terça-feira, 17 de março de 2020

This is Lu



Luísa me liga no dia do meu aniversário. Claro que ela não sabe que é meu aniversário, a mãe é que pôs ela no telefone, mas ela sabe o que é um aniversário de todo modo. Ela me pergunta se vai ter festa, e eu digo que não. Pergunta, então, se vai ter bolo e eu nego. Por fim, ela me dá os parabéns, responde um par de perguntas minhas e se pica meio desapontada.

This is Lu.

Ladina que só ela. Mas titia ama mesmo assim, hehe. Eu saquei Luísa com dois meses de idade e aprendi uma coisa sobre o amor: amar é achar graça até nos defeitos. Acreditem, isso é possível.

Luísa fez cena comigo quando ela mal se movia, com dois meses, me castigando por ter desaparecido alguns dias. Esse tipo de coisa que os bebês fazem me intriga. Como é que sabe que a gente é família, que a gente faz parte de um grupo que não é equivalente a qualquer pessoa, a todo mundo? Só pode ser algo epigenético-espiritual mesmo.

Antes de aprender a andar, ela já dava as dela. Aprontona, quando era retirada do local do crime, gritava "Aiiiii!". Ela sacou que o "ai" fazia a pessoa largar ela. Quando aprendeu a falar, aprendeu também a comer o mundo. Não podia ver ninguém comendo que maliciosamente chegava perguntando o que era aquilo, só pra pessoa oferecer um pouquinho e ela beliscar.

A lista é extensa. Luísa sabe como se dar bem. Sabe até demais e às vezes até passa do ponto. Eu me preocupo com isso, mas é mais fácil trabalhar esses excessos do que a falta de energia. E ela tem energia vital, ela está na vida, ligada, imprimindo movimento. Dessa parte dela eu sou fã. Também aprecio a inteligência.

Um dos dias mais estranhos na vida de quem é "boa pessoa" é descobrir que fazer tudo certo e ser bom não te poupa de nada e não te traz recompensa. A única é a de você com você mesma. Se Luísa crescer sem se sentir assim, não vou mentir a ela que ela precisa ser boa pessoa porque a vida será boa com ela. Mas espero que se essa não for a natureza dela, que ela ao menos seja responsável.




terça-feira, 10 de março de 2020

Rabiosa

Nós, brasileiros, somos um povo cheio de raiva. E raiva tem a ver com frustração, com decepção, com a sensação de injustiça. Por mais que sejamos problemáticos em nossas condutas, temos motivos para ter raiva, pois este é um país que toma infinitamente muito mais do que entrega. Só o medo que a gente tem da violência já inviabiliza a existência saudável no Brasil.

É o ônibus lotado, é o calor que faz passar mal, é a rua sem asfalto, é o salário curto (isso quando não se está desempregado), a Saúde que não funciona, a insegurança total e absoluta, a dificuldade até de obter o benefício quando doente. Há motivos, e ninguém pode negar.

Só a raiva, acho, explica elegerem Crivelas e Bolsonaros da vida. E a raiva, em dado momento, é irracional e tóxica.

O brasileiro se fode tanto que tem raiva de quem recebe qualquer ajuda. O brasileiro só admite ajuda mediante humilhação. "Quem quer comer faz qualquer coisa e consegue o dinheiro", disse o cidadão de bem que dirigia o Uber outro dia.

A raiva, tóxica, faz a gente esquecer, a despeito das fraudes que, infelizmente, sempre acontecem, que o Bolsa Família é necessário para tirar alguns indivíduos, que vivem quase como animais, desse patamar.

Temos raiva e com razão, mas através dela, ao invés de construirmos a reviravolta, investimos na mesquinhez como esporte nacional.

domingo, 8 de março de 2020

Dialógos da depressão

1: O que você costuma fazer quando está na merda, querendo sair correndo por aí e berrar?
2: Eu bebo e assisto Gossip Girl. Às vezes só bebo mesmo.
1: Gossip Girl presta?
2: Essa é uma pergunta difícil.
1: Olhei agora. Menino, isso é rich people problems.
2: Sim.
(pausa)
1: É isso que faz passar a sua raiva da vida?
2: Sim. 😅
1: Masoquista.
2: Ah, é porque é tão distante de mim que eu nem penso que é o mesmo mundo.
1: Entendi. É tipo Star Wars só que em Manhattan.

Siga a sua paixão

Essa semana um colega me enviou um TEDx muito bom sobre profissão, o tipo de material que eu queria ter tido acesso aos 20 anos e teria me ajudado um montão. É o seguinte: uma mulher, ex-produtora de Marta Stewart, um dia perde o emprego e a partir daí ela reanalisa essa questão de carreira, de seguir a sua paixão. Ela sugere que em vez de procurar uma paixão, que se procure por algo que faça sentido, que a pessoa ache importante fazer.
Ela pontua umas coisas interessantes sobre essa frase que se tornou um mantra:
1) Paixões mudam ao longo da vida;
2) Você descobre coisas interessantes sobre você quando está fazendo outras coisas, você descobre habilidades e interesses que não imaginava;
3) A vida acontece enquanto você está fazendo; não é algo que você constrói e depois vive;
4) Paixões implicam em grande tempo de espera e até por isso esse lema é elitista.



Fora que, assim como as paixões amorosas, haverá quem vai passar pela vida sem tê-las. E tudo bem. Mas a cultura fala "Faça o que você ama e nunca mais vai ter que trabalhar". Por favor, se ligue: fazer o que você ama é às vezes a deixa nociva para se preocupar em dobro e se anular como indivíduo. Conheço gente assim.