sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Eu sabendo, duvido e vendo, continuo não acreditando



Ai, o ser humano!... Era melhor ter mantido os dinossauros.

Sempre achei que cada um sabe, no fundo, quem é e o que faz. Talvez porque comigo seja assim, sou muito reflexiva. Rumino tanto as coisas, que quando passa o tempo e eu não mudei de ideia, tenho convicção que tô na pista certa. Frequentemente, mesmo que secretamente, mudo de ideia, por isso se o contraditório não me pesca, eu sei que tô certa na questão. Mas ando me dando conta que as pessoas não querem saber quem são e nem reconhecer as merdas que fazem. Isso é um defeito geral, mas que se apresenta com uma dose extra de arrogância no caso dos homens.  

Outro dia dois amigos brigaram do nada. Na verdade, um deles viu pêlo em ovo e caçou o rompimento. Não falei nada porque ando evitando entrar em confusão até em causa própria. Mas depois fiquei de cara quando esse que brigou veio no privado me falar várias coisas sobre o agora ex-amigo que em nada batiam com a realidade. E olha que não sou de encobrir os defeitos dos meus amigos. Meu trabalho é o contrário: disfarçar que não estou vendo. O caso é que eu acho que algo que o outro disse, embora não tenha dito nada de mais, bateu errado em algum complexo de inferioridade deste moço, ele surtou, não quis sair por baixo e inventou pra si mesmo uma desculpa pra sair por cima. O que me espanta é que tudo isso foi feito sem que ele tivesse consciência disso. E aqui que entra a questão de gênero. Muitas mulheres, assim como eu, ruminam, então a chance de cair a ficha é maior, embora vivamos todos numa época em que todo mundo se acha acima do bem e do mal. Mas, enfim, mulher tem baixa autoestima, então tende a considerar se está errada. Homens têm "autoestima" patológica. É uma certeza de que é foda que merece ser estudada pela Psicologia (e estão cada vez mais medíocres, coitados. Deve ser mecanismo de proteção de ego, só pode.). Em uma situação em que são contrariados, mesmo com todas as evidências apontando contra eles, ficam com ódio de quem expôs a situação. Ouvi um podcast na Radionovelo com um exemplo desse, em que a moça saiu de ruim na história porque expôs o namorado canalha. Ele tá de boa, protegido pelos amigos, e ela não.  

Uma figura lá do trabalho tem a prática sem noção de ouvir som alto no autofalante (todos nós usamos fone). Eu saí da bancada e fui pra outra porque, entre outros motivos, não aguentava mais aquilo, afinal preciso de sossego para trabalhar justamente com áudios. E outra colega já sinalizou, inclusive, que ele tem a prática de ouvir o som tão alto que ela pensa que é o rádio da sala ligado. Você acha que a criatura parou e avaliou que foi mal educada comigo e com os colegas? Que nada. E a consideração que tinha por ele caiu muito quando percebi essa falta de humildade e autocrítica (daí você vê que o ar "deboassa" de certas figuras é fake e despenca quando são contrariadas). Tá fechado, no mínimo achando que eu fui isso e aquilo. Ele não tem a mínima noção de que ele sim foi desrespeitoso. Certeza que ele não tem.  E sei que ele faz algo parecido com colegas do outro trabalho dele. Não é pessoa ruim não, é muito extrovertido inclusive. Mas usa essa corrupção afetiva, digamos, pra desrespeitar os outros e fazer o que quer. Aqui no Brasil a pretensa alegria de certas pessoas é como um KY pra elas enfiarem no seu c* e você não ter o direito de reclamar. Muitos homens se fazem de legais justamente pra serem abusivos sem repercussão pra si mesmos. E quando alguém os constrange, vem a violência (que não precisa ser física, claro). Jogar nas costas do outro um ônus que é seu é violência pra caramba. Realmente, tem gente que acha que está certa mesmo fazendo merda atrás de merda. Gente assim se picando da minha vida é livramento, não tenho dúvida. Pra mim é. Quero perto de mim gente recíproca, que queira pra mim o mesmo que quer pra si, que seja justa mesmo quando isso não a favorece. 

Justiça

Esse conceito, na minha opinião, tem a ver com proporção. Certo e errado são dificeis de definir porque sempre há as circunstâncias e a medida da ofensa para serem consideradas na resposta a ela. Uma boa reparação exige medida; nem mais, nem menos do merecido. Exemplo 1: fui ver um júri de tentativa de feminicídio, em que o júri deu tudo que podia dar pra condenar o réu e o juiz abrandou demais a pena final. Minha amiga ficou injuriada. Eu também, mas compreendi o juiz: se ele desse a pena máxima, ele ia colocar um cara que tem dois filhos pra criar, trabalha e nunca mais depois disso criou problema por anos entre bandidos da pior espécie. Ele não seria só punido, mas sairia de lá com graduação em crime, isto é, se saísse vivo. Eu não queria estar na pele daquele juiz, que tinha que dar uma resposta à vítima (até pra constranger violências futuras) e à sociedade, mas sem pesar a mão demais e produzir mais um marginal. 

Exemplo 2: o filme "Jurado número 2". Uma mulher morreu "de morte matada". O namorado abusivo a colocou numa situação de vulnerabilidade, em que era muito fácil isso acontecer. Um completo estranho, sem querer, matou ela atropelada. Quem tem mais culpa? Eu chego a pensar que o namorado é mais responsável que a pessoa que a atropelou. Só não sei como alguém vive normalmente tendo matado outra pessoa, mesmo sem querer. Nem tanto assim, no caso do filme, porque o cara era alcoolotra e esse era um risco presumido. 

Definitivamente, não consigo entender certas mentalidades humanas. Não sou perfeita, mas pelo menos tento acertar. A galera, de um modo geral, tá jogando pra cima, "sem pecado, sem juízo". Oremos.