sábado, 19 de dezembro de 2015

Como me tornei uma pessoa de "curto prazo"

... Nem eu sei dizer.
Mas o fato é que perdi totalmente o saco com coisas de longa duração.
Seriados? Não. Prefiro novela da Globo. Melhor ainda se for minissérie. Não dá para passar anos seguindo uma história, por melhor que seja. E sou da época em que acompanhávamos, no máximo, três por vez e não uma cacetada deles, que são lançados a toda hora. 
Filme é uma coisa bem mais legal, rapidinha - contanto que não dure três horas.
Romances? Prefiro contos e crônicas.
Eu não sei se é falta de maturidade, de repente cansaço em meio a tantos estímulos, ou se é vontade de viver uma vida de verdade e não ficar afundada em ficção, em histórias dos outros. O caso é que para 90% dos meus amigos a ficção é um oásis, enquanto eu raramente me prendo ao que está passando. Me sinto um ET. Tem que ser muito bom para prender a minha atenção. Prefiro viajar, ver gente, ir para a rua, ou ficar em casa sozinha, pensando ou escrevendo.
Escrever. "Agente da ativa". Eu tenho pressa, acho que esse é o caso. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

Batom

Gosto que as mulheres comecem a se dar conta das perversidades do sistema. Mas outro lado meu fica irritado com essa onda de feminismo.
Vamos aos fatos: falam em feminismo as mulheres protegidas, brancas, da classe média. O discurso feminista é bastante classe média. A mulher marginal sempre teve uma vivência feminista, ainda que não tenha consciência disso; foi obrigada a ser autônoma porque ninguém nunca se interessou em protegê-la.
Apesar de classe média, eu sempre fui marginal. E antes de ter consciência disso, já odiava um monte de coisas de mulherzinha.
Odiava quando minha mãe fazia aqueles cachos bizarros no meu cabelo.
Odiava usar meia calça em festa de aniversário (apesar de adorar me ver de vestido). Eu rasgava a dita cuja assim que chegava na festa, mas, na próxima, lá vinha minha mãe com outra, novinha, geralmente branca (argh).

Na adolescência foi pior.
Eu odiava ir ao salão de beleza. Os tratamentos eram doloridos e as pessoas, racistas. Ouvia das mulheres da família: "Ah, mas mulher tem que se cuidar". E o homem? Eles podem ser naturais. Quem nunca desejou ter nascido homem só pra gozar desse privilégio...
Meu pai não estava nem aí, a gente que se virasse.
Enfim, tratamento de princesa passava longe de mim nessa fase.

Eu não vou me estender, mas, para resumir, como sempre fui diferente da norma - e com pouca disposição para me encaixar nela -, sempre tive que defender a minha liberdade.
Isso aí que as neo feministas dizem pras mulheres não deixarem os homens fazerem eu penso desde que me entendo por gente. Cresci entre mulheres violentadas, eu sei bem como isso funciona, e desde criança isso me indignava.
Essa coisa de meu corpo, minhas regras, eu tive que exercitar desde a adolescência, enquanto olhava outras colegas fora dos padrões, como eu, se mutilando para serem como as meninas "adequadas".

Já fui e já voltei nessa história. Já estou na terceira onda, por isso acho que, ao contrário das neo feministas, entendo os críticos do movimento, como Camille Paglia. A independência feminina não acontecerá por mera imitação das atitudes masculinas, numa competição de quem pode mais. Temos que nos descobrir e achar uma terceira via, que não é essa que nos impuseram historicamente e nem a dos homens (que também precisa de revisão urgente). Há características que são, sim, genuinamente femininas e precisamos nos orgulhar delas.

Há 35 anos sou a mulher que quero e posso. Aprendi a gostar de algumas coisas de mulherzinha e para outras nunca terei inclinação. Fato. Sou feminista na minha vida e sempre defendi esse meu direito de performar o meu gênero como eu sei, como eu quero. A única coisa desse universo que eu realmente não abro mão é de batom. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Nem todo mundo pensa bem de si mesmo

Um amigo meu costuma dizer que certas reações dizem mais sobre a pessoa do que sobre o fato em si. 
Essa semana pude ter uma prova bizarra disso. Encontrei com uma assessora de imprensa que, ao me ver, não se contentou em me perguntar uma vez se eu estava bem (pergunta a qual respondi com um tranquilo "sim"). Perguntou três vezes, se deparando com a mesma naturalidade. Ao final, incrédula e, acredito, sem graça pelo papelão que estava fazendo, se despediu de mim e foi embora.
Ela queria choro por causa de uma demissão em massa? Ela esperava confidências de minha parte? Provavelmente sim. Mas principalmente estava ali alguém que morre de medo de perder o emprego, que provavelmente deve ser uma base grande da autoestima dela. Eu só lamento. Nem todo mundo pensa bem de si mesmo e algumas pessoas precisam desesperadamente do "ok" alheio para sentir que valem algo.

*

Ela se queixava ao terapeuta que não era valorizada. Ele escutava atentamente e, por fim, resumiu a vida dela em um par de frases:

"Você tem grandes qualidades, mas ninguém consegue ser mais dura com você do que você mesma, que já chega despejando todos os seus defeitos, desejosa de que ninguém crie expectativas sobre você".

Ela não pensava bem de si mesma e isso só atraía rejeição para a sua vida.

*
Duas amigas falam de uma terceira, que vive um relacionamento abusivo. Uma delas comenta: "Não sei por que ela se sujeita. Ela é tão cheia de qualidades e ele é tão...".

O abuso faz a gente não pensar bem de si mesmo. E se é assim, como desejar algo melhor?


Moral da história: a gente só consegue viver uma vida de verdade quando passa a ligar menos para os outros e a fazer coisas que nos façam pensar bem de nós mesmos.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Under pressure



Essa foi uma semana difícil, mais pelos outros do que por mim, acredite. 
Foi a semana de finalmente dar adeus à redação, junto com um terço dela, que teve que sair por causa da crise financeira da empresa, que acabou gerando o encolhimento do tamanho do produto e, claro, da equipe. Houve injustiças nessa lista e isso também foi difícil de lidar, especialmente com algumas covardias praticadas.
Pessoalmente, eu acho que mais uma vez a vida fez por mim aquilo que eu precisava, mas não tinha coragem. Então, vida que segue, agora sem desculpas, sem cansaços, mas, como nada é perfeito, com incertezas.
Uma das perguntas que me faço agora é se eu quero mesmo continuar ou mudar. Eu sei a resposta, mas aguardo uma confirmação.
No geral, vejo esse momento como uma oportunidade. Mas muitos colegas que foram demitidos estão sentindo que tiveram os sonhos interrompidos, que não valem grande coisa como profissionais. Isso tudo me ensinou muito, especialmente sobre desapego e auto respeito.

O jornalismo faz isso com a gente, mexe com a nossa autoestima frequentemente. Não basta ser competente; espera-se que seja brilhante. E tem que ser o tempo todo, mesmo numa rotina de seis dias por semana e muitos feriados. A gente vive (e é estimulado) se comparando.
Minha experiência em cinco anos de jornalismo impresso: geralmente - não é sempre, mas é comum - os mais "geniais" de uma redação são também os mais "preguiçosos". Produzem bem porque têm tempo, prazo mais longo pra fazer com calma, pra burilar o texto. Claro. Já viu gente exausta sendo criativa? Difícil, né, a não ser que a pessoa seja dona de uma energia fora do comum (ou um ego igualmente grande). Portanto, especialmente com as redações cada vez mais enxutas, há a necessidade de gente com vontade de fazer e disposição para cobrir coisas menos divertidas como buracos, deslizamentos, enfim, a vida real. Não é fácil como parece e nem dá para fazer algo muito criativo. O repórter aparece pouco no hard news. O talento aqui é deixar a história se sobressair, buscar todas as informações, de forma a dar o panorama mais completo possível. Você passa meses e meses cobrindo as mesmas coisas, lidando com fontes de má vontade, fazendo matérias fisicamente exaustivas. Essas pessoas são as que carregam o piano do jornalismo diário e, por isso, deveriam ser mais valorizadas. Mas quase nunca há gratidão pelos operários da primeira hora.

O caso é que esse tipo de ambiente competitivo acaba com a solidariedade entre as pessoas. Traz para os mais destacados a noção de que são estrelas, de que podem fazer o que quiserem, e isso, numa equipe, é ruim, porque sempre desequilibra as responsabilidades, que deveriam ser repartidas igualmente. Aos trabalhadores braçais, deixa a noção de que pouco valem, de que estão no lugar errado, de que não estão fazendo direito.

Esse é um ambiente anti-felicidade. Bem-estar depende do oposto disso. Parem as máquinas: é atrás de satisfação que eu vou correr agora.