sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Vida e morte de Amy Winehouse


Acabei de assistir "Amy: the girl behind the name", documentário de 2015, de Asif Kapadia, que conta a história da cantora Amy Winehouse. Ela foi mais um caso de gente boa que não soube lidar com as próprias dores, deixando esse mundo cedo demais, aos 27 anos, em julho de 2011.

De acordo com o documentário, Amy era uma pessoa meiga, talentosa, mas bastante carente, alguém que nunca se recuperou da separação dos pais e, a partir desse desamparo, desenvolveu compulsões e comportamentos autodestrutivos. Em um trecho ela comenta que nunca foi abusada na infância, como infelizmente acontece com muitas crianças, mas que houve uma tristeza por causa dessa separação. 

Temos duas observações a fazer aí: a primeira é a de que o trauma tem mais a ver com o modo como alguém sentiu o evento do que com o evento em si. A segunda é que um acompanhamento bem feito da menina Amy poderia, talvez, ter mudado radicalmente o curso da adulta. É importante que os adultos se esforcem para fazer esse rompimento da relação da forma mais respeitosa possível, pois a criança sente tudo, mas tem pouca clareza mental quanto ao que está sentindo. A tendência dos filhos, ao verem os pais sofrendo e se desentendendo, é achar que são os culpados, os responsáveis. E há, ainda, uma crença equivocada entre os adultos de que a juventude supera tudo, de que não há tristeza e depressão entre crianças e adolescentes. Ledo e Ivo engano...

Acrescida à falta de assistência familiar veio a pressão do estrelato e os altos e baixos de um relacionamento abusivo que a afundou mais ainda nas drogas e na bulimia, ambos problemas que remontavam à adolescência da artista. 

É do octogenário (à época) e ídolo de Amy, com quem ela fez sua última parceria, Tony Bennett, a frase mais comovente do filme:

"Se ela estivesse viva, eu iria dizer: pare um pouco. Você é muito importante. A vida te ensina a viver se você conseguir viver o suficiente."

Ao que Bennett disse, acrescentaria: se sentir que não vai conseguir chegar até lá, não hesite em procurar ajuda. 


A Amiga Genial


Semana passada terminei de assistir as duas primeiras temporadas da quadrilogia italiana, escrita por Elena Ferrante, na HBO. Confesso que, apesar de toda a raiva que passei com Lenu e Lila, fiquei com saudades. 

As meninas são gente como a gente e me causou pavor ver o que era a condição da mulher num tempo pertinho daqui. Lenu e Lila passam longe de serem obedientes, apesar de Lenu ser retraída, e, mesmo assim, a sociedade da época, principalmente a parte masculina, é cruel com elas. Isso torna o quadro mais desesperador ainda, porque dá a sensação de jogo que nunca vai ser vencido. 

Lila e Lenu se conheceram crianças num bairro muito pobre de Napoles, no pós guerra - aliás, nunca pensei de ver o Cabula VI na HBO. Lenu queria muito ser a melhor aluna, era competitiva, mas como boa virginiana, na linha boa menina (ela é de 25 de agosto e Lila, leonina de 11 de agosto). Lila era aquela menina que ninguém chegava perto até virar amiga de Lenu. A meu ver, essa foi a desgraça da filha do contínuo. Dali por diante, especialmente quando elas se separaram na escola, Lenu se ejetou do próprio corpo e viveu em função de Lila, ao ponto de escrever sobre ela - a origem da quadrilogia - mesmo idosa e já consagrada. Passou uma vida se achando menos que a outra que, a qualquer oportunidade, a sacaneava, especialmente nas situações em que Lenu, excepcionalmente, conseguia alguma coisa. Na boa, por mais que vínculos de infância sejam fortes, eu teria dado o toco nela ali mesmo, depois do exame da escola, quando ela se mostrou perversa pela primeira vez, atitude que duraria pelo resto da vida. Definitivamente, nunca mais iria atrás dela depois do que houve em Ischia.

Mas o legal de "A Amiga Genial" é a dualidade das protagonistas. Eu sou team Lenu, mas ela também incomoda pela passividade e por essa postura maluca de se botar numa posição inferior em relação a Lila, de uma submissão ridícula, de uma inveja envergonhada que nunca passa e que, no fundo, não tem razão de ser. Ela nunca seria Lila, até porque ambas são muito diferentes. E, pelo visto, a criatura envelhece nessa maluquice. Um dos livros deveria se chamar "Procura-se Lenu desesperadamente", porque a figura se perdeu legal de si mesma por causa desse apego. Antes ela nunca tivesse conhecido Lila e Nino. Lenu era uma criança ativa, que começou a se apagar quando começou a se comparar com Lila. 

Eu terminei a segunda temporada com verdadeiro ranço de Lila, mas algumas coisas a gente tem que admitir sobre a personagem. A primeira delas é que, se Lenu é melhor pessoa, é Lila quem carrega a história nas costas e movimenta esse negócio. A segunda coisa é que apesar de ter inveja de Lenu, Lila não se limita por causa dela, como a outra faz em relação a ela. Lila joga a bola pra frente, perde, ganha, mas se arrisca e segue como dá. Apesar disso, é muito triste ver que toda vez que a pobre da criatura tenta mudar de vida, fazer algo grandioso, alguém joga areia na tentativa dela e das formas mais mesquinhas. Rino foi uma das piores desilusões dessa história. Do pai dela, de Stefano e do embuste-mor do Nino a gente já esperava. 

Aliás, só tem homem ruim nessa história, impressionante. O único que presta, Franco Mari, primeiro namorado de Lenu na universidade, não dura um episódio. E, na boa, pouca coisa mudou nos dias de hoje. É triste também ver que a "amizade" de Lenu e Lila é o tom de muitas amizades, onde tem até afeto, mas também rancor ou menosprezo; a pessoa até quer que o outro se dê bem, mas não melhor que ele/a; há compartilhamento da vida, mas não da intimidade, com medo daquilo ser usado contra. A violência sobrepõe-se ao amor. É como disse Jung: amor e poder não ocupam o mesmo espaço; onde entra um, sai o outro.     

Na minha interpretação, vejo as duas como representantes de dois mundos que se encontram e se chocam no pós-guerra: Lenu é o espírito de conservação, da tradição, do elitismo, da coerência, enfim, é o resgaste de um mundo asséptico que foi interrompido pela guerra; Lila é a destruição do status quo, representa o olhar para o futuro, a aventura, a mudança de um modelo que já não serve mais, que não responde mais a algumas demandas. Lenu é impulsionada pelo medo; Lila é pela raiva.