segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Fidelidade ou lealdade? Por Ivan Martins

Que lindo esse texto! Disse tudo que eu queria dizer.

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Nos últimos dias, ando apaixonado pela palavra “lealdade”. Deve ser por causa de um livro que estou terminando, um romance sobre antigos amigos e amantes que voltam a se encontrar e precisavam acertar suas diferenças. Eles já não se gostam, mas confiam um no outro. Eles deixaram de se amar, mas ainda se protegem mutuamente. Isso é lealdade, em uma de suas formas mais bonitas. Lealdade ao que fomos e sentimos.
Ao ler o romance, me ocorreu que amar é fácil. Tão fácil que pode ser inevitável. A gente ama quem não merece, ama quem não quer nosso amor, ama a despeito de nós mesmos. Tem a ver com hormônios, aparência e sensações que não somos capazes de controlar. A lealdade não. Ela não é espontânea e nem barata. Resulta de uma decisão consciente e pode custar caro. Ela é uma forma de nobreza e tem a ver com sacrifício. Não é uma obrigação, é uma escolha que mistura, necessariamente, ideias e sentimentos. Na lealdade talvez se manifeste o melhor de nós.
Antes que se crie a confusão, diferenciemos: lealdade não é o mesmo que fidelidade, embora às vezes elas se confundam. Ser fiel significa, basicamente não enganar sexual ou emocionalmente o seu parceiro. É um preceito, uma regra que se cumpre ou não se cumpre, uma espécie de obrigação. O custo da fidelidade é relativamente baixo: você perde oportunidades românticas e sexuais. Não tem a ver, necessariamente, com sentimentos. Você pode desprezar uma pessoa e ser fiel a ela por medo, coerência, falta de jeito ou de oportunidade. Assim como pode amar alguém perdidamente e ser infiel. Acontece todos os dias.
Lealdade é outra coisa. Ela vai mais fundo que a mera fidelidade. Supõe compromisso, conexão, cuidado. Implica entender o outro e respeitá-lo no que é essencial para ele - e pode não ser o sexo. Às vezes o outro precisa de cumplicidade intelectual, apoio prático, simples carinho. Outras vezes, a lealdade requer sacrifícios maiores.
A primeira vez que deparei com a lealdade no cinema foi num filme popular de 1974, Terremoto. No final do drama-catástrofe, o personagem principal – um cinquentão rico, heroico e boa pinta – tem de escolher entre tentar salvar a mulher com quem vivia desde a juventude, com risco da sua própria vida, ou safar-se do desastre com a jovem amante. Ele escolhe salvar a velha companheira e morre com ela. Parece apenas um dramalhão exagerado, mas desde Shakespeare o drama ocidental está repleto de escolhas desse tipo. É assim que nos metem conceitos elevados na cabeça. Vi esse filme com 16 e 17 anos e nunca mais deixei de pensar na lealdade em termos drásticos.
        
A lealdade está amparada em valores, não apenas em sentimentos. É fácil cuidar de alguém quando se está apaixonado. Mais fácil que respirar, na verdade. Mas o que se faz quando os sentimentos desaparecem – somem com eles todas as responsabilidades em relação ao outro? Sim, ao menos que as pessoas sejam movidas por algo mais que a mera atração. Se não partilham nada além do desejo, nada resta depois do romance. Mas, se houver cumplicidades maiores, então se manifesta a lealdade. Ela dura mais do que os sentimentos eróticos porque se estende além deles.
O romantismo, embora a gente não o veja sempre assim, é uma forma exacerbada de egoísmo. Meu amor, minha paixão, minha vida. Minha família, inclusive. Tem a ver com desejo, posse e exclusividade, que tornam a infidelidade insuportável, a perda intolerável. As pessoas matam por isso todos os dias. Porque amam. É um sentimento que não exige elevação moral e pode colocar à mostra o pior de nós mesmos, embora pareça apenas lindo.
Minha impressão é que o mundo anda precisado de lealdade. Estamos obcecados pela ideia da fidelidade porque a infidelidade nos machuca. Sofremos exacerbadamente porque o mundo, o nosso mundo, não contém nada além de nós mesmos, com nossos sentimentos e necessidades. Quando algo falha em nossa intimidade, desabamos.
Talvez devêssemos pensar de forma mais generosa. Talvez precisemos nos apaixonar por ideias, nos ligar por compromissos, cultivar sonhos e aspirações que estejam além dos nossos interesses pessoais. Correr riscos maiores que o de ser traído ou demitido. O idealismo, que tem sido uma força de mudança na conduta humana, precisa ser resgatado. Não apenas para salvar o planeta e a sociedade, mas para nos dar, pessoalmente, alguma forma de esperança. A fidelidade nos leva até a esquina. A lealdade talvez nos conduza mais longe, bem mais longe.

sábado, 8 de setembro de 2018

Volver

Ontem comecei a dar um rolê por este blog, que começou em novembro de 2006. Sentimentos divididos, entre a pena de mim por certas ilusões e falsos afetos e ternura justamente pelos mesmos motivos. Fiquei feliz que amadureci. Foi quase como visitar outra encarnação, outra vida. Não me afetou ter lido coisas antigas, mas fiquei com sentimentos de "Na boa, pra que manter isso?!", até que eu vi uma postagem sobre o vestibular e eu já não lembrava mais nada sobre essa parte da vida.
Já que ninguém lê mesmo, mal não faz.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Ciclo da violência - ou o jogo de gato e rato


Toda demonstração de poder suscita resistência, correto? Pelo menos assim falava Foucault.
Às vezes a gente só vê e julga o resultado final, sem enxergar o processo, elemento de fundamental importância em toda história.
Confesso que ainda estou com a resposta de "Por que uma mulher bem colocada profissionalmente aguenta um marido violento?" na garganta. Mas a minha resposta não seria só sobre homens e mulheres ou sobre o "amor"; seria sobre relações humanas em geral.
A violência visível é apenas o último estágio de algo invisível, por vezes intangível, que a antecede. Sacou? Vou exemplificar.
Um marido que bate precede um marido que passou um longo período depreciando, ferindo psicologicamente aquela mulher, que fica porque, no fundo, acredita nele, acha que não vai conseguir nada melhor, mas, como o ser humano não gosta de ficar por baixo, nas brechas, tenta devolver a violência. Em um relacionamento abusivo, embora a maior vantagem seja do homem inegavelmente, quer pela força física, quer pela permissão social para esses abusos todos, há uma dança doentia com a mulher ferida, que não raramente também manipula ou, na "melhor" das hipóteses, fica inerte, o que é uma forma de manipulação, de vitimização. Muitas vezes quem foi agredido nem se reconhece ao sair dessas relações, mas é inegável que houve interação, que houve co-participação. Há gozo no sofrimento, infelizmente; há uma mística entre agressor e agredido.
A situação só não progride quando você tem autoestima e pulso suficientes para cortar ao primeiro sinal, quando, aliás, se é capaz de se reconhecer num ambiente violento. Mas quem nos ensina essa capacidade? Quando há piedade, só Deus e o tempo.

Em defesa de Anitta

A política tá pegando fogo, mas a notícia que conquistou mi corazón esta semana foi a baixaria, promovida pela Semeadora da Discórdia Jojo Todynho, entre Anitta e Pablo Vittar feat Gominho feat Preta Gil. Tô rindo disso há quatro dias.
Olha, o que tem de gente com inveja de Anitta, não cabe no Maracanã. Sim, pra começar, ninguém chuta cachorro morto. Anitta deve ser metida, marrenta, mas o povo nunca vai confessar, nem ao médium depois de morto, que tá se roendo de inveja porque nem Ivete Sangalo, nem Sandy, nenhuma delas chegou na extensão da funkeira. Apenas.
Produtora
O trunfo de Anitta não é exatamente artístico; é que ela tem uma incomum habilidade entre os artistas nacionais: tem uma mente genial como produtora.
Os artistas brasileiros não têm a pegada de business que os americanos, por exemplo. Quer dizer, têm o pensamento business rasteiro, de ganhar dinheiro fácil, não de marcar época no entretenimento. Quando não é caça níquel, é todo mundo artístico demais, conceitual demais, autoral demais, querendo ser o que em 99% das vezes, na boa, não nasceu pra ser. Grandes nomes do pop não agem sozinhos criativamente, não ficam achando que voz e talento resolvem tudo. Beyonce tem Jay-Z; Michael Jackson, Quincy Jones; Eddie Kramer com três das maiores bandas de rock de todos os tempos; Luis Miguel tem a dobradinha com Kiko Cibriani. Os caras entendem que o sucesso é uma questão de time e não de ser escolhido por Deus.
A garota é boa pra sacar o que bomba nas pistas de dança. Compare com Ivete. Faz duetos com Deus e o mundo sem fazer a diferença na carreira de quase ninguém, mas pense em quanta gente Anitta já alavancou, a começar pela Pablo. Se ela quiser parar e só produzir artistas, garanto que continuará a se dar bem no negócio da música.
Mas artista de entretenimento no Brasil é preguiçoso, não estuda as coisas, se acha obra divina, então que curta a dor de cotovelo quando a coleguinha avança e vai mais longe que todo mundo... "Bem na sua cara".

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

I love HONY!

Uma das melhores páginas da internet trazendo frequentemente lições de vida, alguns verdadeiros tapas na cara. Amei o que disse essa mulher e sou fã desse tipo de gente lúcida e generosa.
Basicamente, rolou o seguinte: na mensagem de baixo, um homem conta que veio de um lar sem afeto, sem contato e que, aos 12 anos, encontrou isso em um homem mais velho, que não lhe ofereceu nada, não lhe perguntava nada, nem sequer lhe ofereceu uma experiência boa ou ruim, apenas algo que ele, naquela época, precisava emergencialmente, que era alguma conexão (neste caso, física). Choveram comentários críticos, politicamente corretos, alguns lamentando por ele, tratando-o como um pobre coitado. Daí entrou Ana, dona da porra toda (na mensagem de cima), dando um vrá nas certezas sobre a vida dessa galera burguesa, que provavelmente nunca passou por um grande aperto na vida e fala com pretensão sobre aquilo que não conhece. Ana lembrou que cada um faz o melhor que pode com a própria vida e que não há um modelo de vida a ser seguido por todos; alguns podem fazer o melhor que conseguem em circunstâncias que, para outros, seriam inaceitáveis, e está tudo certo. Mais do que pena, que é desnecessária, ajudaria ter respeito pela jornada do próximo. Pschiiiii!... 👊💓