e os personagens são basicamente gays e drogados. Pensei, cá com os meus botões, que a peça poderia perfeitamente ser ambientada no Pelourinho. Mas daí teríamos que acrescentar um personagem a mais: o ladrão. :P
Casamento de Ticiana
Aí, Galba, as fotos do casamento ao qual você NÃO FOI! hahahaha
("Um oferecimento da comunidade ´Irritar também é carinho´")
("Um oferecimento da comunidade ´Irritar também é carinho´")
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Estupidez mútua
Outro dia estava assistindo a um programa na TV - A Liga, se não me engano -, no qual vi o Rafa Bastos conversando com um sujeito metrossexual, que estava saindo sábado à tarde de casa rumo ao salão. Chegando lá, gastou uma fortuna com limpeza de pele, sobrancelha, hidratação e etc (pra continuar igualmente horroroso, vale dizer). Fiquei desesperada ao ver aquilo. "Meus Deus, que cara burro! Uma das vantagens de ser homem é justamente estar livre de salão de beleza!..."
Mas daí fiquei refletindo, refletindo (zzzz...), e percebi que a metrossexualidade nada mais é do que o resultado de uma roda da estupidez envolvendo os 2 sexos: as mulheres começaram a achar bacana abordar os homens como eles faziam até então com elas, pois isso lhes dá poder, mas esquecem que, acima disso, passaram mesmo é a prestar um grande serviço para a ala masculina, que não precisa mais se esforçar muito para conseguir mulher. Os homens por sua vez, agora que são assediados, estão se preocupando consideravelmente mais com o visual do que costumavam fazer. Conclusão: ambos arrumaram mais sarna pra se coçar que qualquer outra coisa. Mas a mulherada foi mais burra. Por um nariz, eles ainda ganham vantagem nesse placar. Afinal, além de nos preocuparmos com a aparência, agora temos que lidar com a preguiça masculina (gerada pela tal "mulher de atitude") e ir à caça.
(Oh, Deus, na próxima encarnação me faça em forma de girafa, viu?)
What ever happened to Javier Bardem?
Meu Deus, o que está acontecendo a Javier Bardem? De uma hora para outra, virou um bobo.
O cara, que até há pouco tempo era o Johnny Depp do cinema independente, ficou mais comercial que Coca-Cola - seu último filme é baseado no best-seller e a co-estrela é ninguém menos que Julia Roberts. Por último, andou declarando "coisas inapropriadas" a respeito de Brad Pitt - só faltou chamar de "gostoso". Assim não dá!
Eu sei o que anda acontecendo com ele: Penelope Cruz.
Achei ridículo culparem a Sara Carbonaro pelo fracasso do time da Espanha na 1ª fase da Copa, mas nesse caso de Javier, é Penelope, sim! Ela está arrastando o agora marido para a lama. Ela é quase uma Yoko.
(Julita, agora eu sei que você sempre teve razão!)
O cara, que até há pouco tempo era o Johnny Depp do cinema independente, ficou mais comercial que Coca-Cola - seu último filme é baseado no best-seller e a co-estrela é ninguém menos que Julia Roberts. Por último, andou declarando "coisas inapropriadas" a respeito de Brad Pitt - só faltou chamar de "gostoso". Assim não dá!
Eu sei o que anda acontecendo com ele: Penelope Cruz.
Achei ridículo culparem a Sara Carbonaro pelo fracasso do time da Espanha na 1ª fase da Copa, mas nesse caso de Javier, é Penelope, sim! Ela está arrastando o agora marido para a lama. Ela é quase uma Yoko.
(Julita, agora eu sei que você sempre teve razão!)
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Mothern*
Quando era criança, existiam basicamente dois tipos de mães: as que trabalhavam e as que eram donas-de-casa. As primeiras formavam um grupo menor, até por ser recente, mas não menos expressivo na sociedade.
O engraçado é que as duas turmas não se estranhavam como agora. Estar em casa ou trabalhar eram opções de vida. Não, não. Minto: as mães que trabalhavam eram um pouquinho mal-vistas, sim. O respeito que se tinha pela mãe trabalhadora era mais por dever que por apreço, propriamente. Além do "abandono" aos filhos, essas mulheres eram, não raramente, também sinônimo de escolhas amorosas ruins: ou se casaram mal ou "se perderam" com um qualquer. Naquela época, os homens de classe média ganhavam bem, então das três, uma: ou o marido da mãe trabalhadora não ganhava o suficiente para sustentar a família; ou ela era mãe solteira e tinha que correr atrás do dinheiro sozinha; ou ela era apenas uma (jovem) metida a moderna que entregava os filhos nas mãos da empregada em nome do capricho de ter uma carreira.
Lembro de um loirinho, vizinho de quadra, filho único de uma mãe solteira. O garoto passava a tarde inteira a nos espiar brincando, pela grade da janela. A cena por vezes nos causava mal-estar. Para a quadra inteira, no fundo, a mãe daquela criança era uma desalmada. As mães em tempo integral faziam comentários à boca pequena: "Tadinho! Fica preso que nem um passarinho na gaiola. Pra que pôr filho no mundo, meu Deus?", lamentavam.
No íntimo, as mães trabalhadoras também tinham as críticas delas às donas-de-casa. Na infância, já presenciei insinuações - discretas, é verdade - de que essas seriam mulheres acomodadas na vida e submissas aos maridos. Mas ninguém ousava falar isso abertamente, até porque as que olhavam torto para elas eram filhas de mulheres iguais, e isso garantia algum respeito pela condição de mãe em tempo integral.
Imune a essa rixa velada, somente as professoras. Talvez porque, apesar de trabalharem fora de casa, assumissem ainda assim uma função maternal, tipicamente feminina.
Esse quadro mudou bastante nos últimos 20 anos. Hoje em dia, é difícil convencer uma mulher a cuidar dos filhos em casa. Mais difícil ainda é convencer as pessoas em volta dela quando esse desejo surge na mulher que se tornou mãe.
Em um mundo que exige cada vez mais produtividade, é duro explicar à sociedade o desejo de "parar" - sim, com aspas, porque filho também é uma produção e das mais importantes e trabalhosas. É complexo, nessa sociedade que prega o individualismo, explicar aos outros que alguém seja tão importante para você quanto você mesmo. Isso só emociona as pessoas quando está no papel ou quando é dito da boca para fora. Se posto em prática, ganha os rótulos da preguiça e da submissão.
Talvez esse conflito feminino não existisse se vivêssemos em um sistema mais humano.
Na Suécia, por exemplo, o pai pode tirar dois anos de licença para curtir a cria, sem retaliações no mercado de trabalho. Isso não ocorre de jeito algum no Brasil. Mas será que, se assim fosse, o brasileiro usaria essa licença para cuidar dos filhos? A própria Suécia demorou até convencer os seus homens e mulheres da importância dos cuidados paternos nos primeiros anos de vida da criança. A persistência do Estado gerou bons frutos, e hoje é comum ver naquele país os homens em cenas com os filhos que até há pouco tempo eram exclusivamente privativas das mulheres. O que antes era encarado com uma inferiorização, hoje é visto como o direito legítimo de estabelecer um vínculo com o bebê e uma tarefa de suma importância na vida de homens e mulheres.
Na Suécia, por exemplo, o pai pode tirar dois anos de licença para curtir a cria, sem retaliações no mercado de trabalho. Isso não ocorre de jeito algum no Brasil. Mas será que, se assim fosse, o brasileiro usaria essa licença para cuidar dos filhos? A própria Suécia demorou até convencer os seus homens e mulheres da importância dos cuidados paternos nos primeiros anos de vida da criança. A persistência do Estado gerou bons frutos, e hoje é comum ver naquele país os homens em cenas com os filhos que até há pouco tempo eram exclusivamente privativas das mulheres. O que antes era encarado com uma inferiorização, hoje é visto como o direito legítimo de estabelecer um vínculo com o bebê e uma tarefa de suma importância na vida de homens e mulheres.
Penso que todo mundo, antes de ter um filho, deveria se perguntar se por este ser humano que vai botar no mundo seria capaz de ficar até dois anos sem esquentar o traseiro em uma cadeira de escritório - mesmo que isso estivesse fora dos planos. Sim, ter filhos é renunciar a um pedaço da sua liberdade, mas parece que uma parte das pessoas anda desavisada disso ultimamente.
Essa renúncia é maior no caso das mães que optam por estender a assistência aos pequenos depois dos quatro meses de licença. Uma boa dose de ansiedade deve acompanhar tal decisão, que, em alguns momentos, pode se tornar uma escolha difícil de administrar internamente. Cuidar de uma criança é um trabalho braçal, repetitivo e por vezes monótono. Creio que, frequentemente, a mãe deve achar que está levando uma vida mais pobre que a das mães que trabalham. Isso sem contar a ansiedade em relação ao futuro, ao que pode acontecer quando as crianças crescerem e você tiver que "voltar ao mundo real". Não penso que essa seja uma decisão simples e confortável como muitos a consideram. É muito idealismo na veia.
Essa renúncia é maior no caso das mães que optam por estender a assistência aos pequenos depois dos quatro meses de licença. Uma boa dose de ansiedade deve acompanhar tal decisão, que, em alguns momentos, pode se tornar uma escolha difícil de administrar internamente. Cuidar de uma criança é um trabalho braçal, repetitivo e por vezes monótono. Creio que, frequentemente, a mãe deve achar que está levando uma vida mais pobre que a das mães que trabalham. Isso sem contar a ansiedade em relação ao futuro, ao que pode acontecer quando as crianças crescerem e você tiver que "voltar ao mundo real". Não penso que essa seja uma decisão simples e confortável como muitos a consideram. É muito idealismo na veia.
Confesso que gostaria de ficar integralmente com os meus filhos no primeiro ano de vida deles e que acharia perfeito se pudesse, ainda, trabalhar um turno só (ou menos de 8 horas) até que o mais velho completasse sete anos. Ficaria muito mais sossegada se pudesse garantir que saberiam gritar por socorro, ler a embalagem dos produtos da despensa ou ligar para os bombeiros, antes de voltar a assumir uma jornada integral de trabalho (risos). Com quatro meses de vida, dá uma pena danada de deixar um bichinho indefeso desses nas mãos dos outros. Mas sei que, a não ser que case com um homem que ganhe muito dinheiro ou arranje um emprego privilegiado, isso não vai ocorrer. Nessas horas, me consolo pensando em um grupo que está numa situação zilhões de vezes pior: as mulheres de baixa-renda, que muitas vezes largam os próprios filhos para cuidar das crianças dos outros (esse quadro só não é mais deprimente porque as abençoadas avós salvam a pátria dos netos abandonados em nome da necessidade).
Um amigo meu - pessoa muito inteligente cuja opinião considero bastante - é professor do ginásio em um conceituado colégio particular do Rio de Janeiro. Ele, outro dia, me contou algo que já desconfiava acontecer nas escolas brasileiras: os alunos chegam ao colégio com uma pobre base familiar (pais ausentes, que não têm paciência para educar os filhos e basicamente se preocupam em proporcionar conforto material a prole) e muito sabichões devido a internet. A escola, diante disso, fica de mãos e pés atados. Enfim, a juventude de hoje está absolutamente entregue a própria sorte, à deriva em um mar de informações e de pressões do seu grupo etário. Que sociedade vamos formar desse jeito?
Um amigo meu - pessoa muito inteligente cuja opinião considero bastante - é professor do ginásio em um conceituado colégio particular do Rio de Janeiro. Ele, outro dia, me contou algo que já desconfiava acontecer nas escolas brasileiras: os alunos chegam ao colégio com uma pobre base familiar (pais ausentes, que não têm paciência para educar os filhos e basicamente se preocupam em proporcionar conforto material a prole) e muito sabichões devido a internet. A escola, diante disso, fica de mãos e pés atados. Enfim, a juventude de hoje está absolutamente entregue a própria sorte, à deriva em um mar de informações e de pressões do seu grupo etário. Que sociedade vamos formar desse jeito?
Além do fator sociedade, existe ainda o afetivo. As pessoas esquecem de um detalhe fundamental nessa história toda: são nesses primeiros sete anos que as conquistas mais importantes da criança acontecem. Nunca mais esses momentos vão se repetir.
O que me deixa quase tão triste quanto saber que vou ser mais uma mãe trabalhadora a largar os pimpolhos em casa, é saber que, mesmo que pudesse abrir mão de trabalhar (tanto) durante a infância dos meus filhos, seria discriminada por essa escolha. Adquirimos direitos que nos tiraram outros direitos, mas estamos na ilusão de que não perdemos nada. Isso é perigoso. Precisamos rever o que realmente vale a pena na vida de um ser humano; e mais: precisamos investigar esse conceito contemporâneo de liberdade, que a muitos tem deixado aprisionados e infelizes. Precisamos garantir que efetivamente as pessoas tenham o direito de escolha.
* Mothern - mãe moderna
terça-feira, 27 de julho de 2010
Frase da Semana
"... mas, doutor, uma esmola para um homem que é são, ou o mata de vergonha ou vicia o cidadão."
(Luiz Gonzaga)
(Luiz Gonzaga)
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Por quê?
Onde nascem as almas? Por que Deus nos criou?
Sempre pensei nisso. E tanto nos dizem sobre energia, alma, reencarnação, etc, mas até agora ninguém me ofereceu essas respostas.
Cadê minha gurua cineasta, nessa hora, pra "iluminar" as minhas idéias? :P
Sempre pensei nisso. E tanto nos dizem sobre energia, alma, reencarnação, etc, mas até agora ninguém me ofereceu essas respostas.
Cadê minha gurua cineasta, nessa hora, pra "iluminar" as minhas idéias? :P
"Situação ridícula"
Pra quem não soube ainda (impossível, mas vá lá), Massa, que estava liderando o GP de ontem, passou a liderança ao colega Fernando Alonso, por "sugestão" da Ferrari, a equipe para qual ambos trabalham. Entendo a situação do piloto brasileiro e até mesmo o pedido da equipe italiana, mas, pô, que situação deprimente.
Fiquei pensando se um Piquet ou um Ayrton Senna da vida se sujeitaria a isso, e duvido muito. "No way!" (adoro essa expressão americana!hehe) Os atuais pilotos brasileiros podem ter até talento equivalente ao dos que os antecederam, mas falta garra, fome de vitória, espírito de campeão.
Onde foram parar os homens de atitude deste Brasil, meu Deus! :(
terça-feira, 20 de julho de 2010
6 amigas que toda mulher deveria ter
Regina Valadares
Fonte: Revista CLAUDIA
A que diz verdades, a que coloca você para cima, a que gosta de fazer compras... Há amigas de todos os jeitos e todas são bem-vindas. Mas com este mix você faz a festa e pode se considerar a pessoa mais sortuda do mundo!
AMIGA QUE DIZ A VERDADE
1. É aquela que interrompe o seu discurso cheio de razão, olha bem nos seus olhos e diz: "Não, você não está certa". Sem meias palavras, mostra um ângulo da questão que não era óbvio e pronto: você ouve os argumentos e acaba reconsiderando. Porque, quase sempre,ela tem razão. De vez em quando vocês se estranham, mas logo passa. Afinal, não é qualquer pessoa que está falando. Márcia Torvelo, economista, sabe muito bem a quem recorrer quando quer ouvir a verdade. "Se me sinto injustiçada, procuro aquela amiga que não vai concordar comigo só para me agradar. Muitas vezes fico arrasada com o que ouço, mas estabelecemos uma relação de confiança tão grande que ela tem a liberdade de me dizer coisas que outras pessoas não ousariam." Para questões menos graves, essa amiga é igualmente eficaz. Quer saber se o novo corte de cabelo ficou bom? Pergunte a ela. Detalhe: amiga que diz verdades também é capaz de ouvir verdades. Isso lhe dá o mesmo direito de ser absolutamente sincera com ela. Afinal, amiga é para essas coisas.
AMIGA CHEIA DE SABEDORIA
2. Ela conhece uma taróloga ótima, freqüenta um massagista japonês e entende um pouco de astrologia, numerologia, I Ching e cabala. Se bobear, tem ainda linha direta com Deus. Acredita que o que fazemos com o outro volta para a gente e que tudo pode dar certo se quisermos de verdade. Essa amiga realmente tem fé na energia cósmica e passa essa certeza para você. Por isso, quando sente que está pessimista, a pediatra Alice Pedroso recorre a sua amiga zen. "Sei que ela vai pegar o meu mapa e descobrir qual quadratura de astros está me deixando assim. Só conversar com ela já me tranqüiliza." Mesmo sem entender bem o que significa "entregar para o Universo", você segue seus conselhos: toma um banho de sal grosso, pinga algumas gotinhas de lavanda no lençol e vai dormir. E não é que no dia seguinte você acorda melhor?
AMIGA QUE É SUPERPRÁTICA
3. Ela sempre lembra de alguém que pode quebrar o seu galho, seja um contato de trabalho, um candidato a namorado ou uma ótima costureira. Prática por natureza e generosa por vocação, ela tem expediente e adora adotar uma alma perdida. Não sabe a que médico ir? Ela indica. Precisa organizar uma festa? Ela conhece os melhores fornecedores. Está em dúvida sobre o que escolher no cardápio do restaurante? Ela decide por você. É um pouco mandona, mas deixe claro quando não desejar sua interferência e nunca terá problemas com ela. Essa amiga quer sinceramente que você seja feliz e não poupa esforços para ajudá-la. Para melhorar o clima do seu casamento, é capaz de pegar seus filhos no fim de semana só para deixar os pombinhos sozinhos. Mas atenção: essa boa samaritana não suporta a ingratidão. Tudo que espera de você (e ela merece!) é reconhecimento. Então, agradeça, agradeça, agradeça.
AMIGA QUE LEVANTA A AUTO-ESTIMA
4. Ao menor sinal de abatimento, ela entra em ação. Lembra todas as suas conquistas, enumera suas qualidades e só falta dar uma salva de palmas para animá-la. Se percebe que você está preocupada com grana, oferece dinheiro emprestado antes de você pedir. Se acha que está triste, marca uma tarde no cabeleireiro para as duas. Sempre olha a metade do copo que está cheia e tem o dom de fazê-la sentir-se querida e admirada. Se você encerrou um relacionamento ou acaba de ser demitida, convoque-a. Como um espelho, ela devolve a sua melhor imagem: a de uma pessoa que ela admira e que, se não existisse, deixaria o mundo bem sem graça.
AMIGA DE BALADA
5. Se o forte das suas outras amigas é conversar, essa prefere ação. Uma festa a fantasia, uma noitada sem hora para acabar, uma viagem bate-e-volta... Como uma adolescente, esbanja disposição para fazer coisas, não importa muito o que nem a que horas. O tempo que passam juntas é só lazer. Esqueça crises ou inseguranças - esses assuntos são da seara de outra amiga. Essa é parceira de balada. É ela que inventa uma festa-surpresa no seu aniversário, se oferece para organizar o amigo-secreto do fim do ano e fica horas na fila para comprar ingressos para o show da sua banda preferida. Tudo o que você curte ela curte também. Assim, estão fadadas a se divertir muito, sempre. Quer companhia melhor que essa?
AMIGA FANÁTICA POR COMPRAS
6. Para ela, fazer compras é uma festa. Está sempre pronta para conhecer uma loja nova, não importa se fica numa ruazinha escondida lá no fim do mundo. Endereços descolados são a sua especialidade. E adora companhia para bater perna e consumir, seja na Daslu, seja na feirinha hippie. Sem preconceito. E jamais, em hipótese alguma, perde a paciência numa liquidação. Tem olho clínico para achar peças maravilhosas no meio de tranqueira e divide seus achados de bom grado com as amigas. Não vai se incomodar se você levar horas experimentando mil sapatos para no fim escolher mais uma bota. Mesmo sabendo que você já tem três pares, ela não a recrimina. Fica solidária com a sua súbita paixão pelo novo modelo e endossa a escolha repetindo que a bota ficou o máximo. "É a sua cara", diz, animada, deixando você ainda mais feliz.
domingo, 18 de julho de 2010
Arroz com feijão também é bom!
Ontem, para a minha surpresa, passou "Harry e Sally" na tv. Peguei do comecinho e me deliciei com a comédia romântica protagonizada por Meg Ryan e Billy Cristal (roteiro perfeito!... ). Nem parecia que já tinha assistido aquilo zilhões de vezes. Desfrutei muito mais do filme do que há 15 anos atrás. Vi outras coisas nele que anteriormente não havia percebido. Talvez isso tenha acontecido porque outra pessoa estava ali, diante da tela, e não a menina de 12, 15, 17, 21 anos.
(Uma vez, quando eu era adolescente, meu pai me perguntou pra que gastava meu dinheiro comprando livros, se só apresentam novidade até terminá-los. Acho que vou apresentar esse argumento a ele.)
Falem o que quiserem, mas uma boa comédia romântica tem o seu valor. Ô!...
Cegonha workaholic
Ano agitado para a cegonha! Meses de muita (re)produção para os coleguinhas de 2000.1.
Em março, nasceu Maria, de Luciana.
Quinta passada (15/7) nasceu Tales, de Jorginho.
Está para chegar, a qualquer momento, Camilinha, de Luize (ou melhor, da irmã de Luize... ainda assim, é de Luize).
Don já encomendou mais um(a).
Só falta dona Elen, que vai casar dia 6 de agosto, aparecer grávida também daqui a algumas semanas.
Em março, nasceu Maria, de Luciana.
Quinta passada (15/7) nasceu Tales, de Jorginho.
Está para chegar, a qualquer momento, Camilinha, de Luize (ou melhor, da irmã de Luize... ainda assim, é de Luize).
Don já encomendou mais um(a).
Só falta dona Elen, que vai casar dia 6 de agosto, aparecer grávida também daqui a algumas semanas.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Frase da Semana
Kundera e Martha Medeiros deveriam se casar!
Estava apaixonado por seu próprio destino e sua caminhada para a ruína parecia-lhe nobre e bela. Compreendam-me bem: eu não disse que ele estava apaixonado por si mesmo, mas por seu destino. São duas coisas totalmente diferentes. [...] É assim que, na minha opinião, a vida se transforma em destino. O destino não tem intenção de levantar nem ao menos o dedo mindinho por Mirek [...]. enquanto Mirek está pronto a fazer tudo por seu destino."
(Milan Kundera, "O Livro do Riso e do Esquecimento")
domingo, 11 de julho de 2010
Sobre o caso Eliza Samudio
Estou sem tempo de fazer aquele discurso de costume sobre esse episódio, mas 3 considerações não posso deixar de registrar aqui:
1) É um absurdo que, em pleno século 21, "a movimentação da perseguida" de uma mulher seja a única medida do seu valor. Entre os disse-que-disses dessa história, disseram que Eliza deu queixa na polícia sobre as ameaças de Bruno, mas que nem ligaram por se tratar de uma atriz de filme pornô. Por ser promíscua ela merece morrer? Policial tem que trabalhar, ora. Ok, preconceito é algo que todo mundo tem (quem disser que não estará mentindo ou se enganando), mas isso não dá a ninguém o direito de exercê-lo.
2) A mulherada, que anda muito metida a retada, precisa ficar mais esperta. Uma coisa é a teoria; outra é a realidade. Em tese, eu deveria poder andar pelas ruas usando ouro; na prática, se fizer isso, voltarei pra casa sem minhas jóias e quiçá bem machucada por algum pivete que tentará arrancá-las. Cabe a mim ser prudente e evitar ameaças a minha própria integridade, não?
Bruno deu a entender que é um sujeito perigoso; antes do crime, várias vezes ele a ameaçou. Por que Eliza continou a bancar a cri cri? Por que não se afastou desse psico e foi cuidar da vida? A gente tem que se meter com um adversário compatível. Brigar com quem não usa as mesmas armas é burrice. Ele tinha um monte de gente em torno dele; ela era uma mulher sem poder e sozinha. Era evidente quem sairia perdendo nessa "queda de braços" (às vezes, perder é na verdade ganhar e, a bem da verdade, uma hora cada um tem o que merece; Deus não precisa da gente para exercer a justiça).
Bruno deu a entender que é um sujeito perigoso; antes do crime, várias vezes ele a ameaçou. Por que Eliza continou a bancar a cri cri? Por que não se afastou desse psico e foi cuidar da vida? A gente tem que se meter com um adversário compatível. Brigar com quem não usa as mesmas armas é burrice. Ele tinha um monte de gente em torno dele; ela era uma mulher sem poder e sozinha. Era evidente quem sairia perdendo nessa "queda de braços" (às vezes, perder é na verdade ganhar e, a bem da verdade, uma hora cada um tem o que merece; Deus não precisa da gente para exercer a justiça).
As pessoas precisam ter em mente que a lei não cobre toda a extensão da maldade humana; na melhor das hipóteses, a pune. Cabia a ela ter "se tirado de problema". Se uma alma caridosa não tivesse denunciado o caso, a morte de Eliza teria passado em branco. A moça, sem dúvida, foi vítima, também, da sua própria imprudência.
3) Uma boa base familiar faz falta. Essa é a uma lição que podemos tirar, sem dúvidas, desse episódio. Quanto ao futebol, está mais que evidente após esse caso, o de Adriano e a namorada no baile funk e o de Felipe Melo na Copa, que esses caras chegam ao sucesso altamente despreparados emocionalmente. Os clubes precisam investir em acompanhamento psicológico, urgentemente!
Nessa história toda, fiquei com muita pena do bebê Bruninho. Coitado, não tem um parente decente com quem possa ficar. E ainda vai ser apontado na escola como o filho do goleiro assassino. É hard, viu!
Ser Feliz Por Nada
Martha Medeiros
Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.
Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.
Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo?
Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. “Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?
Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo?
Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Frase da Semana
Que, na verdade, é um pensamento de meu bróder Jorge Negão (preciso parar de andar com esse povo de publicidade, ou vou acabar incorporando esse vocabulário de surfista! hehehe):
Eu adoro cheiro de maçã do amor.
Mas detesto o gosto.
A casca é tão doce, tão doce, que a maçã fica amarga.
Deve ser por isso que chamam de maçã do amor.
Afinal, irônica é a natureza humana.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Fragmentos sobre o amor
À luz da psicologia (de alguns)
Tenho ouvido alguns psicólogos decretando o fim do amor romântico em um futuro próximo. Acho plausível que, como ouvi de alguém, o amor caminhe do ideal (ou melhor, utopia) de fusão para o da união entre duas pessoas que se amam. Além de desejarem um relacionamento, as pessoas desejarão manter a individualidade.
Penso que uniões formais como o casamento estão com os dias contados. Só não creio que a coisa vá descambar para o oba-oba que alguns pregam por aí. Lógico que, na "fauna humana", sempre se verá de tudo um pouco, mas duvido que swings, relacionamentos a 3 ou mesmo relacionamentos abertos serão a tônica do futuro.
Tenho ouvido alguns psicólogos decretando o fim do amor romântico em um futuro próximo. Acho plausível que, como ouvi de alguém, o amor caminhe do ideal (ou melhor, utopia) de fusão para o da união entre duas pessoas que se amam. Além de desejarem um relacionamento, as pessoas desejarão manter a individualidade.
Penso que uniões formais como o casamento estão com os dias contados. Só não creio que a coisa vá descambar para o oba-oba que alguns pregam por aí. Lógico que, na "fauna humana", sempre se verá de tudo um pouco, mas duvido que swings, relacionamentos a 3 ou mesmo relacionamentos abertos serão a tônica do futuro.
O ciúme, por exemplo, é um instinto animal; deve-se trazer esse cavalo na rédea curta, claro, mas ele nunca será extinto das relações humanas. A gente sente ciúme de um objeto, não vai sentir do par? Aliás, um dia desses vou recomendar a uma certa psicoterapeuta que dê uma olhadinha no Animal Channel antes de fazer algumas afirmações pretensiosas sobre os relacionamentos afetivos humanos. hehehe... Essa mesma psicóloga costuma dizer que as pessoas traem só porque é bom variar. Teoria muito conveniente e simplista (e que deve lhe render vários fãs). Claro que nem toda traição implica em falta de amor, mas é claro também que se uma relação é saudável, ela não abre brechas para um terceiro. A pessoa, quando está realmente envolvida com seu par, não consegue achar graça em ninguém mais (quem já viveu a experiência bem sabe).
Dizer que o ser humano trai porque gosta de variar é até superestimar a raça, que age muito mais por covardia que por curiosidade. Em um caso como esse, de um modo geral o traidor não está satisfeito com o que tem, mas está sem coragem de abandonar o conforto do barco. E, cá entre nós, mesmo em uma situação de traição na qual não houve realmente perfídia e é até possível ao traído compreender o traidor, é inevitável a desagradável sensação de soco no estômago de saber que há um outro despertando a atenção do seu par ou, em último caso, que foi enganado por alguém em quem confiava. Acho que não há civilização que supere esse drama milenar da humanidade, sinceramente.
Razão x Emoção
A razão deve ser incluída nessa equação do amor. Sentimento sem razão (e vice-versa) pode ser muito desastroso; no mínimo, é um sinal de imaturidade. Quem se deixa levar só pelo sentimento não ama mais, de jeito algum (assim como nem sempre o sofrimento que vem com o rompimento da relação é porque ainda se ama o ex).
Ainda assim, não acho que vai ser se apoiando exclusivamente na razão que a humanidade será mais feliz em seus relacionamentos. É como eu sempre digo: certas coisas são extremamente compreensíveis, "ajeitadinhas", quando as observamos na mente, mas têm proporções muito maiores quando vistas do ponto de vista emocional. E digo mais: essa zona de conforto não gera crescimento. É na dor que a gente mais evolui, não tem para onde correr. Acho que a sabedoria está em, além de dosar razão e emoção, escolher quando vale a pena entrar em uma situação de desconforto. Já dizia o poeta: "Morrer não dói" (embora seja inviável viver assim o tempo todo). Além do mais, certas emoções, se não são "gastas", trazem problemas do mesmo jeito.
Antes e Agora
Não acho que as novas gerações sejam muito distintas das anteriores. Mudou-se uma coisa aqui, melhorou-se outra acolá, mas continuamos oprimidos. Mulheres continuam submissas ao modelo masculino (essa "liberdade sexual" não trouxe um caminho próprio; é cópia do comportamento dos machos), gays ainda são hostilizados, quem não prioriza a vida sexual é mal visto, os travestis ainda vivem em guetos, enfim, ainda estamos longe de vivermos em liberdade. Entendo como liberdade o direito de cada um viver como quiser, por mais inusitada que seja a escolha. Repito: estamos muito longe disso.
Não acho, também, que as gerações anteriores saíram no prejuízo. Os nossos avós sabiam dar um jeitinho. Uma vez, ouvi de um professor já sexagenário que seus pais se encontravam depois do horário de namoro "oficial" na sala de casa. Ela ia "dormir" e ele, "voltava para casa", mas, na verdade, ela esperava todo mundo da casa dormir e ele parava no meio do caminho esperando ela chegar e o namoro mais quente acontecia sem que ninguém se desse conta.
Amor é um sentimento mais elevado, calmo e consistente. Até que ponto é mérito? Até que ponto é sorte? (particularmente acho que a sorte vem do mérito, mas...). Sei não, apenas creio que é uma experiência para poucos.
Mesmo aqueles casais que admiramos por terem tido uma trajetória duradoura podem ser uma fraude. Muitos ficaram na relação por covardia, por convenção. Ainda entre aqueles que viveram um amor duradouro, no fim, pelo que tenho observado, tudo vira uma sólida amizade. E isso não significa pouca coisa!
Pessoalmente, sempre considerei a amizade a relação mais preciosa que uma pessoa pode desenvolver. A família vai ter que te aguentar (e vice-versa) de qualquer jeito. No romance, há o interesse físico em jogo. O afeto da amizade não tem nenhum interesse ou obrigação; é puro gostar. Por isso é tão especial ter um grande amigo.
Toda boa relação, em minha opinião, tem como base uma sólida amizade, uma grande parceria. Só atração física não segura um casal junto.
Tia Lourdes foi (mal) casada por 40 anos com tio Vadinho. Sempre risonha, pensávamos que, de algum modo, ela devia ser feliz com ele, apesar de se tratar de um homem difícil. Um dia, algum tempo depois que o tio havia falecido, a encontramos toda-toda, no meio de rua, com uma aparência bem mais jovem (influência das roupas mais alegres), inclusive. Estranhamos o visual. E o mais espetacular: a tia estava de carro zero, havia tirado carteira. Foi um choque, mas não mais do que escutamos dela sentada em nosso sofá. A viúva revelou que o falecimento do marido foi algo bom que lhe acontecera. Disse ainda que "a melhor coisa da vida é a liberdade da gente". E, pasme!, essa senhora, testemunha de jeová há anos, nos contou que estava namorando um homem 30 anos mais jovem. Maravilha! hahaha
É, como cantava Los Hermanos, "e ninguém dirá que é tarde demais".
Também acredito em uma segunda chance para aqueles que viviam de maneira "torta", isto é, quando se apaixonam de verdade. Amor (mais uma vez, não confundir com empolgação/paixão) pode transformar, sim, as pessoas.
Por que(m) se apaixona?
Há quem diga que os grandes amores acontecem até os 12 anos (quem diz isso é Nelson, e penso que há certo fundamento). Ouvi dizer, algumas vezes, que a gente ama projetando aquele nosso lado menos desenvolvido no outro (por isso é comum um tímido se apaixonar pelo extrovertido e vice-versa; há quem diga que esse tipo de projeção revela complexo de inferioridade. vá saber!). Já li, inclusive, que é uma questão de topar com um sistema imunológico complementar ao seu (teoria pouco romântica, mas até que faz sentido. "Baby, com o seu sistema imunológico e o meu, seremos imbatíveis contra os vírus e germes!"). Segundo a astrologia, homens procuram a vênus de seu mapa e as mulheres, o seu marte. Mas a teoria para a qual venho encontrando mais comprovação é a de que nos apaixonamos por quem nos lembra o nosso pai (no caso das mulheres) ou a nossa mãe (no caso dos homens). Na mulherada, então, a teoria cai muito bem... Geralmente nossos afetos atuais repetem as vivências com afetos passados.
Acho que cabe aqui aquela máxima de Jung: "O que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino."
Achava que isso ia fazer parar a saudade da outra que faleceu. Ledo e ivo engano. Além de não substituir, ainda faz você se lembrar mais.
Enfim, um afeto não substitui o outro. Cada pessoa, cada história, é única.
Superstição minha, que ninguém precisa, obviamente, compartilhar: tudo que é forçado não dá bom resultado. Lógico que nem sempre me foi possível segui-la (e quando isso não aconteceu, me dei mal. :(). A boa notícia é que tudo vale a pena, mesmo quando dá tudo errado, "se a (sua) alma não é pequena". "Whatever works", como diz Woody Allen. Mas procuro respeitar a mim mesma e a vida, pois assim, creio, ela me abençoa.
Penso realmente que, nessas coisas do coração, não tem que procurar ou pra quê forçar os acontecimentos. Simplesmente deixa rolar. Os melhores casais que conheço se uniram com um bom empurrão do destino - isso não acontece só em novela; na vida real, os grandes encontros costumam ser inesperados. O coração saberá reconhecer quem lhe faz bem.
Como diz o poema, "não corra atrás das borboletas; cuide do seu jardim para que elas venham até você".
Dizer que o ser humano trai porque gosta de variar é até superestimar a raça, que age muito mais por covardia que por curiosidade. Em um caso como esse, de um modo geral o traidor não está satisfeito com o que tem, mas está sem coragem de abandonar o conforto do barco. E, cá entre nós, mesmo em uma situação de traição na qual não houve realmente perfídia e é até possível ao traído compreender o traidor, é inevitável a desagradável sensação de soco no estômago de saber que há um outro despertando a atenção do seu par ou, em último caso, que foi enganado por alguém em quem confiava. Acho que não há civilização que supere esse drama milenar da humanidade, sinceramente.
Razão x Emoção
A razão deve ser incluída nessa equação do amor. Sentimento sem razão (e vice-versa) pode ser muito desastroso; no mínimo, é um sinal de imaturidade. Quem se deixa levar só pelo sentimento não ama mais, de jeito algum (assim como nem sempre o sofrimento que vem com o rompimento da relação é porque ainda se ama o ex).
Ainda assim, não acho que vai ser se apoiando exclusivamente na razão que a humanidade será mais feliz em seus relacionamentos. É como eu sempre digo: certas coisas são extremamente compreensíveis, "ajeitadinhas", quando as observamos na mente, mas têm proporções muito maiores quando vistas do ponto de vista emocional. E digo mais: essa zona de conforto não gera crescimento. É na dor que a gente mais evolui, não tem para onde correr. Acho que a sabedoria está em, além de dosar razão e emoção, escolher quando vale a pena entrar em uma situação de desconforto. Já dizia o poeta: "Morrer não dói" (embora seja inviável viver assim o tempo todo). Além do mais, certas emoções, se não são "gastas", trazem problemas do mesmo jeito.
Antes e Agora
Não acho que as novas gerações sejam muito distintas das anteriores. Mudou-se uma coisa aqui, melhorou-se outra acolá, mas continuamos oprimidos. Mulheres continuam submissas ao modelo masculino (essa "liberdade sexual" não trouxe um caminho próprio; é cópia do comportamento dos machos), gays ainda são hostilizados, quem não prioriza a vida sexual é mal visto, os travestis ainda vivem em guetos, enfim, ainda estamos longe de vivermos em liberdade. Entendo como liberdade o direito de cada um viver como quiser, por mais inusitada que seja a escolha. Repito: estamos muito longe disso.
Não acho, também, que as gerações anteriores saíram no prejuízo. Os nossos avós sabiam dar um jeitinho. Uma vez, ouvi de um professor já sexagenário que seus pais se encontravam depois do horário de namoro "oficial" na sala de casa. Ela ia "dormir" e ele, "voltava para casa", mas, na verdade, ela esperava todo mundo da casa dormir e ele parava no meio do caminho esperando ela chegar e o namoro mais quente acontecia sem que ninguém se desse conta.
Amor para a vida inteira
Há muito tempo afirmo em rodas de amigos, quando surge o tema, que o amor é uma experiência que pouquíssimos mesmo vão experimentar. O que a maioria vivencia tem outro nome: empolgação que, em seus "melhores" casos, ganha o nome de paixão. Bate forte e logo passa. The end.Amor é um sentimento mais elevado, calmo e consistente. Até que ponto é mérito? Até que ponto é sorte? (particularmente acho que a sorte vem do mérito, mas...). Sei não, apenas creio que é uma experiência para poucos.
Mesmo aqueles casais que admiramos por terem tido uma trajetória duradoura podem ser uma fraude. Muitos ficaram na relação por covardia, por convenção. Ainda entre aqueles que viveram um amor duradouro, no fim, pelo que tenho observado, tudo vira uma sólida amizade. E isso não significa pouca coisa!
Pessoalmente, sempre considerei a amizade a relação mais preciosa que uma pessoa pode desenvolver. A família vai ter que te aguentar (e vice-versa) de qualquer jeito. No romance, há o interesse físico em jogo. O afeto da amizade não tem nenhum interesse ou obrigação; é puro gostar. Por isso é tão especial ter um grande amigo.
Toda boa relação, em minha opinião, tem como base uma sólida amizade, uma grande parceria. Só atração física não segura um casal junto.
Uma segunda chance para o amor
Amor simplesmente acontece e é bem-vindo em qualquer fase da vida. Tia Lourdinha me provou que nem tudo está perdido: dá para ser feliz mesmo na terceira idade e a sensação de liberdade pode nos transformar muito.Tia Lourdes foi (mal) casada por 40 anos com tio Vadinho. Sempre risonha, pensávamos que, de algum modo, ela devia ser feliz com ele, apesar de se tratar de um homem difícil. Um dia, algum tempo depois que o tio havia falecido, a encontramos toda-toda, no meio de rua, com uma aparência bem mais jovem (influência das roupas mais alegres), inclusive. Estranhamos o visual. E o mais espetacular: a tia estava de carro zero, havia tirado carteira. Foi um choque, mas não mais do que escutamos dela sentada em nosso sofá. A viúva revelou que o falecimento do marido foi algo bom que lhe acontecera. Disse ainda que "a melhor coisa da vida é a liberdade da gente". E, pasme!, essa senhora, testemunha de jeová há anos, nos contou que estava namorando um homem 30 anos mais jovem. Maravilha! hahaha
É, como cantava Los Hermanos, "e ninguém dirá que é tarde demais".
Também acredito em uma segunda chance para aqueles que viviam de maneira "torta", isto é, quando se apaixonam de verdade. Amor (mais uma vez, não confundir com empolgação/paixão) pode transformar, sim, as pessoas.
Por que(m) se apaixona?
Há quem diga que os grandes amores acontecem até os 12 anos (quem diz isso é Nelson, e penso que há certo fundamento). Ouvi dizer, algumas vezes, que a gente ama projetando aquele nosso lado menos desenvolvido no outro (por isso é comum um tímido se apaixonar pelo extrovertido e vice-versa; há quem diga que esse tipo de projeção revela complexo de inferioridade. vá saber!). Já li, inclusive, que é uma questão de topar com um sistema imunológico complementar ao seu (teoria pouco romântica, mas até que faz sentido. "Baby, com o seu sistema imunológico e o meu, seremos imbatíveis contra os vírus e germes!"). Segundo a astrologia, homens procuram a vênus de seu mapa e as mulheres, o seu marte. Mas a teoria para a qual venho encontrando mais comprovação é a de que nos apaixonamos por quem nos lembra o nosso pai (no caso das mulheres) ou a nossa mãe (no caso dos homens). Na mulherada, então, a teoria cai muito bem... Geralmente nossos afetos atuais repetem as vivências com afetos passados.
Acho que cabe aqui aquela máxima de Jung: "O que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino."
Ninguém é substituível
Neste último final de semana, conheci Nina, minha "sobrinha de quatro patas". Após quatro anos sem um focinho circulando pela casa - e isso depois de quinze anos criando "cofaps" -, me animei com a chegada dela. Nos demos bem à primeira vista e ela gostou de mim mais do que esperava.Achava que isso ia fazer parar a saudade da outra que faleceu. Ledo e ivo engano. Além de não substituir, ainda faz você se lembrar mais.
Enfim, um afeto não substitui o outro. Cada pessoa, cada história, é única.
"You can´t hurry love..."
"...you just have to wait". Superstição minha, que ninguém precisa, obviamente, compartilhar: tudo que é forçado não dá bom resultado. Lógico que nem sempre me foi possível segui-la (e quando isso não aconteceu, me dei mal. :(). A boa notícia é que tudo vale a pena, mesmo quando dá tudo errado, "se a (sua) alma não é pequena". "Whatever works", como diz Woody Allen. Mas procuro respeitar a mim mesma e a vida, pois assim, creio, ela me abençoa.
Penso realmente que, nessas coisas do coração, não tem que procurar ou pra quê forçar os acontecimentos. Simplesmente deixa rolar. Os melhores casais que conheço se uniram com um bom empurrão do destino - isso não acontece só em novela; na vida real, os grandes encontros costumam ser inesperados. O coração saberá reconhecer quem lhe faz bem.
Como diz o poema, "não corra atrás das borboletas; cuide do seu jardim para que elas venham até você".
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Império do Amor
Peço licença ao meu amado Flamengo para emprestar o apelido para uma cidade especial da Bahia: Ibotirama.
Hoje à tarde, ouvi o relato de episódios de puro "carinho" cujo cenário é o município baiano em questão. Marido que arranca o pedaço da orelha da esposa é só um exemplo. Enfim, queridos, encher os outros de alfinetes é um gesto singelo, mínimo mesmo de "amor" ao próximo praticado neste território baiano.
Para completar a "doçura" do lugar, o cantor Tayrone Cigano anda circulando muito por lá. Tayrone é sucesso do mundo brega e tem entre os seus entusiastas figuras como o escritor e jornalista Xico Sá*. Detalhe básico: dizem que o cigano matou a mulher e o ex-amante dela.TudoavercomIbotirama!
População "fofa" a de Ibotirama, não?
Fernandinha, vou tomar a liberdade de mudar a sua assinatura.Que tal, de agora em diante, assinar "Nandy (So) Love", hein? :P
* "Tayrone representa a vingança, para o macho traído; para as mulheres, virilidade. O boato das mortes e a carreira romântica são a síntese do bruto que também ama e hoje canta seu arrependimento".
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Não seriam todos os brancos travestis?
Por Leandro Colling
O que ainda pode e deve ser dito para criticar o chamado “mito da democracia racial” no Brasil e o uso do argumento da miscigenação para atenuar ou mascarar os preconceitos raciais que ainda vigoram no país? O livro Aqui ninguém é branco (Editora Aeroplano), da professora Liv Sovik, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, oferece algumas respostas para essa pergunta que, é bom frisar, não está formulada dessa forma simples na obra.
A tese central do livro é que o brasileiro branco se invisibiliza para que tudo se mantenha como está, para que o preconceito para com os negros sobreviva. Não é mesma coisa que dizer que aqui não há preconceito porque somos miscigenados racial e culturalmente. É defender a ideia de que aqui não há brancos para que os brancos, com sua branquitude (que não é apenas um dado da genética, mas, fundamentalmente, simbólica), permaneçam exercendo o papel de senhores perante os seus escravos.
De forma resumida e incompleta, essa é a tese que atravessa todos os ensaios que compõe o livro da professora que ficou conhecida na academia brasileira por organizar o livro Da diáspora, identidades e mediações culturais (Editora UFMG, 2003), de Stuart Hall. Antes disso, Hall era pouco conhecido no país e hoje é leitura obrigatória em vários cursos de graduação e pós-graduação brasileiros. Aliás, Hall parece ser o grande guia do olhar de Liv em Aqui ninguém é branco.
Depois de dois ensaios, considerados por ela por “teóricos”, nos quais também analisa a imprensa em geral e cita algumas coberturas e questões em particular (por exemplo, como os rostos brancos eram maioria na transmissão televisiva do Carnaval em Homenagem à África, o Carnaváfrica, em 2002, em Salvador), Liv apresenta outros quatro ensaios chamados de “musicais”. Certamente, o leitor que não gosta de textos mais “acadêmicos” vai se sentir muito mais atraído para ler esses quatro textos, nos quais a pesquisadora analisa como a tese central do livro aparece na música brasileira: na bossa nova, em Angela Maria, em Caetano Veloso e, por último, em Daniela Mercury, Gabriel o Pensador e Marcelo Yuka.
Provavelmente, o texto sobre Daniela deverá causar polêmica entre os fãs da rainha da axé- music, considerada por Liv como uma “travesti”. De longe, é para Daniela que Liv direciona suas críticas mais incisivas, mas Caetano também é considerado, ao fim do texto em que ela analisa o CD e show Noites do norte, alguém que é “mais o senhor do que escravo”. A bossa nova também recebe críticas por sua branquitude e por ter apagado Angela Maria, uma “mulher, negra e operária”. De todos os artistas, o menos criticado é Marcelo Yuka, considerado por ela um cidadão.
Mas o que Liv quer dizer? Para entender os seus argumentos, é vital enfrentar os ensaios ditos mais “teóricos” que abrem o livro. Isso porque a proposta, frisa Liv, não é “denunciar a branquitude essencial que está por trás” dos artistas que ela analisa, mas de “examinar as diversas posturas sobre a raça que se encontram na música popular”. Então, façamos um esforço para voltar aos ensaios teóricos para depois retomar as análises musicais que, lidas isoladamente, podem gerar incompreensões e polêmicas gratuitas.
Liv pretende revelar como a branquitude, pouco discutida dentro e fora da academia brasileira, se tornou, de forma consciente ou não, uma estratégia para que os brancos permaneçam brancos senhores perante os negros escravos. Um dos vários argumentos que ela aponta, que chama atenção para um leitor atento, é mais ou menos o seguinte: os brancos que valorizam a cultura negra, que convivem com os negros, não fazem isso para parecerem negros, para aceitarem a cultura negra. Fazem isso muito mais para evidenciarem a sua branquitude (cujo prestígio se exerce, diz ela, silenciosamente no cotidiano).
É claro que a autora não pretende fazer generalizações, mas essa não é uma constatação pertinente? O quanto a mestiçagem é usada como “fiel escudeiro” da branquitude? Silviano Santiago, no prefácio com rasgados elogios ao livro, diz: “Do romancista afro-americano Ralph Ellison, que na segregação norte-americana enxergou a invisibilidade do negro, Liv roubou o avesso para vesti-lo no branco brasileiro. O modo social da invisibilidade do branco no país da mestiçagem”.
Liv releva também de onde tirou o título de seu livro. Na época em que era professora da Faculdade de Comunicação da UFBA, em uma discussão sobre afro-baianidade, perguntou para um aluno como era ser branco na Bahia: “’Aqui ninguém é branco´ foi a resposta que ouvi. A resposta me dizia, implicitamente, ‘só você, aqui, é branca’. Difícil negar, pois minha brancura estrangeira já se comprovou gritante, era de parar taxista”.
A autora nega que aqui ninguém seja branco, mas não para usar uma dicotomia negros versus brancos, muita usada onde ela foi criada, nos Estados Unidos, e muito criticada, por alguns que desejam usar esse modelo para analisar as relações raciais no Brasil. Aliás, Liv também gasta várias páginas para discutir o uso do modelo americano para pensar a problemática brasileira.
O que Liv pretende demonstrar é que, ainda que sejamos miscigenados genética e culturalmente, aqui há, sim, brancos. Caso contrário, não teríamos distinções. Como ela diz: “Ser branco, neste país arco-íris, é uma espécie de aval, um sinal de que se tem dinheiro, mesmo quando não existem outros sinais, é andar com fiador imaginário a tiracolo. Ser branco estrangeiro é entrar em condomínio fechado ou restaurante de luxo, suado e malvestido”.
Ora, se isso é verdade, e é difícil não concordar com essa afirmação, em especial se pensarmos em cidades como Salvador, os brancos existem. A distinção existe e quem leva a pior nesse processo é, em geral, o negro.
Quanto mais a cultura negra consegue se expandir, mais a branquitude apela para o discurso da miscigenação para que o reconhecimento da negritude não desbanque os brancos das classes dominantes. Por essas questões, Liv defende que “é necessário analisar a articulação silenciosa da hegemonia branca”.
As reflexões de Liv seguem esse caminho e são muito mais refinadas do que consta nessa rápida resenha, mas, dito isso, podemos voltar para as suas análises sobre a música popular. Nelas, Liv tenta identificar como a branquitude aparece nas produções, nas performances dentro e fora dos palcos e também em entrevistas (ela própria entrevistou Caetano, em 2002). Liv conta que “são muitas as vozes ouvidas em Noites do norte”, CD inspirado no abolicionista Joaquim Nabuco. A autora elenca as várias vozes, mas destaca que elas “chamam a atenção pela sua capacidade de extrair o bom do ruim”.
Por exemplo, o acolhimento afetivo do negro escravo para com o branco, a romantização do sofrimento dos escravos, entre outros. Mas, apesar de dizer que Caetano é mais senhor do que escravo, isso não faz Liv chamá-lo de travesti, como ela denomina Daniela.
Ao analisar Daniela, primeiro Liv recupera uma fala de João Jorge, do Olodum, que critica a cantora por não ter, na opinião dele, dado uma contrapartida pelo uso “da nossa riqueza, nossa herança”. Depois, a professora lembra das políticas governamentais para a valorização da cultura negra, o que seria uma das razões para que as pessoas não estranhassem que Daniela cantasse “a cor dessa cidade sou eu”.
E continua: “Daniela apoiou desde cedo a valorização da cultura negra. Ela contribuiu para a mudança da hegemonia branca na Bahia, pelo menos na sua identidade cultural, para uma coloração imaginária mais próxima à da população, mas ficou numa estranha posição, para quem a vê de fora e fora do carnaval, de uma espécie de travesti. Ela usa a fantasia, se veste de negra, mas todos sabem que não é”. E diz mais: “Daniela se fantasia, usa máscara, finge ser o que não é”.
Já Gabriel o Pensador, não usa fantasia, segundo Liv, porque suas letras o identificam como branco. E Marcelo Yuka? “(…) ele reconhece que está incrustado em uma realidade predominantemente negra, faz parte integral dessa realidade, é cúmplice de negros oprimidos pelo racismo. O letrista articula uma crítica antirracista cidadã, sem vestir as roupagens da cultura negra, como faz Daniela”. Sim, mas mesmo guardadas as devidas proporções, não seriam, então, todos os brancos uma espécie de travestis?
O debate está aberto.
O debate está aberto.
Leandro Colling é professor adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, da UFBA.
Fonte: Jornal A Tarde - Caderno 2
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