sábado, 27 de setembro de 2014

Adriana

Faz uma semana, hoje, que conheci Adriana, em um show no TCA. Estava com Anderson e Fla, na porta do camarim de Zélia Duncan, aguardando para entrar - não que ligue para isso, mas, enfim, é de bom tom acompanhar a maioria, quando se está em grupo. Adriana e Janete estavam à nossa frente. Estranhei, não vou mentir, o visual daquela moça - a acompanhante fazia um estilo "bicho grilo", bem mais comum em shows como esse - com piercing nas narinas, corpo esguio e bem negro, de modelo, e cabelo raspado. Essa última característica, confesso, invejei. Ah, como gostaria de não ter que lembrar que meu cabelo existe!... Mas não ficaria tão bem sem ele como Adriana, que, aliás, já teve cabelo quadrado, loiro, raspado nas laterais, entre outros estilos inusitados. Vi tudo isso enquanto ela nos mostrava fotos que tirou com outros artistas.
Havia, aliás, um monte de gente como ela naquela fila do camarim. Coisa exótica é esse povo "serial-celebrity"... Não é meu mundo, definitivamente.
"Zélia só vai atender a família", disse um dos seguranças, provocando muxoxo na fila. O outro, divertindo-se com o circo, informou para o meu grupo e para as duas moças - porque éramos os primeiros e estávamos, portanto, mais próximos dele - que a artista sairia pela porta do outro lado. Migramos. Em seguida, toda a fila surgiu atrás da gente. Zélia sai e, com uma paciência infinita, tira foto com todo mundo. Eu pongo na de Janete, dando risada pela minha malandragem despercebida. Adriana sai majestosa em algumas poses ao lado da cantora.
No pátio - ou foyer, como o povo anda dizendo por aí - conversamos todos enquanto os fãs se dispersavam. Adriana contou a sua história: órfã, lésbica, já foi explorada em subtrabalhos, já foi agredida fisicamente quando se relacionou com homens, sobreviveu muitas vezes bancando a estátua viva nas ruas de Salvador. Agora estuda à noite, no Vieira, ganha um salário mínimo atualizando um site de cultura (o que aprendeu a fazer observando colegas responsáveis pela função) e pensa em seguir na engenharia, pois gosta muito de física e matemática. Janete é, na verdade, sua companheira. Beirando os 40 anos, ela também é órfã e é bonito de ver que, antes de serem amantes, são grandes amigas.
Adriana nunca deixa Janete contar as histórias. Diz - e tem razão - que sabe narrar de forma mais engraçada. Ela frisa por diversas vezes que tem 25 anos - muita idade e experiência acumulada, na perspectiva dela. Nasceu em 3 de agosto; é leonina. E, seguindo aquilo que se diz sobre signos de fogo e fixos, é impossível não notá-la. Ela conta, dando risada, os elogios que já ouviu, por ser "estilosa", de gente como Saulo Fernandes, Ivete Sangalo e Osvaldo Montenegro. E, como o mundo é pequeno, ela conta também que acaba de servir de personagem para uma matéria de Luana Ribeiro para a Revista Muito sobre negros estilosos.
Ela é intrigante por não se intimidar pelos fatos, muito pelo contrário. Um personagem? Só sei que funciona. É uma criatura bastante expressiva. E gosta de falar sobre si mesma. Ô, se gosta!... E acho que ficou feliz por falar de sua curta e movimentada vida para dois jornalistas. Diz ela que um dia vai escrever um livro sobre isso.
Por duas vezes, durante o papo, fomos interrompidos por pedintes. Enquanto a gente se tremia de medo de assalto, ela resmungava da falta de educação dos dois estranhos: "Ah, não deixam nem a gente conversar em paz, poxa!".
Já no bar, pós-conversa, a gente comentava sobre a nossa mais nova amizade. A alegria dela impressionou todo mundo. Anderson ressaltou, sagazmente, que é uma das reações possíveis quando não se tem nada a perder: se jogar. Eu fico feliz e de coração apertado. De verdade. Gente assim tem que terminar bem, no meu mundo. Tomara que ela não se canse. Tomara que ela tenha sorte. Tomara que um dia a sociedade dê o devido valor a gente como Adriana, gente que, surgida no gueto, foi feita pra brilhar.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Yes, soldier!

Jeane Borges, editora de política, é uma figura. Ela tem um traço peculiar: costuma dizer umas coisas aos outros, do nada, que têm mais significado para quem a ouve do que ela pode imaginar.
Um dia, quando a gente pegou mais amizade, ela me disse que, a primeira vez que me viu, pensou: "Lá vai o soldado espartano". Jeane explicou que a impressão que ela teve, ao me ver, é que eu sou o tipo de pessoa a quem se pode confiar uma tarefa. 
Achei "soldado espartano" ótimo. Mal sabe ela que adoro esse período da história. Esparta tinha uma coisa bonita: eles se preparavam daquele jeito não para dominar, mas para não serem dominados. Eu totalmente me identifico com isso.
Meu pai me chamava de militar quando era pequena. É que eu tinha uma disciplina e era perfeccionista de um jeito que ele não entendia.
Hoje sou menos rígida, mas ainda sou uma pessoa séria. Eu poderia estar "melhor" se não fosse assim. Entretanto, para mim, mais importa o mérito. Mente de soldado mesmo. Com honra, só assim vale alguma coisa para mim. Morro, mas de pé.
Entretanto, essa é a era do "beijinho no ombro". A gente deseja às inimigas vida longa pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória. O importante é estar por cima.
Eu me chateava muito com isso, não entendia. Esse papinho de ética e justiça é chato e até inconveniente, eu sei, mas que fazer se eu sou um soldado?
O caso é que esse ano rolou uma revisão geral. Só passei por isso outras duas vezes na vida, mas dessa vez veio com o peso do "senhor Tempo". É preciso encontrar um ideal. E a vida é mais complexa do que a gente pode imaginar quando é muito mais jovem. Acho que eu revirei tanto o meu baú, que acabei encontrando uma pitada a mais de empatia pelos limites individuais e, principalmente, pelas chances que as pessoas se dão, ainda que desastrosas algumas vezes. Assim como ninguém sabe o que eu vivi e sinto, a gente não sabe o suficiente sobre ninguém. Isso é algo a considerar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Simplesmente amor!

Quando eu chamo esse meu sobrinho de "lindo da minha vida", não é exagero - embora seja chegada a um. É um lindo. Eu sou fã. Se tivesse um filho, ia querer que fosse igual a Felipe. Gatão. Risadinha linda da dinda. Coração bom, que, se Deus quiser, há de lhe acompanhar pela vida.
Titia ama!!! Você e dona Luli, que está vindo por aí. :D


domingo, 7 de setembro de 2014

"Não é não!"

Se para você soou a frase dita para criança rebelde, sinto lhe dizer que a maioria de nós, então, morre sem nunca ter crescido.
É muito difícil receber um "não" sem ficar com a mente nos "porquês" disso. Aceitar uma negativa aos nossos desejos, assim, de pronto, não é para gente como a gente.
Uma amiga que acabou de romper com o namorado, de quem ela gosta muito, sofre, ainda que calada, tentando aceitar a negativa do ex. Não é fácil, dói muito...
Pensando nisso, lembrei de uma amiga que teve o pior término de relacionamento que já testemunhei. E ela gostava muito dele, estava empolgada em casar em breve, além de ser uma pessoa fofa, incapaz de fazer mal a uma mosca, apesar de ser uma loira gigantesca. Digo que tem alma de labrador, e ela se acaba de rir com a comparação. Como magoar uma criatura dessa, né?
A história dela não vai influir no restante do texto, mas é tão vil que quero compartilhar. No final de 2011, voltando das férias radiante como nunca, minha amiga me conta que encontrou o ex da época da faculdade; eles ficaram e, em poucos dias, o sujeito a pediu em casamento, combinando com ela que a cerimônia seria no ano seguinte. Ele morava em São Paulo, tinha quase 40 anos e ainda era solteiro. Havia terminado, há pouco, um namoro longo com uma ex que ele pintou como louca-problemática. Apesar do pedido de casamento ter sido "à queima roupa", minha amiga não o estranhou porque, afinal, eles já se conheciam há anos e tiveram um relacionamento, interrompido por causa da profissão dela. Era apenas questão de concluir. O reencontro teve ares de comédia romântica, de presente do destino.
Minha amiga passou o ano seguinte cuidando dos detalhes, mas o noivo, por sua vez, além de pouco vir a Salvador - geralmente com a passagem bancada por ela -, não se envolvia com a cerimônia. Todo mundo achava que alguma coisa estava acontecendo, mas ninguém fazia ideia. Remarcaram a data do casamento para o ano seguinte, quase no dia do meu aniversário. 
Eu não lembro exatamente o que a fez chamá-lo para uma conversa, mas ele reagiu muito mal. Eles terminaram. Dias depois, também não lembro a circunstância, o sujeito encontrou com o tio dela - parte da família de minha amiga mora na mesma cidade -, e ele foi ridículo: disse que nunca tinha falado de casamento - uma mentira deslavada, desmentida por qualquer um que já esteve com o casal -, que ela era louca. Uma total falta de consideração, ainda mais porque ele conhecia aquela família há uns 15 anos.
Mas lembrei dessa história de minha amiga pela fantástica reação dela, na minha opinião: não discutiu, não correu atrás, pouco falava disso e não chorava em público nem quando a história era relembrada. Tocou a vida como se nada tivesse acontecido. Como temos intimidade, perguntei como ela conseguiu superar "tão fácil" (mas a vontade era de pedir um autógrafo). Como não bateu boca depois do que ele disse ao tio? E como segurava a curiosidade de saber se estava com alguém? Eu mandaria metade da conta do casamento para ele pagar, pelo menos! 
Ela me respondeu:
- Ju, está doendo, mas eu aprendi com a minha terapeuta a aceitar o não, a não procurar os motivos e seguir em frente.
Eu fiquei chocada. E acho que ela percebeu que a maturidade da resposta havia agredido a minha longa trajetória de desespero existencial, inconformidade com as negativas da vida e tentativas frustradas de controlar os acontecimentos.
- Não foi do dia para a noite que aprendi isso, sabe? Foi um aprendizado de mais de dez anos, desde que comecei a terapia. Já sofri muito em outros términos de relacionamento.
Veja, uma década sendo "treinada" para aprender a reagir sem desespero. Mas isso tem os seus efeitos colaterais. A própria terapeuta briga com ela por "agir que nem homem", ou seja, "pegando sem se apegar". Diz a psi que isso sinaliza aos caras que ela não quer nada sério. Quem são os loucos, minha gente, nós ou eles? Ai, ai!...
Se tudo fosse só amor, estava até bom, como diz a minha mãe. A gente pode escolher, em último caso, não amar, afinal esse tipo de relacionamento é uma aposta quase como a loteria, feito para "perder" mesmo (embora sempre se ganhe algo).
Mas e quanto às coisas práticas da vida? Quando você investe em uma carreira e tudo dá errado, quando você quer um emprego e não rola. Ou que nem esse pianista famoso que tem problemas nas mãos e não pode mais tocar. 
E há coisa que é insubstituível. Uma colega ficou muito abatida quando perdeu a mãe por erro médico. Senti que a causa, o erro, ficou martelando ali, no coração. A pessoa não conseguia disfarçar a tristeza, perdeu o viço. Ela não conseguiu aceitar que não é não, que a mãe nunca mais estaria ali.
E, sabe, nem a sensatez é capaz de salvar totalmente a cena. Um religioso famoso na cidade tem um argumento muito bom para essa hora: por que se lamentar, se acontece a tanta gente no mundo? Vá fazer o coração se aquietar com isso, vá, e depois volte para me contar... Só o tempo e muita resiliência podem ajudar. 
Ainda bem que minha amiga - a que sofre agora - também sabe disso.