domingo, 10 de maio de 2026

Janela quebrada

Toda vez que se discute sobre violência, sinto que as pessoas intelectualizadas se descolam da realidade e querem impor uma opinião que parece genial.

Em uma aula da faculdade de Direito, pela segunda vez surgiu a questão do por que as pessoas cometem crime. A Maria Joaquina da turma chutou a questão da impunidade pra escanteio e disse que quem comete um crime não pensa na pena. Sim e não. 

De fato, em crimes mais bárbaros, isso não conta - aqui estamos falando de psicopatas muitas vezes. Ou em situações muito extremas, em que a pessoa perde a razão. Muitos anos de prisão também não assustam. Reduzir a maioridade penal também não acho que vá surtir efeito, porque a criminalidade nesta faixa etária tem a ver com as mudanças comportamentais e cerebrais da adolescência. Só sou a favor disso para crimes hediondos porque - e admito que isso é pura crença pessoal - não acredito que nesses casos a pessoa seja recuperável. Um estuprador, um assassino não são acidentes de percurso. 

A meu ver, a certeza de ser punido conta sim. 

Qualquer bandido no Brasil sabe o artigo do seu crime e a pena de cor, melhor que muito advogado. Ou seja, calculam sim o tamanho do prejuízo. 

E como o Brasil é uma grande janela quebrada, o pau come. 

Explico: essa teoria penal diz que é mais fácil que se vandalize uma janela já quebrada e não reparada do que aquela que foi consertada. Aqui, a gente sabe que só quem não tem dinheiro pra advogado vai preso. Os racistas são um bom exemplo disso. Todo racista sabe que vai dar uma volta olímpica na delegacia e que o crime vai acabar em pizza, enquanto a vítima fica com o trauma pra sempre. 

Quantas vezes você lê uma notícia sobre estupro e no meio do texto está a informação que o sujeito já tinha cometido outros estupros, mas já estava em liberdade?

O ser humano é um animal de interesse, e, com raras exceções, calcula o que vai ganhar e o que pode perder. Por isso não acho que não faz diferença um sistema que de fato pune. Faz sim. Duvido que exista tanta gente furtando, roubando em países em que a pena pra isso é cortar a mão do criminoso. 

Sobretudo, acho que a maior punição é a social. Não que isso vá inibir 100% a criminalidade, mas quando o individuo sabe que terá consequências sociais, ele pensa duas vezes. É por isso que os feminicídios prosperam no Brasil. Nada acontece ao feminicida: ele casa, frequenta a vizinhança, arranja emprego e vai ao estádio de futebol e, se brincar, ainda é tratado como pai de família, depois de dar uma volta olímpica na delegacia. 

Precisamos mudar mentalidades.