segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Risos de nervoso

 


Eu ri, mas fiquei tensa com isso. Se com nove anos ela tá nessa letargia, imagina quando cair na batalha da vida adulta.

Sério.

Depois da psicopatia, meu maior medo quanto aos meus sobrinhos é que eles sejam pessoas desinteressadas. Quanto mais eu vivo, mais estou convicta que uma boa vida depende em boa medida de paixões, interesses, projetos. Quem tem projeto tem por que viver até 80 anos, quem não tem morre de tédio, a conta-gotas. 

Eu tenho uma prima, que tem hoje 20 e tantos anos, que era assim que nem essa menina do papel. Inteligente - pulou dois anos na escola -, o pai dava tudo, mas ela não se interessava por nada. Hoje tá aí tomando remédio para depressão e impaciente com a vida. 

A parte material importa muito, mas a alma é o motor de tudo, não tem pra onde correr. 

Mas a questão é que esse encontro com o que move a nossa alma é o nosso quê de sorte na vida - todo o resto, até a malandragem pra conseguir as coisas, coloco na cesta "trabalho", mas os encontros da vida vão na cesta "sorte". Só buscar não é o suficiente, tem que ter a sorte de estar no lugar certo e na hora certa também, tem que conseguir a sintonia. Como dizia o poeta, "viver é a arte dos encontros embora haja tantos desencontros".

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O brasileiro gosta de ter filho, mas não gosta de criança


Brasileiro ama ostentar filhos, que, apesar de tudo, conferem o status de adulto responsável/validado, e, no caso das mulheres, da fêmea completa, da que em algum momento foi escolhida e pariu. Como já li por aí - e sempre observei antes disso -, do mesmo modo que essa sociedade odeia mulher, endeusa a mãe. Então não dá pra ser só mulher, se quiser ser olhada um pouquinho melhor, tem que virar mãe.  

Conto nas mãos os adultos que conheço que tiveram paciência e dedicação com as suas crianças. Lógico, o adulto precisa ter a sua individualidade, a sua vida, mas se você pôs no mundo, faça direito, ceda uma parte do seu tempo pra formar aquela pessoa. Se bem feito, aos poucos você se tornará desnecessário. Infelizmente, a maioria terceiriza a criação das crias. Já ouvi de minha irmã que ela se achava uma mãe melhor que as do condomínio dela só por não contratar folguista pra ficar com os filhos nos finais de semana. Descobri outro dia que quem criou os filhos de Caetano foi a babá, que eles inclusive são evangélicos por causa dela. 

Ninguém tem paciência com criança. Adulto foge de criança, acha chato, detesta ter o trabalho. Mas é justamente a janela que se tem pra fazer o que tem que ser feito em termos de hábitos, educação e laços. Por isso que olho com muita desconfiança quem cobra certas coisas do filho depois de adulto. Como será que era essa relação na infância? Casa e comida é o básico do básico, mas isso não gera laços. É ser humano, não gado. 

Crescer sozinho, mesmo quando "dá certo", deixa sequelas. O comando que sempre recebi, em casa, de forma implícita, foi: "Se vire com o que tem, não encha o meu saco e dê o máximo resultado". Se eu falhasse, não ia ser por falta dos meus pais, mas porque eu tinha algum problema, era de alguma forma incapaz. E não foi coincidência eu ter batido em 98% de portas que se fecharam na minha cara ao longo da vida. Toda vez que achava que podia ter o apoio de alguém, me descobria sozinha. Não foi por acaso, foi pra confirmar aquela crença que aprendi em casa, na infância. 

Faz toda diferença ter rede de apoio. Primeiro, que você se sente mais autorizado a experimentar, a se lançar, porque há alguém segurando a sua mão, para amparar o seu erro. E é fazendo isso na primeira parte da vida que você se torna um adulto capaz de tomar boas decisões na idade adulta. Segundo, que você aprende a pedir ajuda. Gente que se cria sozinha não sabe pedir ajuda, porque você foi ensinado que pedir ajuda é incomodar, ser alguém desagradável e, acima de tudo, incompetente. 

O tecido social coeso, o espírito comunitário, solidário, começa nas famílias (e lógico que não estou falando aqui de uma galera que foi animalizada por gerações e gerações, mas de gente que teria condições de exercer uma parentalidade de qualidade). Se é cada um por si e Deus por todos, ficamos nisso aí que vemos hoje no Brasil: um farinha pouca, meu pirão primeiro. E quem teria condições de pressionar por mais solidariedade social e melhores condições para os mais vulneráveis não o faz, aprende a defender só o seu. 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Eu não me chamo Emily Rose

 


Em 2008, eu desbloqueei o nível 1 da desesperança, aquele em que, se você não tiver mesmo vocação pra ser boa pessoa, se torna alguém má, que repassa a sua dor aos outros. Sobrevivi.

Este ano, desbloqueei o nível 2, em que você começa a entender qual é a graça de usar drogas. Não sei se sobreviverei, apenas não quero chegar ao nível 3, por favor!

O caso agora nem é mais de terapia, mas de exorcismo.