domingo, 10 de maio de 2026

Janela quebrada

Toda vez que se discute sobre violência, sinto que as pessoas intelectualizadas se descolam da realidade e querem impor uma opinião que parece genial.

Em uma aula da faculdade de Direito, pela segunda vez surgiu a questão do por que as pessoas cometem crime. A Maria Joaquina da turma chutou a questão da impunidade pra escanteio e disse que quem comete um crime não pensa na pena. Sim e não. 

De fato, em crimes mais bárbaros, isso não conta - aqui estamos falando de psicopatas muitas vezes. Ou em situações muito extremas, em que a pessoa perde a razão. Muitos anos de prisão também não assustam. Reduzir a maioridade penal também não acho que vá surtir efeito, porque a criminalidade nesta faixa etária tem a ver com as mudanças comportamentais e cerebrais da adolescência. Só sou a favor disso para crimes hediondos porque - e admito que isso é pura crença pessoal - não acredito que nesses casos a pessoa seja recuperável. Um estuprador, um assassino não são acidentes de percurso. 

A meu ver, a certeza de ser punido conta sim. 

Qualquer bandido no Brasil sabe o artigo do seu crime e a pena de cor, melhor que muito advogado. Ou seja, calculam sim o tamanho do prejuízo. 

E como o Brasil é uma grande janela quebrada, o pau come. 

Explico: essa teoria penal diz que é mais fácil que se vandalize uma janela já quebrada e não reparada do que aquela que foi consertada. Aqui, a gente sabe que só quem não tem dinheiro pra advogado vai preso. Os racistas são um bom exemplo disso. Todo racista sabe que vai dar uma volta olímpica na delegacia e que o crime vai acabar em pizza, enquanto a vítima fica com o trauma pra sempre. 

Quantas vezes você lê uma notícia sobre estupro e no meio do texto está a informação que o sujeito já tinha cometido outros estupros, mas já estava em liberdade?

O ser humano é um animal de interesse, e, com raras exceções, calcula o que vai ganhar e o que pode perder. Por isso não acho que não faz diferença um sistema que de fato pune. Faz sim. Duvido que exista tanta gente furtando, roubando em países em que a pena pra isso é cortar a mão do criminoso. 

Sobretudo, acho que a maior punição é a social. Não que isso vá inibir 100% a criminalidade, mas quando o individuo sabe que terá consequências sociais, ele pensa duas vezes. É por isso que os feminicídios prosperam no Brasil. Nada acontece ao feminicida: ele casa, frequenta a vizinhança, arranja emprego e vai ao estádio de futebol e, se brincar, ainda é tratado como pai de família, depois de dar uma volta olímpica na delegacia. 

Precisamos mudar mentalidades. 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Ninguém fala

Outro dia, sentada na areia, compartilhei algumas angústias minhas com uma amiga querida. Pra minha surpresa, apesar de ter um temperamento oposto e ser bem mais jovem, ela disse que já havia passado pelo mesmo. 
Na verdade, a medida que envelheço, vejo que as questões são muito parecidas, mas ninguém fala. Então fica todo mundo com a sensação de inadequação. As pessoas só contam quando você conta algo a elas. Quanta solidão e sentimento de inadequação seriam evitados se a gente falasse mais francamente com as pessoas mais próximas?

Já entrei em muita fria simplesmente porque ninguém me falava as coisas e eu achava que o problema era comigo. A mais fofa delas foi quando eu tinha três anos e chorei numa festa lá em casa porque o telefone não conversava comigo. Mas chorei tão sentida que a festa parou pra me acudir, o povo achando que eu tinha me machucado. Quando me perguntaram, eu só soluçava e balbuciava "Por que ele não quer falar comigo!?", sentindo a rejeição por todos os poros do meu corpo. Reza a lenda que demoraram um pouco pra entender o absurdo da situação, que eu, um bebê grande, pensava que o telefone era mágico e bastava tirá-lo do gancho pra alguém conversar comigo. Tinha aproveitado que ninguém estava me vendo pra me aventurar - sempre adorei fazer isso -, e quando ouvi só "pupupu" do outro lado, não aguentei tanta rejeição. Fiquei arrasada, humilhada, chorei muito e sentida. Fim da história: me explicaram como funcionava o telefone, eu me acalmei imediatamente e fui brincar. Eu só precisava saber. 
Minha família, que quase não gastava filme tirando fotos das crianças, tirou uma enorme minha com a cara inchada de chorar e segurando, inconsolável, o telefone de casa. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Os infantes terribles

Vivemos tempos muito esquisitos. E pior: não podemos contestar as bizarrices. Todo mundo fala do bolsonarismo - e com razão -, mas fora os minions, ninguém aponta as terraplanices do pessoal da esquerda. E tem - e como tem! 

[Sendo cancelada em 3, 2, 1...]



Eu comecei a desconfiar disso a partir da pauta racial. Há coisas que são pura forçação de barra e que as pessoas contestariam fácil não fosse quem está dizendo. Sim, se uma pessoa negra militante diz qualquer coisa, automaticamente essa afirmação passa a ser incontestável. E todos os que se reconhecem negros precisam seguir um roteiro: cabelo afro, culto ao candomblé, exaltar tudo que é de África (mesmo que não tenha nada a ver com o que entendemos por África aqui...), e por aí vai. Confesso que dei risada quando Carla Akotirene dialogou com Chimamanda na certeza de que ela cultuava orixás e a nigeriana ignorou completamente isso, respondendo a pergunta como cristã. Já fui em África e lá nada disso é questão pra eles: elas usam peruca lisa, são de outras religiões e nada disso mexe com a identidade. Óbvio, porque a sua realidade não some quando você alisa o cabelo, ninguém controla como o mundo te vê quando se faz parte de uma minoria. 

Aliás, mesmo aqui no Brasil, o negro é a única minoria que precisa militar. Pensa comigo: a criança tem direitos só por ser quem é e assim também acontece com o idoso, a mulher, o deficiente, etc. Você não precisa levantar bandeira, sequer gostar de pertencer a qualquer uma dessas minorias. O direito é seu, afinal, o mundo te julga pelo que você é, não pelo que você defende. Mas o movimento negro é muito esperto e não faz isso à toa: precisa que vire ideologia para gerar uma força social que não o deixe perder o controle absoluto da narrativa - por isso representantes dessa militância podem falar a maior asneira e mesmo assim não perdem a razão. Não tem problema falar asneira; é do humano. O problema é isso virar verdade incontestável. 

Olha só o que fizeram com a garota da parditude (que é questionável mesmo, mas levantou uma pauta legítima). Muitos militantes ridicularizam a figura do pardo, como se o negro de pele mais clara fosse um charlatão, um branco encardido que agora quer se chegar e roubar direitos (que só existem por causa da numerosidade deste grupo, aliás), mas quando o pardo começou a questionar a postura da militância racial, lá veio ela, com um discurso quase criminalizante, tentando encerrar o incipiente debate. Percebe como são rápidos e truculentos ao retomar a narrativa?

Soube que agora não estão gostando do uso da lei do racismo para outras minorias discriminadas. Há quem defenda que isso faz com que percam o contexto histórico desta lei que criminaliza o racismo. Ninguém se cria pra cima do movimento negro (alô, feminismo!) porque eles são obcecados com o poder. Eu tenho formação política, então sei que isso é da política. Como ouvi uma vez, poder não se pede, se toma. É ocupação de espaço mesmo. A disputa política não é asséptica, fofinha. Infelizmente o modus operandi é ser truculento, fazer cabo de força até ganhar. O problema é que tem uma manada desinformada, deslumbrada e querendo o selo de "aliado" que acha que tudo que um militante faz é  incontestável. Aí é que mora o problema... 

Esses movimentos de esquerda são autoritários e dogmáticos, pode reparar. Às vezes é quase como estar numa igreja evangélica, daquelas fundamentalistas. Aliás, é o que mais ouço de dissidentes desses grupos: "Só vivi algo assim antes quando era da igreja". Mas fundamentalismo de gente descolada aparentemente pode (não vou debater aqui a extrema direita porque é dispensável, dado que é flagrante que se trata da lata de lixo da política contemporânea). E as pessoas não questionam porque ser contra tudo isso é receber o selo de "retrógrado", quando não de "desumano". Aliás, não se trata de estar contra as pautas, porque elas são legítimas, mas do dogmatismo. Tudo precisa ser debatido, ponderado e corrigido mesmo quando não nos favorece. Eu sou da escola do que é justo é justo. Acabei de dizer que essa truculência é da política, mas entrego um dos meus terraplanismos pessoais: acredito que a meta do ser humano deve ser perseguir o bom, o justo e o verdadeiro. (Meu outro terraplanismo é achar que sei cantar 😝)

Questionar certezas e corrigir rotas deveria ser de adultos, mas esqueço frequentemente que a sociedade do século 21 é altamente infantilizada. Ninguém aguenta desconforto, talvez só na prancha e por não mais de 100 segundos. 

Outra pauta que venho questionando (e me afastando, não vou mentir) é a queer. Já fui dessa igreja, embora ainda continue rezando a missa do respeito e da dignidade. Mas não defendo que isso ocorra às custas das mulheres. Orixá não é bagunça e mulher também não!

Percebi certos aspectos problemáticos do queer ativismo, com mais clareza, na confusão recente envolvendo a Comissão da Mulher e a Erika Hilton. Em resumo, não acho interessante para as mulheres que apaguem o demarcador "corpo" da definição de mulher. Na lei da misoginia, já não aparece. Detalhe: a turma trans já tem uma lei que criminaliza a transfobia. Tenho uma perspectiva materialista e entendo que é o fato de nascer fêmea que desenrola toda a opressão. A mulher não se resume ao corpo biológico e essa é parte da luta, mas ela é tratada de um modo pela sociedade justamente porque nasce nesse corpo, um corpo, aliás, que nem sequer foi estudado satisfatoriamente. 

Outro dia me questionava sobre o motivo da minha mãe chegar com pior saúde que meu pai aos 79 anos, sendo que ele abusou mais que ela e os dois têm boa genética. Ela, agora com problemas renais, tomou remédio a vida toda. Que mulher não toma? Eu mesma, durante a menstruação, chego a tomar quatro comprimidos pra dor em um dia, até quase desmaiar com a pressão lá no dedo do pé. Aliás, tomamos remédios que não são feitos pensando no corpo feminino. Alás, sequer temos a cura da endometriose a essa altura do campeonato. Como é que corpo não importa? Não dá pra ignorar este fato tão fundante das vidas das mulheres. 

Fora que a questão da autodeclaração, neste caso, deixa as mulheres mais vulneráveis à violência em espaços privados (a questão não é a mulher trans de verdade, mas os picaretas que podem se utilizar deste critério simples e imediato para penetrar espaços exclusivos e íntimos). Este negócio de definir como mulher quem se identifica ou sente como uma não vai dar bom. E travesti existe desde que o mundo é mundo e nunca precisou disso antes. Sempre foi um sujeito à parte, um terceiro sexo. Que eu, aliás, acho mais interessante para todos os envolvidos, inclusive para as pessoas trans. Primeiro, que desejar se enquadrar como homem ou mulher não questiona nada, não avança em nada. Segundo, que isso puxa pra pessoas trans a obrigação de transformar o corpo em um adequado ao gênero de transição (tomando uma quantidade absurda de hormônios, que ninguém sabe ainda como vão bater nestes corpos futuramente) e estimula a negligência com aspectos do corpo de origem (há uma queixa, por exemplo, de que mulheres trans mais velhas não cuidam da próstata). As coisas de mulher e as de homem não vão servir pra esta comunidade porque o corpo existe e estes corpos são híbridos, precisam, inclusive, de políticas públicas específicas. Aliás, esse é um terraplanismo de esquerda que ninguém deste espectro tem coragem de dizer em voz alta (varrer pra debaixo do tapete, eu que tenho Plutão na casa 3, me deixa nervosa): não se muda 100% quem você nasceu sendo. Se eu quiser ser igual a Xuxa, não vai rolar. Eu posso me aproximar, pintar o cabelo, alisar, emagrecer, mas eu sou negra, não vai rolar. É terraplanismo total essa premissa do ativismo queer de que dá pra migrar de uma identidade pra outra. Até dá dentro do seu coração, mas na matéria esses 100% são inatingíveis. 

E se o binarismo oprime tanto, é tão ruim, não entendo tanto esforço pra se enquadrar nele. Criem um terceiro sexo, mudem a cara da coisa.

Outro dia li em algum lugar que um grupo de homens trans querem reivindicar o espaço deles no feminismo. Virou mangue, como se diz na Bahia. Mas sabe por que essas aberrações acontecem? Porque a mulher é criada pra deixar todo mundo invadir o espaço dela, é criada pra ser boazinha, acolhedora e todos os "inhas" que só nos fodem. Agora, diante desta onda de feminicídios no Brasil, quem está com as mulheres? As religiões? O movimento queer definitivamente não. Nem o antirracista, embora as mulheres negras sejam as principais vítimas. Estamos sozinhas há séculos e ainda sendo cobradas pra "acolher" todo mundo. Mulher é o capacho de "todas, todos e todes" mesmo, né?

Cheguei ao cúmulo de ler feminista marxista defendendo o apagamento do corpo do conceito de mulher. Se eu não entendi errado, Marx falava justamente que as ideias não criam o mundo material, mas sim que elas surgem a partir da materialidade. Se uma sociedade está na beira do mar, ela vai ser pesqueira, dificilmente vai adotar a caça como modelo econômico. Uma mulher é tratada como mulher, se torna o segundo sexo, subjugado, justamente porque nasce num corpo de fêmea, caramba!

Ninguém folgaria deste modo com o movimento negro como fazem com o feminismo. Você visualiza alguém tomando a ousadia de chegar pra militância negra pra ditar que não é pra falar de raça porque outros grupos também sofrem racismo, que é pra falar de "pessoas que sofrem racismo", como falam de "pessoas que menstruam"? Quem tem que dizer o que é mulher são as mulheres, e isso não está sendo sequer considerado, que dirá respeitado. Qualquer discordância com o conceito queer de mulher cai na vala da transfobia. Uma "ótima" atitude com um grupo historicamente silenciado.  

Sou da teoria de que tem que estar bom pra todo mundo. Se numa matéria que envolve os direitos das mulheres não está bom para a esmagadora maioria delas, alto lá! Outro dia li uma indígena reclamando que já é invisibilizada racialmente porque o movimento negro apagou a causa indígena e que agora estava sendo invisibilizada na categoria mulher, já que o corpo deixou de ser um marcador por causa do ativismo queer

Outra mulher questionava a cultura drag, que na visão dela é o blackface da mulher. A moça contou que dois amigos gays e negros declararam que se incomodavam com blackface, mas, como fazem show de drag, acabaram com a raça dela quando fez a equivalencia entre as duas coisas. Eu nunca tinha feito essa associação, mas, de fato, se apropriam do feminino, às vezes ressaltando seus aspectos sociais mais problemáticos. A intenção é essa? Provavelmente não, mas alguém que se fantasie de negro mesmo com as melhores intenções, se identificando de coração com essa raça, não vai escapar de uma escovada, de ser acusado de racista. 

Salvador tem um bloco de homens que saem vestidos de mulher. Não pode indígena, não pode negro e até enfermeira, mas mulher pode ser fantasia. E as mulheres ainda devem achar legal que um homem se fantasie de mulher pra não serem atacadas. Tá bom pra você?

Esses são argumentos que, no mínimo, merecem ser debatidos. Eu acho. 

Fico de cara como as mulheres não são respeitadas nem quando a pauta diz respeito só a elas. Todo mundo se acha no direito de invadir o nosso espaço, físico ou simbólico. E somos agredidas se questionamos isso, o que não acontece com absolutamente nenhuma outra minoria - talvez porque elas sejam formadas também por homens e o que é do homem é respeitado. 

E, afinal, por que uma minoria reivindica poder político e social? Por ser maioria numérica. Negros falam de políticas para a negritude por este grupo superar mais da metade da população brasileira dentro do recorte traçado, que engloba o pardo. Sem o pardo não há número pra fazer pressão. Por que a pauta das mulheres tem (ou deveria ter) força? Porque somos a maioria da população. Minha gente, é muito prático querer ocupar um espaço tão suado, que resulta de séculos de luta - e de mortes. Eu mesma nasci em um dia marcado pelas mortes de dezenas delas. Uma luta das mulheres, apenas delas, porque os demais movimentos nunca abraçaram as pautas feministas, nem os LGBTs, pra início de conversa. Os gays falam deles, até as lésbicas ficam apagadas, repare. 

E a cota trans? Os gays e lésbicas nunca ganharam cotas, mas a turma queer, que ainda é pouco representativa na população brasileira, está lá e sem critério algum. Precisa mesmo de cota? Porque a travesti mais lenhada, o trans em situação precária já poderia se beneficiar da cota para pessoas negras. Daí o cara branco e de classe média que se diz não binário de repente tem cota na universidade. Um espaço, aliás, que nem tem direito política pra pcd, pra mãe solo... Eu não sou contra políticas públicas, pelo contrário, mas elas precisam ter critério, serem pensadas e acompanhadas. Estou dizendo o óbvio aqui. Mas se você questiona qualquer coisa, automaticamente vira "transfóbica". Todo mundo, mesmo aquelas pessoas que trazem questões pertinentes, viram inimigos na mesma hora. E nessa os ressentimentos vão se juntando. Os mais fracos sucumbem à extrema direita. 

As pessoas que realmente têm disforia de gênero possuem a minha solidariedade, mas ainda me questiono se a maioria desta turma, se nunca tivesse ouvido falar de não-binário, trans, etc, teria se pensado como alguém deste perfil. Ouso dizer que boa parte quer chamar a atenção e receber um acolhimento, mesmo que de uma parcela mínima da sociedade, acolhimento que não teria se não fosse a identidade queer. Só lembro de um comentário da Fernanda Montenegro, de que ela percebia que algumas pessoas vão procurar nas artes a desculpa para o desconforto de serem como são, quando na verdade não possuem vocação nenhuma para ser artista. Pense em Zelia Duncan, por exemplo. É uma mulher de visual bem masculino. Passando rápido o olho nela você até acha que é um homem. Se ela fosse jovem hoje, seria alta a probabilidade dela querer transicionar. Em suma, enquanto algumas pessoas de fato precisam transicionar para serem quem são, outras tantas precisam amadurecer e se assumirem como são: mulher masculina, homem efeminado. 

As pessoas que gostam de pensar em si mesmas como empáticas e as que são empáticas de fato gostam de torcer pelo lado mais fraco. Essas narrativas possuem um apelo inegável entre pessoas de esquerda, até porque vêm sendo abordadas pela indústria cultural.   

Agora mesmo, nos Estados Unidos, há um monte de filhos de celebridades se dizendo trans ou não-binários. Se elas não estivessem sendo bombardeadas por esse tipo de informação, será que elas se manifestariam assim? Quantas vão sustentar a nova identidade? A seguir cenas dos próximos capítulos. 

É muita imaturidade, pra não dizer outra coisa... E nisso todas as minorias são gente como a gente demais: brilhando em se coçar pra dentro e falhando em elevar o nível da ética, da inteligência e do progresso na sociedade. Mais uma vez, nada de mais, não fosse pelo fato dessa galera não assumir a própria humanidade e se colocar no lugar de régua moral da sociedade, de paladinos da justiça, quando em vários exemplos é possível enxergar mais do mesmo, a reprodução daquilo que, no discurso, se quer mudar. 

Já dizia Paulo Freire (e você sabe a qual frase dele me refiro)...

E tem mais, infelizmente não pára por aí. Há ainda os excessos psiquiátricos.

Todo mundo hoje em dia é neurodivergente. De novo: essas pessoas existem e merecem dignidade e é óbvio que temos mais recursos hoje para diagnostica-las do que há 30 anos, mas quantos foram de fato avaliados? Quantos não receberam um diagnóstico descuidado, lambão e, insatisfeitos consigo mesmos, resolveram usa-lo como uma muleta existencial? A impressão que tenho é que se mandássemos todo mundo ao psiquiatra, teríamos uma reprodução da história de "O alienista", de Machado de Assis. Eu mesma já recebi, numa primeira consulta, diagnóstico de TDAH. Mas sou uma pessoa com deficit de atenção ou sobrecarregada mentalmente? Muitas queixas individuais de hoje em dia são produtos de um capitalismo na sua versão mais filha da puta. Apenas.  

Outro dia, aquele menino do BBB26, Juliano Floss, que foi diagnosticado com TDAH, disse que não sentia mais falta de atenção dentro da casa. Pois é, confinado, sem tecnologia pra sobrecarregar os sentidos, ele conseguiu prestar atenção de novo. 

Resumindo esta conversa, falta critério, sobra barulho, e isso está desorganizando absolutamente tudo. 

Hoje penso assim, pensava diferente ontem e posso rever muitas coisas que escrevi aqui amanhã. Estou neste mundo pra isso: pra aprender, pensar, reformular ideias e rotas, mas com a minha própria cabeça, construindo pensamentos que fazem sentido interno e que tenham correspondência com a realidade (aliás, um dos males da esquerda brasileira é justamente que as ideias não se encaixam nos fatos, por isso também ela não chega no povão). Não acho que falei nada que não seja passível pelo menos de debate, de uma indagação, mas é justamente isso que as pessoas não se permitem mais ter. De fato, temos uma sociedade com muita preguiça cognitiva, que aceita meias verdades sem questionar as meias mentiras que vêm a reboque. Aceitam, como Moisés recebeu de Deus as tábuas, mandamentos, dogmas de gente tão falível e limitada como todos nós somos. È dar muito poder aos outros e esvaziar-se muito de si mesmo.

Não contem comigo pra isso. Se for pra errar, que eu erre os meus próprios erros. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Why Stevie speak so low?


Uma amiga minha terminou um namoro complicado, mas ela só quer assumir um dos fatores que levaram ao fim, a interferência da família. Minha lingua coça e eu estou tentando ser respeitosa, mas outra parte dessa história é que o cara não queria. Não muito. Em relação a mulher, principalmente, o homem, quando quer, resolve, quando não quer, escorrega. Hoje ela soube por ele que ele conversou comigo. Eu não tive coragem de dizer a ela o que ele disse dela, porque fiquei com vergonha alheia por ele, que não disse nada que 90% dos homens não diria. Não foi nada maldoso, porque ele não é uma pessoa má, porém ele fez uma fala insensível. É um egoísmo, um autocentramento que por Deus... Essa é a crise dos relacionamentos hoje em dia: as pessoas de um modo geral estão imaturas e os homens estão com idade mental de adolescente de filme americano. Não dá pra construir uma vida com gente infantilizada. Como diz minha mãe, quem dorme com criança corre o risco de acordar mijado. Nós, mulheres, estamos cansadas do mijo deles. 

Menos uma mágoa pra ela, que continua amiga dele, mas sinto que está livrando a cara do ex porque isso doeria no ego. Não que ele tenha feito algo, mas ele apenas não ama ela. É mais fácil jogar a culpa só na família. Me deu gatilho, pois passei 37 anos da minha vida fazendo essas coisas com as pessoas das quais gostava embora elas não gostassem de mim. Eu passava dez, mais anos aguentando poucas e boas, conversando e nada. Saía com a autoestima toda arrebentada e teria sido melhor ter feito isso logo de primeira. Infelizmente, no Brasil mulher vale pouco e as pessoas leem perdão como coisa de gente otária, capacho. A pessoa maltrata e a gente ainda oferece a outra face. Depois dos 40, perdi a paciência. Como sei que quem faz uma provavelmente fará duas, corto logo. Dizem que é o estrogênio em falta. Se for, já foi embora tarde. 


sábado, 24 de janeiro de 2026

O sonho que só agora entendi

Quando era adolescente, caloura de Jornalismo, uma amiga minha sonhou que ela andava com uma caixa nos braços, e andava, andava, andava, e não conseguia deixar essa caixa em nenhum lugar. Hoje saberia o que dizer desse sonho. Ela, muito imatura na época, mais que a média, recebia uma mensagem do inconsciente: o caminho não é se livrar, é aprender a sustentar a sua caixa, suas bagagens, aquilo que pesa nos braços. Ela fez um conto com esse sonho, mas acredito que até agora não entendeu ele. Soube que, aos 45 anos, ela está em crise. É a meia idade batendo na porta dela, na nossa porta, vendo se a gente fez a lição de casa, se cumprimos a lição de viver de uma forma íntegra. Se ainda fosse amiga dela, faria essa observação. Ela não está sozinha, tem uma multidão de gente, da mesma faixa etária, na mesma barca. Parece uma frase boba, mas é um peso a menos retirar dos ombros a sensação de incompetência individual. É um desafio para todo mundo. 

Esta semana, vi um vídeo no Instagram em que a moça falava sobre a crise entre os 35 e 45 anos. Ela elencou oito pontos de crise: da aparência, do envelhecimento corporal; da saúde, do corpo que já não é tão funcional como costumava ser; da comparação, em que se tem a sensação de que todos sabem viver melhor que a gente; da crise do tempo, em que se percebe que há menos tempo por vir do que o já vivido; do vazio, que por mais que você já tenha realizado, ainda está lá e nada preenche; do recomeço, a sensação de que quer jogar algumas coisas pro alto e começar de novo; a sétima é a dor de ver quem você mais gosta envelhecendo, ficando incapaz e morrendo; a oitava é a crise da aceitação, de entender que certas coisas não vão ser mesmo como queremos e temos que dar adeus a elas pra abrir caminho até para outras possibilidades se apresentarem.  

Concordo muito com essa lista. Aliás, a própria ciência reconhece que a meia idade é a fase mais difícil, apontando que a partir dos 70 anos, volta-se a ter mais vitalidade. É duro lidar com a finitude: com a própria, com a de fases da vida e com a de pessoas queridas. A maturidade, essa musculatura da alma, nos ajuda a sustentar todas essas faltas e lutos. E a maturidade não precisa ser sisuda. Ouso dizer que ela precisa sim ser lúdica, criativa. A vida é um exercício de criatividade. É que nem comida: se a gente não temperar, come ruim, sem sabor, sem vontade, passa mal até.

Não se trata de descartar a caixa no lixo ou dar pra alguém segurar. Temos que nos fortalecer pra aprender a sustentá-la. Ela é nossa, vai conosco enquanto caminhamos; nosso peso e nossos tesouros estão ali. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Valor sentimental

 



Vi "Valor sentimental", de Joachim Trier. Amei! Mas, calma aí, não se empolgue, pois não é um filme para todos. Haverá quem ache lento. Haverá quem ame por ser intimo, lento, interior. Eu tenho daddy issues, então me pegou em cheio. E é com Renate Reinsve, a mesma de "A pior pessoa do mundo". Esse filme é melhor, mas também gostei de "Valor sentimental".

A história começa com a morte da mãe e a volta de um pai ausente, Gustav, renomado diretor de cinema, pras vidas de duas filhas já adultas. Uma é Norma/Renate, uma atriz renomada. A outra, Agnes, já foi atriz na infância, mas largou a carreira depois do abandono do pai e é historiadora, casada e mãe de um menino de 9 anos. 

Obviamente elas são refratárias a presença desse pai, que surge como se nada tivesse feito a elas e as tivesse visto ontem. Norma mais ainda. Ela está numa fase triste, apesar do sucesso profissional. É uma mulher solteira, que duvida da sua capacidade de se vincular. Inclusive, tem uma cena muito tocante da irmã lembrando a ela que foi cuidada por ela na infância. Isso é tão vida real: a gente faz coisas incríveis, engole elefantes, mas não reconhece isso até que outra pessoa diga. Por outro lado, passa décadas remoendo supostos fracassos. Olha só o poder das coisas que, se ditas, teriam mudado o modo como nos sentimos sobre nós mesmos.

A casa da família é um cenário importante. Aliás, eu amo essas casas do norte da Europa. Sou apaixonada por elas desde "A pior pessoa do mundo" e "Dark". Meu sonho é morar num lugar grande, bonito e seguro assim, mas vai ficar pra outra vida. Não sei se é viagem minha, mas achei genial a sacada da descoberta da casa não ser da mãe e sim do pai - há duas gerações. As irmãs achavam que estavam circulando num espaço materno, quando todo tempo estavam no espaço paterno. Na psicologia analítica, a casa significa a psíque e elas duas foram muito moldadas pela ausência deste pai. Só quem viveu esse tipo de abandono sabe como é pesado. É a força que te criou te tratando como insignificante (mais pra frente voltaremos a isso). Senti em mim quando Gustav vira pra Norma e fala "É muito difícil amar alguém que não tem perdão, alguém tão cheio de raiva". Abandono é uma das experiências mais difíceis que um ser humano pode passar. Assim como a personagem, também venho puxando situações de abandono ao longo dos anos pra reviver essa raiva do pai. Pra provar que ele tá certo e eu não presto. Quando um menor é abandonado/rejeitado, não aprende a odiar quem fez isso, mas a pensar que não é suficiente. Se não houvesse testemunha disso dentro do cinema, acho que teria chorado ali mesmo. 

Agnes surta quando o pai tenta transformar o filho dela em ator mirim como fez com ela. O medo da rejeição nasceu ali, quando ela num minuto era tudo pro pai e no momento seguinte havia sumido da vida dele. Norma vai além, porque ela continua dialogando indiretamente com Gustav através da carreira (e ele ocultamente a acompanha, afinal, além de pai, ele é um diretor de cinema) e personifica, como atriz nata que é, as mulheres da vida do pai, ao ponto de muita gente achar que o roteiro que ele quer filmar com ela é sobre a avó de Nora, quando é sobre ela. As duas compartilham a mesma tristeza. Aliás, o povo da Constelação Familiar vai surtar com esse filme.

Mas esse pai se acha maravilhoso e pensa que essa descendência é também maravilhosa por consequência. Já ouvi isso da terapeuta sobre o meu pai: que ele se achava ótimo, por isso não via que problemas nós, filhos dele, poderíamos ter. É um jeito colorido de não ver o outro e se autocentrar na própria vida. Gustav é imagem e som, a ilusão do audiovisual; Norma gosta de palco, intimidade, exposição, verdade. Gustav é bem melhor que meu pai, pois usa a sensibilidade de artista pra ver o lado mais bonito das filhas e do neto. Meu pai ainda fala mais mal do que bem de mim até hoje. Eu só presto quando vivo do jeito que ele acha certo, ignorando que sou outra pessoa. 

O caso é que para além desse egoísmo de Gustav, ele era a alma daquela casa e a levou quando foi embora. E é isso que ele, sentindo a tristeza da mais velha, quer resgatar nela: o espírito vibrante. Ele está no final da vida, quer ficar em paz com elas. Quando Agnes e Norma leram o roteiro, entenderam que a conexão nunca foi embora, que havia amor ali. Norma viu que ela e o pai podiam conversar através daquilo ali, que ele não era insensível a ela. Havia afeto, não do modo esperado, mas do jeito que ele podia dar. Havia. Isso é suficiente pra qualquer coração de filho. Houve paz quando elas viram que estavam sendo vistas por Gustav. 

Posso novamente estar viajando, mas fiquei pensando que o fato de reviver o sofrimento dela num filme dirigido por ele não deixa de ser uma terapia ao estilo psicodrama. Assim como mamãe, papai também é uma espécie de terapeuta.