domingo, 17 de julho de 2016

As escolhas te definem?

Outro dia estava andando na orla, quando encontrei Catarina. Gosto muito de Cat, de graça. Ela é novinha, tem 20, 21 anos, mas já está às voltas com as primeiras grandes escolhas. Ela tem um amigo mais velho, também mentor espiritual dela, que foi contra as duas decisões que tomou recentemente, uma amorosa e outra profissional. Mas a menina teimou, mesmo com todo mundo enchendo o saco dela, simplesmente porque não queria bancar aqueles sacrifícios.
Pois bem, encontrei Cat feliz da vida, com um novo emprego, segundo ela - e eu acho que sim - muito melhor do que aquele que recusou, que o guru insistia pra que ela aceitasse.
A gente sempre pode se surpreender com coisas que não dávamos nada à primeira vista. Isso, no meu caso, se deu mais com pessoas do que com situações. Todas as vezes em que fui pra algo achando que não ia render muito, não rendeu mesmo. Já o contrário aconteceu algumas vezes.
Mas eu penso que mesmo que tenhamos "perdido" algo ao recusar uma situação, aquilo não era para a gente naquele momento. Porque nem sempre temos musculatura para lidar com certas situações e mesmo aquelas que, ao final, são positivas exigem da gente.
Enfim, acho que as escolhas podem nos definir, mas não definimos tanto assim as escolhas. Apenas, nas melhores situações, procuramos fazer as melhores que conseguimos.

All by myself (don´t wanna live)

Uma vez li que quem tem Nodo Norte apontado para o signo de Leão, como eu, vai passar a vida inteira se frustrando toda vez que depositar esperanças em parcerias, que a meta é aprender a ser como Leão é, independente e confiante. Não sei se a Astrologia realmente tem fundamento, mas se não tem, foi muita coincidência porque tem sido assim desde o início da minha vida. Se eu quero que algo aconteça, tenho que fazer sozinha.
Mas cansei disso. Eu quero parcerias.

Autistas? Até quando?

Essa semana tive a minha primeira experiência pela internet. Não aconteceu nada de muito ruim, mas foi decepcionante. Sabe, ninguém quer ir conquistando os outros aos poucos, é uma pressa, uma falta de sentir o outro que vou te contar. As pessoas estão desesperadas, carentes, afobadas. Desisti. Quero outra coisa, ou melhor, outro tipo de sujeito, eu percebi.
Coincidentemente, algumas histórias negativas - uma delas estarrecedora - chegaram aos meus ouvidos. A galera tá franco atiradora, tentando extrair prazer o máximo que puder, e que cada um aprenda a defender o seu para não tomar bolada nas costas. É isso: as interações entre as pessoas virou um grande jogo de baleado.
Nada contra querer extrair o máximo de prazer, até porque a gente só vive uma vez. Mas acho que as coisas têm que ser de comum acordo. Se todo mundo tá sabendo e tá de acordo, beleza. Fora disso, sorry, não há fair play.
E é com decepção que eu vejo que alguns maus hábitos/equívocos masculinos contaminaram mulheres e gays.
Tenho muita curiosidade pra ver o que vai ser desses trintões daqui a dez anos. No que essa gente "lost in translation" vai dar.
Uma amiga minha aposta que os homens heterossexuais são os que mais vão se surpreender. Isso porque, na percepção dela, eles apostaram que são "mercadoria rara" mediante o número de homens gays, mas não contaram com o aumento do número de mulheres homossexuais. E realmente isso já está acontecendo, pelo menos nos meios mais intelectualizados é o que mais a gente vê. Ela acrescenta que essa onda feminista é, inclusive, uma reação a esse machismo que transformou mulheres em "carne barata" no "mercado amoroso". Realmente, é insuportável o nível de exigência que uma mulher tem que cumprir se quiser "vencer" as demais "concorrentes". Tendo a concordar com ela... Na verdade, os homens heterossexuais ainda são basicamente homoafetivos, por mais contraditório que isso posso soar. No dia em que eles gostarem da amizade de suas mulheres como gostam dos "bróders" a coisa pode começar a ficar boa (e talvez as mulheres menos nervosas, porque eu acho que muita coisa é consequência de não serem ouvidas).
Enfim, folks, a seguir cenas. Isso vai ser interessante de ver. Ou não.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O passado silenciado

Minha mãe, que nunca trabalhou fora e acha que o ser humano tem que se submeter a tudo para ter um salário (qualquer que seja), sempre acha que eu me arrependi quando visito o antigo emprego ou comento com saudade de algum bom momento. Não se trata disso. Não mesmo. E quando uma pontada de arrependimento surge, eu sei que isso tem mais a ver com uma carência minha que com um sentimento real, e logo passa.
Ontem, estava perto do jornal e, após meses, resolvi subir para falar com os amigos. Essas visitas podem ser mal interpretadas, claro, mas que se dane, eu estava com vontade. Conversei, senti saudade da galera, de quando trabalhávamos todos juntos, e quando comentei com a minha mãe, ela veio com essa história de "tá vendo como era bom?". Haja paciência (zzzzz)... Sentir saudade, relembrar o que era positivo, não quer dizer que se quer algo de volta. Não mesmo. É bem lógico para mim que se eu fiquei muito tempo é porque havia coisas boas. Mas se os aspectos negativos superam os positivos, por que eu quereria de volta? Para sofrer tudo de novo?
O passado é a nossa trilha, o tempo é o tecido das nossas vidas, como disse o outro. Ele não merece ser enterrado e silenciado. Tudo bem se pra você já não diz nada. É inteligente fazer isso se acessar o passado lhe fizer mais mal do que bem. Mas não deveria ser pecado querer ter contato com ele. Você pode muito bem não querer mais e ainda sentir carinho. Fato.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A teoria da prateleira (criando poeira)

Minha irmã, ser altamente pragmático, quando ainda habitava a nossa humilde residência, uma vez, saindo do banho, enquanto eu escovava os dentes, me surpreendeu com a seguinte afirmação:
- Você é uma mulher escondida, que tá na prateleira e os homens não vêem. Mas quando um te enxergar, vai ver que você é diferente. Vai sair casamento rapidinho.

(Esse homem já apareceu, mas eu é que não tive olhos pra ele. Enfim, não houve convergência de sentimentos e a fila andou... pra ele, of course).

Espero por essa cruzada de olhares, mas alguns dados do mundo real me assustam. Fundamentalmente, os binhos hoje andam em linha reta. Mais fácil olharem pra bunda do boy da frente que pra prateleira.



Tempo de revisão

Eu tive um ano bem movimentado até o final de maio. Produção, produção, produção. Desde então, parada há pouco mais de um mês, ando agoniadíssima com o futuro, o que infelizmente vem me impedindo de aproveitar o presente como deveria, coisa que eu pretendo corrigir ainda esse mês. Sou ansiosa, admito. Mas sinto que eu não estou muito em posição de apitar no jogo da vida nesse exato momento. É tempo de espera, de trabalhar no escuro (coisa que eu odeio).
O caso é que esses 40 dias me fizeram refletir muito sobre a vida. Digo até que me fizeram acordar para coisas que nunca, antes, havia dado importância. Um lado meu se desesperou, pedindo urgência em certos assuntos. Outro lado meu adocicou, lançando um olhar mais generoso sobre certas pessoas e histórias com as quais lidava mal. É como se a minha consciência me avisasse de que não há tempo para jogar fora mais, que é hora de assumir as rédeas.

Uma experiência com programa popular

Faz três meses que pedi pra sair de um programa popular, no qual fazia produção. Uma das coisas que me desagradava é que se tratava de um programa assistencialista. É tudo que mais odeio na vida (tenho horror a Gugu e até a Luciano Huck, a versão mais limpinha dele). E fazer produção não é de Deus também. Ô treco chato...
Mas uma coisa eu pude ver estando in loco: não há gente inocente que não sabe o que faz, não ao menos em ambiente urbano. Tendemos a dizer que o cara que deixa seu drama ir ao ar é um coitado, manipulado, mas o que eu vi foi o contrário: gente que sabia muito bem o que ia ganhar com aquilo e que, cá entre nós, dava trabalho para se livrar, que pedia sem parar.
Exemplo: eu produzi uma história, para mim a que deu mais satisfação, de uma senhora que já não comia e estava largada em um hospital da Ilha. Providenciamos a transferência dela pra Salvador. Liguei para a Sesab e foi rapidíssimo, nem pude acreditar. A mulher melhorou e eu fiquei, pessoalmente, feliz com o meu trabalho. Saí do programa dias depois, mas até hoje a filha dessa criatura fica me perturbando via Whatsapp para conseguir para ela outras coisas. Outra dia, começou a conversa com o argumento de que precisa criar dois filhos, que estava em dificuldade. Ok, estava disposta a ajudar até aí. Mas daí ela veio com a história de ir para o programa de Celso Portioli, em São Paulo. Nada contra pensar que um desejo seu é importante, só tenha o simancol de não achar que uma estranha deve se importar com algo que não seja o básico - e olhe lá, porque há uma ala que defende o cada um por si. Pela inconveniência, bloqueei a criatura, embora deteste fazer isso.
Eu tenho pena de todos nós, brasileiros, e especialmente dos mais pobres, pelo básico que nos falta quando não deveria ser assim. Mas é incrível como nem a experiência da dificuldade, da realidade mais dura, retira a ilusão do instinto de malandragem. As pessoas querem que as outras deem um jeito por elas e acham que podem corrompê-las com jeitinho. Essa mulher mesmo, ela acha que me chamando de "anjo de guarda", de "Bê" e coisas gentis do tipo, vai amolecer meu coração e me impulsionar a lutar pelo interesse dela. Vai vendo, "Bê".
Minha irmã teve uma empregada que criava três filhas sozinha. Ela se queixava e pedia as coisas o tempo inteiro. Meu ex-cunhado ajudava no que podia, minha irmã dava de ombros. Mas ela dizia algo do qual não conseguia discordar: "Mag pede as coisas como se a gente tivesse a obrigação de fazer por ela. Se não faz, ela bota uma cara, começa a reclamar da vida, para te fazer sentir culpa". Isso, convenhamos, tira toda a vontade de arregaçar a manga pelos outros. Daí não é mais pedir, é chantagear.

Julieta

Acabei de voltar do cinema. Fui assistir "Julieta", o novo de Almodóvar. Para resumir, já vi coisas melhores dele. O diretor tenta ir na linha de "Tudo sobre minha mãe", mas não rola. Só o problema de coluna que ele teve antes de filmar explica ter escrito uma carta em vez de um roteiro, que não acrescenta quase nada à história, é dramaturgicamente fraca. Mas Almodóvar é bom mesmo quando não é supimpa, essa é que é a verdade.
O nome original do filme seria "Silêncio" e ele de fato constrói o filme em cima desse tema. [Spoiler a seguir] Julieta, protagonista da história, é uma mulher que sofre com o sumiço da única filha, que não manda notícias há doze anos.  Bem, estamos falando de uma relação especial, de pais e filhos, mas quem nunca sofreu com um silêncio, com uma rejeição sem motivo forte aparente, com perguntas que nunca foram (e às vezes não poderão) ser respondidas, enfim, com lacunas em relacionamentos importantes. Quem nunca?
Isso pode desde provocar uma mágoa guardadinha numa gaveta do fundo do coração até te paralisar, em casos mais extremos.
Julieta descobre, no final do filme, um monte de questões da filha que, a propósito, só lhe escreve quando passa por algo semelhante ao que causou à mãe. No final das contas, é sempre tudo sobre a gente, sobre o nosso mundo interno, os nossos sentimentos... as nossas faltas. Sabe aquela fábula dos Três Porquinhos? Pois é, o estrago só acontece em alvo já danificado. Mas como ninguém tem essa autoestima toda, a gente se ressente do outro não ter nos incorporado de tal forma a não conseguir nos largar, de não termos sido imprescindíveis como gostaríamos (ou melhor, de não nos sabermos imprescindíveis, porque ninguém está dentro de ninguém pra saber a real). Deles terem nos deixado de cara com a gente mesmo, sem refúgio, atingidos na vaidade, sem saber direito o que se passou e pensando em mil possibilidades porque não se aceita o "não".
Eu diria a Julieta: se o amor não deu certo, não fique no mesmo endereço... e nem se mate, como a outra. Siga adiante.