sexta-feira, 24 de novembro de 2023

No seu lugar

Outro dia fui me despedir da minha ex turma de Teoria Junguiana indo ao ultimo dia de aula deles. Uma das colegas, comentando sobre a dedicação de uma outra colega que trabalha no CAPS, disse que era "lindo ver alguém encontrando seu lugar no mundo". É lindo mesmo e em alguns casos, misterioso. 

É impressionante como os caminhos se abrem quando ele é o seu. A força que as coisas têm quando precisam acontecer. Não basta você escolher; precisa ser escolhido. E não precisa ter talento. Algumas pessoas são escolhidas, quer tenham isso ou não, mas melhor ainda se vier esse plus, pra embelezar o cenário. 

domingo, 12 de novembro de 2023

Feridas e perseverança

 


Eu adoro documentários e adoro biografias. Nessa semana que passou, assisti três na Netflix, dois muito parecidos, já que foram sobre contemporâneos de Hollywood: Sylvester Stalone e Arnold Schwarzenneger. Os dois tiveram um início de vida sofrido, Sly muito mais que Schw Schw. O doc de Stallone é melancólico. Ele veio de um lar muito fodido, a busca dele pela fama foi na base do desespero (me identifiquei! hehe), foi marcado por mais altos e baixos, inclusive muitos dos sentimentos dele só tiveram vazão nas telas. Seus personagens falavam o que ele não tinha coragem de dizer às pessoas. O que me chamou atenção é que o doc cheira a testosterona. O pai importa, a mãe sequer é citada por ele. As mulheres e filhas não são mencionadas, mas o filho que morreu sim. O homem é um suco da masculinidade clássica. Não à toa, sente o fim como algo melancólico. Envelhecer é sobre perder o poder do macho alfa e se tornar o velho leão da montanha. Pra quem veio de um início de vida de extrema desvalorização, deve doer um pouco mais.  

Schw Schw é uma figura. Um cara de pau carismático, muito focado (embora ele se ache americano, foi a mente germânica que fez ele ser quem se tornou). Teve três vidas: a de atleta, a de ator e a de político. Se lançava nas coisas mais improváveis, mas com muita energia e carisma, e se dava bem. Sente o peso da idade, a perda do poder de quem já foi macho alfa, mas continua otimista. 

Os dois são mais inteligentes do que se pode presumir. Eu não me surpreendi. Por mais que a pessoa não viva do intelecto, não se chega e se sustenta num nível de poder desse sem ter algo na cabeça, sem ser inteligente. Mas admirei muito a motivação, a energia de fazer acontecer. Queria metade disso, e estaria feita. Se bem que ambiciono muito, muito, muito menos que eles na vida... Pra começar, não quero fama. 

Corta pra Feira da Fraternidade. O namorado de uma colega, professor de colégio público, conta que três ou quatro alunos de cada turma se animam a fazer o Enem. Fiquei incrédula. Óbvio que vim de uma condição social melhor do que a desses alunos, mas também frequentei escola pública, nunca tive quem me estimulasse nos estudos e só recebi o dinheiro da inscrição da UFBA (o da Uneb, depois de muita pressão da minha irmã, minha mãe me deu por conta dela), mas eu sempre tive a ambição de um futuro melhor. Estou lascada e quase velha, ainda não cheguei aonde queria, mas não deixo de tentar. E continuo sem torcida a favor, só na base da resiliência mesmo, e às vezes acho até que é loucura. Se tivesse mais energia, faria mais, não tenha dúvida. Uma das coisas das quais me ressinto é não ter a energia física e mental que eu gostaria. O carro até que é bom, mas faltou combustível... Enfim, aceitar é também uma das tarefas da vida. 

Então, mesmo entendendo em parte o desânimo dessa turma, eu nunca compreendi muito bem quem desiste da vida aos 10, 15, 20 anos. Porque por mais que você não tenha as condições favoráveis, você tem tempo pra trabalhar nelas, você pode ao menos melhorar um pouco a sua situação, você no mínimo vai se desenvolver. 

Mas aí é que tá. Corta de novo pra mesma Feira da Fraternidade, só que em outra conversa. Minha amiga disse que preferia que o sobrinho fosse extrovertido. Eu respondi que discordava. Os extrovertidos ganham muitas coisas, ainda mais num país que valoriza isso numa autoimagem, como vimos, enganosa de si como um povo alto-astral. Mas os extrovertidos perdem muito também. A começar que são dependentes num alto grau do feedback dos outros, da companhia alheia. São mais carentes e com menos recursos internos, na minha opinião. Isso ficou muito desenhado na pandemia, quando os introvertidos lidaram bem melhor com a situação, se arriscaram menos, ficaram menos intranquilos, etc. Lógico que há extrovertidos com profundidade, mas todo extrovertido que conheço passa por uma série de situações desagradáveis que os introvertidos não passam porque precisam bem menos dos outros pra se sentirem bem, pra se autorregularem. Acho que ela ficou chocada porque nunca havia pensando por esse lado. Lembrando aqui que introversão e timidez são coisas diferentes. Mas numa cultura extrovertida, que cada vez mais, por causa da internet, valoriza a extroversão, somos exacerbadamente estimulados a nos pensar dependendo da opinião dos outros sobre nós, como o produto a ser aceito pelo público consumidor - e cada vez mais exigente. Viver em sociedade é fazer propaganda de si, não tem jeito, mas estamos deixando 98% pra esse mercado e 2% pro espírito. E precisa ter espírito pra aspirar mais, pra se desenvolver, pra se aguentar, pra aprender a cair em cima de si mesmo, pra se aceitar. Pra transformar o limão em algo mais gostosinho. Note que nesses dois docs que eu citei, os personagens deles são pessoas que não só chegaram lá, como se mantiveram, se reinventaram em outras posições e continuam a se reinventar. Se fosse só sobre dinheiro e fama, não teriam chegado tão longe.