sábado, 20 de fevereiro de 2021

"Só é seu aquilo que você dá"


Se tem uma coisa que apequena uma pessoa é ficar jogando as coisas que fez por você na cara. Eu já tive momentos desses também, mas tomei vergonha na cara. Por trás disso, está carência e barganha e não generosidade, e é por isso que a pessoa fica com raiva quando o que pensou ganhar em troca não veio. Uma vez, uma pessoa desabafou comigo, quase chorando: "Eu faço o que todo mundo quer. Por que ninguém faz o que eu quero?". Não era verdade nem uma coisa nem outra. Ninguém é esse alecrim dourado todo. E mais: a errada nessa história era a própria pessoa queixosa, que estava sendo falsa. Os outros de fato recebiam mais do que davam, mas estavam sendo ao menos eles mesmos. Gente que faz tudo pelos outros não é generosa, é controladora. Experimenta contrariar a criatura pra ver a ira dela entrando em cena. 

Obviamente, viver em sociedade implica em ceder e se dar em alguma medida. Faz parte do pacto. Gente que não sai de si é tão ruim quanto os controladores que fazem tudo. Mas há três regras do dar: 1) saber se o outro quer aquilo (afinal o erro clássico é oferecer o que o outro nem tem interesse de receber), 2) é importante respeitar desejos e limites, para depois não se sentir usurpado e 3) o equilíbrio entre dar e receber (por incrível que pareça, às vezes dá mais certo dois egoístas juntos que um generoso com um egoísta; receber demais é bom até certo ponto, pois gera rancor e inveja no "devedor"). 

Quando você faz porque você quer, nunca vai pagar o mico de fazer essa cena do "Eu fiz muito por você", pois fez porque te deu prazer, porque você quis, porque não te fez falta, porque subjetivamente você  também ganhou com aquilo, enfim,  não foi um peso. Pessoas realmente generosas nem notam que são de fato assim. Se você sente que só o outro está aproveitando, está tudo errado, a começar pela motivação para agir. Olha, tem gente que se auto abandona e depois reclama das faltas dos outros. Não se começa uma casa pelo teto, né? 

No final das contas, a gente não faz nada aos outros, mas para a gente mesmo, nos bons e nos maus atos. Nunca esqueço de quando atrasei uma vez numa sessão de terapia, e entrei pedindo desculpas à terapeuta, que me deu uma resposta ótima: "Peça desculpas a você mesma, que perdeu tempo da sua sessão". O bem que a gente faz também é nosso. Quem já fez trabalho voluntário sabe o que estou dizendo. Na verdade, como diz a canção: "Só é seu aquilo que você dá". 

Inveja


Se tem um papo que me dá tédio é esse de: "Ai, meu Deus, estão me invejando". Não que eu não acredite em inveja. Vivemos em uma época em que as pessoas vivem para serem invejadas e invejar - o Instagram está aí pra provar. Mas 1) há um certo gozo mal disfarçado em quem publiciza isso, um pouco de egotrip e 2) a não ser que essa inveja venha acompanhada de puxada de tapete, é problema do invejoso. Pessoalmente, me preocupo com as minhas invejas, com o que isso quer me comunicar: uma base da minha autoestima que anda ruim ou um desejo que eu ainda não tinha muito claro para mim. 

Sim, todo mundo sente inveja (por isso não engulo esse falso pudor de quem se diz invejado). Ninguém progride na vida sem ter invejado primeiro. E todo mundo é invejado por alguém. Como diz um trecho do poema "Desiderata", se a gente se compara, vai ficar vaidoso ou amargo, porque sempre haverá gente em pior e em melhor condição. 

E digo mais: inveja só penetra com força em terreno mal cuidado. Você se intoxica menos pela potência do outro e mais pela sua própria vulnerabilidade.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

"Só os egoístas sobrevivem"

 Ouvi essa frase da psicóloga do Barcelona. Claro, fiquei chocada. Hoje em dia acho que a mulher entende dos paranauês. 

Se você não se prioriza, não foca nos seus projetos, vai viver uma vida paupérrima. Os outros, mais egoístas, vão te cooptar para os problemas deles, sem dar nada em troca e sem nunca mudar (e é pra isso que a gente ajuda, né? Esperamos por mudanças que nunca vêm). Não vale a pena. Mas toda a ladainha social diz o contrário. Olha, quem vai nessa é coelho!...

Quando a gente se volta pra gente, não no sentido de se isolar, mas de centrar na gente mesma, as coisas melhoram. Os Três Porquinhos philosophy: casa bem construída Lobo Mau não derruba.