sábado, 19 de dezembro de 2015

Como me tornei uma pessoa de "curto prazo"

... Nem eu sei dizer.
Mas o fato é que perdi totalmente o saco com coisas de longa duração.
Seriados? Não. Prefiro novela da Globo. Melhor ainda se for minissérie. Não dá para passar anos seguindo uma história, por melhor que seja. E sou da época em que acompanhávamos, no máximo, três por vez e não uma cacetada deles, que são lançados a toda hora. 
Filme é uma coisa bem mais legal, rapidinha - contanto que não dure três horas.
Romances? Prefiro contos e crônicas.
Eu não sei se é falta de maturidade, de repente cansaço em meio a tantos estímulos, ou se é vontade de viver uma vida de verdade e não ficar afundada em ficção, em histórias dos outros. O caso é que para 90% dos meus amigos a ficção é um oásis, enquanto eu raramente me prendo ao que está passando. Me sinto um ET. Tem que ser muito bom para prender a minha atenção. Prefiro viajar, ver gente, ir para a rua, ou ficar em casa sozinha, pensando ou escrevendo.
Escrever. "Agente da ativa". Eu tenho pressa, acho que esse é o caso. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

Batom

Gosto que as mulheres comecem a se dar conta das perversidades do sistema. Mas outro lado meu fica irritado com essa onda de feminismo.
Vamos aos fatos: falam em feminismo as mulheres protegidas, brancas, da classe média. O discurso feminista é bastante classe média. A mulher marginal sempre teve uma vivência feminista, ainda que não tenha consciência disso; foi obrigada a ser autônoma porque ninguém nunca se interessou em protegê-la.
Apesar de classe média, eu sempre fui marginal. E antes de ter consciência disso, já odiava um monte de coisas de mulherzinha.
Odiava quando minha mãe fazia aqueles cachos bizarros no meu cabelo.
Odiava usar meia calça em festa de aniversário (apesar de adorar me ver de vestido). Eu rasgava a dita cuja assim que chegava na festa, mas, na próxima, lá vinha minha mãe com outra, novinha, geralmente branca (argh).

Na adolescência foi pior.
Eu odiava ir ao salão de beleza. Os tratamentos eram doloridos e as pessoas, racistas. Ouvia das mulheres da família: "Ah, mas mulher tem que se cuidar". E o homem? Eles podem ser naturais. Quem nunca desejou ter nascido homem só pra gozar desse privilégio...
Meu pai não estava nem aí, a gente que se virasse.
Enfim, tratamento de princesa passava longe de mim nessa fase.

Eu não vou me estender, mas, para resumir, como sempre fui diferente da norma - e com pouca disposição para me encaixar nela -, sempre tive que defender a minha liberdade.
Isso aí que as neo feministas dizem pras mulheres não deixarem os homens fazerem eu penso desde que me entendo por gente. Cresci entre mulheres violentadas, eu sei bem como isso funciona, e desde criança isso me indignava.
Essa coisa de meu corpo, minhas regras, eu tive que exercitar desde a adolescência, enquanto olhava outras colegas fora dos padrões, como eu, se mutilando para serem como as meninas "adequadas".

Já fui e já voltei nessa história. Já estou na terceira onda, por isso acho que, ao contrário das neo feministas, entendo os críticos do movimento, como Camille Paglia. A independência feminina não acontecerá por mera imitação das atitudes masculinas, numa competição de quem pode mais. Temos que nos descobrir e achar uma terceira via, que não é essa que nos impuseram historicamente e nem a dos homens (que também precisa de revisão urgente). Há características que são, sim, genuinamente femininas e precisamos nos orgulhar delas.

Há 35 anos sou a mulher que quero e posso. Aprendi a gostar de algumas coisas de mulherzinha e para outras nunca terei inclinação. Fato. Sou feminista na minha vida e sempre defendi esse meu direito de performar o meu gênero como eu sei, como eu quero. A única coisa desse universo que eu realmente não abro mão é de batom. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Nem todo mundo pensa bem de si mesmo

Um amigo meu costuma dizer que certas reações dizem mais sobre a pessoa do que sobre o fato em si. 
Essa semana pude ter uma prova bizarra disso. Encontrei com uma assessora de imprensa que, ao me ver, não se contentou em me perguntar uma vez se eu estava bem (pergunta a qual respondi com um tranquilo "sim"). Perguntou três vezes, se deparando com a mesma naturalidade. Ao final, incrédula e, acredito, sem graça pelo papelão que estava fazendo, se despediu de mim e foi embora.
Ela queria choro por causa de uma demissão em massa? Ela esperava confidências de minha parte? Provavelmente sim. Mas principalmente estava ali alguém que morre de medo de perder o emprego, que provavelmente deve ser uma base grande da autoestima dela. Eu só lamento. Nem todo mundo pensa bem de si mesmo e algumas pessoas precisam desesperadamente do "ok" alheio para sentir que valem algo.

*

Ela se queixava ao terapeuta que não era valorizada. Ele escutava atentamente e, por fim, resumiu a vida dela em um par de frases:

"Você tem grandes qualidades, mas ninguém consegue ser mais dura com você do que você mesma, que já chega despejando todos os seus defeitos, desejosa de que ninguém crie expectativas sobre você".

Ela não pensava bem de si mesma e isso só atraía rejeição para a sua vida.

*
Duas amigas falam de uma terceira, que vive um relacionamento abusivo. Uma delas comenta: "Não sei por que ela se sujeita. Ela é tão cheia de qualidades e ele é tão...".

O abuso faz a gente não pensar bem de si mesmo. E se é assim, como desejar algo melhor?


Moral da história: a gente só consegue viver uma vida de verdade quando passa a ligar menos para os outros e a fazer coisas que nos façam pensar bem de nós mesmos.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Under pressure



Essa foi uma semana difícil, mais pelos outros do que por mim, acredite. 
Foi a semana de finalmente dar adeus à redação, junto com um terço dela, que teve que sair por causa da crise financeira da empresa, que acabou gerando o encolhimento do tamanho do produto e, claro, da equipe. Houve injustiças nessa lista e isso também foi difícil de lidar, especialmente com algumas covardias praticadas.
Pessoalmente, eu acho que mais uma vez a vida fez por mim aquilo que eu precisava, mas não tinha coragem. Então, vida que segue, agora sem desculpas, sem cansaços, mas, como nada é perfeito, com incertezas.
Uma das perguntas que me faço agora é se eu quero mesmo continuar ou mudar. Eu sei a resposta, mas aguardo uma confirmação.
No geral, vejo esse momento como uma oportunidade. Mas muitos colegas que foram demitidos estão sentindo que tiveram os sonhos interrompidos, que não valem grande coisa como profissionais. Isso tudo me ensinou muito, especialmente sobre desapego e auto respeito.

O jornalismo faz isso com a gente, mexe com a nossa autoestima frequentemente. Não basta ser competente; espera-se que seja brilhante. E tem que ser o tempo todo, mesmo numa rotina de seis dias por semana e muitos feriados. A gente vive (e é estimulado) se comparando.
Minha experiência em cinco anos de jornalismo impresso: geralmente - não é sempre, mas é comum - os mais "geniais" de uma redação são também os mais "preguiçosos". Produzem bem porque têm tempo, prazo mais longo pra fazer com calma, pra burilar o texto. Claro. Já viu gente exausta sendo criativa? Difícil, né, a não ser que a pessoa seja dona de uma energia fora do comum (ou um ego igualmente grande). Portanto, especialmente com as redações cada vez mais enxutas, há a necessidade de gente com vontade de fazer e disposição para cobrir coisas menos divertidas como buracos, deslizamentos, enfim, a vida real. Não é fácil como parece e nem dá para fazer algo muito criativo. O repórter aparece pouco no hard news. O talento aqui é deixar a história se sobressair, buscar todas as informações, de forma a dar o panorama mais completo possível. Você passa meses e meses cobrindo as mesmas coisas, lidando com fontes de má vontade, fazendo matérias fisicamente exaustivas. Essas pessoas são as que carregam o piano do jornalismo diário e, por isso, deveriam ser mais valorizadas. Mas quase nunca há gratidão pelos operários da primeira hora.

O caso é que esse tipo de ambiente competitivo acaba com a solidariedade entre as pessoas. Traz para os mais destacados a noção de que são estrelas, de que podem fazer o que quiserem, e isso, numa equipe, é ruim, porque sempre desequilibra as responsabilidades, que deveriam ser repartidas igualmente. Aos trabalhadores braçais, deixa a noção de que pouco valem, de que estão no lugar errado, de que não estão fazendo direito.

Esse é um ambiente anti-felicidade. Bem-estar depende do oposto disso. Parem as máquinas: é atrás de satisfação que eu vou correr agora.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Que mal eu fiz a Deus?

Imagine que a sua vizinhança, onde sempre viveu gente como você, começasse a ser ocupada por moradores de todas as partes do mundo. Com o tempo, não seria incomum que os primeiros residentes, os considerados locais, se sentissem invadidos em seu território e até em perigo.
É o que vem acontecendo nas grandes metrópoles do mundo, em especial as europeias, nas últimas décadas. Londres hoje é mais indiana que inglesa; Paris é mais árabe que francesa; Roma é mais paquistanesa que italiana... E a profusão de culturas, esse tal multiculturalismo, começa a fazer europeus, que tanto valor dão à linhagem, ao sangue puro, se sentirem uma raça em extinção.

Por que tanto apego às nossas origens? Porque isso faz parte do nosso laço e orgulho enquanto comunidade, da construção do nosso eu. O ser humano não existe sem uma cultura. Fato.
Mas o problema não está exatamente no outro e sim na relativização que a presença dele faz da minha importância. Então, se sou europeia e me orgulho tanto das conquistas do meu povo - como é o caso da França que, em todos os seus monumentos, exalta o passado e os grandes homens da nação -, como vou ficar feliz vendo que diversos podem ocupar o "meu" lugar, que tenho tanta importância quanto os outros, que não sou especial? Não deveria ser assim em um mundo ideal, mas o ser humano, em boa porcentagem, ainda precisa se elevar às custas do rebaixamento do outro. Como se destacar se não for assim? #magoados

Mas, zombeteria à parte, há um componente adulto e primitivo nisso tudo que é o medo do desconhecido. Percebi isso quando passei três meses morando na França. Se você vive cercado por pessoas de nações das quais inclusive nunca ouviu falar, vai precisar de algum mecanismo para se organizar em meio ao desconhecido. Se não é o caso de ser budista, provavelmente será o caso de desenvolver desconfiança, medo - essa palavra cabe duplamente nessa discussão depois que li uma definição interessantíssima dela: "Medo é um preconceito dos nervos". (by Machado de Assis)

Uma amiga de espírito humanitário outro dia comentou comigo - baixinho pra ninguém ouvir e achar que ela é xenofóbica, o que é bem sinal dos tempos - que entendia o pânico dos europeus com a entrada dos refugiados, pois a leva de expatriados pode trazer junto mais terroristas. Eu já estava ligada nisso por causa de um comentário de Flávia nesse mesmo tom. Assim como minha amiga, eu sou a favor que eles entrem, sim, até porque a Europa e os EUA têm um dedo nisso, mas eu compreendo o medo dos europeus. (Aliás, nada melhor do que a ganância e o medo para nos fazer ser mesquinhos com os outros)

***

E é dessa salada de frutas humana que fala a comédia francesa "Que mal eu fiz a Deus?". O filme, de forma leve e sagaz, trata de temas densos, abordando intolerância, xenofobia, estereótipos,  colonização, miscigenação, racismo, sexismo, família, religião, etc. Enfim, posso dizer que meu trauma com "Chou Chou" é coisa do passado depois dessa trilogia "Intocáveis", "Eu, mamãe e os meninos" e "Que mal eu fiz a Deus?".
O filme é a França rindo de si mesma. Fala de uma família classe alta do interior que, após mandar suas quatro meninas para estudar em Paris, as recebe de volta casadas com filhos de imigrantes, inicialmente um chinês, um judeu e um árabe - por isso as reuniões de família nunca acontecem em paz e sempre alguém se ofende com alguma piada étnica feita "para descontrair" - e, por último, um africano.
Nesse último casamento temos um elemento a mais: a oposição da família estrangeira, ou melhor, do pai, uma versão africana do patriarca da família francesa, aliás.
Os pais franceses surtam com isso, a mãe entra em depressão, o casal quer se separar, as irmãs começam a culpar a caçula pelo ocorrido... A coisa toda vira um caos.
A mãe se recupera primeiro e percebe que o que sente é, na verdade, um medo infundado do desconhecido. Por causa disso é acusada de comunista pelo marido, que demora um pouco mais para cair em si. Porém, ao final do filme, é ele quem dá uma preciosa dica de como resolver essa intolerância com outras culturas: é preciso se propor a conhecê-las.


sábado, 21 de novembro de 2015

Troco likes

Eu ainda sou daquelas que acha que Facebook é rede social, não é vida de verdade, embora a tecnologia já esteja incorporada, eu bem sei. Talvez seja uma tentativa de minimizar o que acontece por lá, para me aborrecer menos com as pessoas, o que, em carne e osso, já anda muito difícil.
Mas um amigo meu costuma prestar muita atenção a isso. Segundo ele, depois de ler "Análise do Discurso", ninguém volta a ser o mesmo (#medodemim, já que vou ter que ler isso para o meu artigo final da pós).
Bem, a teoria dele é que as pessoas não curtem gratuitamente (menos eu, que curto tudo de interessante que eu vejo pela frente e já sofri repreendas por conta disso). Curtem com segundas intenções. E isso deixa ele pirado especialmente, claro, com as pessoas mais próximas.
Meu caro, eu digo a ele, a vida é uma grande troca de likes. A dignidade está sempre do lado de quem é igual a gente. E a gente "curte" quem agrega ao camarote, não necessariamente quem merece. Cada vez mais, somos orientados para lidar apenas entre iguais, formando um grande condomínio nas redes sociais.
Isso se retroalimenta. Se alguém me curte, eu me sinto na responsabilidade de curtir de volta. Às vezes nem quero. Tem gente que curte uma certa pessoa, pois é interessante tê-la curtindo suas coisas de volta.
Os posts quase sempre são para mostrar poder e influência, que acabam por atrair quem tem poder e influência.
Relax, migue, porque não há nada mais que fazer. Aceite que dói menos. Em tempos em que existir é ser visto, natural que as relações sejam imensas trocas de likes. Me curte que eu te curto, e não se fala mais nisso nem em outras coisas.

Master of None

Eu penso melhor em movimento ou debaixo d´água.
Outro dia, caminhando, refletia sobre a minha alegria em sair para algum barzinho ou festa, aos 35 anos. Eu me questionava se nunca isso iria passar, digo, essa necessidade de rua. 
Se envelhecer é não querer sair de casa, minha mãe é uma velha desde os 20 anos. Sério. Pouco lembro de minha mãe saindo, tendo vida social sem a gente. Ela me intriga: não deseja nada, não vai pra lugar nenhum, não tem amigos, não se envolve em nenhuma atividade fora as de casa. Com todo o respeito, se tivesse vivido a vida dela, não teria vivido sequer 35 anos. 
E boa parte da geração dela é assim. Eu acredito muito que minha mãe é fruto (e vítima) do tempo dela. Que se tivesse nascido no mesmo ano que eu, teria sido uma mulher diferente. Talvez como Flávia, com quem ela tem muito a ver.
Por que não falo de meu pai? Porque ele curtiu muito a vida, não tenho dúvida, embora viva dizendo que se sacrificou muito pela família (qua, qua, qua!... Nesse ponto, ele é mais garganta que realidade, que nem a filha dele do meio). Quem pagou o pato foi ela e sem reclamar, nunca saberei se por subserviência, ignorância, orgulho ou vergonha.
Vejo nos olhos dela que não entende muito o que eu quero dizer quando reclamo que uma vida só de obrigações sem recompensas não é para mim. Essa passividade dela, para mim, é um mistério. Não sei se desprezo ou admiro. Não sei mesmo porque entra no roll de coisas que nunca vou compreender de fato porque não as vivi.

E então, rodando no Facebook, vi colegas comentando sobre uma nova série do Netflix, "Master of None", na tradução, mestre de ninguém.  É sobre a nossa geração, aquela gente que nasceu no início dos anos 80 e hoje já tá na casa dos 30 e alguma coisa, portanto madura a ponto de cair do pé. 
Os dois protagonistas, Dev e Alan, são filhos de imigrantes, indianos e chineses, respectivamente. Eles já nasceram em solo americano, desfrutam de uma vida super confortável, cujo maior problema, segundo a observação irônica de um deles, "é se o wi-fi caiu". Isso às custas do sofrimento e do suor de seus pais, sobre quem sabem muito pouco, com quem quase nunca querem estar, mas a quem devem muito mais do que imaginam. 
Essa velha geração passou por sufocos, privações, frustrações e humilhações para prosperar. Pouco fala de si mesma, talvez para enterrar os maus momentos do passado. A nova deseja apenas desfrutar e não banca nada que possa trazer desconforto. Por exemplo, filhos estão fora de cogitação, porque podem impedir a criatura de sair para comer massa quando quiser. 
O roteiro é hábil. O primeiro episódio nos pega pelo estômago, ou seja, apela para o nosso desejo de liberdade, a nossa pouca disposição para o sacrifício, quando discute as vantagens e desvantagens de se ter filhos. O segundo episódio é um verdadeiro soco no estômago, ainda mais para quem se viu em Dev no primeiro. É quando os protagonistas e nós, espectadores, ficamos sabendo o preço que os pais desses personagens tiveram que pagar para chegar aos EUA. A solidão, o preconceito, a sujeição a subempregos em seus países de origem para bancar o sonho de vencer na maior nação do mundo.
Eu fiquei pensativa sobre isso. E olha que estou longe de ser fútil como Dev e Alan; eu ainda dou valor à luta pela sobrevivência ao contrário de muita gente da minha geração.
Engraçado que ontem, falando de um conhecido da Facom que quer ser escritor, mas que nunca teve um emprego, perguntei a um amigo em comum de onde ele tirava dinheiro para bancar esse estilo de vida. Meu amigo respondeu: "Sei lá, deve ser de alguma família rica". E eu respondi: "Ele não tem medo dos pais morrerem e ele passar dificuldades? Esse povo não pensa em velhice, previdência, plano de saúde, essas coisas?". 
Me intriga. E me angustia também. Sonhar, se divertir, é bom e necessário, senão a gente embrutece. Mas isso, sem senso de realidade, pragmatismo, parece devaneio, delírio. Sei lá, acho que essa geração, que tanto quer, que se acha tanto, corre o risco de sair dessa vida sem saber o que é ir ao fundo das coisas, o que é construir, o que é considerar e prezar algo além de si mesmo. O que é crescer. 



Racismo escondido de cada dia

Somos todos racistas. Eu sou racista. Mas há os que cultuam essa chaga da nossa sociedade e aqueles que lutam para se livrar dessa herança maldita. Eu sou do segundo grupo e digo que não é fácil. A luta é diária.

Você percebe que ainda há muito trabalho interno e externo a fazer quando entra no ônibus e fica com medo de um homem negro sozinho e sem mochila. Será que esse mesmo homem, só que loiro, com cara de estrangeiro, também me amedrontaria?

Acho cada vez mais natural ver um casal interracial, mas ainda não é 100%.

Vejo cada vez mais bonitos os que têm traços não caucasianos, africanos mesmo, mas ainda não estou 100%.

Sinto vergonha quando leio, de uma africana - repare que eu nem gravei de que país de lá ela é -, relatos horrendos da guerra e tenho certeza de que se ela fosse americana, sentiria muito mais por ela. Afinal, a violência contra os negros já é algo naturalizado.

Sinto vergonha porque sei que ao pedir a qualquer um de nós para imaginar um homem ou uma mulher, provavelmente não pensaremos em tipos negros.

Me dói quando vejo uma mulher negra com um cara super loiro e jeito de quem ganhou na loteria. Eu sei que ela sofre porque a solidão é quase certa para ela, por questão de cor. E eu sei que ela deve ter sido tão oprimida ao longo da vida, ao ponto de comprar o padrão estético do opressor, sem nem refletir sobre isso.

Me dói quando vejo mulheres negras na luta, sendo humilhadas por pessoas mais claras e ricas. São mães solteiras, esmagadas por todos os lados. Zero piedade para elas. Não fazem nada além da própria obrigação. Aliás, para a sociedade que vira as costas para elas, fazem aquém, já que geram esses marginais que vemos nos presídios. O sofrimento delas também não choca ninguém.

Sinto vergonha quando vejo que só consigo, ainda, ter solidariedade com elas. Deles, ainda tenho medo. Ainda olho com preconceito, embora a compaixão comece a crescer, aos poucos.

Sinto pena de mim quando olho para um passado recente e percebo que foi doloroso, pra mim, assumir minha raiz negra, que mesmo sabendo que tudo isso não é verdade, o olhar inferiorizador da sociedade para essa etnia me atingia durante esse processo.

Sinto pena de nós quando vejo que precisamos medir as palavras para não magoar e abrir velhas feridas.

Precisamos de mais dias da consciência negra, sim. Precisamos reconhecer nossos privilégios.
Há muito o que avançar nessa luta.


Better Off Alone

Tem uma música, recorrente na seleção da Antena 1, que sempre me tocou. Chama-se "Better off alone" - na tradução, "Melhor sozinha" -, da Sissel. Os versos dizem:

Garota não fique triste
Você sabe que você não faz falta
Sem motivos para se sentir mal
Ele não quer mais saber o significado desses beijos
Você está tentando fazer isso passar
Você sempre esteve tentando sobreviver
Eu tenho fé em você
E eu sei tudo que você está tentando

Mas você não pode voltar,
ao que nunca foi
para repossuir, o que você nunca conquistou
Mas você não pode voltar,
ao que nunca foi
Este é o seu tempo, este é o seu tempo
quando se é melhor ficar sozinha

Garota você não vê?
Não há mais nada para se ver aqui
Você tentou uma amizade em mim
E eu agora estou aqui
E você sabe que não vai ser longo
Enquanto eu estiver atrás de você
Você irá conhecer alguém
Alguém sem limites irá encontrar você




Pois é, meus caros... Essa é a minha vida, esse é o meu clube. Dói ver que o que te faz mal nem entra no raio de percepção de pessoas queridas. Você segura a decepção dentro de você, mas ela te corrói. Chega uma hora em que você não consegue sustentar e parte para o "ou vai ou racha", morrendo de culpa, de dúvida e de medo. Mas é preciso recomeçar melhor. Ou é preferível ficar logo sozinha. Fazer o quê? Não dá é pra ter as coisas a qualquer custo senão elas acabam se voltando contra você. E, infelizmente, as pessoas só conseguem se pôr no lugar das outras quando elas mesmas passam pela situação. Até lá, seguimos incompreendidos.

domingo, 15 de novembro de 2015

I don´t wanna talk about it...

Tempos de conflitos internos é o que ando vivendo essa semana.
Nunca estive tão interessada no que eu e a sociedade temos que melhorar, mas, para "variar", não suporto o ruído que é saber de tanta coisa. Mas já viciei, admito.
É muita gente metendo o bedelho.
Melhor eu cuidar do meu exemplo individual, da vida.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Juntos nem sempre somos melhores

Eu, que sempre gostei de todo mundo junto, estou tomando horror a grupos. HOR-ROR. Assim mesmo, no capslock, de forma gritante.
Contardo Calligaris tem toda razão quando diz que: "Juntos nem sempre somos melhores. Porque é quando estamos juntos que, também, casos como o do índio Galdino acontecem. Separadamente os meninos não teriam feito aquilo".
Não precisa ir muito longe, não.
Na minha sala de pós houve o ingresso de alunos novos. Praticamente são a metade da sala, agora.
Há uma mulher que já chegou chegando. Professora, ela é totalmente desinibida ao falar. E fala muito. E tem certeza que está abalando.
Resultado? Rejeição aos alunos novos. Foi criado, até, um grupo novo no Whatsapp só para os alunos antigos e uma das funções é falar mal dos novos alunos.
De agora em diante, não quero mais saber disso, não. O máximo que eu encaro é grupo de um. Ser humano, de bando, é dor de cabeça na certa.

domingo, 1 de novembro de 2015

A insistência em caminhos que não levam a lugar nenhum


Eu tenho uma teoria, que não é nada de mais, mas muita gente não observa esse sinal: se te dá ânimo é porque está no caminho certo. Eu (ainda) acredito na força que as coisas têm quando elas precisam acontecer.
Semana passada, fiz o Enem. E senti um ânimo só de pensar que poderia estar mudando de rumo na vida.
Ainda vai demorar para sair o resultado, mas, se não precisasse de dinheiro e de pagar a previdência, ia deixar o mercado de trabalho amanhã e voltaria a estudar. Por que demorei tanto tempo?
Por que eu insisto em ficar em contextos que me fazem mal?
Hoje passei muito mal. Uma enxaqueca dos infernos. E eu sei o porquê. E sei também o que tenho que fazer.
Corageeeeem, Juliana!

domingo, 25 de outubro de 2015

Magia do mal

Melhor não chamar de magia negra, né, embora o negro, nesse sentido, seja a ausência de luz.
Vocês acreditam nisso? Nunca saberemos, assim como sempre haverá dúvidas sobre as previsões para o futuro, reencarnação, etc. Nesse caso específico, prefiro achar que não funciona, mas, no fundo, eu acredito que sim. "No creo en las brujas. Pero que las hay, las hay".
Outro dia, conversa vai, conversa vem, sobre espiritualidade, família, relacionamentos, coisas da vida, uma amiga recente, que está se separando do marido - no duro mesmo, porque, da parte dela, não tem mais volta -, me confidenciou que disseram a ela que houve feitiço para separar o casal, no centro espírita que ela frequenta. E ainda deram um puxão de orelha nela, que ficou espantada pelo espírito saber dessa história: "Mas por que você tinha que comer aquele bombom, hein?".
Meses antes, o até então marido havia chegado em casa com uma caixa de bombons. Contou uma meia verdade e disse que uma colega do trabalho havia feito a gentileza, sem mencionar, claro, que estava tendo um caso com ela. Como intuição não é bobagem, a esposa ficou zangada com o ato da outra, mas, como chocolate também não é, acabou degustando um. Semanas depois, o marido abriu o jogo. Ela ficou arrasada e, como toda pessoa pega com calças curtas, tentou remendar, mas não rolou.
Enfim, caros amigos, é ou não é de arrepiar?


sábado, 17 de outubro de 2015

Autoestima

Loli é uma ginecologista de Caracas. Há algum tempo, ela tentou fazer um trabalho de autoestima com mulheres da periferia da capital venezuelana. Não deu certo. Parafraseando ela, autoestima não é algo que se conserte na idade adulta; é plantada desde cedo, na infância.
E eu acho tão, mas tão injusto quando cobram isso de gente que não teve essa base. Somos nossa própria força, mas precisamos, também, da energia do meio social. É muito difícil bancar uma autoestima sendo invisível. Há casos, mas não podemos esperar que todos sejam excepcionais. Sociedade não é sobre gente fora de série.

Duas colegas minhas tiveram câncer. Ambas foram amadas pelas suas famílias, valorizadas. Mas a amiga A sempre foi o patinho feio e sonhadora. B sempre foi de muitos amigos, independente (a mãe a estimulava e o pai não se opunha), bonita (não do tipo "gata", mas sempre fez boa figura). Uma enterrou os planos depois do câncer. Teve sequelas que realmente dificultam a vida. Parece que parou de querer. A outra toca seus planos apesar do câncer. Teve sequelas, mas lida o melhor possível com isso.
B teve muito mais garra que A. Claro, ela merece todas as palmas, inclusive porque muita gente boa sucumbe na mesma situação que a dela. Porém isso não vem do nada. B teve uma vida livre e feliz. Sofreu dissabores, lutou muito, mas sua experiência, até agora, foi rica.  Portanto, sente que vale a pena viver. A vida é uma construção, nada vem do nada. Não dá pra ter uma casa bonita sem alicerces. Não se constrói uma personalidade confiante por decreto. No, No, no...

Salvador Destination´s Spirit

Esse post não é para falar sobre a polêmica propaganda do Salvador Destination. Vou aproveitar o gancho para discutir o nosso espírito de SD.

Sim, porque assim como a propaganda se voltou a um público de elite, assim somos nós. Pelo menos no meio da Comunicação.

"Se tudo fosse natural sob esse sol, formiga encheria bola de soprar".

Quem disse isso foi o Jean Wyllys. Uma pessoa boa, bem intencionada, mas que vive em grande medida para mostrar e ostentar. É sobre isso que eu quero falar.

Eu estou cansada de ver as pessoas do meu meio, nas redes sociais, tirando fotos com pessoas conhecidas, em lugares sonhados por muitos, destilando "competência" e "influência". Isso não é apenas um registro. É uma distinção. "Olha quem eu conheço". "Olha onde eu circulo".
Jornalistas não são amigos de qualquer um. Tem que "agregar ao camarote". Jornalista de veículo não anda com assessor, pode reparar. E eles ficam trocando elogios entre si. Se for homem-brodão, melhor. Se for estiloso, melhor. Se tiver dinheiro, melhor. E se for famoso no mercado, pode rolar até beijo na boca.

Poucos, nesse meio, não são deslumbrados com essas coisas. Ninguém aprecia ninguém pelas qualidades. Via isso desde a faculdade.

Mas esses são os mais preocupados com os elitismos.

Vai entender... O ser humano é mesmo contraditório.

Na pós, convivendo com pessoas de outras áreas, vejo como isso pode ser bem mais ameno.

E eu até me impressiono por ser ouvida com atenção mesmo quando eu não digo nada brilhante.

Essa experiência vem me ensinando. Que tal ser mais aberta ao outro, seja lá quem ele for? Eu até tenho facilidade pra isso, mas ainda dependo da conexão afetiva. Espero, em breve, me aprimorar.

sábado, 10 de outubro de 2015

Cadê o espelho, binhxs?!

Camila é uma pessoa que eu chamo de "conectada". Sabe quando a pessoa vive uma vida alinhada com a sua essência? Eu acho que ela está nesse caminho. Mas o que mais aprecio nela é a capacidade de falar as coisas que ninguém admite - ao menos em voz alta. Eu também sou assim, mas ela é bem melhor nisso do que eu porque consegue dizer com naturalidade. Eu me incomodo de estar incomodando e daí quase sempre acabo subindo o tom. Enfim, deixa pra lá...
Ela, outro dia, fez uma observação que eu achei excelente: "As pessoas falam de defeitos como se aquilo não fosse com elas, como se elas não sentissem coisas ruins também". Bingo, Camilinha! Lógico que há pessoas e pessoas. Uns estão mais avançados espiritualmente que outros, mas há esgotos em todas as casas. Nem o Dalai Lama andou escapando disso (http://www.brasilpost.com.br/2015/09/23/dalai-lama-mulher_n_8184878.html)...
E isso é tão burro, tão infantil. Quanto mais você esconde, mais vulnerável fica. Ok, não precisa gritar para o mundo, até porque haverá quem vai usar essa informação para o mal. Isso também é muito perverso: quem se revela é atacado, diminuído. Ouse dizer que não está feliz pra ver uma coisa. Mas quero ver quem sai da tristeza para a alegria sem ter admitido que estava insatisfeito. É humano, gente. Helloooo!
Admita para si mesmo, ao menos. Até pra poder trabalhar isso dentro de você, para poder saber os seus limites e não ser pego de surpresa por eles.
Vá para o espelho, tire a roupa e se encare como é. Só não se traumatize, que não é o caso. Eu recomendo.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Qual é a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?

O mal de quem está em uma militância é querer apagar as diferenças. Elas existem e é impossível eliminá-las. Um organismo feminino, por exemplo, nunca funcionará como o masculino. Qual é a briga que vale a pena, afinal?
É garantir que todos tenham representação, participação política e direitos.
Por exemplo, a questão do corpo obeso. Nada vai fazer com que a maioria das pessoas vejam um corpo obeso como ideal de beleza. Assim como um corpo excessivamente magro vai causar rejeição do ponto de vista estético. Mas qual é o lance? É garantir que essa fatia da população esteja à vontade para se mostrar e que tenham, também, a sua representatividade na cultura porque, afinal, elas existem. Porque, até agora, há todo um esforço para que sejam invisíveis. Quando não são agredidas na esfera pública.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Meu lema de vida

"Eu não quero ser lembrada por ninguém. Quero é viver".

A frase é da atriz Drica Moraes. E é minha. Poderia ter saído da minha boca, sem dúvida.

Provavelmente isso foi efeito do câncer que ela teve. E foi um câncer de uma pessoa relativamente próxima que me fez perceber, enfim, a presença da morte.

Enquanto estiver aqui, meu maior objetivo será viver bem. Não tenho ideia de como. Mas "não vou brigar com o que me faz bem", como disse minha amiga, heroína do dia a dia, dona dessa linda frase.

Covardia

O ser humano tende a ser muito covarde, consigo e com os outros.
Na hora de atacar, por exemplo: raramente ele vai em quem deveria. Opta geralmente por um alvo fraco, que não tenha poder para se defender ou com quem não possa lucrar. Muita gente "boa" comete essa covardia, inclusive com quem lhe tem estima. Mas falaremos disso na parte II desse texto.

Esse tipo de covardia é comum no mundo material, onde as aparências têm um apelo inegável. Mas as pessoas esquecem que existe uma outra esfera, invisível, espiritual, se assim preferir chamar.
Lá a lógica é outra. Depende do que você fez e faz. Da pessoa que você é e dos valores que cultiva. Todo mundo tem os seus protetores. "Então não mexe comigo que eu não ando só" não é coisa dita da boca pra fora. Não mexe mesmo porque ninguém anda só.
Eu nunca tive religião ou participei de rituais pra conseguir o que quer que seja, mas quem me fez injustiça sempre se deu mal mais na frente. E sem eu precisar mover uma palha, o que é melhor (porque tudo que você faz fica um pouco contigo também). Eu apenas seguro a minha raiva, olho e penso: "Deus tá vendo!... E eu só lhe observo...". Mais tarde, a vida sempre aponta quem tem razão. É batata!

PARTE II
"Romper ou não romper?...".
Para mim sempre foi difícil, mesmo quando não estou aguentando mais. Porque sempre tem algo bom e, mesmo quando isso já acontece pouco, existe um passado.
Primeiro porque fica o medo de estar sendo injusto, de estar exagerando nas sensações.
Segundo, que sempre vai ter a turma do "deixa disso", que vai querer te amansar dizendo que a criatura que pisou na bola gosta de você.
Terceiro, porque você gosta da criatura e quer acreditar nas duas mentiras anteriores.
Minha experiência diz que quem chuta o balde da consideração não gosta - ao menos não tanto quanto antigamente. E uma hora isso virá à tona trazendo conflitos sérios. Evitar é apenas adiar.
Sabe aquela patada que, quando você percebe, já deu e te dá ressaca moral? Sério indício de que o respeito (e a estima) se perdeu em algum ponto do caminho. Não se engane: o conflito vai surgir, essa bomba vai explodir. Deixe de covardia. Faça o que tem que fazer.
Quem gosta pode até errar, pisar na bola, mas vai te valorizar de alguma forma. Você vai se sentir amado. That´s the question.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Beleza pura

Tem gente que não é nada de mais,  não - embora haja sempre quem ponha maldade nas coisas. Apenas beleza. Tem gente que é bacana de olhar, que tem uma aparência gostosa que, às vezes, chega a salvar o dia.
A beleza tem o seu lugar, não vamos mentir. Ela desperta um carinho. Mas às vezes isso é tudo e é bom apenas por ser assim.

Pedro Paulo ou a inesperada virtude da ignorância

Pedro Paulo é amigo de um amigo. De cara, adorei ele. Ar de gente boa, cara bonita (isso é assunto para outro post...), tranquilinho. Tem alma de cachorro, é afável com todo mundo. Um fofo, como se diz. Quem nos apresentou é o oposto disso, ligado no 220 w, desesperado, crítico. Amigos de infância que se adoram, mas não têm nada a ver.
É engraçado quando os dois começam a interagir, beira o patético em algumas situações.
Sabe aquela coisa que eu já disse aqui, de que tem gente que terá uma vida linda contanto que nunca tenha certas epifanias? É ele. E, segundo o meu amigo, isso é de família; Pedro Paulo e o irmão são assim desde crianças, o que o intriga ainda mais.
Ele tenta desafiar o bichinho a ter senso crítico de todas as formas, mas não consegue provocar nem um suspiro de cansaço, nem uma ruga de expressão. Pedro Paulo continua lá, na dele, uma folha em branco.
O amigo tenta convencê-lo de que a vida o maltrata, como a todos nós. Que ele passou um tempão trabalhando sem carteira assinada e ainda hoje ganha mal, precisando frilar nas folgas semanais. Que ele nunca vai a lugar nenhum que não seja o Capão. Que ele não come coisas boas. Que morar perto do trabalho e morar na casa da avó não são motivos para ele estar tão satisfeito com a vida.
Aliás, tenho que admitir: uma coisa boa nisso tudo é que ele é a única pessoa que, ao me ouvir reclamando da vida, não tenta competir comigo. E mais: ele ainda ratifica que a vida dele é boa, sem cinismo ou maldade. Pedro Paulo não tem essa complexidade.
No final da história, tudo fica como antes no quartel de abrantes. Se alguém fica abalado é o meu amigo, que, claro, tem ressaca moral de ter abusado tanto o outro a troco de nada. Ele diz: "É, não tem jeito. Então é melhor que ele nem acorde mais e morra assim".
Amém.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

"A vida não é um filme. Você não entendeu..."

Eu sempre tive dificuldade para realmente perceber que a vida é comigo e não uma ficção. No fundo, bem lá no fundo, eu ainda espero que alguém me acorde e me diga que isso não aconteceu, que isso não é a minha vida. Eu ainda acho que vai ser possível, um dia, entrar na máquina do tempo e reviver.
Ainda acho que isso tudo aqui é ilusão. Que eu sou uma extraterrestre perdida no corpo de uma terráquea. Que eu nunca fui humana antes e pertencia a um grupo de amebas. Que estou no mundo de Matrix.
É um problema de existir mesmo, acima de qualquer coisa.
Vejamos.
Desde que eu tinha uns cinco anos, tenho pensamentos estranhos. 
Eu nunca entendi porque eu tinha que ser Juliana. Eu nem sou exclusivamente Juliana. Muita gente, muita mesmo, tem o meu nome. Por que obedecer a ele, sempre? Eu não entendia por que não ser às vezes Carol, Fernanda ou Mariana.
Eu também tenho muita dificuldade de aceitar a incompletude das coisas. Como boa lua em fogo, se falta um pedaço, falta tudo e eu não quero mais, não. Quando eu tinha cinco anos, o sapato de um dos pés da minha Susi caiu dentro de um capô de carro. A boneca acabou, ali, pra mim. Não dá pra brincar com uma boneca descalça. Falta algo. O sapato. A inteireza. 
Eu quase nunca lembro dos eventos de uma perspectiva minha. Sei do que aconteceu com todo mundo, menos comigo. É que as coisas são tão aleatórias ou empurradas (ou mesmo rápidas quando são boas), que eu quero apenas que elas passem pra eu poder voltar para casa. Viver cansa. Estar rodeada de gente é bom, mas trabalhoso, ainda mais pra quem tem pouca energia e mente dispersa. Focar e produzir. Arre!... Só curto depois de pronto. Raramente o processo não é um sofrimento.
O que será que vai comigo dessa existência? Sinceramente, não sei. Há dez anos, a minha infância era muito presente. Mas, descobri num grupo de ex-colegas de escola, que isso já não me diz mais nada - eles que não me ouçam, mas é, mesmo, como se fosse uma lembrança de outra vida.
Minha nova infância são os meus dois primeiros anos na faculdade. Porque, de fato, minha vida começou na "adultescência". Eu sei por quê. Além da liberdade - que veio casada com a independência financeira -, teve a descoberta de gente que era como eu; o aprendizado acelerado de um monte de coisas, as descobertas de mundos que eu mal conhecia; o desenvolvimento pessoal. Foi intenso como nunca mais ocorreu na vida.
Naquela época, poderia contar o meu futuro e ele parecia um filme. A seguir, cenas dos próximos capítulos...

domingo, 2 de agosto de 2015

Dependência

Por coincidência, assisti a dois filmes que tocam no tema "dignidade diante da doença", nesse final de semana:"Para sempre Alice" e "Mar adentro".
O primeiro é mais dramático; o segundo é mais leve, mas produz excelentes reflexões. Que diálogos! Fora o carisma do elenco espanhol.
O protagonista, Ramon Sampedro, diz algo que eu nunca tinha pensando, apesar de ser bastante óbvio: "Quando a gente depende dos outros para tudo, perde a privacidade". Não é só o brio que vai pro espaço, mas o direito de ficar a sós. Tão precioso!...
Deus do céu, já não era tempo de haver cura para essas coisas? Tomara que não tarde a acontecer.

sábado, 1 de agosto de 2015

Qual o limite do humor?

Muita gente, eu me lembro, se queixava de Joan Rivers, a famosa crítica do tapete vermelho. Não havia meio termo: ou você era fã do humor mordaz dela ou achava a mulher uma bruxa insensível.
Ok, expor as pessoas ao ridículo é cruel, mas, na boa, dizer que quem é lindo, bem sucedido e às vezes até está na festa para receber um prêmio se vestiu mal, está brega, não tem o poder de causar lá grandes prejuízos à figura. Se isso acontece, é mais um caso de ir ao psicólogo que à Justiça, a meu ver. Além do mais, essas pessoas ou exageram, querendo chamar a atenção, ou são displicentes quando têm, à disposição, toda uma indústria, em torno de si, querendo ajudá-los com a aparência. É um jeito nada educado de passar uma informação, mas, convenhamos, se a celebridade tiver um pouco de senso crítico, vai poder aprender com aquilo, quer assimilando ou se posicionando.  
Outra coisa é tirar sarro de uma catadora de lixo, tão vulnerável socialmente, tão agredida na autoestima.  

Enfim, pra mim, o limite é não fazer críticas gratuitas, sem sentido, muito menos para chutar cachorro morto.

Agora, humor é que nem sexo: pra valer, nunca vai ser limpinho. Desistam dessa ideia.

Os discursos necessários

Um ser humano, por mais libertário, raramente não vai ter seus estranhamentos. É normal. Todos viemos de um recorte social.
Estou numa fase em que, apesar de não lutar contra os meus estranhamentos, eu quero apoiar quem é estranho. Por mais que me desagrade, algumas bizarrices são necessárias para que todos comecem a se acostumar com a diversidade. 
E acho que nem todo discurso hipócrita deve ser combatido. Explico. Por exemplo, nosso ex-professor WG não é aquela criatura justa e amável do Facebook. Não mesmo! Qualquer um que tenha sido aluno dele por um mês sabe que ele é preconceituoso e elitista. Mas o discurso dele nas redes sociais, ainda que hipócrita, tem sido muito importante. É um discurso liberal, de aceitação da diversidade, democrático. É uma falsidade do bem. Ele ganha muito com isso, obviamente, mas, inegavelmente, produz um bem ao botar um pouco de luz na cabeça de quem acredita que ele é assim mesmo. 
A mesma coisa penso do Jean Wyllys. Se bem que sinto que ele, apesar de elitista e deslumbrado, tem uma essência amorosa, se importa de verdade. Ele está tendo o seu momento "Super Xuxa Contra o Baixo Astral", mas tem feito a diferença na luta das minorias.

Enfim, babies, há situações em que "mentiras sinceras" super interessam.

A Mulher Cordial

Quando estiver na vibe do mestrado, vou propor uma dissertação que vai se chamar "A Mulher Cordial".
A sociedade espera, elas não se posicionam. Quando isso vai mudar? A quem interessa manter? Que síndrome de Estocolmo dos infernos é essa?
Não precisa ser uma Miley Cyrus, não, para chocar. Basta não ser "delicada". Basta não ser "compreensiva". Basta ser direta. E todos vão te criticar, te garanto. 
Eu até entenderia se o mesmo valesse para os homens. Mas não é assim. Faça você, mulher, uma piada e faça um homem. A aceitação vai ser completamente diferente. Eles podem. Você que fique confinada na sua caixa de boneca de porcelana. 
Eu me lembro, ainda, da primeira vergonha que eu fiz minha mãe passar. Mas por culpa dela, que quis bancar a caridosa às minhas custas. Eu tinha cinco anos e estava em uma festa de aniversário em uma chácara. Teve uma corrida, eu venci e ganhei um porco de plástico verde, com uma nota de R$ 5 dentro. Ela queria que eu devolvesse o prêmio porque as outras crianças eram menores que eu. Me recusei, disse que o porco era meu, que eu era a vencedora. Ela insistiu, querendo me forçar a ser "boazinha". A mãe da dona da festa interveio - não sei se por reconhecer a minha razão ou para evitar o constrangimento -, dizendo a minha mãe que me deixasse, que eu havia ganho a corrida e o prêmio era meu. 
A mulher tem que ser sempre enquadrada, desde pequena. "Não reclame". "Seja delicada". "Ceda sempre, sem se importar".
Mas e se eu for uma boa pessoa, solidária, afetuosa, etc, eu me torno uma criatura ruim por defender os meus direitos e a minha individualidade? Desculpe, não é a minha natureza e, na boa, eu não quero ser assim. Por que se ater nisso em detrimento das qualidades? 
Por exemplo, eu acho que ninguém tem que aturar infinitamente gente folgada. Por que eu tenho que ter paciência, consideração sem fim, delicadeza com quem não se importa se está me abusando ou não? Se a pessoa não quer parar de ser sem noção, se ela não me enxerga e não se importa comigo, ela tem que assumir, pelo menos, o risco de levar uma cortada uma hora dessas. Das vezes em que fui cara de pau, sabia o que poderia vir e, quando veio, aguentei firme. Afinal, o tamanho do saco da paciência varia conforme o dia. Por muito menos os homens jogam logo um "Porra" na cara da criatura e ninguém diz um "Ai". Mulheres não precisam ser santas. Tá na hora de assumir nossa carne e nosso sangue.
Isso não é apenas uma impressão minha. Saindo da esfera privada para a pública, infelizmente, o mercado de trabalho tem demonstrado que conhece muito bem essa realidade e vem trocando, em seus setores mais em crise, homens por mulheres. Girl Power? Sabe de nada, inocente...
Uma amiga estava lembrando, ontem, da ex-diretora do NY Times, que foi demitida após ter descoberto que o seu antecessor, do sexo masculino, ganhava muito mais, o que a fez pedir por paridade salarial. Ainda nos querem, nesses cargos, para Rainha da Inglaterra, aquela figura elegante que não apita nada, realmente.
As empresas fazem isso porque, mesmo pagando 30% menos às chefes mulheres, elas vão se sentir muito agradecidas e vão se portar como cães de guarda do patrão, morrendo de medo de perderem o emprego.
Eu já disse que odeio chefia feminina e é por causa disso. Elas não fazem o que é possível, não são objetivas como os homens, não defendem a equipe, não se seguram nas próprias pernas. O diretor da empresa dá uma ordem absurda e elas vão sacrificar o que for para mostrar serviço. Depois, arrependidas de terem agido como megeras com os subalternos, vêm puxar o saco. É patético. 
Isso acontece porque elas são incapazes de se posicionarem diante de uma ordem maluca, são incapazes de defenderem as suas equipes. Agem como mães que acham que podem tudo com os filhos e não querem tomar bronca do marido exigente. A diretoria sabe que botão apertar, nessas horas, e leva para a chantagem emocional. Dizer a uma mulher que ela "não consegue", "não se comprometeu", enfim, que ela "não serve para nada", é a reprodução das relações abusivas dos casamentos dos anos 50 no mundo do trabalho do século 21.
Duas cenas bem simbólicas disso aconteceram na empresa onde trabalho no espaço de uma semana. A hierarquia de um jornal é assim: repórteres - editores - editores coordenadores - secretários de redação - diretor de redação - diretor geral. Guarde isso, que é para vocês sentirem, a seguir, o drama.
1) Situação: fechamento da edição de domingo, sábado, uns 20 minutos antes das 14 h - esse é o horário limite para descer a edição. O pessoal do Comercial liga para o secretário de redação dizendo que vai entrar um anúncio. Ele se recusa a fazer a inserção, afinal, além de um tremendo desrespeito à Redação, isso vai atrapalhar todo o fluxo da edição. Quando a gente atrasa, o pessoal do Industrial logo começa a dar piti. É um inferno. A pessoa do Comercial ameaça dizendo: "Você vai se responsabilizar por isso?". Ele responde que não vai ceder. Fim de papo.
2) Situação: o RH da empresa faz uma série de descontos indevidos aos funcionários que batem ponto na Redação. Alguns descontos beiram R$ 1 mil, então as pessoas ficam revoltadas, até porque vai demorar até serem ressarcidas. Alguns repórteres se pronunciam pelo bate-papo interno, reclamando dos abusos. A diretora de redação não faz nenhum pronunciamento nem toma qualquer providência em prol dos funcionários.  No dia seguinte, acontece a assembleia dos jornalistas. Diretora e secretária de redação "desaparecem" da Redação, como não costumam fazer naquele horário do dia. Que "coincidência", né?. Dois dias antes, aliás, a diretora faz terrorismo com os editores coordenadores por conta de problemas nos pontos das equipes. Uma delas, aliás, repassa o terror, com todas as tintas, a uma repórter menos prestigiada, que saiu chocada com essa postura da figura. Em tempo: todo mundo dá a sua produção, certinha, sem prejuízo ao jornal - muito pelo contrário. Mas as chefes são incapazes de bater o pé, nesse ponto de vista, com o RH. Mais fácil aterrorizar - e desestimular - a equipe.  Agora leve um bolo ou comidinhas para a mesa central da Redação para ver se essas duas não aparecem, no ato, para ajudar a servir e botar fotinhas fofas da equipe no Facebook. As Rainhas da Inglaterra (sou mais a Rainha Má). Vergonha alheia define.
A que preço, né, meus caros? Não basta agir da melhor forma possível, se esforçar. Tem que sangrar, descer, se encolher, ceder até a última gota de sangue.
E elas se submetem porque não suportam desagradar. Mulher não é criada, ainda hoje, para se autoafirmar, mas para agradar. Meu viva às insurgentes! Se der, ainda nessa vida, vou escrever sobre vocês.

É muita filosofia e arte na catraca

Por problemas da própria cidade, não ando fazendo segredo que desejo muito parar de andar de ônibus. É demora, é perigo de roubo, é lotação, leva uma vida para chegar até o destino, enfim, um inferno. Fora isso, para quem pega no mínimo 12 vezes por semana, como eu, cansa, às vezes, a convivência. Há de todos os tipos e, a depender do seu nível de cansaço, a paciência fica curta com gente que berra, que empurra, que toma descaradamente o lugar dos idosos, etc.
Mas coisas engraçadas também acontecem nesse espaço. É inegável que uma das formas de saber o que se passa em Salvador é através do transporte público (mas, na boa, só vou voltar a curtir quando for metrô).
Outro dia, o cobrador batia boca com uma velhinha que, mesmo com a frente, destinada aos idosos, lotada, queria ficar lá, em pé. Ele forçou a barra e ela passou a catraca. Depois, como que prevendo a crítica de alguns passageiros, falou: "Na hora em que ela caísse, a população ia querer linchar o motorista, o cobrador. Em Salvador é assim". 
Mas o sujeito gostava mesmo era de pirraçar. Minutos depois, ele estava falando com o motorista que sogra é uma criatura que não nasceu pra ser boa. A mesma velhinha, ainda injuriada por ter sido contrariada, começou a rebater a crítica, dizendo que muitas sogras faziam pelos netos o que "os homens safados" não faziam por seus filhos. E ele continuou pirraçando a criatura até ela descer do coletivo.
Artistas
Há algumas relações menos belicosas, mais artísticas. Outro dia, enquanto ia para o médico, duas garotas, com as caras pintadas e um caixote cada uma, entraram pela porta do meio. Elas começaram a cantar. Pareciam os bichinhos daquele filme "Alvim e os Esquilos". Brincadeira. Elas eram afinadinhas. Cantaram, cantaram, a galera aplaudiu. Elas contaram que vieram de Córdoba, Argentina, e estão rodando a América Latina há dois anos. Por fim, agradeceram muito, sentindo-se sinceramente consagradas dentro daquele coletivo. Não deixaram o motorista de fora, foram super gratas a ele, que retribuiu: "Voltem sempre, minhas lindas!".
O povo é doido, definitivamente.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O drama de (não) pertencer

Arranjei problema pra mim. Mais precisamente há quatro horas atrás, quando, por acaso, passava na televisão "Divergente", filme inspirado no primeiro livro da trilogia da americana Veronica Roth - a miserável só tem 27 anos.
Já tinha ouvido falar do filme, mas deixei pra lá achando que se tratava de mais um "Jogos Vorazes", que eu vi e achei mó sem graça.
O que me pegou no filme foi o lado filosófico do seu argumento. Take a look:

Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição – e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível. Beatrice cresceu na Abnegação, mas o teste de aptidão por que passam todos os jovens aos 16 anos, numa grande cerimônia de iniciação que determina a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas, revela que ela é, na verdade, uma divergente, não respondendo às simulações conforme o previsto.
A jovem deve então decidir entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é.
E acaba fazendo uma escolha que surpreende a todos, inclusive a ela mesma, e que terá desdobramentos sobre sua vida, seu coração e até mesmo sobre a sociedade supostamente ideal em que vive.

Eu fiquei refletindo, claro, sobre qual facção seria a minha. Definitivamente, não seria vizinha de Beatrice na Audácia, apesar de detestar certo tipo de covardia. Sabe como é, sou que nem aquela música do Belchior, quando morre um medo, vou buscar outro lá no Piauí. (Meu medo se chama bom senso e, por ser tão benéfico muitas vezes, tá difícil de abandonar o lado B disso.)
A Abnegação ficaria em quarto. Eu até sou boa em dar, mas também quero receber. A Erudição viria em terceiro - na verdade, estou confusa porque a Abnegação também poderia estar nessa posição. Gosto de aprender, mas geralmente muita cultura tem a ver com uma certa perversidade e egoísmo. E, no fundo, não acredito que isso faça alguém melhor do que os demais. Adoraria a Amizade e tenho aptidão para isso, mas um quê de agressividade em mim talvez me fizesse inadequada. Não estaria disposta a me anular em prol do grupo. Teria que checar o "ponto de corte" dessa turma. Acabaria, acho, me ajustando melhor à Franqueza.
O drama inicial de Beatrice é o drama de todos nós ao entramos na vida adulta: deixar coisas que amamos para trás em prol do cumprimento da nossa jornada. Ser diferente do nosso grupo de origem cria uma distância insuperável mesmo, que o amor não é suficiente para derrubar. Aliás, ao contrário do que cantam por aí, o amor não é suficiente para um monte de coisas na vida, ele sozinho.
Depois, existe ainda o problema de pertencer a dois mundos e não ser reconhecido por nenhum deles direito. De fato, o problema dela é mais profundo: como divergente, ela poderia estar em qualquer facção; não é naturalmente pertencente a nenhuma. Beatrice apenas escolheu a Audácia por ser o oposto do que vivenciou na Abnegação, acredito. É um drama bem contemporâneo o dela, e nisso a autora foi muito feliz. Num mundo globalizado, como o atual, transitar sobre diversas identidades é confuso e angustiante, sem dúvida. As pessoas têm medo de você quando não é possível te encaixar numa definição.
E, há, ao final de tudo isso, a pergunta para a qual não há resposta 100% satisfatória: Por que o mundo é tão problemático assim? Acho que a autora, provavelmente, concordaria que o problema é a falta de respeito pela diferença, por aquilo que, por conta da nossa própria natureza, não conseguiremos nunca apreender e aceitar, de fato, e, portanto, conviver. Frequentemente achamos que a dignidade está no nosso jeito de viver, apenas.
Mas o mundo divergente cansa muito, viu? Não me agradou a ideia de rivalidade entre as facções, mas penso que adoraria viver num distrito de gente com a mesma índole que a minha, onde o ladrão não pudesse me encontrar (risos).

Enfim, vou ter que ler essa série. Já vi tudo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O sentimentalismo nosso de cada dia

Há umas duas semanas, o professor Albergaria faleceu. Tudo indica que foi suicídio. Uma amiga em comum ficou p. da vida com a versão do Correio da Bahia de que ele era depressivo. Amigos negam isso veementemente. Ele apenas quis dar fim a um sofrimento para o qual não via saída - embora a tivesse buscado bastante.
A morte é uma merda, mais para quem fica do que para quem vai, eu suspeito. Mas é perfeitamente compreensível que alguém que sofre e não vê sentido em levar uma vida indigna, dê fim ao seu sofrimento. Continuar só por continuar? É masoquismo. Mas, como disse uma amiga em comum, só gente muito inteligente entende esse tipo de decisão; o mundo, hipocritamente sentimental, não está preparado ainda.

Não se pode servir a Deus e a mamom

Não mesmo. Como dizem agora lá no Rio de Janeiro, dá ruim.
Hoje eu vi.
Por mais que, enfim, a vida tenha mesmo dessas coisas, não dá para ser íntimo de quem é íntimo de gente que você odeia (com razão).
É como ser bissexual. Nem os heteros, nem os homos vão dar credibilidade.
É como ser Leo Messi na seleção argentina.
É como ação de responsabilidade social feita por banco.
É como produto light: nem é bom de verdade, nem é "magrinho".

Pouco amor não é amor, como dizia o outro. Não, servir a dois opostos realmente não dá.

sábado, 18 de julho de 2015

PecaD´us

Latino, que já havia se convertido evangélico, está mais apegado à fé depois da escandalosa separação da esposa. 
É, estou começando a achar que Deus mora no pecado. Judas nunca amou tanto Jesus quanto após ter lhe entregado aos seus inimigos por algumas moedas.
Talvez seja uma ofensa a Deus fazer poucas transgressões. Vai ver, mesmo, que a natureza da alma é ser imoral.

Somos todas Angel?! Quem dera!...

Continuando na pegada no post anterior, eu volto a dizer que é muito ruim ter a visão das coisas do mundo. Não recomendo a ninguém. Tem que ter sangue de barata para suportar.
Ontem, recebi um jato de realidade no trabalho. Se pudesse, não atuava nunca mais nessa profissão, na iniciativa privada. Tomei pavor.
Eu tenho rusgas com a profissão desde a Facom, quando via coisas que não eram certas e ninguém dizia nada - aliás, ai de quem ousasse. É muito ego pra pouco taco. Tanto lá quanto no campo profissional, constato uma coisa: as mulheres são cobradas o dobro que os homens; eles não escutam metade do que dizem pra gente. E mais: vergonhosamente, mulheres em cargos de chefia são mais escrotas com outras mulheres. Deve ser porque até hoje nunca vi uma chefe segura de si. Todas morrem de medo de serem demitidas. E esperam que as subalternas tenham a mesma covardia.
Mas, ok, eu sou suspeita pra falar, vão dizer alguns. No entanto, eu não estou só. Hoje, conversando com uma amiga jornalista, uma das pessoas mais competentes e apaixonadas pela profissão que conheço, ela concordou comigo em gênero, número e grau. Aos 30 e tantos anos, tudo que ela quer, agora, é arranjar um marido rico. Ok, há brincadeira, humor, nessa afirmação dela, mas há muito cansaço. É a pessoa no limite, querendo que surja algo ou alguém que lhe resolva a vida. E não foi por falta de mérito, vale destacar.
Não tem igualdade não, gente. E nem tão cedo vai ter. Ando meio desesperada, desiludida, pois percebo que o mundo vai ser sempre essa porcaria, apenas com uma embalagem um pouco mais sofisticada, graças à Ciência e à Tecnologia.
Eu não sei, não. Meu problema é que fui criada para um mundo que não existe. Não tem mais emprego sério, que te dê estrutura, como na época de meu pai. Não existe mais compromisso entre homem e mulher, como na época de minha mãe. E, definitivamente, não existe ainda a igualdade entre os sexos que a nossa geração apostava que ia encontrar na vida adulta. E nem eu sei brincar de não humana, de que não é comigo, de que eu não tenho sentimentos. Não tenho esse "gene".
Enquanto as mulheres forem tratadas assim, nossa melhor saída vai ser a prostituição, formal ou informal. Mesmo em profissões com um mercado melhor, como a medicina, é difícil ser mulher (poucas estão na cirurgia, na neurologia, enfim, nas especialidades mais prestigiadas). Se negra, então...
Um amigo me contou, arrasado, o real motivo do fim do namoro dele: a ex preferiu o conforto que um cara, com idade de ser pai dela, poderia lhe dar. Ok, ela foi burra porque trocou um cara estruturado - embora com renda inferior ao coroa - e que era louco por ela, que a valorizava como pessoa, por alguns bens materiais. Mas, por outro lado, nem todo mundo tem fé suficiente para resistir por anos a fio.
Ela é qualificada, tem duas graduações, mas nada prestigiadas. E é uma mulher bonita, porém mestiça, dos traços caucasianos e pele escura. Em qualquer seleção, entre ela e uma branca bonita (e até com menos preparação), adivinha quem ganharia a vaga?
Ao mesmo tempo, ela não é estudiosa para conseguir, por exemplo, passar em um concurso público.
Meu amigo faria tudo pela ex, mas também não escolheu uma profissão de prestígio, que paga salários na casa dos cinco dígitos. Eles demorariam anos para chegar onde ela queria.
Dizem que, para ser mulher, você tem que se vestir bem, ter um cabelo arrumado, ser top, princesa. Só que isso custa caro, amigos. Essa persuasão somada a séculos de golpes na autoestima pode levar muitas mulheres ao caminho errado (pra entender um pouco mais o que eu digo, favor ler isso: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-manifesto-por-uma-vida-afetiva-digna/). Eu ainda acho que ela foi burra, mas, de mulher para mulher, entendo o cansaço dela e o fato dela ter se vendido (e "admiro" o estômago dela, que até então não curtia coroa e tá encarando um cabra de 65 anos).
E vamos combinar: quem tá melhor, a gente ou Carla Perez? Estudamos, desenvolvemos o cérebro, pagamos cada coisa que consumimos e não saímos do beabá; sofremos pra ganhar o dinheiro dos alfinetes. Carla Perez usou o corpo até não poder mais e, além de uma bela conta bancária e apartamento, ainda descolou um marido que a valoriza e ainda leva pra passear em Londres.
Enfim, do jeito que a coisa ainda está, Angel - a lolita da novela das 23h - é que é sortuda! Minha sobrinha, Luluzinha, vai ganhar uma passagem é pra Mato Grosso, aos 15 anos, pra arrumar algum namoradinho filho de fazendeiro. Ser independente é pra mulher burra e masoquista - e tenho dito. Ô, se arrependimento matasse!... Queria voltar no tempo 15 anos. Viraria rata de academia, investiria é no corpo.

Não acorda, não, Adormecida Bela!

Se você não nasceu "Rainha Má", jogue suas mãos para os céus. E nem pense no beijo do príncipe. Evite! É cilada acordar, Bino.
Todo mundo conhece alguém que não acorda pra vida, que acha que tudo é cor de rosa. Deve ser massa ser assim. Agora só não pode acordar. Tem que orar para permanecer assim até o final da vida.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Brancahood

Eu quero ser branca. Vou parar de tomar sol. Vou clarear as madeixas. Farei, ainda, uma plástica para afinar o nariz.
E por um único motivo: pra ter o direito de ser escrota e apenas ser classificada, quando muito, como tolinha. Serei uma inofensiva, porque eu não acreditarei no meu próprio preconceito, no fundo, apesar de cuspi-lo sem cerimônia. Eu não saberei direito o que estou dizendo, entende? Falarei tudo da boca pra fora. Serei muito branca para ser má.
Dois pesos, duas medidas. Fato.
E isso me lembra um discurso ótimo de uma negra americana. Segue.


Em 1851, Sojourner Truth, ex-escrava que tornou-se oradora, fez seu famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio. Dentre alguns questionamentos, ela diz: “Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem - quando tinha o que comer - e também agüentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?”

O filme repetido

A humanidade nunca vai mudar. A não ser que algum cientista consiga eliminar do DNA humano a ânsia por privilégios. Mudam-se as eras, mudam-se os motivos, mas é isso que continua a promover a guerra. Ver o outro como igual, além de exigir o esforço da empatia, traz a frustração da perda do privilégio de ser "melhor". O ego humano, quase nunca equilibrado, precisa disso pra se manter de pé. Igualdade, penso, é tarefa para a ciência.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Qual é o problema de casar, gente?

Tá certo que eu ando casamenteira, esperando que o guindaste de Santo Antônio me guie rumo ao altar, mas qual é o problema das pessoas em casar, gente? Bora assinar esse papel, PORRA.

No dia em que os gays americanos ganharam o direito de se casar, acho que acabei colaborando para um "acidente diplomático" entre um casal, no Facebook.
Atenção, que vou contar o babado: dois colegas meus namoram e eles têm na faixa dos 25, 26 anos. Ela aproveitou a deixa do "Independence Day" para "brincar" com ele dizendo que agora poderiam se casar. Ele respondeu, no mesmo tom de brincadeira, que se fosse para conhecer os EUA, ele até toparia. Eu me intrometi dizendo que adorei a ideia e dei um tema: casamento em Las Vegas, com direito a sósia gordo de Elvis. Ela respondeu pra mim que iria anotar a sugestão entre as "ideias para o casamento que jamais teremos". Depois ela viu que ficou seco e editou, completando com algo mais espirituoso.
Você, que não conhece o casal, poderia me dizer, quando lhe contar que eles só têm um ano de namoro, que são novos e ainda é cedo. Vou lhe responder que aos 25 anos pensava assim, mas hoje acho isso uma besteira. A gente leva o futuro muito a ferro e fogo quando é novinho (ou faz totalmente o oposto, faltando equilíbrio nas escolhas de qualquer jeito).
Decisão séria é ter filho. Ou, pra maioria, fazer mudanças bruscas na carreira. O resto, como diz minha pragmática mamys, se der errado, dois dias de choro resolvem.
Esse tipo de racionalidade dele quebra o encanto. As pessoas levam o casamento muito a sério, quando o máximo de efeito colateral que já vi causando é o excesso de plásticas - que o digam Fábio Jr. e Gretchen. 
Mas relacionamentos, com poucas exceções, são feitos para acabar. É amargo, quando for a hora vai doer pra caramba, por algum tempo você vai se arrepender de ter entrado nessa, vai se prometer nunca mais amar ninguém, mas nada é mais recorrente que isso na vida. Tudo o que se leva de um relacionamento, via de regra, é a experiência, a mágica daquele (curto) período em que se esteve apaixonado. Como diz a assessora de Deus para assuntos aleatórios - seccional Bahia, Ingrid Campos, o amor é uma fantasia que projetamos em outra pessoa.Quem você ama não existe. Por isso gente muito racional não se apaixona. Há, por mais que a gente desdenhe, sabedoria nos arrombos de paixão das celebridades. Elas sabem que em 99% dos casos é o melhor que vão poder extrair do contato com o outro. Por isso elas casam logo, para poder deixar correr solta essa fantasia (por isso fazem o pré-nupcial, justamente por, no fundo, saberem que é algo com prazo de validade). 
Voltando ao meu amigo, ele, na tentativa de ser sensato, tá jogando água na fogueira. Se continuar nessa, apesar das suas inúmeras qualidades, corre o risco de apagá-la. Todo mundo precisa se sentir único, prestigiado, especial. Vamos fingir que estaremos juntos pelas próximas cinco encarnações. Se levada com leveza e boa fé, essa "mentira sincera" não vai custar nada; até que é do bem. E, no caso dele, que já divide apartamento com outras pessoas, qual é o problema? A não ser que ele não goste o suficiente dela; aí é outra história. 

Pra resumir essa conversa aqui, minha gente, apenas digo: vamos parar de frescura.

"Exageradooo!... Eu sou mesmo exageradoooo"

"... Adoro um pavor inventaduuuuuu..."

Adoro nada. Pior que nem é inventado assim. Como diz um fofoqueiro da tv, "eu aumento mas não invento".
E digo mais: meu coração é guerreiro. O que passei no último mês só Jesus sabe.
Comecei a ouvir histórias cabulosas de violência no México e cheguei até a cogitar trocar de destino, o que só não fiz pra manter uma certa dignidade diante dos amigos. Na mesma semana do embarque sonhei que minha mãe morria enquanto estava fora. Que uma pessoa do trabalho, de quem não gosto, armava pra me demitir. E tive absoluta certeza que morreria nessa viagem quando um ex-colega de trabalho aposentado, no dia de viajar, disse que tinha sonhado comigo. Pra que dizer isso, gente? Toda morte trágica tem que ter um diabo de um sonho premonitório. Bem, pressionada pela situação, desabafei. O coitado terminou a conversa me consolando e prometendo que ia me visitar no jornal assim que voltasse de viagem. Paguei mico, mas foi mais forte que eu. O sofrimento só acabou quando voltei e verifiquei que minha mãe também estava viva da Silva. Levá-la na rodoviária, horas antes de eu mesma embarcar para a Cidade do México, quase me matou. Parecia que a estava vendo pela última vez. Ufa, passou!

Mas fiquei arrasada com uma coisa: constatar que até o México é mais sossegado que o Brasil. Estamos no c* da cobra, minha gente!

Eu ando com paranoia de segurança. Não é pra menos: fui assaltada, meu pai quase morreu por agora em um assalto, meus colegas estão sendo assaltados pelo menos uma vez por mês. Fico em pânico diante da mínima possibilidade. Outro dia, me senti traída quando um casal, no qual ponguei para descer do Canela para a Graça em segurança, parou no meio do caminho. Parei também e olhei pra cara deles. Três segundos depois, quando me toquei que estava pagando de louca, disfarcei e segui em frente.

O difícil de se livrar da paranoia é que ela, apesar de ser um exagero, é uma possibilidade, tem a sua razão de existir. Isso já causa imenso estresse. E, no que se refere à violência urbana, são tantas as notícias de atos bizarros e cruéis, que você começa a ter certeza de que a humanidade anda bastante desumana e que tudo pode acontecer, inclusive daqui a pouco e com você (bate na madeira!).

Enfim, gente, que as feministas não me ouçam, mas acho que estou precisando casar.
Eu possuía uma lista de três familiares/amigas que tinha a convicção de que precisavam casar bem - duas já foram e com sucesso -, mas além de tê-la ampliado com outras amigas, agora eu quero me incluir nela.
Não tá dando certo pirar sozinha. Mas será que pirar a dois presta? Bom, pelo menos se entrar ladrão em casa à noite, não passarei por esse susto all by myself.



quinta-feira, 25 de junho de 2015

A bolha

Ontem rolou, na internet, um bafáfá por conta da declaração da mãe do protagonista de "I love Paraisópolis" de que ela estava adorando ser sogra de Marquezine. Eu penso que onde há fumaça, há fogo, mas sei também que mãe é um bicho muito sem noção, que atira pra depois mirar. Half, half, concluí. Hoje a história já foi desmentida pelo pai do rapaz.
Nosso primeiro reflexo é achar que artista não tem mais o que fazer do que ficar mentindo pra todo mundo, mas, pensando bem, no lugar deles, também sairia com um "Somos apenas bons amigos". Porque, vamos combinar, a coisa é muito delicada para a gente ficar arrastando o sari na medina desse jeito. Todo mundo adora dar pitaco na vida dos outros, mas, quando se trata da vida íntima, parece que isso arranha a nossa carne mais profundamente, é muito mais irritante a intromissão. Sou da opinião de que relações íntimas deveriam ser vividas dentro de uma bolha ou pelo menos usando aquela capa que dá invisibilidade que Scheila, de "Caverna do Dragão", possuía.
As pessoas não fazem isso necessariamente por mal. É um instinto (mas você sempre pode escolher entre ser grosseiro ou não). Reparamos, especulamos sobre a vida alheia inclusive para nos entender. A gente se emociona ou se enerva em causa própria, no final das contas. Até porque esses repertórios são quase tão batidos quando a humanidade.
Mas que essa chacrinha tem poder de produzir caos, ah, isso tem. Sem resolver o problema, vale destacar. Porque ninguém sabe o que se passa dentro dos outros, simplesmente. As pessoas deveriam assistir a esse vídeo da Jout Jout a respeito dessa verdade universal (https://www.youtube.com/watch?v=dVi92F1SIto). Não ia resolver muita coisa, mas pelo menos garantiria, quem sabe?, alguma ressaca moral dos "universitários", o que já seria um indicativo de simpatia, que por sua vez, segundo dizem, é quase amor.
E tenho a impressão que quanto mais se mexe, mais porcaria se produz. Tiro pelos meus ex-empregos. Eu só trabalhei, até agora, em empresa-bomba, pré-falida. Em determinado momento, as pessoas começam a se desesperar com o futuro e só se fala nisso. Nesse meio tempo, elas começam a criar paranoias. Nada disso ajuda, mas é quase impossível parar. Isso piora o ambiente, faz o peru ir pro abate antes da hora, mas as pessoas ainda assim precisam prever, desabafar. É algo que acaba ficando maior que o bom senso delas.
Sim, de fato é melhor mesmo insistir na lorota do "não é nada disso".
E, por falar em paranoia, fica a dica de leitura do meu próximo post.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quem tem medo da mulher solteira?

Eu acho que um monte de gente tem, infelizmente.
Fui pro México sozinha, quer dizer, de excursão. Fiquei apaixonada pelo país, pelo povo, pela cultura. São amáveis, me lembraram os goianos (aquelas pestes são falsas, mas são um doce no trato, tenho que admitir, hehe). E são caprichosos, tudo tem uma cor, um desenho, um detalhe. Contadores de histórias natos, sempre há uma lenda, uma narrativa na ponta da língua. O México se ama e bota a cara no sol, se expõe. Enfim, fiquei apaixonada. Quero voltar. Ao que tudo indica, a parte que me cabe no mundo é aquela que fala espanhol. Há uma vibração nesses países que me conquista de cara.
Em 80% da viagem, era única a não ter a língua espanhola como materna. Me esforcei à beça para usar o pouco espanhol que aprendi há sete anos e acho que, no geral, obtive sucesso apesar de ter sido cansativo. Fui cara de pau, fui me jogando, tentando me comunicar, tirando dúvidas com os colegas. Fiquei com uma invejinha da integração que o resto da América Latina tem e a gente não.
Mas o maior deslocamento que experimentei foi por ser mulher, ainda jovem, e sozinha por aí.
O maior deles foi com o único casal jovem com quem cruzei na excursão, Gabriel e Mariana. De cara - peço desculpas à garota, mas é o que estava visível -, percebi que o quadro ali era o dono e o cachorro, respectivamente. A viagem era para ele. E a criatura tinha cara de ser bem católico, pela empolgação com as igrejas e com a Virgem de Guadalupe.
Nos dois dias que passei com eles, o cara me evitou. No segundo dia, quando havia mais gente, ele foi menos pior, mas no primeiro, quando só estávamos nós três, foi bizarro. Se Mariana fosse ciumenta, possessiva, até que compreenderia um pouco, mas nem isso. Percebi que simplesmente ele achava ruim me dar qualquer atenção estando com a namorada dele do lado (e a menina nem aí, conversou comigo de boa, mas não era de tomar a iniciativa). Era algo tenso pra ele. Só que ficou feio porque ele praticamente fechou a cara para mim a troco de nada.
Antes deles, estive com dois casais de idosos da Venezuela. Adorei todos, ficaram meus amigos e a viagem foi bacana em grande parte por causa deles. Fiquei mais chegada ao casal que é de origem árabe. Mas, num primeiro instante, percebi que Thereza ficou bolada pelo marido ter sentado do meu lado e começado a conversar. Entretanto, ela foi sensata e logo percebeu que não era a minha intenção dar em cima do marido dela, de jeito algum.
É isso que mais me intriga: sou o tipo de pessoa que tem discrição, nesse sentido, com todo mundo. Eu tento não dar nenhum sinal que possa indicar que estou dando em cima, num nível até que me prejudica em algumas circunstâncias pontuais, quando haveria espaço para isso. Você não vai me ver de pernas de fora no ambiente de trabalho nem em eventos que eu sei que terão presença masculina. Não faço o estilo periguete, muito pelo contrário. Lá fora posso até imaginar que se trata do estigma da brasileira. Quando estive na França, um colega do curso, turco, vivia jogando umas cantadas. Uma vez, passeando na rua, um maluco apontou pra mim e gritou, jogando charme ou algo que ele imaginava ser isso, "Brasileiraaa!". Em Portugal, um cara de 40 e tantos anos ficou forçando uma conversa comigo, na saída do avião, quando me viu conversando com um homem brasileiro. Certeza que na cabeça deles a inferência era "se brasileira, então puta". Isso sem decote, sem pernas de fora de minha parte e nem sorrisinhos, imagine.
Mas e dentro do meu próprio país, entre pessoas, inclusive, que veem o meu comportamento todo dia? De onde as pessoas tiram que uma mulher solteira é uma ameaça? Não vejo nenhum homem tirando a sua mulher de perto de homens solteiros. Homem solteiro não é ameaça, a não ser que seja o Rodrigo Lombardi.
Um colega meu não consegue conversar comigo sem citar a namorada. E é um negócio artificial, que você percebe que é indireta, do tipo "Olha, eu tenho namorada, viu?".
Se acontecer "o pior" safada é a mulher, o homem foi abduzido, né? Que ridículo! Olha, só não fico totalmente chateada porque além de saber do meu comportamento, penso que não se chuta cachorro morto, portanto algum atrativo eu devo ter.
Uma amiga defende que ser mulher é bom, quando eu reclamo dessas coisas. É bom, mas é altamente tenso. Você é muito julgada e ameaçada o tempo todo.
Segundo mal estar da viagem: ser uma mulher estrangeira andando sozinha na rua. Alvo duplamente vulnerável.
Da hora em que você nasce até perder a juventude, a mulher tem que se preocupar em não ser atacada. Outro dia, li uma frase e fiquei chocada ao perceber que é a mais pura verdade. Dizia assim: "Só uma mulher sabe o alívio que é estar numa rua deserta, perceber alguém vindo atrás e, de repente, constatar que é outra mulher e não um homem".
Ainda temos chão pela frente, viu, turma?


segunda-feira, 1 de junho de 2015

O corpo

Quem tem um não precisa ir a Guantánamo. Sério.
É muita interdição na vida do ser humano por causa dele.
Você não "pode" usar certas roupas para não dar ideia errada aos outros.
Você não pode ser carinhosa ou assídua de uma companhia do seu mesmo sexo porque vão dizer que você é homossexual.
Se o mesmo acontece com alguém do sexo oposto, tá rolando algo.
Mas se você não é muito de toque, é frio.
O corpo ainda cumpre uma pena que não é dele. Na verdade, é da mente.
O crime perfeito.

*****
Cada vez mais confirmo que a mente humana não ultrapassa o nível de crianças da quinta série, não importando quão velho/a a figura seja.
Só isso explica não evoluirmos em coisas tão simples.
Um amigo recebeu uma confissão de uma amiga de que ela gosta dele. Ele não quis admitir, mas pesquei que ele está fugindo dela. Disse a ele que pode estar magoando alguém à toa (mas sei que não é essa a intenção). Ela provavelmente está tentando fingir que nada aconteceu e ser a mesma de antes, para não perder a amizade, e ele está cauteloso à beça com ela achando que qualquer atenção pode alimentar os sentimentos da tal figura.
Não tenho ampla experiência nisso, mas já me aconteceu - uma vez o papo foi até bem direto, me pegando de surpresa. Eu fiquei constrangida - normal porque além da situação, entra em jogo a minha timidez -, mas não demorei a ser a mesma com o cara. Era meu amigo e eu não levei isso como ofensa; ficamos de boa logo. Aliás, como pode ser ofensivo alguém encher o seu ego? Isso só não aconteceu com quem fechou a porta na minha cara. Afinal, para os que provaram não serem amigos, a lei - como dizia o outro. Para os que são, falsidade seria eu me afastar. Na boa, moças, nada a ver ficar chocada porque o seu amigo - de verdade, não do tipo que finge com segundas intenções - confessou que sente vontade de transar com você. Vai fazer com o inimigo? Você pode até não gostar da ideia, mas ela está longe de ser indigna.
Eu penso o seguinte: as pessoas têm o direito de propor, você de negar ou aceitar. Dá um certo constrangimento mesmo quando as vontades não se casam, mas cada um é responsável por si, certo?
Ficar nessa cautela pode até ter uma boa intenção por trás, mas, na prática, só fere a dignidade do outro, que sente que a pessoa tomou pânico dela. E quem tem carinho a ponto de se declarar não merece isso, né mesmo? Eu até entendo, mas, na boa, pense bem, é chutar cachorro morto. A pessoa já tá ali, rejeitada pelo "não" e ainda vem essa?! Dose.
Enfim, gente, é todo mundo adulto. Ou deveria ser, sei lá.

domingo, 31 de maio de 2015

Tudo D´Eles, nada nOSSO

Quando frequento o Itaigara, onde minha irmã mora, fico muito constrangida com as relações patrões e funcionárias domésticas (sim, são elas, negras, da periferia, 99% das vezes). 
Eu entendo que quem contrata, no Brasil, sofre com a má formação da mão de obra. Às vezes, a galera é sem noção mesmo. Mas esse não é fator que prepondera nessa relação laboral.
Frequentemente, percebo que os ricos cometem um erro fatal: achar que quem precisa de emprego e dinheiro por causa disso não tem direito a ser humano (leia-se, alguém com dignidade e que também deseja).
Acho que o mundo só vai para frente, mesmo, quando "gente de bem" se der conta que todos querem a mesma coisa, independentemente de sua origem social.
Essa ignorância sobre o poder do desejo, brilhantemente abordada por Contardo Calligaris (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2015/05/1631415-desejo-e-necessidade.shtml), nos faz cometer equívocos, por exemplo, ao pensar sobre a violência no nosso país.
Invisibilidade
Os coxinhas e a militância erram pelo mesmo motivo: ignorar que essa gente é igual e não bicho ou personagem de pesquisa de Ciências Sociais.
Não é à toa que a igreja evangélica, e sua promessa de prosperidade, avançam tanto. Ela trabalha em cima daquilo que a sociedade prefere ignorar: pobre também sonha com bens materiais e em ter uma vida menos sacrificada.
Aos coxinhas:
Nosso direito de escolher é afetado pelas circunstâncias das quais dispomos. Não venha dizer que "é só querer e amanhã assim será". O buraco é bem mais embaixo, a pessoa tem que ter muita vontade e persistência. Subir na vida, no Brasil, é para os excepcionais; não há muitas oportunidades.
À militância:
Mas não se enfia a faca em alguém para roubá-lo por necessidade e falta de formação familiar. Outras coisas preponderam aí. Primeiro, a pessoa tem que ter uma agressividade dentro dela. Segundo, nesses casos mais impera o desejo de se dar bem que a necessidade. Porque dá para matar a necessidade (a mais básica, primária) de outros modos não-violentos. Já o desejo é mais complicado...

Eu acho que, de fato, a invisibilidade dá mais deixa para os amigos do "baixo clero" entrarem no crime do que a necessidade. Aliás, a invisibilidade provocada tanto pela pobreza quanto pela riqueza liberam as pessoas para a transgressão. Se eu sou sempre visto pela minha condição financeira, que compromisso preciso ter com as regras, com a sociedade? Ninguém chama Thor Batista de assassino, lembrando o crime e o descaso que cometeu no trânsito; ele será sempre o rapaz loiro e rico, o filho de Eike Batista. É o que define ele socialmente. E o crime tem um grande "quê" de vaidade, não percamos isso de vista. Aliás, na nossa "amada" classe média tem gente que só não libera esse lado negro da força por mera pressão social. Eu conheço alguns elementos (do sexo feminino também) que só não deram para marginais porque o entorno está de olho, pronto para julgar e discriminar. Mas se não fosse isso, hum...

Eu, particularmente, me choco é com o fato de gente tão jovem não se dar nem a chance de tentar, antes de, frustrado, cair no crime. Sim, porque o que vemos é uma geração sem persistência, sem paciência para ao menos tentar antes de sucumbir. Meninos de dez anos cheirando cola. Por mais que tenha sofrido em casa, é demasiado cedo para desistir, convenhamos. Fico pensando que se meu pai e outras pessoas que tiveram uma infância de violência e fome, como ele, vivessem a infância hoje, eu não teria existido. Seriam meninos como esses que enfiam facas para ter um celular ou trocá-lo por cola. Mas é que naquela época não havia internet, televisão em massa, nos fazendo acreditar que o quintal de todo mundo é mais verde.

E acho, também, que do rico ao miserável, carregamos, como povo, o ranço do oportunismo.  Um exemplo pequeno do que estou dizendo: semana passada fui cobrir o Dia sem Impostos. Fila quilométrica de gente em frente a um posto de gasolina. Sabe pra quê? Pra comprar 17 litros a metade do preço. Gente na fila desde as 3h. Faz sentido esse sacrifício? Claro que não. É o desejo de levar vantagem. Isso permeia a nossa vida privada e pública. Quando vamos encarar esse fato de frente?

A smile like yours

Eu vou viver e nunca vou entender certas nuances do comportamento masculino.
Por exemplo: a obsessão que eles têm pelo nosso sorriso.
Long time ago, percebia que um colega me olhava constantemente. Confesso que eu, do alto do meu "autismo", achava ele ok e só. Aquela minha característica de os outros só existirem quando crio laços afetivos. Hoje acho ele bonitão, tenho outro olhar, embora sejamos só amigos.
Naquela época, como não estava fazendo nada da vida mesmo, resolvi me distrair dando bola pro fulano. Qual a primeira coisa que ele me disse? Adivinha! "Por que você é tão séria?".
O que é ser séria? É não sorrir fácil? Eu não tenho riso frouxo, é verdade, mas sou uma pessoa geralmente pacata. Digo, não acho que tenho uma expressão que bota os outros para correr.
Mas os homens têm uma fixação nisso. Repare na cara deles quando fazem uma mulher sorrir. Isso sim me faz ter vontade de dar risada.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Esse tal de bonde da vida

Outro dia falava com uma amiga sobre um amigo em comum.
Ok, isso não é nada nobre, mas, minha gente, vamos aceitar o fato de que a vida dos outros e reclamar é o que rende.
Bem, ela comentava que o fulano em questão estava demorando muito para tomar certas decisões.
Uma outra amiga diz que tudo pode acontecer a qualquer hora. E eu concordo com ela.
Mas eu sou da turma que acha que o seguro morreu de velho. Leia-se, uma ansiosa crônica.
Tenho uma tendência realista que beira ao pessimismo, eu sei.
E a minha experiência, aos 35 anos, diz que se para Deus nada é impossível, para o corpo as possibilidades vão diminuindo com o passar dos anos.
Contra algumas coisas não há muito como lutar. Meu prazo de validade, para ser mãe, por exemplo, vai até 2017. Não adianta, não me vejo com 60 anos levando gente de quinze ao show de rock.
Eu não quero me atropelar, não quero mais correr, mas sei perfeitamente que não é tempo de parar. Sabe aquele período que passei "giboiando" entre os 24 e os 28 anos, inerte, praticamente, porque perdida da Silva? Não rola mais não, gatos e gatas. "Hoje o tempo voa, escorre pelas mãos". Sinto que haverá uma diferença grande entre quem eu sou agora e daqui a dez anos em termos de possibilidades biológicas e sociais.
2
Eu reparo que somos uma geração que espera demais da vida. Esperamos a onda perfeita, como se fôssemos eternos. Corremos o sério risco de envelhecermos amargurados. O ser humano tem necessidade de realizar. O que estamos realizando, afinal? Eu não estou satisfeita, mas se não estivesse em movimento, já teria me enforcado. Juro. Não dá mais para bancar esse tipo de ócio. Mexendo aqui e acolá, me ocupando até com o que não me agrada muito, vou movimentando minha energia, pelo menos, se não tenho direção, sinto alguma ação.
Botem fé, amigos, navegar é, sim, preciso. Quem não faz isso corre o sério risco de ficar encalhado na praia.

sábado, 2 de maio de 2015

The Way We Were

Ou, em português, "O nosso amor de ontem".
É um filme da década de 70, dirigido por Sidney Pollack e estrelado por Robert Redford (!!!) e Babra Streisand.
Descobri esse filme em 2006, se não me engano, e fiquei melancólica ao final dele.
A história é assim, segundo eu lembro: Babra é uma judia pobre, que com muito esforço, ralando o abdômen no balcão, consegue estudar e aos poucos se desenvolver na vida. Desde a faculdade, ela cobiça Robert.
Ele é aquele cara lindo e bem nascido, que tem tudo fácil na vida. É boa gente, nada afetado.
Ela acha que ele nunca vai sequer olhar pra ela. Mas um dia até que rola e eles começam a se relacionar.
Só que ela é muito à flor da pele e ele, por azar, personifica tudo aquilo que ela detesta no mundo - ela é militante e ele frequenta "azelite" -; enfim, os mundos não se encaixam. Mas o problema é que eles se amam pra caramba. Eles tentam, sofrem, o amor cresce, tentam e, finalmente, se cansam de ficar tentando, tentando e tentando. Ainda se amando, resolvem se separar. A essa altura, ela está grávida dele. Eles combinam de ficarem juntos até o bebê nascer.

Moral da história: não se deixa uma mulher grávida.

Submoral da história: militante é um bicho chato da peste. Nem com um Redford na mão a mulé sossega, gente!

domingo, 26 de abril de 2015

Nós, os viajantes solitários

Einsten, assim como eu, tinha ascendente em câncer e lua em sagitário. Era ariano, raça que eu adoro! Só não era negão, para ficar 100% perfeito. Acho que já disse aqui que a fórmula infalível pra ganhar meu coração é ser negão e de signo de fogo, né? :P
Essa frase abaixo é simplesmente a cara de uma lua sagitariana. O centauro ama liberdade, nasceu para ganhar mundo, ver e aprender.

 “Meu apaixonado senso de responsabilidade social sempre contrastou com minha pronunciada ausência de necessidade de contato direto com outros humanos. Eu sou realmente um ‘viajante solitário’ e nunca pertenci a meu país, meu lar, meus amigos ou mesmo à minha família com todo meu coração. Mesmo com todos estes laços, nunca perdi a necessidade de estar sozinho”. (The World as I See: An Essay by Albert Einstein)