Ontem Maíra Azevedo, vulgo Tia Má, estreou o espetáculo "Tia Má com a língua solta". Um amigo meu assistiu e disse que o texto é massa, que gostou muito. Ela praticamente faz o discurso da militância e fala das vezes em que foi rejeitada, desacreditada e desestimulada.
Acho que a fama deve estar fazendo bem para a autoestima de Maíra. Sim, ela não é esse poço de segurança. Aliás, vaidade não significa autoestima e muita gente famosa está longe de ser um poço disso. Fato. Eu trabalhei com ela por quatro anos e posso dizer algumas coisas a respeito.
O jornalismo impresso gosta de gente com aparência de intelectual, e Maíra não é intelectual, embora seja uma mulher inteligente, com experiência de vida e que tem o que dizer. Ela nunca foi valorizada (mas também não precisa forçar a barra, agora, dizendo que é uma jornalista nacionalmente premiada, porque é uma meia verdade. Tira o sapatinho e põe o pé no chão, né, Bê?...). Enfim, Maíra era a pessoa com as qualidades erradas para o meio, embora seja competente como repórter, mas, de fato, o brilho dela está no carisma, no humor, na facilidade de se comunicar com o povão sem ser popularesca, sem nivelar por baixo, levando reflexão e informação. Acho que as mulheres, especialmente, tinham carência de alguém assim.
Gosto muito da definição de Wagner Moura sobre a fama, como aquilo que você sempre foi e, de repente, todo mundo descobre que você é. Muita gente extraordinária passa a vida sem que alguém tenha olhos para ela, até que vai lá, faz e prova que tem valor. Mônica Martelli, aliás, fala muito bem disso, sobre como foi muitas vezes rejeitada antes de fazer sucesso. É por aí: o mundo tem olhos para as coisas já consagradas, já batidas, conhecidas. Por isso alguns tem uma estrada mais curta enquanto outros precisam percorrer um longo caminho para se validar. Não dá para esperar pela sensibilidade dos outros, a motivação tem que ser interna, por mais que o caminho solitário doa às vezes.
As consequências psicossociais do machismo
O jornalismo impresso gosta de gente com aparência de intelectual, e Maíra não é intelectual, embora seja uma mulher inteligente, com experiência de vida e que tem o que dizer. Ela nunca foi valorizada (mas também não precisa forçar a barra, agora, dizendo que é uma jornalista nacionalmente premiada, porque é uma meia verdade. Tira o sapatinho e põe o pé no chão, né, Bê?...). Enfim, Maíra era a pessoa com as qualidades erradas para o meio, embora seja competente como repórter, mas, de fato, o brilho dela está no carisma, no humor, na facilidade de se comunicar com o povão sem ser popularesca, sem nivelar por baixo, levando reflexão e informação. Acho que as mulheres, especialmente, tinham carência de alguém assim.
Gosto muito da definição de Wagner Moura sobre a fama, como aquilo que você sempre foi e, de repente, todo mundo descobre que você é. Muita gente extraordinária passa a vida sem que alguém tenha olhos para ela, até que vai lá, faz e prova que tem valor. Mônica Martelli, aliás, fala muito bem disso, sobre como foi muitas vezes rejeitada antes de fazer sucesso. É por aí: o mundo tem olhos para as coisas já consagradas, já batidas, conhecidas. Por isso alguns tem uma estrada mais curta enquanto outros precisam percorrer um longo caminho para se validar. Não dá para esperar pela sensibilidade dos outros, a motivação tem que ser interna, por mais que o caminho solitário doa às vezes.
As consequências psicossociais do machismo
Maíra sempre foi sensível às rejeições, que ela conta ter sofrido desde a infância. Quem nunca? Ser mulher é ser desacreditada, desestimulada o tempo todo, desde pequena, o que, se você não tomar cuidado, internaliza. Eu sei bem que minha sorte na vida foi ser antissocial, teimar mais em fazer as coisas do meu jeito do que em agradar os outros. Do contrário, estaria já a sete palmos, não suportaria tudo que já passei. Ninguém ganha esse jogo sendo mulher. Lógico, há gradações. Se você preenche os requisitos de boa fêmea, vai ser melhor tratada porque serve como mulher troféu. Mas nunca vai ter a sua humanidade reconhecida, de qualquer forma. Se você não preenche esses requisitos... Oh, meu Pai!... Deus te defenda, porque a lei dos homens, nesse caso realmente me referindo ao sexo masculino, vai te pegar de jeito e as melhores capitães do mato virão do seu próprio sexo. E eu não sou mulher?, você vai se perguntar a vida inteira, tendo como resposta apenas um eco.
Ser mulher é ser condicionada, desde bebê, a se pensar em relação ao outro, ao que ele acha de você, servindo aos outros antes de a si mesma, mas para passar a vida inteira tentando bastante e nunca sendo boa o suficiente. É inglório, é estressante, é humilhante, é desumano. Só quem passa e tem consciência (porque um monte delas prefere abafar isso, opta por se mutilar enquanto indivíduo para agradar) sabe. Os gays não saberão. Homens hétero... Para, vai!... Assim como eu nunca saberei o que é ser uma travesti, uma mulher trans. É um aprendizado de carne, de sangue e de nervos.
A sociedade precisa nos valorizar, até porque atuamos numa esfera altamente desgastante, essencial e pouco valorizada: a do cuidado. E ainda queremos ser reconhecidas como capazes de atuar em qualquer outra esfera. Queremos o direito à maternidade, que os homens sejam levados a assumir as responsabilidades deles e, no caso de mães sozinhas, que haja estrutura para elas e seus bebês. A falta de creches é umas das ações mais misóginas que um governo pode ter. Ah, sim: queremos ter o direito de não termos filhos e sermos tratadas com respeito.
Acho a fama de Maíra providencial, tanto numa microvisão, provando pra gente, do entorno dela, que tudo é possível, que coisas que nunca sonhamos podem acontecer. E numa abordagem macro, acho vital que mulheres comuns sejam valorizadas, mulheres suburbanas, com barriga +3, que cuidam de seus filhos sozinhas. Enfim, as heroínas do dia a dia precisam ser reconhecidas.

