Uma vez, quando eu era repórter de Economia, fiz uma matéria que saiu na edição do domingo e fez sucesso; as pessoas do jornal me pararam pra elogiar na segunda-feira. A pauta era trivial, mas o enfoque não, e eu acho que isso conectou os leitores. Era uma matéria sobre como recuperar as finanças, só que, graças a Deus, conversei com um economista que não repetiu o mesmo lenga lenga de sempre e enfatizou que o essencial é aquilo que você elege como indispensável, que pode ser desde pagar a escola particular para os filhos até fazer uma boa academia. Muito simples, né? Ele respeitou que cada um tem um desejo, uma necessidade e não ficou cuspindo receita de bolo, impondo o que deve ser prioritário ou não, não foi moralista nem austero e deu dicas possíveis. Veja como um economista que lembra que o leitor é gente já faz a diferença.
Ana Suy, psicanalista, em uma live disse que não é a favor de terapia para todos, até porque é preciso escolher bem com quem vai fazer terapia. Entendi o que ela quis dizer. Realmente, há quem consiga se encontrar na vida com coisas terapeuticas e que não são terapia. Sobretudo, cair nas mãos de um terapeuta chinfrin às vezes pode fazer mais mal do que ficar sofrendo no próprio canto. Mesmo bons terapeutas podem fazer merda. Eu já fiz uma vez e não porque era novata, mas porque tem duas coisas que são muito difíceis na atividade de terapeuta: não julgar o paciente e seguir a linha de raciocínio dele e não a nossa própria. Por isso é preciso estudar muito e fazer supervisão. Muito, muito. Só sensibilidade e inteligência não resolvem, você tem que saber separar o seu do dos outros. É fundamental.
Eu tive boas terapeutas (no plural, porque foi mais de uma), mas elas sempre escorregaram nisso: sinto que analisam segundo os valores delas, a cabeça delas e não seguindo a minha linha de raciocínio e que, como as questões que eu coloco não são fáceis de resolver, acabam me dando sugestões óbvias, que é claro que eu já tentei e não deu certo ou, em outros casos, eu não consigo fazer, e o que é bloqueio brabo você não vai resolver na tora; tem que ir por outros caminhos, bolar outras estratégias personalizadas. Mas elas não conseguem pensar comigo outros jeitos. E o pior, não dizem "Eu não sei", ficam nervosas e jogam pra mim a culpa da não solução. Ora, se eu soubesse o caminho pra resolver, não estaria pedindo ajuda na terapia. Me sinto completamente só e desamparada de novo nessas horas. É foda.
Não digo que vou desistir da terapia, mas a minha última sessão me jogou em desalento. Já vinha perdendo a crença de que isso funciona pra mim e a última sessão foi uma pá de cal. Antes de continuar, vale abrir uns parênteses. Não vou dizer nada de novo, mas é oportuno relembrar antes de continuar.
Minha vida não foi fácil. Eu sei que a de ninguém é, que a esmagadora maioria das pessoas se sentassem aqui e começassem a falar da própria vida sinceramente, iam lamentar e chorar (e quem não, desconfio que está alienado). Mas no meu caso, eu tô por conta própria (emocionalmente nem se fala...) desde que me entendo por gente, cresci e tenho vivido em um ambiente que me fragilizou muito e sou cobrada, apesar das pessoas ao meu redor me darem muito pouco ou nada. Ninguém nunca me perguntou de verdade como eu me sinto, ou tentou entender o meu lado ou pegou na minha mão pra me ajudar nos momentos de crise (se eu não pedir, ninguém me oferece ajuda); nunca recebi flores; e há 25 anos ganhei meu último bolo de aniversário. Eu prefiro cactos a flores e escolho e compro minha própria fatia de bolo, mas isso aí é pra descrever o nível de delicadeza, atenção e carinho que as pessoas ao meu redor têm tido comigo durante a vida. Sempre tive a sensação de que recebo menos do que dou. E não acho mesquinho falar em dar e receber, porque ninguém é saco furado e o nome da coisa é "relação", o que pressupõe bilateralidade e não um só doando. Teria dado um braço pra ter tido, ao longo da vida, alguém que fosse um suporte afetivo seguro, perene, teria sido muito agradecida por essa pessoa na minha vida (só pra olhar pra cara e saber que tem alguém por mim), mas isso não veio. Pelo menos, em fases mais agudas, sempre apareceu gente (pessoas que não eram próximas, geralmente) pra dar um socorro, e eu agradeço a elas, mas não foram pessoas com quem desenvolvi um laço forte; elas chegaram e foram embora. As que eram mais próximas, eu nunca fui prioridade delas. Sabe aquela coisa meio BBB, de não estar no podium de ninguém?... Em momentos críticos, a sensação que eu tinha é que a vida me mandava a ajuda necessária pra me manter viva fisicamente, mas nunca mandou o que eu precisava pra viver de fato. Tem sido foda.
E claro que isso jogou um peso enorme nas minhas costas e me deixou desconfiada dos laços humanos. Muito da confiança que desenvolvemos na gente vem da valorização e do apoio do entorno. Não existe autoestima sem a participação dos outros, sem reconhecimento externo, pois somos seres relacionais. De tempos em tempos, falta combustível, o carro não quer andar de jeito nenhum e eu faço uma força hercúlea pra empurrar o dito cujo e seguir em frente. Sabe aquela brincadeira de "Estou fazendo o mínimo, mas este é meu máximo"? Esse "seguir em frente" vai todo capenga, esse carro tá todo barreado já, mas ele segue indo como dá. E não tem um cristão pra me dar o devido crédito, pelo contrário, é como se a minha luta fosse invisível. Se dão, fazem em silêncio e isso pra mim não serve de nada. Só eu sei. As pessoas não têm ideia do quanto me custou chegar relativamente sã e salva até aqui. Acho que elas pensam que é fácil demais pra mim, que tudo me cai do céu, que eu não me preocupo ou sou acomodada com as coisas. E apesar disso eu sou uma boa pessoa, ética, solidária, afetuosa, esforçada. Pelo que eu recebi da vida, não era nem pra ser. É porque é da minha natureza mesmo, mas por outro lado, não tenho muito mais pra dar porque não tenho de onde me alimentar. Inclusive, de tanto dar aos outros na esperança de receber, acabei gastando uma energia vital que já era pouca e hoje faz falta pra mim. Infelizmente, não conheço uma versão descansada minha desde os meus 13 anos. Sou sempre essa versão estressada aqui, em hipervigilância, preocupadíssima em sobreviver e com medo que isso não aconteça em algum momento. Neste filme, não tem príncipe, nem espada mágica, nem rei, nem fada madrinha. Só minha roupa de sapo mesmo.
Desde a eleição de Bolsonaro e da pandemia, que coincidiram com o meu processo de envelhecimento, isso ficou pior. Vem me custando mais achar graça nas coisas, fazer esse exercício de criatividade que é viver a vida, como eu sempre fiz. É como se eu já tivesse visto de tudo e as coisas ficassem repetidas, sem atrativo, sem vínculo. É como se eu estivesse mesmo perdendo o combustível e isso, óbvio, me deixa abalada. Lembrando: neste filme, não tem príncipe, nem espada mágica, nem rei, nem fada madrinha. Só minha roupa de sapo mesmo. E se eu não puder dar mais meus pulos, como é que vai ficar?
E num desses períodos de fragilidade extrema, que vem e vai, eu gastei um dinheiro que não tinha pra chamar a terapeuta. Mas foi uma sessão desastrosa. Eu precisava de uma coisa e veio tudo ao contrário. Eu queria acolhimento, veio culpabilização e bronca; eu queria uma luz, veio clichê, senso comum... Ana Suy falou e disse. Mas onde estão essa meia dúzia de pessoas que entendem os outros? Winnicott tinha razão: É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado. Quem me ajuda a me procurar?
