segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Que mal eu fiz a Deus?

Imagine que a sua vizinhança, onde sempre viveu gente como você, começasse a ser ocupada por moradores de todas as partes do mundo. Com o tempo, não seria incomum que os primeiros residentes, os considerados locais, se sentissem invadidos em seu território e até em perigo.
É o que vem acontecendo nas grandes metrópoles do mundo, em especial as europeias, nas últimas décadas. Londres hoje é mais indiana que inglesa; Paris é mais árabe que francesa; Roma é mais paquistanesa que italiana... E a profusão de culturas, esse tal multiculturalismo, começa a fazer europeus, que tanto valor dão à linhagem, ao sangue puro, se sentirem uma raça em extinção.

Por que tanto apego às nossas origens? Porque isso faz parte do nosso laço e orgulho enquanto comunidade, da construção do nosso eu. O ser humano não existe sem uma cultura. Fato.
Mas o problema não está exatamente no outro e sim na relativização que a presença dele faz da minha importância. Então, se sou europeia e me orgulho tanto das conquistas do meu povo - como é o caso da França que, em todos os seus monumentos, exalta o passado e os grandes homens da nação -, como vou ficar feliz vendo que diversos podem ocupar o "meu" lugar, que tenho tanta importância quanto os outros, que não sou especial? Não deveria ser assim em um mundo ideal, mas o ser humano, em boa porcentagem, ainda precisa se elevar às custas do rebaixamento do outro. Como se destacar se não for assim? #magoados

Mas, zombeteria à parte, há um componente adulto e primitivo nisso tudo que é o medo do desconhecido. Percebi isso quando passei três meses morando na França. Se você vive cercado por pessoas de nações das quais inclusive nunca ouviu falar, vai precisar de algum mecanismo para se organizar em meio ao desconhecido. Se não é o caso de ser budista, provavelmente será o caso de desenvolver desconfiança, medo - essa palavra cabe duplamente nessa discussão depois que li uma definição interessantíssima dela: "Medo é um preconceito dos nervos". (by Machado de Assis)

Uma amiga de espírito humanitário outro dia comentou comigo - baixinho pra ninguém ouvir e achar que ela é xenofóbica, o que é bem sinal dos tempos - que entendia o pânico dos europeus com a entrada dos refugiados, pois a leva de expatriados pode trazer junto mais terroristas. Eu já estava ligada nisso por causa de um comentário de Flávia nesse mesmo tom. Assim como minha amiga, eu sou a favor que eles entrem, sim, até porque a Europa e os EUA têm um dedo nisso, mas eu compreendo o medo dos europeus. (Aliás, nada melhor do que a ganância e o medo para nos fazer ser mesquinhos com os outros)

***

E é dessa salada de frutas humana que fala a comédia francesa "Que mal eu fiz a Deus?". O filme, de forma leve e sagaz, trata de temas densos, abordando intolerância, xenofobia, estereótipos,  colonização, miscigenação, racismo, sexismo, família, religião, etc. Enfim, posso dizer que meu trauma com "Chou Chou" é coisa do passado depois dessa trilogia "Intocáveis", "Eu, mamãe e os meninos" e "Que mal eu fiz a Deus?".
O filme é a França rindo de si mesma. Fala de uma família classe alta do interior que, após mandar suas quatro meninas para estudar em Paris, as recebe de volta casadas com filhos de imigrantes, inicialmente um chinês, um judeu e um árabe - por isso as reuniões de família nunca acontecem em paz e sempre alguém se ofende com alguma piada étnica feita "para descontrair" - e, por último, um africano.
Nesse último casamento temos um elemento a mais: a oposição da família estrangeira, ou melhor, do pai, uma versão africana do patriarca da família francesa, aliás.
Os pais franceses surtam com isso, a mãe entra em depressão, o casal quer se separar, as irmãs começam a culpar a caçula pelo ocorrido... A coisa toda vira um caos.
A mãe se recupera primeiro e percebe que o que sente é, na verdade, um medo infundado do desconhecido. Por causa disso é acusada de comunista pelo marido, que demora um pouco mais para cair em si. Porém, ao final do filme, é ele quem dá uma preciosa dica de como resolver essa intolerância com outras culturas: é preciso se propor a conhecê-las.


sábado, 21 de novembro de 2015

Troco likes

Eu ainda sou daquelas que acha que Facebook é rede social, não é vida de verdade, embora a tecnologia já esteja incorporada, eu bem sei. Talvez seja uma tentativa de minimizar o que acontece por lá, para me aborrecer menos com as pessoas, o que, em carne e osso, já anda muito difícil.
Mas um amigo meu costuma prestar muita atenção a isso. Segundo ele, depois de ler "Análise do Discurso", ninguém volta a ser o mesmo (#medodemim, já que vou ter que ler isso para o meu artigo final da pós).
Bem, a teoria dele é que as pessoas não curtem gratuitamente (menos eu, que curto tudo de interessante que eu vejo pela frente e já sofri repreendas por conta disso). Curtem com segundas intenções. E isso deixa ele pirado especialmente, claro, com as pessoas mais próximas.
Meu caro, eu digo a ele, a vida é uma grande troca de likes. A dignidade está sempre do lado de quem é igual a gente. E a gente "curte" quem agrega ao camarote, não necessariamente quem merece. Cada vez mais, somos orientados para lidar apenas entre iguais, formando um grande condomínio nas redes sociais.
Isso se retroalimenta. Se alguém me curte, eu me sinto na responsabilidade de curtir de volta. Às vezes nem quero. Tem gente que curte uma certa pessoa, pois é interessante tê-la curtindo suas coisas de volta.
Os posts quase sempre são para mostrar poder e influência, que acabam por atrair quem tem poder e influência.
Relax, migue, porque não há nada mais que fazer. Aceite que dói menos. Em tempos em que existir é ser visto, natural que as relações sejam imensas trocas de likes. Me curte que eu te curto, e não se fala mais nisso nem em outras coisas.

Master of None

Eu penso melhor em movimento ou debaixo d´água.
Outro dia, caminhando, refletia sobre a minha alegria em sair para algum barzinho ou festa, aos 35 anos. Eu me questionava se nunca isso iria passar, digo, essa necessidade de rua. 
Se envelhecer é não querer sair de casa, minha mãe é uma velha desde os 20 anos. Sério. Pouco lembro de minha mãe saindo, tendo vida social sem a gente. Ela me intriga: não deseja nada, não vai pra lugar nenhum, não tem amigos, não se envolve em nenhuma atividade fora as de casa. Com todo o respeito, se tivesse vivido a vida dela, não teria vivido sequer 35 anos. 
E boa parte da geração dela é assim. Eu acredito muito que minha mãe é fruto (e vítima) do tempo dela. Que se tivesse nascido no mesmo ano que eu, teria sido uma mulher diferente. Talvez como Flávia, com quem ela tem muito a ver.
Por que não falo de meu pai? Porque ele curtiu muito a vida, não tenho dúvida, embora viva dizendo que se sacrificou muito pela família (qua, qua, qua!... Nesse ponto, ele é mais garganta que realidade, que nem a filha dele do meio). Quem pagou o pato foi ela e sem reclamar, nunca saberei se por subserviência, ignorância, orgulho ou vergonha.
Vejo nos olhos dela que não entende muito o que eu quero dizer quando reclamo que uma vida só de obrigações sem recompensas não é para mim. Essa passividade dela, para mim, é um mistério. Não sei se desprezo ou admiro. Não sei mesmo porque entra no roll de coisas que nunca vou compreender de fato porque não as vivi.

E então, rodando no Facebook, vi colegas comentando sobre uma nova série do Netflix, "Master of None", na tradução, mestre de ninguém.  É sobre a nossa geração, aquela gente que nasceu no início dos anos 80 e hoje já tá na casa dos 30 e alguma coisa, portanto madura a ponto de cair do pé. 
Os dois protagonistas, Dev e Alan, são filhos de imigrantes, indianos e chineses, respectivamente. Eles já nasceram em solo americano, desfrutam de uma vida super confortável, cujo maior problema, segundo a observação irônica de um deles, "é se o wi-fi caiu". Isso às custas do sofrimento e do suor de seus pais, sobre quem sabem muito pouco, com quem quase nunca querem estar, mas a quem devem muito mais do que imaginam. 
Essa velha geração passou por sufocos, privações, frustrações e humilhações para prosperar. Pouco fala de si mesma, talvez para enterrar os maus momentos do passado. A nova deseja apenas desfrutar e não banca nada que possa trazer desconforto. Por exemplo, filhos estão fora de cogitação, porque podem impedir a criatura de sair para comer massa quando quiser. 
O roteiro é hábil. O primeiro episódio nos pega pelo estômago, ou seja, apela para o nosso desejo de liberdade, a nossa pouca disposição para o sacrifício, quando discute as vantagens e desvantagens de se ter filhos. O segundo episódio é um verdadeiro soco no estômago, ainda mais para quem se viu em Dev no primeiro. É quando os protagonistas e nós, espectadores, ficamos sabendo o preço que os pais desses personagens tiveram que pagar para chegar aos EUA. A solidão, o preconceito, a sujeição a subempregos em seus países de origem para bancar o sonho de vencer na maior nação do mundo.
Eu fiquei pensativa sobre isso. E olha que estou longe de ser fútil como Dev e Alan; eu ainda dou valor à luta pela sobrevivência ao contrário de muita gente da minha geração.
Engraçado que ontem, falando de um conhecido da Facom que quer ser escritor, mas que nunca teve um emprego, perguntei a um amigo em comum de onde ele tirava dinheiro para bancar esse estilo de vida. Meu amigo respondeu: "Sei lá, deve ser de alguma família rica". E eu respondi: "Ele não tem medo dos pais morrerem e ele passar dificuldades? Esse povo não pensa em velhice, previdência, plano de saúde, essas coisas?". 
Me intriga. E me angustia também. Sonhar, se divertir, é bom e necessário, senão a gente embrutece. Mas isso, sem senso de realidade, pragmatismo, parece devaneio, delírio. Sei lá, acho que essa geração, que tanto quer, que se acha tanto, corre o risco de sair dessa vida sem saber o que é ir ao fundo das coisas, o que é construir, o que é considerar e prezar algo além de si mesmo. O que é crescer. 



Racismo escondido de cada dia

Somos todos racistas. Eu sou racista. Mas há os que cultuam essa chaga da nossa sociedade e aqueles que lutam para se livrar dessa herança maldita. Eu sou do segundo grupo e digo que não é fácil. A luta é diária.

Você percebe que ainda há muito trabalho interno e externo a fazer quando entra no ônibus e fica com medo de um homem negro sozinho e sem mochila. Será que esse mesmo homem, só que loiro, com cara de estrangeiro, também me amedrontaria?

Acho cada vez mais natural ver um casal interracial, mas ainda não é 100%.

Vejo cada vez mais bonitos os que têm traços não caucasianos, africanos mesmo, mas ainda não estou 100%.

Sinto vergonha quando leio, de uma africana - repare que eu nem gravei de que país de lá ela é -, relatos horrendos da guerra e tenho certeza de que se ela fosse americana, sentiria muito mais por ela. Afinal, a violência contra os negros já é algo naturalizado.

Sinto vergonha porque sei que ao pedir a qualquer um de nós para imaginar um homem ou uma mulher, provavelmente não pensaremos em tipos negros.

Me dói quando vejo uma mulher negra com um cara super loiro e jeito de quem ganhou na loteria. Eu sei que ela sofre porque a solidão é quase certa para ela, por questão de cor. E eu sei que ela deve ter sido tão oprimida ao longo da vida, ao ponto de comprar o padrão estético do opressor, sem nem refletir sobre isso.

Me dói quando vejo mulheres negras na luta, sendo humilhadas por pessoas mais claras e ricas. São mães solteiras, esmagadas por todos os lados. Zero piedade para elas. Não fazem nada além da própria obrigação. Aliás, para a sociedade que vira as costas para elas, fazem aquém, já que geram esses marginais que vemos nos presídios. O sofrimento delas também não choca ninguém.

Sinto vergonha quando vejo que só consigo, ainda, ter solidariedade com elas. Deles, ainda tenho medo. Ainda olho com preconceito, embora a compaixão comece a crescer, aos poucos.

Sinto pena de mim quando olho para um passado recente e percebo que foi doloroso, pra mim, assumir minha raiz negra, que mesmo sabendo que tudo isso não é verdade, o olhar inferiorizador da sociedade para essa etnia me atingia durante esse processo.

Sinto pena de nós quando vejo que precisamos medir as palavras para não magoar e abrir velhas feridas.

Precisamos de mais dias da consciência negra, sim. Precisamos reconhecer nossos privilégios.
Há muito o que avançar nessa luta.


Better Off Alone

Tem uma música, recorrente na seleção da Antena 1, que sempre me tocou. Chama-se "Better off alone" - na tradução, "Melhor sozinha" -, da Sissel. Os versos dizem:

Garota não fique triste
Você sabe que você não faz falta
Sem motivos para se sentir mal
Ele não quer mais saber o significado desses beijos
Você está tentando fazer isso passar
Você sempre esteve tentando sobreviver
Eu tenho fé em você
E eu sei tudo que você está tentando

Mas você não pode voltar,
ao que nunca foi
para repossuir, o que você nunca conquistou
Mas você não pode voltar,
ao que nunca foi
Este é o seu tempo, este é o seu tempo
quando se é melhor ficar sozinha

Garota você não vê?
Não há mais nada para se ver aqui
Você tentou uma amizade em mim
E eu agora estou aqui
E você sabe que não vai ser longo
Enquanto eu estiver atrás de você
Você irá conhecer alguém
Alguém sem limites irá encontrar você




Pois é, meus caros... Essa é a minha vida, esse é o meu clube. Dói ver que o que te faz mal nem entra no raio de percepção de pessoas queridas. Você segura a decepção dentro de você, mas ela te corrói. Chega uma hora em que você não consegue sustentar e parte para o "ou vai ou racha", morrendo de culpa, de dúvida e de medo. Mas é preciso recomeçar melhor. Ou é preferível ficar logo sozinha. Fazer o quê? Não dá é pra ter as coisas a qualquer custo senão elas acabam se voltando contra você. E, infelizmente, as pessoas só conseguem se pôr no lugar das outras quando elas mesmas passam pela situação. Até lá, seguimos incompreendidos.

domingo, 15 de novembro de 2015

I don´t wanna talk about it...

Tempos de conflitos internos é o que ando vivendo essa semana.
Nunca estive tão interessada no que eu e a sociedade temos que melhorar, mas, para "variar", não suporto o ruído que é saber de tanta coisa. Mas já viciei, admito.
É muita gente metendo o bedelho.
Melhor eu cuidar do meu exemplo individual, da vida.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Juntos nem sempre somos melhores

Eu, que sempre gostei de todo mundo junto, estou tomando horror a grupos. HOR-ROR. Assim mesmo, no capslock, de forma gritante.
Contardo Calligaris tem toda razão quando diz que: "Juntos nem sempre somos melhores. Porque é quando estamos juntos que, também, casos como o do índio Galdino acontecem. Separadamente os meninos não teriam feito aquilo".
Não precisa ir muito longe, não.
Na minha sala de pós houve o ingresso de alunos novos. Praticamente são a metade da sala, agora.
Há uma mulher que já chegou chegando. Professora, ela é totalmente desinibida ao falar. E fala muito. E tem certeza que está abalando.
Resultado? Rejeição aos alunos novos. Foi criado, até, um grupo novo no Whatsapp só para os alunos antigos e uma das funções é falar mal dos novos alunos.
De agora em diante, não quero mais saber disso, não. O máximo que eu encaro é grupo de um. Ser humano, de bando, é dor de cabeça na certa.

domingo, 1 de novembro de 2015

A insistência em caminhos que não levam a lugar nenhum


Eu tenho uma teoria, que não é nada de mais, mas muita gente não observa esse sinal: se te dá ânimo é porque está no caminho certo. Eu (ainda) acredito na força que as coisas têm quando elas precisam acontecer.
Semana passada, fiz o Enem. E senti um ânimo só de pensar que poderia estar mudando de rumo na vida.
Ainda vai demorar para sair o resultado, mas, se não precisasse de dinheiro e de pagar a previdência, ia deixar o mercado de trabalho amanhã e voltaria a estudar. Por que demorei tanto tempo?
Por que eu insisto em ficar em contextos que me fazem mal?
Hoje passei muito mal. Uma enxaqueca dos infernos. E eu sei o porquê. E sei também o que tenho que fazer.
Corageeeeem, Juliana!