quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O poder que a gente dá aos outros


Medrado costuma dizer que nada nem ninguém vale a nossa paz e que a gente não deve dar poder aos outros sobre nós. Ele costuma falar umas coisas que, pra quem está sofrendo, soam secas, mas quando você recobra a racionalidade constata que ele diz o que precisa ser dito. Aquele soquinho no ego básico, sabe? Outro dia, fez uma palestra muito boa falando de egoísmo, a propósito.
Essa é uma questão que me é muito cara porque foi forte na minha vida até muito pouco tempo. A dinâmica é sempre a mesma: por carência eu me apego a uma pessoa, me jogo na relação, trato a pessoa como importante, mas não recebo isso de volta, demoro anos achando que a errada sou eu e, quando vou embora muito decepcionada, ainda sou acusada de estar sendo egoísta ou punindo a pessoa. Ninguém é obrigado a gostar da gente, mas ninguém é obrigado também a ficar engolindo calado indiferença ou mesmo desvalorização enquanto dá amizade ao outro, porque, afinal, eu sempre achei que todo mundo precisa ficar satisfeito em qualquer relação, do trabalho à família. Engraçado é que quando eu apontava alguns comportamentos ruins em amizade, eu sempre era olhada como "a dramática", a "que faz tempestade em um copo d´água". Ontem, sentada num café com três amigos - um do Rio, outra de BH e outra de Belém -, as três pessoas têm a mesma opinião que eu sobre as amizades em Salvador, sobre como as pessoas são esquisitas. Uma delas narrou algo que eu já passei muito, sobretudo na adolescência: da pessoa estar com pessoas em comum com você e não te agregar, de você ter que ficar implorando pra se encontrar com as pessoas. 
Sempre me doeu muito romper laços, até porque eu trago poucas pessoas pro meu lado e invisto nelas, mas recentemente eu passei a aceitar que faz parte da vida e que não dá pra trabalhar pelos dois. Ou é recíproco ou vá embora. Antes só do que mal amada. Isso corrói a autoestima. Sério. E é a gente que se coloca nesse lugar. Nisso o outro não tem culpa. Aceitar qualquer coisa às vezes é tudo que a pessoa consegue fazer, mas isso não quer dizer que não seja uma escolha, uma decisão. Por outro lado, tem gente que não sabe amar ninguém porque simplesmente não se ama. É furada insistir com essa turma. Puxe seu carro.
Eu fico agoniada vendo o casal de Soprano, Tom e Carmela. Ele é aquele típico marido provedor, que mal dá um beijo na esposa, que já a trai nas vistas de todo mundo e a vê apenas como reprodutora. Ela ama ele e aguenta tudo e aquilo vai dando uma agonia. É meio complicado se separar de um homem que mata pessoas como se mata barata, mas eu torço tanto por ela. A criatura, depois de tanto tempo sendo ignorada, tem zero autoestima. Ninguém merece. Não dê esse poder aos outros. Ninguém tá interessado (e nem tem como) em resolver a vida de ninguém: nem filho, nem marido, nem amigo, nem pai, nem mãe. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Vamos por partes, Jack

Eu sei que as pessoas não fazem por mal, que mais externam algo delas do que falam sobre mim quando fazem isso, mas mesmo assim é um saco a cobrança para que você dê conta de tudo ao mesmo tempo. Eu já comi muito essa pilha. Só Deus sabe o quanto de culpa eu já carreguei em cima dos meus bonitos ombros (sim, essa é uma parte bem desenhada do meu corpo cá entre nós) por não dar conta de tudo a que me propunha. Mas, de uns tempos pra cá, tenho ficado mais espertinha e já saquei que pra algo prioritário ir pra frente, outro algo tem que ficar em stand by, na fila de espera. A vida melhora muito (pelo menos internamente) quando a gente consegue ter um mínimo de humildade e senso de prioridade.
Essa, para mim, foi a grande pegadinha durante a emancipação das mulheres, que, suspeito, não foi à toa, foi algo perverso do tipo: "Tá querendo liberdade, sua sacana?! Então toma sobrecarga!". Olhe para os homens. Eles não são multitarefas, eles sabem que o segredo do sucesso é focar. As mulheres querem ser gatas, bombas eróticas, boas mães, profissionais reconhecidas e, se puder, ainda evoluídas espiritualmente. É a senha pro adoecimento psíquico. Eu sei por conhecimento de causa.
Hoje em dia meu planejamento vai por prioridades. O bom que acontece é melhor que o excelente que nunca se realiza. Se não der conta de algo, paciência. Minha saúde em primeiro lugar. Os incomodados que se mudem.

domingo, 11 de agosto de 2019

Pirando na batatinha (ou melhor, na militância)


Olha, tem uma galera bem equivocada na vida, viu? O povo está jogando todas as frustrações individuais no fato de participar de uma minoria social. Não que ocupar esses espaços não diga nada, muito pelo contrário, mas nem tudo se resume a isso.
Tenho uma colega num grupo que eu frequento que tem uma mania de achar que está sendo preterida, que beira a mania de perseguição. Ela vem se reconhecendo como mulher negra, mas, em muitos ambientes, se por um lado ela não vai ser lida como branca, ela também não vai ser lida como negra. Ela tem traços caucasianos, pele morena bem clara e o cabelo cacheado é a parte mais negra dela. Como diz Maíra, a gente sabe quem é negro pela reação do segurança da loja e, definitivamente, ela não é do tipo que faria o segurança do shopping segui-la. Débora Nascimento (foto) é claramente mestiça, mas será que o segurança seguiria ela? De cabelo alisado, em alguns espaços ela é lida até como branca. Uma coisa é ter sangue negro, outra é ser lida como negro/a. Eu e minhas irmãs somos filhas dos mesmos pais. Eu sou lida como negra, minha irmã mais velha nem na Europa é.
Claro, toda mulher que não é a mulher troféu vai ser preterida. E se, obviamente, por um lado quanto mais escura for a cor da pele, mais a mulher tende a se lascar, do outro tem muita branca, que não é essa mulher troféu, que também tá sendo preterida, pelo menos no mercado amoroso.
Os sofrimentos são multifatoriais, minha gente: tem a ver com a estrutura social, tem a ver com a estrutura familiar, tem a ver até com a estrutura psíquica. Freud, aliás, dizia isso em um dos seus livros, que ter uma psique mais resistente aos revezes da vida era uma sorte na loteria da existência. Às vezes o que faz a diferença é conseguir aguentar ou ser mais sensível psiquicamente.
Por favor, vamos evitar obsessões.

domingo, 4 de agosto de 2019

Insecure - a flexibilidade para sobreviver na vida adulta




Bem, uma bela surpresa no mundo das séries foi "Insecure", da HBO. Andei recomendando a meio mundo. Um amigo meu me deu essa boa dica, então apenas dei continuidade a corrente do bem.
Essa moça da foto acima é Issa Rae, até onde sei uma influenciadora digital que foi "pescada" pela HBO para fazer essa série. Issa também é o nome da protagonista, uma moça de 29 anos que vive na Califórnia e tenta, como jovem adulta, achar seu lugar no mundo, especialmente seu lugar profissional (🙋). Sua melhor amiga é Molly (figura 1), uma advogada bem sucedida mas que enfrenta dificuldades na vida amorosa. As outras duas meninas são Tiffany (a de amarelo) e Kelli (a de casaco), que formam o quarteto de amigas (figura 2). Tiff é a mestiça em busca de ascensão social, o que inclui um processo de embranquecimento; Kelli é sua melhor amiga, aquela pessoa reativa que sempre tem uma resposta na ponta da língua (eu acho ela hilária, ainda mais na última temporada).
"Insecure" é sobre estar na boca dos 30, metade adolescente ainda, metade adulto e a importância da amizade em todo esse processo. Homens e mulheres da turma (e não há muita diferença entre eles em termos de caos existencial. Aliás, essa é uma das poucas séries que aborda a depressão masculina) ainda alimentam fantasias adolescentes sobre o que faz uma vida perfeita. Por outro lado, já administram suas necessidades e conflitos sozinhos como qualquer bom adulto, caindo e, "com a ajuda dos amigos", se reerguendo dos vários baques no ego que vão surgindo ao longo dos episódios.
Eu acho Issa um ser humano bonito, o que é um feito e tanto porque, sob muitos aspectos, aos olhos da competitiva sociedade americana ela é uma fracassada. Issa trabalha em algo que não faz sentido pra ela, mas não se deixa amargurar por causa disso e nem é tóxica quanto ao sucesso profissional de sua melhor amiga, Molly. Eu acho que ela até gostaria de estar naquele nível também, mas entende que cada um tem suas dores e alegrias e consegue ficar genuinamente feliz pela amiga. E apesar de estar perdida em sua vida amorosa, Issa sustenta mais relacionamentos do que Molly, por exemplo. É que Molly é muito inflexível com os homens que surgem em sua vida. Na verdade, ela tem padrões muito altos para tudo. Eu amo uma cena dela na terapia, em que a terapeuta lhe diz algo mais ou menos assim: "Se a sua vida não ocorrer como você planejou, você está preparada para fazer outros planos?". Bingo!...
O que a série mostra e de uma forma cativante e leve como poucas vezes vi na vida é que, ao contrário do que dizem, não é o mais forte que sobrevive, mas o mais flexível. Crescer é foda, mas com jogo de cintura e com as companhias certas dá pra seguir em frente com razoável dose de felicidade.
Outra coisa genial em "Insecure" é o jeito com que aborda questões raciais. Isso está o tempo todo presente nos episódios, mas de um modo que permite duas possibilidades de fruição: você pode apenas rir e não refletir ou rir e refletir. O discurso antirracista não é panfletário, simplesmente flui pelas situações apresentadas na série.
"Insecure" é muita ginga pra uma série só!
Ah, sim: a trilha sonora é ma-ra-vi-lho-sa!

sábado, 3 de agosto de 2019

Don Draper e o pior azar do mundo

Hoje finalmente terminei Mad Men. Na moral, não achei isso tudo. É uma boa série, tem uma ambientação impecável, mas as duas primeiras temporadas e as duas últimas são chatas. Pra mim, só prestou o miolo. A sétima temporada, então!... Merece uma sapatada na cara quem elogia o final de Mad Men.
Os melhores personagens da série pra mim: Don e Sally. O troféu desperdício vai pra Peggy, que começou bem e virou coadjuvante de luxo a partir da quinta temporada. Os simpáticos: Megan e Roger. O troféu mala sem alça: Pete. Personagem que entrou e saiu sem função e nunca deveria ter existido: Michael.
Don é um cara que teve o maior azar do mundo: o de ter tudo que todo mundo poderia sonhar, mas nada ter significado pra ele. Além do vazio e da frustração ainda há culpa. "Eu deveria ser feliz, mas não sou". Já dizia um coisinho que os dois maiores azares é ter tudo ou não ter nada. Don passou pelas duas situações.
A série fica interessante na segunda metade da terceira temporada, que é quando a gente tem uns flashes do passado do protagonista - ou seria a agência a protagonista? - e daí muita coisa faz sentido. Até então, Draper é um entediado, mimado, mas dali em diante você entende o buraco, o dano que o passado dele causou na vida adulta dele.
A infância dele foi bem pesada. Filho fora do casamento de uma prostituta que morreu no parto (só aí já tem muitas coisas punks). O pai morreu quando ele era criança (o que na leitura da criança é lido como abandono). Foi morar com duas pessoas que não eram seus pais e que o viam como um estorvo, num ambiente ruim pra uma criança. Quando ficou doente, foi isolado e a única pessoa que tratou dele cometeu abuso.
Don viveu o pior pesadelo da infância: estar sem os pais. Toda criança quer ser aceita, protegida e amada. Quando você tem o contrário disso, tem que suspender o contato com os próprios sentimentos para sobreviver. A questão é que ele se tornou adulto sem conseguir desfazer isso. E por ser alguém mental, aí é que os sentimentos ficaram no porão mesmo. Don procurava ser amável e generoso - especialmente depois de ver que deu bola fora com as pessoas que gostavam dele -, mas sempre dava um jeito de afastar essas pessoas. Sally passou a infância mendigando qualquer atenção dele, que só foi procurar a filha depois que ela passou a não querer mais estar perto.
Gente assim é furada. Quando a pessoa é traumatizada e dorme abraçada com a autossabotagem, só Jesus na causa - e se a criatura quiser se ajudar. Mas apesar disso, do cigarro e da bebedeira, eu toparia um relacionamento abusivo com Don (risos). Aliás, 99% da série concordaria comigo.
Eu só não gostava dele quando era rude com Sally ou com Peggy. Interessante a relação dele com Peggy. Ele nunca considerou ela amorosamente; era como se fosse um homem (aliás, ele é o tipo de homem que não se interessa sexualmente pelas mulheres que ele realmente considera, a exemplo de Anna), mas era a pessoa a quem ele buscava quando a coisa apertava. E ela também era leal a ele. Uma grande homenagem mútua.