quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Heróis do dia a dia

 



Cresci ouvindo minha mãe e o seu bordão “Dá a César o que é de César”. E é preciso dar a César, Maria, Pedro e etc o que é deles, os heróis do dia a dia, aquelas pessoas que a partir de muito pouco ou quase nada fazem bem mais do que a princípio poderiam, que conseguem ir adiante mesmo com uma moral baixíssima, mesmo ninguém aplaudindo, mesmo tendo um dia triste atrás do outro, mesmo sendo criticadas e tratadas como invisíveis ao mesmo tempo. Aliás, fiscais de obras prontas nunca faltam, mas pra reconhecer os bons feitos não aparece um. 

O Instagram e o Tik-Tok não deixam dúvidas da necessidade humana de atenção e de reconhecimento. Portanto é muito duro, árido passar uma vida sem esse reforço positivo, sem ser visto devidamente nas suas conquistas e méritos. Pessoas que pertencem a uma minoria, em especial, sabem (e sofrem os efeitos perversos) disso. Pude ver essa questão de um lugar privilegiado, de fora pra dentro, na minha curtíssima experiência como psicoterapeuta. Muitas vezes, em um processo terapêutico, nós temos que provocar as lembranças do passado (que muitos não lembram, o que é comum em situações traumáticas, inclusive). Apesar da sensação de fracasso pessoal que todos, sem exceção, carregavam ali, eu via pontos "heróicos" na trajetória da pessoa, que tocou uma vida funcional apesar das várias faltas, rejeições e tristezas. Imagine o que é você vir de um lar desunido, tumultuado e quando consegue passar no concurso que era o sonho da sua vida, descobre que vai ficar cego e tem que aprender uma nova profissão pra sustentar a família, e ainda viver de novo num lar tumultuado, mas ousar sair de lá mesmo sendo tudo que tem e estando na meia-idade. Agora imagine o que é você perder pessoas importantes da sua vida ainda pequena, crescer, lutar pra ter uma vida com dignidade e se separar de um marido que você não ama, mas que faz chantagem emocional usando a sua carência e enquanto isso você ainda vê sua mãe, a única pessoa que sobrou, definhando e morrendo de câncer. Essas pessoas ainda conseguiam tocar a vida pra frente, serem boas, algumas delas até alegres e todas estavam ali na terapia tentando se reinventar na vida mesmo com tudo contra. Isso não é pra qualquer um. Não mesmo. E eu tinha que ficar ali, frisando essas conquistas que pareciam tão banais aos olhos do mundo e tão aplausíveis naquelas histórias de vida, para que o próprio indivíduo tivesse consciência disso. E esse exercício de autopercepção, naquela uma hora de terapia, ajudava a pessoa a florescer. Sério, é chocante ver como um pouco de escuta impulsiona. Somos seres relacionais, não há como negar.  

Mas o ser humano consegue ser tão estreito na visão de mundo que, como disse o Pequeno Príncipe, o essencial acaba ficando invisível aos olhos. A gente prefere dar likes, carinho e enriquecer gente vazia, mas que tem os signos sociais de distinção do que fazer um elogio a alguém em posição social mais baixa e de características admiráveis. Gente rica, branca, jovem e dentro do padrão fazendo qualquer coisa emociona mais. Nada disso tira os méritos de quem os tem, porém é diferente você dirigir um carro de fazer o mesmo trajeto de sandálias Havaianas. Admitir isso é uma questão de honestidade intelectual. Sinto falta dessa distinção. Sabe a ginástica olímpica, em que a nota leva em conta a dificuldade da apresentação e a execução dela? Esses critérios deveriam reger os julgamentos sociais. 

Eu percebi nitidamente essa violência estudando na Facom. Uma colega era esforçada e ativa. Rica, ela cursava duas faculdades na maior tranquilidade, com toda a estrutura possível, sendo valorizada em cada conquista, enquanto uma outra, que fazia as mesmas coisas, administrava poucos recursos, se sacrificava em longas viagens de ônibus e ainda botava dinheiro em casa era invisibilizada. As duas faziam a mesma coisa, mas só uma era alvo de atenção. Sorte que a pobre foi resiliente e essa história teve um meio feliz, mas nem todo mundo tem essa super força interna - até porque a gente precisa também do reforço externo. Há inegavelmente uma linha que separa quem é considerado humano ou não para a sociedade - e não adianta ficar bravo comigo, que não fui eu quem inventei isso. Na sociedade brasileira, há a crença de que o pobre precisa se sacrificar além do limite da dignidade - e não estará fazendo nada além da obrigação - e com quem é privilegiado é o contrário, e até os esforços e qualidades que deveriam ser básicos viram dignos de exclamações e palmas. No fundo, até essas pessoas são desumanizadas.

Observo que como ninguém presta atenção a atitudes, mas em coisas, todo mundo teme as situações de superação (pelo contexto de vulnerabilidade que representam) e se voltam para as de bonança, mesmo que quem viva isso não tenha feito nada, como se só por estar perto dessas pessoas suas condições fossem contagiosas. A gente anda confundindo inspiração com alienação: olhamos quem a gente gostaria de ser e perdemos a capacidade de apreciar o bom que já somos, nós e os nossos próximos. Como a maioria não está no círculo do privilégio, isso além de ser perverso com o outro, também é consigo mesmo, porque nunca reparamos, validamos e nos fortalecemos olhando para os iguais ou mais resilientes na luta. Em vez disso, alimentamos ressentimentos, inveja e principalmente uma sensação de fracasso baseada na comparação com quem a gente nunca viu a "cozinha".

Isso também me lembra outra paciente que, deficiente física, idealizava a vida de quem não era deficiente. Na visão dela, a vida seria perfeita se não fosse deficiente e ela se socializava basicamente pelo Instagram. Quando sugeri que seguisse, naquela rede, pessoas como ela, ficou furiosa e ofendida. O que uma pessoa que reage assim pensa de si? Mas essa autorrejeição não foi uma construção espontânea; ela aprendeu se socializando, vendo como o mundo social funciona. E uma sociedade capitalista não tem interesse na diversidade, que dá mesmo muito trabalho pra satisfazer, pra comercializar. Cabe a nós hackear esse sistema e uma das ferramentas pra isso, sem dúvida, é o auto amor, que aqui entende-se como a capacidade de ser amigo de si mesmo. Soa simples, mas isso requer uma sofisticação a ser trabalhada por toda vida.


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Equilibrio Distante (Simone Biles + Rebeca Andrade feat Divertidamente)

 




Quanto mais eu envelheço, mais acredito num ponto médio para a maioria das coisas. Urge que a gente trabalhe nisso, especialmente em relação as nossas dores. Não acredito em gente que não sente nada, os pseudo super bem resolvidos. Pela experiência de vida que tenho até agora, dores ocultas se manifestam de qualquer jeito, apenas migram pra outro lugar. Mas acho que a gente não deve se impressionar com as próprias dores. Eu falei impressionar e não ignorar. A gente precisa olhar pra os nossos traumas, mas não muito pra não ser devorado por eles. Equilíbrio distante? Mas acho que vale a pena tentar. 

Simone Biles e Rebeca, a meu ver, conseguiram fazer isso que estou falando. Elas sabem o que aconteceu com elas e dão nome às coisas ruins pelas quais passaram, mas não foram tomadas por isso. A dor virou um localizador, não uma morada definitiva. Sabe aquele papo esotérico de que a vítima não prospera? Pois é, ninguém está nem ai, a gente só se prejudica. Mas o caso é que é muito fácil cair nesta cilada, e ficar querendo reparação, solidariedade, etc. Porque quando você sofre injustiças, um dos pontos de dor é saber que tinha gente vendo, havia quem pudesse impedir e ninguém fez nada. E daí você fica sangrando, esperando que essas pessoas vejam e façam a devida reparação (que não virá) e passa a acreditar que não tem valor. Penso que uma coisa que atrapalha também é a falsa sensação de azar, de que as coisas ruins só acontecem com a gente. E eu acho que é esse o pulo do gato: compreender que não existe vida sem frustração, injustiça, dor, etc. Sofremos não por sermos menos merecedores das coisas boas, mas porque estar na vida é isso aí mesmo. Inclusive, uma das coisas que me incomodam em quem pertence as minorias (e aqui tenho super lugar de fala) é que as pessoas fantasiam que aqueles que não pertencem a sua minoria têm uma vida maravilhosa. Podem ter uma vida menos difícil, mas a vida é complicada pra todo mundo. Marilinha tinha razão: todo mundo vai sofrer. 

É uma pena que o que não falte no século XXI seja gatilho pra disparar a nossa ansiedade.

Por isso que gostei dos dois Divertidamente, aliás uma tradução muito ruim de "de dentro pra fora". O primeiro filme frisa que todos os sentimentos são importantes. A Alegria, que se acha a melhor, tenta de tudo, mas quem resolve a parada é a desprezadíssima Tristeza. O segundo filme deixa bem claro aos jovens que a Ansiedade é do mal (não ela, a bichinha, mas o descontrole dela). No final todos se ajustaram e aprenderam inclusive a acolher a Ansiedade (sentadinha na cadeira de massagem com direito a xícara de chá. genial! haha), mas a mensagem foi passada: a energia que flui quando se é fiel aos próprios valores ajuda muito mais do que a ansiedade de querer se precaver do futuro. A propósito, amei a associação da Ansiedade com a Inveja e com o Medo. Este último toda hora virava pra Alegria: "É, a Ansiedade saberia o que fazer". E não sabia, só armou encrenca pra pobre da Riley. São vários os caminhos, mas no fundo a demanda de todo mundo é a mesma: amor. Não adianta se acabar, se torturar, criar um personagem, competir com os outros, porque esse bem-estar é um lugar dentro da gente que construímos (lógico, o ambiente e as pessoas interferem nisso) com muita perseverança, trabalho, fé e rezando pra ter sabedoria no processo. Afinal, somos os maiores interessados em morar lá.