quarta-feira, 30 de maio de 2007

Fernandinho navega no meu mar

Não sei quantas almas tenho
Cada momento mudei
Continuamente me estranho
Nunca me vi nem achei

De tanto ser só tenho alma
Quem tem alma não tem calma
Quem vê é só o que vê
Quem sente não é quem é

Sou minha própria paisagem
Assisto à minha passagem
Diverso, móbil e só
Não sei sentir-me onde estou

Por isso, alheio vou lendo
Como páginas meu ser
O que segue não prevendo
O que passou a esquecer

Fernando Pessoa

Sigam-me os bons...

... amigos. Cansei da falta de companheirismo.
Agora vou me mandar pros lugares, e quem quiser, que me siga!

sábado, 26 de maio de 2007

Admiração, inveja e amor

Não gosto muito de postar textos dos outros por aqui. Sinto que deste jeito contrario o objetivo de ter um blog, que é mostrar a visão de mundo do seu dono - se bem que se você posta um texto com o qual se identifica, de um certo modo esse objetivo é confirmado.
O texto a seguir é do psicoterapeuta Flávio Gikovate. Pessoalmente, me identifico mais com o modo de pensar do Contardo Calligaris. FG é meio radical, mas talvez por isso mesmo goste do que escreve: mais do que confortar, ele procura provocar seu leitor. Esse artigo, por exemplo, diz coisas que eu também penso, mas não assinaria 100% embaixo. Como assim? Bem, nem tudo se resume a admiração, amor ou inveja; ele esqueceu de considerar também a indiferença e o desprezo - por que "esquecem" sempre de agregar essas duas hipóteses? hummm...


Admiração, Inveja e Amor


A busca de destaque social através do sucesso em alguma área de atividade (que é a forma usual da manifestação adulta do exibicionismo e que chamamos de vaidade) teria por finalidade atenuar a sensação de desamparo, solidão e insignificância, sensações geradoras de brutal desespero, especialmente para aquelas pessoas que, em virtude de sua inteligência, são mais conscientes destas propriedades da condição humana. Apenas algumas observações serão suficientes para demonstrar que este caminho não leva a parte alguma, a não ser para uma relativa neutralização da sensação de insignificância que, ainda assim, necessita permanentemente de reforços derivados de novos feitos, capazes de chamar a atenção das outras pessoas.
Se a intenção inicial das pessoas que buscam o destaque é, através dos seus desempenhos, acima da média, obter admiração e o amor dos que lhe são próximos, o resultado na prática é bastante diverso deste. O sentir-se amado pode efetivamente representar uma importante atenuação do desamparo original, sendo um remédio eficaz para o desespero que deriva da consciência da solidão, de modo que seria legítimo buscar esta solução, ainda mais que ela estaria na mesma direção da que determina o prazer erótico ligado ao sucesso. O que perturba esta solução, aparentemente muito boa porque resolve os dois anseios - afetivo e erótico -, é que a admiração determina o surgimento da inveja e não do amor.
Amor e inveja derivam da mesma fonte: a admiração. Porém, na prática, a inveja é a emoção que mais frequentemente se manifesta, especialmente quando as diferenças entre as pessoas são mais marcadas. Para que a admiração resultasse em amor seria necessário que as pessoas em geral estivessem relativamente bem consigo mesmas, de modo a não se sentirem humilhadas, agredidas pelas competências especiais das outras.
Acredito que a maioria das pessoas que buscam o destaque social só percebe muito tardiamente que seu sucesso desperta muito mais frequentemente a inveja do que o amor; e, mais, que vive esta constatação surpreendente como profundamente decepcionante e geradora de uma grave crise íntima. Não é fácil aceitar que o resultado de tanto esforço e dedicação a uma causa qualquer - desde as mais nobres até o simples sucesso material - seja a hostilidade sutil, manifestada principalmente pelas pessoas mais chegadas, amigos e familiares. E agora, o que fazer? Abandonar tudo e iniciar uma nova vida? Com que forças? E para onde dirigir essas energias, se o resultado de uma mudança de rota pode ser o mesmo, ou seja, a inveja?
Na maior parte das vezes, não há mais como existir uma reversão do processo, principalmente porque as pessoas já estão muito habituadas às gratificações eróticas derivadas do sucesso social. A vaidade funciona, nestes casos, como um vício qualquer: o indivíduo percebe que ela lhe é nociva - por causa da inveja que sua condição desperta - mas não consegue mais abrir mão dos prazeres que dela advém. O sentir-se hostilizado agrava a sensação de solidão e desamparo, o que costuma determinar um agravamento do desespero, agora acrescido de revolta contra as pessoas invejosas. O desespero e a revolta geram uma energia ainda maior, que é usada na direção de se obter um destaque mais acentuado, que agrava a solidão. A inveja é um sinal da admiração e do destaque obtido, de modo que passa a ser buscada ativamente, apesar da mágoa íntima que possa causar. Para continuar a ser admirado e destacado, terá que se comportar cada vez mais de acordo com o que o grupo social valoriza - ainda que já tenha percebido seu caráter absolutamente ilusório e, na prática, insatisfatório.
Desta forma o grau de liberdade individual se torna mínimo, ao mesmo tempo em que o indivíduo fica cada vez mais sozinho, apenas se gratificando - em doses cada vez maiores, como em qualquer vício - dos prazeres eróticos ligados ao exibicionismo.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Reflexão da meia-noite

Fazer aulas de teatro é como passar uma temporada na prisão: depois do que os seus companheiros fazem com você lá dentro, é impossível manter pudor de alguma coisa lá fora.

(Amigo, Alosa! Amigo!...)

sábado, 12 de maio de 2007

Ninguém tem paciência comigo!...

Tenho três traços de personalidade que, se pudesse, descreveria por escrito e entregaria às pessoas do meu convívio, como se fosse uma bula. Quem sabe assim elas teriam mais paciência comigo e me ajudariam, por tabela, a ser mais paciente comigo mesma.
O primeiro deles é a minha tendência à paranóia. E a minha paranóia mais acentuada é a de pegar doença (é, os sintomas me perseguem; sou o que chamam de hipocondríaca). Sempre digo aos amigos: podem até me contar os seus problemas, mas, pelo amor de JC, não me contem as suas doenças ("hoje eu quero paz, eu quero amoooor...").
Minha paranóia/hipocondria, com o perdão do trocadilho, tem nos meus 2 graus de miopia e 1 de astigmatismo a sua "menina dos olhos". Há um mês venho usando um par de lentes tão legal que nem percebo que são lentes. Mas é aí que vem o problema: justamente por isso, mesmo com elas, continuo me sentindo míope. Aliás, descobri que meu problema de visão transcende a questão física. Só isso explica o fato de não enxergar de frente para um livro e no computador, sendo que miopia é dificuldade para enxergar de longe e não de perto.
Sinta a minha agonia: não há um corpo físico perceptível, como é o caso de um par de óculos, então fico desconfiada de que as lentes caíram e não estão nos meus olhos. Por isso continuo a me sentir míope. E tomo susto quando percebo que estou vendo à distância, principalmente em pontos de ônibus. Num determinado momento, me convenço de que as lentes têm que estar nos meus olhos, e que me sinto míope porque devem estar desajeitadas. E daí fico metendo o dedo nos olhos para "estancar" a miopia - ou com a ajuda do espelhinho ou sem ele mesmo. A personagem de Scarlett Johansson em "Scoop" tem razão: é estranhíssimo meter o dedo no olho. Fico pensando o que uma pessoa do sec. XIX diria da imagem de alguém como eu, que fica metendo o dedo no olho enquanto anda na rua (e morrendo de medo de estar infeccionando a córnea por conta disso). No lugar dessa pessoa, diria ser um comportamento excêntrico, pra dizer o mínimo...
Por último, mas não menos importante, vivo imaginando besteiras o tempo inteiro, como essa com a pessoa do século retrasado. Isso nos leva ao meu terceiro traço: sou uma "viajante" crônica.
Conhecem aquela piada que conta como os signos reagem à falta de energia em casa, e Peixes responde "Como assim??! Acabou a luz, é??!". Eu não acho graça, pois já passei por isso e é mortificante. Meu pai é quem fica mais chocado com essa minha capacidade de me desligar da realidade. Minha mãe tenta fazer coro a indignação dele, mas acho que ela bem deveria ser mais humilde, pois essas coisas são genéticas e, se bem lembro, uma vez quase saiu de casa deixando a mala e levando para o aeroporto, no lugar dela, o saco de ração do cachorro. Fico chateada com a falta de paciência dele, mas no fundo compreendo sua frustração: é difícil para um geminiano, plugado em mil coisas ao mesmo tempo, entender como alguém, cujo corpo ocupa um considerável espaço no mundo, consegue estar em 90% do tempo ausente dele.
O povo pensa que é onda, mas não me canso de pedir: se assegurem de que me deram todas as informações que preciso para fazer o que querem que eu faça (para que não me sinta tão desesperada quando minha mente voltar a Terra e perceber que perdeu uma parte fundamental da história). E por escrito, que minha memória não é boa desde os 20 anos (pois é, eu sofri o temido bug do milênio; antes tivesse sido no meu computador!); dependo de agenda, bloquinho e gravador há muito tempo (antes dos 50 anos, tenho quase certeza que a filmadora vai integrar esse meu esquema de memória artificial)!

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Pardón, periferia!...







Hoje bateu saudade do meu amigo Claudinho Baixaria. Deve ser porque 1) Não o vejo "ao vivo" desde o ano passado e 2) Sem ele por aqui para contar histórias c/ deboche, distribuir alfinetadas e semear a discórdia, tudo fica muito monótono.

Nosso amigo finalmente pôs os pés na Europa - e dessa vez esperamos que seja de verdade, ao contrário daquela fraude da Argentina (por que vocês acham que eu pedi que me enviasse um cartão postal, hein?). Saiu do Aeroporto 2 de Julho que nem Madonna em "Evita": de braços abertos e cantando "Don´t envy me, periferia! Turururururururu...".

O roteiro da viagem de Baixá começou por Paris - onde encontrou Samuel, o francês. Ele vai passar ainda por Roma e um outro lugar que esqueci o nome, mas garanto que não é na Espanha, onde meia Facom se encontra no momento (e ninguém merece viajar tão distante para passar por isso, né! faz até mal ao coração se assustar com a presença repentina de conhecido brasileiro nas ruas do primeiro mundo). A comparação com o ícone argentino, agora vendo, veio a calhar, já que segundo Ôôôô Ingrid - editora do jornal Ôôôô Aurora da Rua - os argentinos nada mais são que italianos que falam espanhol e se acham franceses. (Desculpe, Gri, mas minha língua estava coçando para contar sua última grande tirada)

Intelectual que é, Cláudio fez dos comícios presidenciais na França sua EuroDisney. Tentou dar um flagra em Ségolène a la Lilian Ramos, mas foi em vão. Ségolène sim, Piriguetelene jamais! (Na França "Tudo pelo esporte" e slogans do tipo não funcionam muito, não...) E vejam bem, a candidata anda tão longe da esquerda que até está usando calcinha (longe de mim querer generalizar, mas tirando por uma certa pessoa que uma vez viajou comigo para Pernambuco - bate na madeira, que Deus é mais!... -, não é o forte da mulherada da esquerda ter certos "pudores" femininos - se bem que os sobreviventes das décadas de 60/70 dizem que o quadro melhorou muito de lá pra cá, e algumas até passaram a fazer as axilas).
Noveleiros, cá entre nós, a candidata francesa não é a cara da Renée de Vielmond, a Ana Luiza de "Paraíso Tropical"???

Apesar de ter feito até uma mulçumana desesperada segurar uma plaquinha de apoio - aonde que ela faria isso na terra de Maomé???... -, Ségô perdeu feio. É o machismo na terra de Simone de Beauvoir, minha gente! Mas esse menino, Gregório - o Ryan Phillippe dos Alagados -, que também é francês (eleitor de Sarkozy), disse que o problema não era Ségô, mas a sua base de aliados que anda em conflito. Ele achou melhor, na condição que o país se encontra, votar em Sassá, que tem mais experiência política e melhores propostas para a nação, a seu ver.


Pois bem, pobres (messsmo) mortais, se deliciem com as fotos de Ségolène Royal, do nosso enviado Cláudio Leal!!!

Até o próximo boletim sobre a ida de Baixá à França!
PS: E a pergunta que não quer calar: por onde anda Jacques Dupont?