quarta-feira, 23 de abril de 2025

78

Hoje acordei com uma notícia que falava de um estudo que estimava que até 2060 a idade mínima pra aposentadoria no Brasil teria que subir pra 78 anos. Sei que é apenas uma pressão da Faria Lima, mas é assim que começa. E isso, somado a minha sensação de desesperança com todos os cenários possíveis neste país, me deu vontade de chorar, de desaparecer de verdade.  A sensação que tenho é que nada que a gente faça melhora esse fundo do poço; pelo contrário, a gente só se afunda quanto mais tenta se movimentar, se mover. E eu tento. Eu juro que dou mais que meu máximo. 

Não tenho palavras pra sensação de fundo do poço que senti. Por que este país é assim? Por que estamos todos, no mundo quase inteiro, morrendo pra sobreviver? É exaustivo viver na máxima velocidade, obtendo sempre o mínimo em todos os sentidos. Em todos os sentidos mesmo. Estamos sem proteção ambiental, espiritual, social, trabalhista e sentimental. Acho que se vivesse na idade da pedra estaria mais tranquila, mais de boa. 

A palavra é esta: exaustão. 

Sinceramente, não sei mais o que fazer.  

sábado, 19 de abril de 2025

Me poupe

 Uma pessoa que já foi minha amiga e com a qual não falo teve uma boa notícia profissional, que foi veiculada no grupo da faculdade. Uma amiga em comum ficou pisando em ovos para parabenizar, imagino que por minha causa. Que bobagem. Pra mim, ela é um dado, zero sentimento pelo que acontece ou deixa de acontecer na vida dela. No caso em questão, eu me afastei porque acho a criatura pobre de espírito, um vazio. E continuo achando. Então, que diferença faz se ela tem isso ou aquilo? Meus critérios de amizade, de relacionamento são neste sentido e eu preciso admirar. 

As pessoas acham que os sentimentos são eternos. São não. O tempo minimiza tudo. Essas pessoas, que já se foram da minha vida faz tempo, são gente "morta". Por isso que eu sofro pra me afastar, porque é uma morte em vida, um luto mesmo. Mais tarde, é o mesmo que cruzar com fantasmas. 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Adolescência

"Adolescência" é uma boa série e que está dando o que falar. Os pais estão apavorados. Parece que só agora descobriram que a internet pode ser perigosa. Eu sei disso desde a época do Orkut, quando já se mencionava a galera do mal da deep web. 

Na verdade, na minha opinião, o grande strike da série é que ela mostra que o problema é multifatorial: a família, mesmo "boa", não se conecta; os professores estão exaustos e não dão conta; a internet tem gente criminosa incitando discurso de ódio; e os colegas fazem bullying sem parar. Não há quem tenha sanidade mental numa loucura desta. Nada, no ecossistema do jovem, colabora pra que ele esteja sadio. Vai passar por esta fase ileso quem por bom temperamento e proteção divina conseguir isso.

Um dos pontos geniais da série é que os roteiristas botam em questão o que é um lar amoroso, bom. A família de Jamie é considerada uma boa família. Os pais parecem se dar bem, parecem ser preocupados com a família. Mas ser um "bom pai" não garante conexão, que é do que um filho precisa. No caso do policial, ele ainda era pior com o filho, muito mais ausente que o pai de Jamie. Ele não tinha paciência com o garoto. Já o pai de Jamie achava que provendo e não sendo violento, como o pai foi, já estaria sendo ótimo, porém fica claro que ele não valorizava o filho e quando este falhava nas provas de masculinidade, até sentia vergonha dele - e o menino percebia. Os dois homens cumpriam a obrigação paterna, mas não faziam os filhos se sentirem amados, não estabeleciam uma conexão afetiva, e isso é muito perigoso. Os pais parecem que não fazem ideia do tanto de merda que pode acontecer na falta disso, especialmente nesta idade. Ou não querem se lembrar, porque todo mundo já foi adolescente um dia e a maioria com uma família de meia boca pra ruim. Calhou que o filho do policial, mais largado, teve juízo e o Jamie despirocou. 

Isso leva à segunda questão, que se relaciona também à irmã de Jamie: fazer o mesmo por duas crianças pode gerar resultados bem diferentes simplesmente porque cada um é único e tem uma força psíquica e uma necessidade própria. A irmã do protagonista conseguiu se tornar melhor que os pais. É a pessoa mais equilibrada da casa. Já o menino era menos forte psicologicamente, e foi pro polo negativo da própria personalidade. Por isso não basta ser "bom pai", tem que ficar de olho, prestar atenção a quem você tem em casa. Até em relação aos psicopatas (o que não acredito que Jamie seja, porque no final ele admite e resolve se responsabilizar pelo que fez e não acho que um psicopata seria capaz disso), já é sabido que o meio ambiente ajuda a aplacar ou disparar esta tendência no indivíduo. 

Outro ponto da série é a nossa necessidade justamente de estabelecer conexões, de nos sentimentos amados. A família tem um papel crucial nisto. Quando a pessoa não tem esta base familiar, segue vulnerável pra violência no mundo - e tem muita, o tempo todo. Se sentir amado é completamente diferente de ser amado. No primeiro caso, é certeza de pisar em chão seguro, o que é fundamental pra se jogar na vida. Na falta disso, vamos procurar o poder. Como Jamie não conseguiu esta conexão em casa, muito menos com o pai, ele resolveu se conectar a grupos duvidosos da internet e, num acesso de raiva vindo de uma rejeição, cometeu um crime. No reformatório, por incrível que pareça, ele pareceu ficar mais dono de si, mais corajoso do que na vida anterior, na escola. Provavelmente porque agora ele tinha um feito de destaque, ainda que macabro, e no mundo masculino talvez seja melhor ser perverso que invisível. Me lembrei muito de "Ônibus 174". O Sandro, invisível a vida toda, entrou no personagem de um sequestrador quando viu que estava recebendo atenção. Isso é tristíssimo, porque assim como a fome e o sono, não dá pra negociar com a nossa necessidade de afeto - qualquer que seja. Somos, aliás, uma espécie que só sobrevive se tiver isso. Não é superfluo, não é frescura. A própria vítima de Jamie, a Katie, era carentíssima. O que mais levaria uma menina tão nova a ficar mostrando os peitos pros meninos do que querer ser validada, vista a qualquer custo? E nesta idade a gente sempre acha que vamos sofrer pra sempre. 

Por último, mas não menos grave... É chocante, embora nada surpreendente, a visão coisificante que Jamie tem das mulheres. Quando ele fala que tinha uma faca e podia ter estuprado ela se quisesse (com o maior ar de "olha como fui gente boa") e admite que chegou nela querendo se aproveitar da baixa autoestima da garota diante do escândalo com as fotos dela na escola, eu tive vontade de resetar a humanidade. Por que não é surpreendente? Porque até os chamados bons moços, se a gente futucar, tem este pensamento interesseiro e coisificante sobre a gente, que eles aprendem de outros homens. Os caras são homoafetivos, eles acham que ser humano mesmo é só o parça; mulher é um buraco, um ser inferior, pra ser usado, enganado, que não tem querer, que tem que seguir o script que ele deseja que ela siga, senão não presta. Nós, mulheres, passamos a vida recolhendo migalhas de atenção. Fazendo o máximo e recebendo o mínimo. E por que não matamos, se temos até mais motivo pra revolta? Porque somos criadas para a vida e não para a morte (ainda bem) e porque só se expõe em seu pior quem sabe que vai ser acolhido apesar disso. Os homens fazem porque o feminicida, ou mesmo homicida, segue a vida sem grandes prejuízos. Uma mulher, por muito menos, anda com a letra escarlate no peito. Muitos homens, incluindo os "bons", tem uma visão gamer da convivência com a mulher. É o tempo todo tramando pra nos vencer, sem qualquer boa vontade pra se relacionar, pensando no que pode extrair dessa mulher e raramente enxergando o ser humano nela. Foi feio ver que isso começa tão cedo na socialização deles, mas faz absolutamente todo o sentido.

Diante do furor que "Adolescência" causou, alguns especialistas saíram tranquilizando os pais dizendo que a esmagadora maioria dos jovens não vão se tornar um Jamie, nem mesmo os que ficam o tempo todo na internet. É verdade. Mas há, por outro lado, muitos meios de acabar com a própria vida, inclusive até performando uma vida normal, funcional. O amor protege, é fato, especialmente aquele recebido (e percebido) na primeira infância. Mas eu não sei se os pais pegaram este bilhete...