sábado, 29 de novembro de 2014

Limite também é prova de amor

Uma amiga minha acaba de ter filhx e, pessoa amorosa que é, está encantada com a maternidade (a filhota é mesmo uma fofa, uma coisaaa de linda! me deu um sorriso de dois dentes, faz um mês, um charme só). Outro dia, postou no Facebook um link para uma matéria que defende que basta aos pais ter "empatia" pelxs filhxs para criá-lxs bem; que o mundo já é duro e xs pais não precisam torná-lo mais difícil impondo limites. Gente, isso é tão seguro quanto uma mulher de ciclo irregular fazer tabelinha para evitar engravidar. Há uma mesma motivação, aliás, se a gente pensar bem nessas duas situações: não "prejudicar o organismo". Mas a questão é: a que preço? Olha o risco desnecessário aí (porque, sim, há outras vias menos danosas, como se deseja, porém mais seguras). 
Eu diria à autora do texto que falta real empatia pelo filhx em um genitor que age assim como ela propõe. 
(Cansei de botar "x" no lugar do "o", mas vocês entenderam qual é a intenção, não é?)
Eu ainda acredito que pé de galinha não mata pinto. Claro, temos a obrigação de evoluir em relação aos nossos pais. Acho que os brasileiros ainda são incompetentes para inserir a alegria na educação da prole. No Brasil a gente ainda é ensinado que tudo que vale a pena tem que vir através do sofrimento. O resultado disso é que brasileiro não é lá tão leve quanto aparenta: reclama muito e investe pouquíssimo em mudanças. Gente alegre não vê tantos problemas e, portanto, não se paralisa. Acredita em mudanças. Espera - às vezes por muito, muito tempo, na base da resiliência - por dias melhores.
Eu sou da teoria de que primeiro você aprende os conceitos básicos, depois bola a sua própria receita. O chef não surge antes do cozinheiro. (Luize, se estiver lendo isso, pule a parte que se seguirá, amiga, rs.) Eu sempre encontrei muita similaridade entre criar um cão e uma criança. Ambos são dominados pelo instinto. E muitas vezes só param de privilegiar a realização dos seus desejos se o adulto os fizer parar. Já que é assim, acho melhor que aprendam pela mão amorosa da família que na rudeza da rua. Chegamos ao meu xis da questão: estabelecer limites não é punição; é proteção. 
A meu ver esse tipo de pensamento de minha amiga e do artigo que ela compartilhou falha em uma coisinha, que não é tão "inha": o mundo não ama o seu filho as much as you. É duro admitir isso, mas aceite, que dói menos. Do lado de lá é "tiro, porrada e bomba" muitas vezes. Então, ensinar seu filho a agir dentro das regras (as realmente importantes, claro) é uma forma de protegê-lo. Porque nem todo mundo enxerga criança como "café com leite" e se uma pessoa resolver agir rigidamente com um pequeno, ele vai se impressionar com isso. As próprias crianças costumam se vingar do mau comportamento de outras crianças, isso acontece com frequência no mundo infantil. Eu sei bem porque lembro bastante de quando era criança.
Há uma diferença importante: adulto transgride porque tem condição de elaborar racionalmente uma rejeição; a criança ainda não sabe fazer isso, pelo menos as menores de oito anos. 
Se os pais souberem educar bem na primeira infância, dificilmente as crianças passarão por problemas, mesmo se resolverem transgredir as convenções sociais - uma boa educação provocará isso, aliás. Elas terão alguns valores importantes internalizados, elas serão lúcidas sobre como as relações sociais funcionam e não produzirão tantas ilusões que só complicam a vida e elas se sentirão protegidas pelos seus pais. Repare como a gente fica com raiva mas ao mesmo tempo orgulhoso quando percebemos que os nossos pais estavam certos. É chato ver que se enganou, mas ao mesmo tempo há uma sensação boa de que você está/estava em boas mãos.
Pai e mãe, a propósito, não deveriam se desesperar tanto com a chegada da adolescência. Se chegaram junto nos primeiros anos do filho - prestando atenção à personalidade dele e tendo paciência para ensiná-lo e estimulá-lo -, esse trabalho não irá evaporar, isso eu garanto. Poderá ser "editado", mas não "descartado". Pai e mãe vivem dentro da gente para sempre e eles deveriam ter mais consciência e principalmente fé nisso. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A síndrome de "rei do camarote"

Quando cheguei a Salvador, no início da década de 90, morei na Rua K, em Itapuã. Minha vizinhança era de elite: à minha esquerda, o dono da antiga Alimba; atrás, o humorista Juca Chaves e, do lado, uma família ítalo-brasileira, com uma casa incrível de dois andares, dois filhos e um dog que eu amava.
Fiquei muito amiga de Danilo, um menino uns dois anos mais velho, e da filha da empregada, que, como nunca mais tive contato, esqueci o nome - a mãe de Danilo é meu contato até hoje. Gostava muito de brincar com os dois, até porque eram as únicas crianças dali. Mas um evento me marcou nessa convivência. Foi quando a menina, mais criança que eu, pediu para usar o banheiro.
Estávamos na minha casa jogando algum jogo de tabuleiro e ela fez o pedido. Indiquei o banheiro da casa. Quando ela saiu da sala, Danilo não se conteve e revelou o incômodo mais ou menos assim:
- Como você deixa ela usar o seu banheiro?! Ela pode ter muitas doenças e passar para vocês!
Eu respondi na lata, como até hoje eu costumo fazer, ainda mais quando alguém diz uma grande merda perto de mim:
- Você pode ter muito mais doenças que ela, afinal, já é rapaz, já namora, e ela é criança.
Ele ficou mudo, puto da vida, uma reação típica de playboy contrariado. Mas nunca mais me disse nada. E sorte dele que meus pais não estavam em casa. Se conheço minha mãe, daria uma resposta muito mais cortante que a minha.
Essa historinha toda é para explicar porque eu não gosto dessa chamada elite brasileira. Não é por inveja - que é o que alegam quando se toca nesse tipo de ferida, no classismo de uma certa parte da sociedade -, até porque não sou consumista. Se um dia tiver muito dinheiro, meus luxos serão ter uma casa confortável, estudar e viajar. É que eles são escrotos pra cachorro. Tem a síndrome de "rei do camarote", acham sempre que estão agregando valor por onde passam, por isso todos devem servi-los.
Um amigo meu escaldou publicamente uma colega de faculdade por causa disso. A menina teve a cara de pau de dizer que não era racista porque almoçava com uma menina negra, a única do local onde ela trabalhava, e disse que até foi dançar com ela em alguma festa da rua da menina. Rainha do camarote total, gente! Ela acha que não é racista porque deu a garota negra o prazer de sua companhia. Afinal, ela, branquinha, agrega ao fazer isso. Resultado: meu amigo, negro e muito "nigrinha", esperou um seminário da turma da faculdade, escolheu o tema "racismo" e relacionou a teoria às coisas que a menina falou, citando o nome dela. Ela chorou, provavelmente de raiva e não de remorso. Tá com pena? Eu não. Gente idiota tem que levar esse tipo de escalde para ver se começa a se humanizar um pouco. Isto é, nos casos em que a pessoa tem essa capacidade no DNA; desconfio que a maioria não tem.
 E essa elite, se precisar fuder com quem precisa - leia-se, os mais pobres - para se beneficiar, não sente culpa alguma. Afinal, eles agregam. O pobre é que deveria estar muito feliz em servi-los.
Um colega de trabalho conta que a sua ex-babá tinha verdadeiro horror à ideia de voltar a atuar como doméstica. O motivo: a antiga patroa colocou, uma vez, a figura para trabalhar numa festa sábado à noite, quando ela deveria estar folgando. Foi pega de surpresa, mas trabalhou. No dia seguinte, bem cedinho, se picou para casa para, afinal, gozar de uma parte restante da sua folga. A patroa escaldou a criatura, depois, porque ela saiu sem pôr o café da manhã do fulaninho, filho dela. A moça ficou tão humilhada que nunca mais quis atuar nessa função. Provavelmente não foi a única situação do tipo enfrentada por ela, mas foi uma bela gota d´água.
Enfim, eu nunca acreditei muito nessa tal de igualdade de classes. Quem tem dinheiro, só respeita dinheiro e os signos ligados a isso. É bem verdade que conheço algumas exceções, mas já vi muita gente pintar o diabo com os outros porque tinha dinheiro. Alguns se lascaram mais na frente e perderam tudo - precisando, inclusive, das figuras que haviam humilhado. Não gosto dessa gente. Usam perfume importado mas fedem na alma. Não respeitam as pessoas e usam critérios aristocráticos e fúteis para decidir sobre o valor de alguém. Até admito para a convivência eventual, mas trazer para perto, não mesmo. Ao contrário da crença deles, não agregam nada, pelo menos não moralmente e espiritualmente.