Se tem uma coisa que apequena uma pessoa é ficar jogando as coisas que fez por você na cara. Eu já tive momentos desses também, mas tomei vergonha na cara. Por trás disso, está carência e barganha e não generosidade, e é por isso que a pessoa fica com raiva quando o que pensou ganhar em troca não veio. Uma vez, uma pessoa desabafou comigo, quase chorando: "Eu faço o que todo mundo quer. Por que ninguém faz o que eu quero?". Não era verdade nem uma coisa nem outra. Ninguém é esse alecrim dourado todo. E mais: a errada nessa história era a própria pessoa queixosa, que estava sendo falsa. Os outros de fato recebiam mais do que davam, mas estavam sendo ao menos eles mesmos. Gente que faz tudo pelos outros não é generosa, é controladora. Experimenta contrariar a criatura pra ver a ira dela entrando em cena.
Obviamente, viver em sociedade implica em ceder e se dar em alguma medida. Faz parte do pacto. Gente que não sai de si é tão ruim quanto os controladores que fazem tudo. Mas há três regras do dar: 1) saber se o outro quer aquilo (afinal o erro clássico é oferecer o que o outro nem tem interesse de receber), 2) é importante respeitar desejos e limites, para depois não se sentir usurpado e 3) o equilíbrio entre dar e receber (por incrível que pareça, às vezes dá mais certo dois egoístas juntos que um generoso com um egoísta; receber demais é bom até certo ponto, pois gera rancor e inveja no "devedor").
Quando você faz porque você quer, nunca vai pagar o mico de fazer essa cena do "Eu fiz muito por você", pois fez porque te deu prazer, porque você quis, porque não te fez falta, porque subjetivamente você também ganhou com aquilo, enfim, não foi um peso. Pessoas realmente generosas nem notam que são de fato assim. Se você sente que só o outro está aproveitando, está tudo errado, a começar pela motivação para agir. Olha, tem gente que se auto abandona e depois reclama das faltas dos outros. Não se começa uma casa pelo teto, né?
No final das contas, a gente não faz nada aos outros, mas para a gente mesmo, nos bons e nos maus atos. Nunca esqueço de quando atrasei uma vez numa sessão de terapia, e entrei pedindo desculpas à terapeuta, que me deu uma resposta ótima: "Peça desculpas a você mesma, que perdeu tempo da sua sessão". O bem que a gente faz também é nosso. Quem já fez trabalho voluntário sabe o que estou dizendo. Na verdade, como diz a canção: "Só é seu aquilo que você dá".

