domingo, 22 de abril de 2007

A alma do outro

Eu não me chamo Silvia Poppovic nem Sônia Abrão, mas, confesso, não perco a oportunidade de chamar o especialista (risos). Achei lúcido à beça esse texto da Luft, publicado na Veja desta semana.

Beijo!

Ju


"No relacionamento amoroso, familiar ou amigo acredito que partilhar a vida com alguém que valha a pena é enriquecê-la. Permanecer numarelação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida"


"A alma do outro é uma floresta escura", disse o poeta Rainer Maria Rilke, meu único autor de cabeceira. A vida vai nos ensinando quanto isso é verdade. Pais e filhos, irmãos, amigos e amantes podem conviver décadas a fio, podem ter uma relação intensa, podem se divertir juntos e sofrer juntos, ter gostos parecidos ou complementares, ser interessantes uns para os outros, superar grandes conflitos – mas persiste o lado avesso, o atrás da máscara, que nunca se expõe nem se dissipa.
Nem todos os mal-entendidos, mágoas e brigas se dão porque somos maus, mas por problemas de comunicação.
Porque até a morte nos conheceremos pouco, porque não sabemos como agir. Se nem sei direito quem sou, como conhecer melhor o outro, meu pai, meu filho, meu parceiro, meu amigo – e como agir direito?
Neste momento escrevo, como já disse, um livro sobre o silêncio. Começou como um ensaio na linha de O Rio do Meio e Perdas & Ganhos, mas acabou se tornando um romance, em pleno processo de elaboração. Isso me faz refletir mais agudamente sobre a questão da comunicação e sua por vezes dramática dificuldade, pois nos mal-entendidos reside muito sofrimento desnecessário.
Amor e amizade transitam entre esses dois "eus" que se relacionam em harmonia e conflito: afeto, generosidade, atenção, cuidados, desejo de partilhamento ou de vida em comum, vontade de fazer e ser um bem, e de obter do outro o que para a gente é um bem, o complicado respeito ao espaço do outro, formam um campo de batalha e uma ponte. Pontes podem ser precárias, estradas têm buracos, caminhos escondem armadilhas inconscientes que preparamos para nossos próprios passos em direção do outro. O que está mergulhado no inconsciente é nosso maior tesouro e o mais insidioso perigo.
Pensar sobre a incomunicabilidade ou esse espaço dela em todos os relacionamentos significa pensar no silêncio: a palavra que devia ter sido pronunciada, mas ficou fechada na garganta e era hora de falar; o silêncio que não foi erguido no momento exato – e era o momento de calar.
Mas, como escrevi várias vezes, a gente não sabia. É a incomunicabilidade, não por maldade ou jogo de poder, mas por alienação ou simples impossibilidade. Anos depois poderá vir a cobrança: por que naquela hora você não disse isso? Ou: por que naquele momento você disse aquilo?
Relacionar-se é uma aventura, fonte de alegria e risco de desgosto. Na relação defrontam-se personalidades, dialogam neuroses, esgrimem sonhos e reina o desejo de manipular disfarçado de delicadeza, necessidade ou até carinho. Difícil? Difícil sem dúvida, mas sem essa viagem emocional a existência é um deserto sem miragens.
No relacionamento amoroso, familiar ou amigo acredito que partilhar a vida com alguém que valha a pena é enriquecê-la; permanecer numa relação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida. Entre fixar e romper, o conflito e o medo do erro.
Somos todos pobres humanos, somos todos frágeis e aflitos, todos precisamos amar e ser amados, mas às vezes laços inconscientes enredam nossos passos e fecham nosso coração. A balança tem de ser acionada: prevalecem conflitos ásperos e a hostilidade, ou a ternura e aqueles conflitos que ajudam a crescer e amar melhor, a se conhecer melhor e melhor enxergar o outro? O olhar precisa ser atento: mais coisas negativas ou mais gestos positivos? Mais alegria ou mais sofrimento? Mais esperança ou mais resignação?
Cabe a cada um de nós decidir, e isso exige auto-exame, avaliação. Posso dizer que sempre vale a pena, sobretudo vale a pena apostar quando ainda existe afeto e interesse, quando o outro continua sendo um desafio em lugar de um tédio, e quando, entre pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes, continua a disposição de descobrir mais e melhor quem é esse
outro, o que deseja, de que precisa, o que pode – o que lhe é possível fazer.
Em certas fases, é preciso matar a cada dia um leão; em outras, estamos num oásis. Não há receitas a não ser abertura, sinceridade, humildade que não é rebaixamento. Além do amor, naturalmente, mas esse às vezes é um luxo, como a alegria, que poucos se permitem.
Seja como for, com alguma sorte e boa vontade a alma do outro pode também ser a doce fonte da vida.

Lya Luft é escritora


segunda-feira, 2 de abril de 2007

Como detonar meio mundo (e se autopromover) em 8 respostas

Auto-retrato
Eumir Deodato

Eumir Deodato trabalhou com artistas consagrados como Frank Sinatra, Kool & the Gang e Björk. Às vésperas de embarcar de Nova York, onde mora, para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro, o maestro falou ao repórter Sérgio Martins sobre sua carreira e disparou farpas contra os ex-companheiros de bossa nova.

NOS ANOS 60, O SENHOR FOI TENTAR A SORTE NOS ESTADOS UNIDOS, JUNTAMENTE COM ARTISTAS COMO TOM JOBIM, JOÃO GILBERTO E LUIZ BONFÁ. ELES VOLTARAM, MAS O SENHOR FICOU E INVESTIU EM OUTROS GÊNEROS. ESTAVA CANSADO DA BOSSA NOVA?
O pessoal daquele período costuma dizer que foi um tremendo sucesso nos Estados Unidos. A verdade é que fizeram um punhado de shows para brasileiros expatriados e voltaram rapidinho para casa. Eu queria ficar aqui de fato, e portanto não podia tocar só bossa. Aprendi a ampliar meus horizontes musicais.

COMO FOI TRABALHAR COM FRANK SINATRA?
Ele era uma estrela e se cercava de um pessoal bem mal-encarado. Foi por preguiça que não gravou um disco inteiro com a obra de Tom Jobim. Não estudava as canções. Por isso, acabou registrando apenas cinco.

O SENHOR ACOMPANHA OS ARTISTAS DA BOSSA NOVA ELETRÔNICA, COMO BEBEL GILBERTO?
A bossa se popularizou tanto que hoje você depara com artistas de tango que se acham bossa-novistas. Entre os que fazem música eletrônica, não é muito diferente. Olhe, quase trabalhei com a Bebel num tributo ao Ennio Morricone. Mas levei três canos dela e agora só a chamo de Torre de Bebel. Tive de chamar Daniela Mercury às pressas para fazer o disco. Ela não conseguiu acertar o tom, e tive de usar um afinador eletrônico para consertar a voz dela.

NO COMEÇO DA CARREIRA O SENHOR TOCOU COM MAYSA, UMA CANTORA FAMOSA PELO GÊNIO FORTE. DAVA MEDO TRABALHAR COM ELA?
Sabe que não tive problemas? As pessoas que mais sofriam numa apresentação de Maysa eram aquelas que insistiam em conversar. Maysa jogava água nelas.

SÉRGIO MENDES É OUTRO BOSSA-NOVISTA DE PRIMEIRA HORA QUE DESENVOLVEU UMA CARREIRA AMERICANA. VOCÊS COSTUMAM CONVERSAR?
Não com freqüência. Sérgio demitiu uma banda inteira porque eles tiveram a ousadia de lhe pedir aumento. Eu gosto de grandes instrumentistas e pago a eles muito bem. Somos pessoas diferentes.

COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA À FRENTE DA BANDA KOOL & THE GANG?
Musicalmente, muito boa. O único problema é que o dono da gravadora deles era ligado à máfia. O filho do sujeito tinha problemas com drogas e eu morria de medo de ele ter uma overdose no meu estúdio. Eu ia acabar pagando o pato. Escapei na primeira oportunidade. O selo do Kool & the Gang se chamava Delightful ("Maravilhoso") Records. Para mim, era Pesadelo Records.

EXISTE ALGUM OUTRO PAÍS ONDE O SENHOR GOZE DE TANTO RESPEITO QUANTO NOS ESTADOS UNIDOS?
Sou adorado na Europa. Em Londres, o pessoal da velha-guarda leva meus discos para autografar – junto com os filhos, que também são fãs. Por incrível que pareça, também gostam de mim nas Filipinas. Eu me apresentei por lá em 1975, por causa de uma versão dançante que fiz da Ave Maria de Schubert. Quando voltei, anos depois, encontrei um monte de meninos batizados de Eumir ou Deodato.

NOS ANOS 90, O SENHOR FOI TRABALHAR NA BOLSA DE VALORES. POR QUÊ?
Eu havia me desiludido com a música, queria fazer algo diferente. Foi bom, mas o trabalho na bolsa exige muita disciplina – qualidade que eu não tenho. Também sofro da "síndrome do jogador". Ou seja, tinha dificuldade em parar na hora certa e por causa disso perdi um bom dinheiro.

Fonte: revista Veja, 04/04/2007