Quando frequento o Itaigara, onde minha irmã mora, fico muito constrangida com as relações patrões e funcionárias domésticas (sim, são elas, negras, da periferia, 99% das vezes).
Eu entendo que quem contrata, no Brasil, sofre com a má formação da mão de obra. Às vezes, a galera é sem noção mesmo. Mas esse não é fator que prepondera nessa relação laboral.
Frequentemente, percebo que os ricos cometem um erro fatal: achar que quem precisa de emprego e dinheiro por causa disso não tem direito a ser humano (leia-se, alguém com dignidade e que também deseja).
Acho que o mundo só vai para frente, mesmo, quando "gente de bem" se der conta que todos querem a mesma coisa, independentemente de sua origem social.
Essa ignorância sobre o poder do desejo, brilhantemente abordada por Contardo Calligaris (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2015/05/1631415-desejo-e-necessidade.shtml), nos faz cometer equívocos, por exemplo, ao pensar sobre a violência no nosso país.
Invisibilidade
Invisibilidade
Os coxinhas e a militância erram pelo mesmo motivo: ignorar que essa gente é igual e não bicho ou personagem de pesquisa de Ciências Sociais.
Não é à toa que a igreja evangélica, e sua promessa de prosperidade, avançam tanto. Ela trabalha em cima daquilo que a sociedade prefere ignorar: pobre também sonha com bens materiais e em ter uma vida menos sacrificada.
Aos coxinhas:
Nosso direito de escolher é afetado pelas circunstâncias das quais dispomos. Não venha dizer que "é só querer e amanhã assim será". O buraco é bem mais embaixo, a pessoa tem que ter muita vontade e persistência. Subir na vida, no Brasil, é para os excepcionais; não há muitas oportunidades.
À militância:
Mas não se enfia a faca em alguém para roubá-lo por necessidade e falta de formação familiar. Outras coisas preponderam aí. Primeiro, a pessoa tem que ter uma agressividade dentro dela. Segundo, nesses casos mais impera o desejo de se dar bem que a necessidade. Porque dá para matar a necessidade (a mais básica, primária) de outros modos não-violentos. Já o desejo é mais complicado...
Eu acho que, de fato, a invisibilidade dá mais deixa para os amigos do "baixo clero" entrarem no crime do que a necessidade. Aliás, a invisibilidade provocada tanto pela pobreza quanto pela riqueza liberam as pessoas para a transgressão. Se eu sou sempre visto pela minha condição financeira, que compromisso preciso ter com as regras, com a sociedade? Ninguém chama Thor Batista de assassino, lembrando o crime e o descaso que cometeu no trânsito; ele será sempre o rapaz loiro e rico, o filho de Eike Batista. É o que define ele socialmente. E o crime tem um grande "quê" de vaidade, não percamos isso de vista. Aliás, na nossa "amada" classe média tem gente que só não libera esse lado negro da força por mera pressão social. Eu conheço alguns elementos (do sexo feminino também) que só não deram para marginais porque o entorno está de olho, pronto para julgar e discriminar. Mas se não fosse isso, hum...
Não é à toa que a igreja evangélica, e sua promessa de prosperidade, avançam tanto. Ela trabalha em cima daquilo que a sociedade prefere ignorar: pobre também sonha com bens materiais e em ter uma vida menos sacrificada.
Aos coxinhas:
Nosso direito de escolher é afetado pelas circunstâncias das quais dispomos. Não venha dizer que "é só querer e amanhã assim será". O buraco é bem mais embaixo, a pessoa tem que ter muita vontade e persistência. Subir na vida, no Brasil, é para os excepcionais; não há muitas oportunidades.
À militância:
Mas não se enfia a faca em alguém para roubá-lo por necessidade e falta de formação familiar. Outras coisas preponderam aí. Primeiro, a pessoa tem que ter uma agressividade dentro dela. Segundo, nesses casos mais impera o desejo de se dar bem que a necessidade. Porque dá para matar a necessidade (a mais básica, primária) de outros modos não-violentos. Já o desejo é mais complicado...
Eu acho que, de fato, a invisibilidade dá mais deixa para os amigos do "baixo clero" entrarem no crime do que a necessidade. Aliás, a invisibilidade provocada tanto pela pobreza quanto pela riqueza liberam as pessoas para a transgressão. Se eu sou sempre visto pela minha condição financeira, que compromisso preciso ter com as regras, com a sociedade? Ninguém chama Thor Batista de assassino, lembrando o crime e o descaso que cometeu no trânsito; ele será sempre o rapaz loiro e rico, o filho de Eike Batista. É o que define ele socialmente. E o crime tem um grande "quê" de vaidade, não percamos isso de vista. Aliás, na nossa "amada" classe média tem gente que só não libera esse lado negro da força por mera pressão social. Eu conheço alguns elementos (do sexo feminino também) que só não deram para marginais porque o entorno está de olho, pronto para julgar e discriminar. Mas se não fosse isso, hum...
Eu, particularmente, me choco é com o fato de gente tão jovem não se dar nem a chance de tentar, antes de, frustrado, cair no crime. Sim, porque o que vemos é uma geração sem persistência, sem paciência para ao menos tentar antes de sucumbir. Meninos de dez anos cheirando cola. Por mais que tenha sofrido em casa, é demasiado cedo para desistir, convenhamos. Fico pensando que se meu pai e outras pessoas que tiveram uma infância de violência e fome, como ele, vivessem a infância hoje, eu não teria existido. Seriam meninos como esses que enfiam facas para ter um celular ou trocá-lo por cola. Mas é que naquela época não havia internet, televisão em massa, nos fazendo acreditar que o quintal de todo mundo é mais verde.
E acho, também, que do rico ao miserável, carregamos, como povo, o ranço do oportunismo. Um exemplo pequeno do que estou dizendo: semana passada fui cobrir o Dia sem Impostos. Fila quilométrica de gente em frente a um posto de gasolina. Sabe pra quê? Pra comprar 17 litros a metade do preço. Gente na fila desde as 3h. Faz sentido esse sacrifício? Claro que não. É o desejo de levar vantagem. Isso permeia a nossa vida privada e pública. Quando vamos encarar esse fato de frente?