quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Em busca do pote de ouro no fim do arco-íris

Fim de ano chegando, é hora de fazer um balanço da vida e prometer que daqui para frente, tudo vai ser diferente, que aprenderemos a ser gente, de lembrar que o bom é ser feliz e mais nada (copyright by Roberto Carlos - O Rei!) ... Sim, fazemos tudo isso na esperança de sermos mais "felizes", como as heroínas e heróis da TV. Mas será que a felicidade é uma coisa tão à mão assim, que depende somente - e totalmente - de nós mesmos? Eu acho que não, pois eu acredito na influência do destino e da sorte. Experimentamos o poder deles logo no nascimento (ou melhor, após isso): pobre ou rico; inteligente ou burro; feio ou bonito; carismático ou sem-graça; animado ou desanimado; ambicioso ou acomodado; saudável ou doente...Lá vem o Sr. Acaso moldando as nossas possibilidades. Há quem consiga virar o jogo; e existe quem passa a existência nadando e morrendo na beira da praia mesmo. Que me desculpem os self-made e as heroínas de Sidney Sheldon, mas sorte é fundamental. Claro, é aquela história batida: não espere ganhar na loteria sem antes ir à lotérica apostar. A sorte tem uma regra de ouro: ela só beneficia quem se preparou para recebê-la; do contrário, vira azar (e que azar!...Da série "Se mate, véio!"...kkk).
Na verdade, eu não acredito em felicidade mas em alegria, que diferentemente da felicidade - esta é um estado imaginário, como bem disse o Barão Vermelho numa canção -, é uma atitude constante. Há coisas que ajudam a melhorar ou a piorar a existência humana - não há como negar -, mas do que adianta possuir boas circunstâncias se não se tem o dom/determinação de ser alegre, de ver com bons olhos e ânimo o mundo?...Aliás, ter tudo deve ser um veneno para a alma, tanto quanto deve ser não ter nada. Ambas as situações levam à indiferença, ao tédio, e o tédio é uma teia da qual é muito difícil sair, por vezes.
Dr. Calligaris (o da Folha, não confundir com o do filme alemão - que é "Calligari" -, pelo amor de J.C.!) diz que a felicidade tem a ver com a sensação de estar vivendo uma vida que se julga valer a pena. Acho perfeita essa definição (é incrível como as melhores opiniões são geralmente as mais simples!). Mas quando reflito sobre isso, muitas vezes penso que meu conceito de felicidade é um pouco diferente do que creio ser o da maioria. Geralmente, a felicidade do povo é cumprir todas as etapas de uma vida "normal", ser admirado pelos outros, ter poder no grupo no qual vive. Minha idéia de satisfação pessoal (em "julianês" é o mesmo que felicidade, felicità, hapiness, etc) tem muito mais a ver com exercer poder sobre mim mesma que sobre os outros.
Bem, vou parar por aqui com esse blá, blá, blá à la Mais Você. Deixo-os com o texto de João Pereira Coutinho, publicado na Folha de São Paulo por esses dias.

Bom 2007, amigos!!!

Olha o passarinho!

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Pela primeira vez na história, sentimo-nos infelizes por não sermos felizes e interpretamos a felicidade como obrigatória
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A REVISTA "The Economist" dedicou o seu número de fim de ano ao único tema que apaixona as sociedades modernas: a felicidade. Pena que as conclusões da "Economist" não sejam propriamente felizes. Vivemos mais. Vivemos melhor. Mas, apesar de tudo, as sociedades ocidentais não se sentem mais felizes do que nossos antepassados.
Entendam: a "Economist" não nega que os ricos são mais felizes do que os pobres. O problema está no interior do clube afortunado. A nossa riqueza não se traduz necessariamente em maior felicidade. Vamos chorar?
Um momento, por favor: chorar não resolve a questão; e as respostas da "Economist", também não. Para a revista britânica, o problema está na natureza insaciável da natureza humana: atingimos um patamar material de satisfação e começamos logo a invejar o próximo.
Talvez seja. Mas a melhor resposta ao paradoxo da felicidade moderna encontra-se em livro de Darrin McMahon -um tratado de 500 páginas que é, opinião pessoal, o livro do ano. O título é expressivo: "The Pursuit of Happiness: A History from the Greeks to the Present" (a busca da felicidade: uma história dos gregos ao presente). E a tese de McMahon é singular: o nosso conceito de felicidade seria ininteligível para nossos antepassados.
A diferença começa logo na palavra: como acontece em todas as línguas indo-européias, "felicidade" envolve uma dimensão de sorte, às vezes de destino, como aliás acontece com o prefixo latino "felix", que construiu o termo em português, ou espanhol, ou italiano.
Por outras palavras: para nossos antepassados, a felicidade era algo que acontecia e não um produto de nossas vontades. Verdade que Sócrates inaugurou uma sensibilidade "racionalista" que procurava depositar nas mãos dos homens a possibilidade de suas próprias virtudes. Mas mesmo Sócrates e seus herdeiros entenderam sempre que a sorte tinha uma palavra decisiva em nossos arranjos e desarranjos.
Foi o Iluminismo continental do século 18 a quebrar seriamente essa herança: não apenas a herança helênica que concedia à sorte um papel de relevo; mas também a herança medieval, para quem a felicidade humana, literalmente, não residia neste mundo. Se o projeto iluminista se define por um traço comum, talvez seja por essa emancipação do conceito de felicidade de mãos divinas para mãos humanas.
Hoje, no meio da afluência ocidental, nós esquecemos os ensinamentos dos antigos e acreditamos que a felicidade depende exclusivamente de nós. Mais: pela primeira vez na história, sentimo-nos infelizes por não sermos felizes e interpretamos a felicidade como um projeto individual e obrigatório. Darrin McMahon propõe uma experiência: comparem as fotografias de hoje com as fotografias de nossos avós. A principal diferença está no sorriso: nós sorrimos por obrigação e convenção; eles limitam-se a olhar para a lente.
Não existem fórmulas. Mas existem conselhos. O primeiro é regressar aos clássicos e deixar que a sorte também tenha uma palavra em nossos destinos. E o segundo é aliviar a cláusula totalitária de ser feliz. Na noite de Réveillon, acreditem, não é obrigatório sorrir para o retrato.

domingo, 17 de dezembro de 2006

Festa estranha, com gente esquisita...


09.12 - Aniversário de Renatinha (com ênfase no "ti", que ela é alagoana). Cheguei tarde à beça, lá pelo fim do dia, e encontrei todo mundo "chamando urubu de meu lôro". Um grupo de mais ou menos dez pessoas praticamente secou um freezer lotado de lata de cerveja. Sério! E eu dei pouca risada com essas criaturas "em águas"?!...
O prédio da Renata é daqueles de um quarto; só tem solteiro, e de todos os tipos - os mais figuras, aliás. Pois foi essa galera que ficou encumbida de animar a festa, uma vez que metade dos convidados deram o bolo na aniversariante (o povo de Salvador adora fazer esse tipo de coisa...).
O pagode, pra variar, tava nas alturas. Consegui defender a "dignidade da pessoa humana" me esquivando dos convites para entrar nas coreografias, entre elas uma da dança da cadela, do cachorrinho - sei lá! -, na qual tinha que levantar a perna como o cachorro faz quando quer fazer o número 1. Olha, nessas horas eu começo a acreditar em hipnose e que ela possa acontecer coletivamente, e que certos produtores de música sabem como inseri-la no produto. Só isso justifica que seres humanos normais, alguns de famílias quase boas e com empregos respeitáveis, em grupo se sujeitem a imitar um cachorro "indo ao banheiro". Pois bem, não consegui escapar tão ilesa assim quanto disse. O refrão de "Eeeela é pro-ble-má-tica" até agora não saiu da minha cabeça. Mas tudo bem, poderia ser pior. Uma vez fiquei três semanas com o refrão de "Marrom Bombom" na mente (urghhhh!).
O troféu Cara-De-Pau vai para um dos convidados, o dono da Select do posto de gasolina ao lado. Ele simplesmente bebeu toda a garrafa de whisky que deu de presente à aniversariante, capotou no banheiro do salão de festas e ainda saiu carregado pelos convidados. No dia seguinte, ligou para saber se havia dado "muito vexame". Não tocou no assunto da garrafa.
E a(s) pergunta(s) que não quer(em) calar: de onde tirou idéia e com que finalidade Mineiro botou todos os homens da festa, ao mesmo tempo, para fazer um movimento com as mãos como quem mexe um caldeirão? Cartas à Redação... Os meninos o imitaram, mas sem entender a razão da coisa - afinal, com criança, louco e bêbado não se discute, né? Pra azar deles, havia uma câmera digital por perto, que registrou o mico. Se deram mal! hahahaha...

Cheguei tardão em casa. Com sono, meio com fome - não tive coragem de encarar a feijoada de um povo que só sabe cozinhar miojo (risos) -, mas valeu a pena, foi um dia legal.

domingo, 10 de dezembro de 2006

Os tipos de inteligência

Tá aí uma informação que quase todo mundo tem conhecimento mas quase ninguém leva a sério no dia-a-dia. E é uma pena que o tipo de inteligência matemática seja a mais apreciada - quer dizer, a pena fica por conta das outras serem desprestigiadas. Já vi muita gente boa botando tudo a perder por um erro de autopercepção, por se achar burro porque não tinha o tipo de inteligência que se convencionou como a melhor.
E como se defender disso? Afeta-nos, independentemente da nossa vontade. Como gosta de dizer a Camarada Lília, só somos sujeitos porque estamos dentro de uma cultura; não há subjetividade fora dela. (Claro, Camarada diz isso de forma muito mais chic; ela saca seu "academicês" do bolso e humilha total! hahaha...)
A culpa é da escola, a meu ver. Os próprios professores promovem esse tipo de segregação. Não é que as crianças sejam santas, mas elas não têm sofisticação para tanto; isso é coisa de adulto imbecil (e como tem professor tapado por aí!...). Aliás, quanto mais me torno adulta, mais me convenço de que as crianças deveriam ser criadas num espaço à parte para só serem reintegradas aos 12 anos, no mínimo.
Segue a matéria.



Conheça os 10 tipos de inteligência e veja qual delas você desenvolve melhor

da Folha Online
08/12/2006 - 14h27

O livro "Aumente sua Inteligência Semana a Semana", que acaba de ser lançado pela Publifolha, apresenta um programa completo de treinamento da mente para melhorar o desempenho diante de situações que exigem memória afiada, criação de boas idéias e respostas rápidas e bem elaboradas. As 52 dicas, descritas passo a passo, trabalham sobre dez tipos de inteligência. Confira quais são elas e se consegue se reconhecer em uma ou mais dessas descrições:

Lingüística

Você gosta de palavras e histórias. Os jogos de palavras o intrigam e você é um leitor ávido. Tem um bom vocabulário. Provavelmente gosta de aprender novas línguas. Você gosta de escrever e é capaz de lembrar lista de palavras e de contar boas histórias.

Matemática (ou lógico-matemática)

Você busca entender relações entre coisas diferentes. Você gosta de figuras, problemas abstratos, jogos de desafios e quebra-cabeças. Aprecia padrões, categorias e sistemas. Provavelmente você cria listas.

Visual (espacial)

Você percebe as cores, formas e texturas. Provavelmente usa imagens para ajudar a memória, e diagramas, mapas e rabiscos quando faz anotações. Pode ter habilidade para desenhar, pintar ou esculpir.

Física (ou cinestésico-corporal)

Você gosta de exercícios físicos, esportes e dança. Tem uma tendência a ficar de pé na primeira oportunidade, seja numa reunião ou numa festa.Você aprende arregaçando as mangas e entrando em ação.

Musical

Você está sintonizado aos sons e aos ritmos. Provavelmente adquiriu o gosto de ouvir música e cantar em tenra idade. Você lembra bem músicas e melodias. A música tem grande impacto no seu estado de espírito.

Emocional (ou intrapessoal)

Você tende a olhar para dentro de si mesmo, numa busca constante por autoconhecimento. Talvez mantenha um diário. Gosta de ter tempo para refletir e lida bem com suas emoções.

Social (interpessoal)

Você gosta da companhia dos outros e de conhecer gente nova. Demonstra altos níveis de empatia com outras pessoas.

Ambiental (naturalista)

Você é fascinado pela natureza e enxerga nela coisas que passam despercebidas a outras. Aprecia estar ao ar livre e gosta de animais.Tem forte interesse nos ambientes interno e externo do seu lar.

Espiritual

Você gosta de se confrontar com as questões fundamentais da existência. Tende a agir de acordo com os seus princípios, possivelmente questionando os modos ditos normais de se comportar, e provavelmente você cultiva crenças bem desenvolvidas.

Prática

Você gosta de fazer as coisas acontecerem. Costuma ser convocado para consertar ou montar coisas ou para encontrar soluções. Enquanto outros debatem o que precisa ser feito, você prefere pôr a mão na massa.

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quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Um mês de macaquices


Anteontem o Xixi de Macaco fez um mês. Este é o seu 25º post - uau! até eu mesma me surpreendi com meu fôlego blogueiro!
Sempre tive o hábito da escrita. "Tem certas coisas que eu não sei dizer", então as escrevo - é mais fácil assim. Ainda garotinha, por volta dos oito, nove anos, juntei dinheiro para comprar um diário, que se perdeu em alguma das minhas 20 mudanças de residência nos últimos 17 anos. Há nove mantenho um diário, e, faz anos, prometo a mim mesma que vou queimá-lo - pois, como todo diário que se preza, é ridículo; ele me constrange à beça -, mas sempre postergo a ação - a desculpa que dou a mim mesma é que corro o risco de queimar a residência da família, que preciso de um quintal amplo e particular para executar tal operação.
Fora de casa desde dezembro do ano passado, estou sem meu diário. Por isso resolvi criar um blog. Necessidade de escrever, de pôr as idéias em algum suporte - um que eu não precisasse carregar pelo circuito Itaigara-Cabula Six-Itapuã (em breve). A mão vinha "coçando" de vontade já há um bom tempo. Criei e gostei mais do que pensei que gostaria. Estava até comentando isso com Elen na semana passada...
É interessante como pequenos atos podem gerar mudanças significativas. Serei leitora até o dia que meus olhos agüentarem (e espero que isso seja no mesmo dia em que se cerrarem de vez), mas há muito tinha dúvidas sobre o prazer de escrever - e isso não tem necessariamente a ver com ser ou não ser jornalista. Pensei que havia me enganado sobre isso, e esta possibilidade me deprimia. Nada mais triste do que bancar o cachorro que corre atrás da mudança e que não sabe o que fazer quando o caminhão estaciona (apesar disso, considero que sempre vale a pena fazer a corrida, se assim lhe pedem os seus instintos). O blog me fez perceber que a escrita ainda é uma atividade capaz de me envolver. Que bom! : )

Bem, vou indo nessa.

Fiquem com a macaca!
(olha como ela tá um chuchuzinho de batom!...ou será que é ele? macaco é um bicho tão debochado que nunca se sabe!...)

PS: Deveria ter colocado uma foto da Gretchen, né? Afinal ela é a prova viva de que o homem realmente veio do macaco! (hahaha)

Os Dez Mandamentos de Lindeilson


Recebi esse e-mail da minha irmã. Dei muita risada! Lembrei do “casal 20” daqui de casa ao longo do texto. Acho que se meu pai tivesse o mesmo poder de Lindeilson, redigiria quase o mesmo contrato para minha mãe, mudando besteirinha. Na verdade, ele só faria realmente questão da primeira condição. (risos)
Não sei se dá para ler, mas, em linhas gerais, a história é a seguinte: Lindeilson é casado com Helenilda. A mulher é, segundo ele, siumenta e dezarrespeitadora moral (sic), e vive a pegar no seu pé por causa dos casos extraconjugais, dos amigos e, claro, da cervejinha. Eles se separam. Helenilda e a filha do casal se mudam, mas a menina adoece por causa da ausência do pai. Elas retornam ao lar.
Helenilda pede uma outra chance (sobe som: "Agora, que faço eu da vida sem você?! Você não me ensinou a te esquecer. Você só me ensinou a te querer..."). Ela jura que não é mais a mesma. Lindeilson desconfia, e só cederá com uma condição, ou melhor, com dez - que chama de "mandamentos" - registradas numa folha de caderno, uma espécie de contrato improvisado.
Nos dez itens, ele se dá o direito de fazer o que bem entender, desde "beber cervejas sem críticas", passando pelo privilégio de "ter casos eventuais com mulheres fora da área residencial" (prestou atenção na sofisticação da redação? é quase um jurista! hehe), até a liberdade de "ter amizade com pessoas que não falam com Helenilda" (essa foi top de linha, diga a verdade!não bastasse tudo, ele ainda vem com essa. hahaha).
Lindeilson, além de deveras “analfa”, é muito cara-de-pau!(risos) Mas eu aposto que Helenilda assinou essa aberração. Afinal, vale tudo para ficar com um homem do "quilate" de Lindeilson, não é não?! haha

sábado, 2 de dezembro de 2006

Adeus, Lênin!





Esta semana recebi um telefonema. Um daqueles que a gente preferia não ter atendido. Soube, por uma fonte fidedigna, que Camarada abandonou a causa socialista para se tornar mais uma a sucumbir ao mundo capitalista. "Ela comprou uma tela LCD para o computador, e ainda ficou frustrada porque não pôde colocar internet a cabo. Camarada não repete roupa na redação do jornal e anda pagando um carro 0 Km", relatou-me a fonte, espantada com a transformação da amiga. Desliguei, e, completamente chocada e desgostosa da vida, fui encher a cara, afogar as mágoas... com Coca-Cola – fiz questão que fosse com um dos maiores ícones do Capitalismo.
Dias depois, ainda sem conseguir acreditar no que ouvi, resolvi checar as informações. Liguei. Ela não estava. Viajou. "O que é isso, companheira?! Viajando no meio da semana?! Está virando uma personagem de novela de Manoel Carlos, vivendo como moradora do Leblon!", pensei com os meus botões. Alguns dias mais tarde, liguei novamente. Ela atendeu dessa vez. "Camarada, é verdade?". Ela confirmou, sem um pingo de constrangimento. E ainda disse mais: quando perguntei sobre a casa de veraneio na Ilha, deu de ombros e respondeu: “Ah, essa eu já doei!”. Quem joga dinheiro pela janela ou é socialista, ou é maluco ou tá podendo. Camarada pode e não nega.
"Quem te viu, quem te vê" – Há exatos nove meses, estava eu na rua com Camarada após mais um dia de reportagens para uma publicação na qual estávamos trabalhando. Ela me conduziu por um caminho que achei estranho, e, de repente, fiquei sabendo que estávamos em frente ao bandejão da residência universitária. Disse-me o seguinte: “Vou tentar falar com o cara, que é meu amigo, para ver se a gente come aqui (o restaurante serve refeições gratuitas)”. Eu a olhei ainda curiosa, e ela se apressou: “Pagar todo dia R$ 5 de almoço é quebrança, né!”, justificou.
Mês passado, estava Camarada numa cantina com um amigo, quando esse observou que a moça não se incomodava nem um pouco pelo fato do preço do seu almoço ter entrado na casa dos dois dígitos à esquerda. “É que a gente vai se acostumando a um determinado padrão, e passa a viver dentro dele”, filosofou, colocando a mão acima da cabeça enquanto pronunciava a palavra “padrão”. Seu acompanhante se defendeu: “Alto lá, Camarada! Fale por você. Meu padrão ainda está na altura do peito”.
Nota: Ela não se abalou com a observação do interlocutor. Vermelho?! Mas nem na face mais! Como costumava dizer um ex-presidente neoliberalista, assim não pode, assim não dá. "Até tu, Brutus?!"

Este blog pede ao seu leitor que faça um minuto de silêncio pela memória da luta da ex-companheira. Obrigada.


Legendas:

1 e 2 A estátua do Camarada Lênin fica sabendo da transformação da brasileira, e resolve partir de vez. Amigos dizem que Lênin declarou que, "após a abertura da China, o casaquinho de grife de Fidel e o almoço de dois dígitos da camarada do Brasil", não via mais motivos para prosseguir na luta.
3 Camarada Kerner comenta com o filho, Alex, a mudança da companheira de causa: "A queda do muro de Berlim eu até consigo digerir, mas Camarada ter sucumbido ao estilo de vida do Leblon é demais para mim. Quero voltar ao coma!", lamentou.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

O poder da reza

CONTARDO CALLIGARIS

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Mistério: estudo mostra que uma reza retroativa ajudou pacientes anos depois da internação
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UM AMIGO médico, Décio Mion, me fez conhecer um estranho debate que ocupou, de 2001 a 2003, as páginas do seríssimo "British Medical Journal".
Premissa: várias pesquisas, há tempos, mostram os efeitos positivos da reza numa variedade de condições patológicas. Documenta-se que o doente encontra benefícios (quanto ao andamento de sua enfermidade) no ato de rezar ou na consciência de que seus próximos rezam por ele. Até aqui, tudo bem: o paciente acharia assim uma paz de espírito que melhora sua evolução.
A coisa se complica: às vezes, as pesquisas mostram que a prece traz benefícios mesmo quando alguém reza por um doente sem que ele próprio saiba disso. Como explicar esses casos?
Talvez o benefício seja fruto de uma intervenção caridosa da divindade solicitada, mas essa explicação depende de um ato de fé que não cabe na interpretação de uma pesquisa científica. Além disso, é curioso que os benefícios apareçam seja qual for o deus ou o intercessor que receba a oração.
Resta, pois, imaginar que a intenção humana (o esforço cerebral de quem deseja que algo aconteça e reza por isso) tenha alguma realidade material (energia, partículas etc.) capaz de influir no andamento de um processo patológico. Estranho?
Nem tanto: afinal, até poucas décadas atrás, ignorávamos a existência de uma série de partículas que, segundo a física de hoje, povoam nosso universo. Por que as nossas intenções não movimentariam uma energia desconhecida, mas capaz de alterar o mundo físico? Nos EUA, nos anos 60-70, foram organizadas reuniões diante da Casa Branca com a idéia de que, se todos se concentrassem, a energia do dissenso faria levitar a residência do presidente americano. Embora cético, participei, convencido por um amigo que dizia: "Tentar não dói". Claro, não funcionou.
Ora, no fim de 2001, o "British Medical Journal", depois de um editorial lembrando que a razão não explica tudo, publicou uma pesquisa, de L. Leibovici (BMJ, 2001, 323), que registra os efeitos benéficos (em pacientes com septicemia) de uma reza afastada não só no espaço, mas também no tempo. Explico.
Foram incluídos no estudo todos os pacientes internados com septicemia, de 1990 a 1996, num hospital israelense; eram 3393. Em 2000 (de quatro a dez anos mais tarde), por um processo rigorosamente aleatório, os arquivos desses pacientes foram divididos em dois grupos: um grupo pelo qual haveria reza e um grupo de controle. Para cada nome do primeiro grupo, foi dita uma breve reza que pedia a recuperação do paciente e do grupo inteiro.
Resultado: no grupo que recebeu uma reza em 2000, a mortalidade foi (ou melhor, fora, de 90 a 96) inferior, embora de maneira pouco significativa; no mesmo grupo, a duração da febre e da hospitalização fora (ou melhor, havia sido, de 90 a 96) significativamente menor.
A publicação da pesquisa provocou uma enxurrada de cartas (BMJ, 2002, 324), algumas contestando as estatísticas, outras manifestando uma certa incompreensão do problema, que é o seguinte: como entender que uma reza possa agir não só sem que o paciente tenha consciência da intercessão pedida (com possível efeito psicológico positivo), mas à distância no tempo? Como entender, em suma, que uma reza dita em 2000 tenha um efeito retroativo em alguém que estava doente entre 90 e 96, quando a pesquisa e a reza nem sequer estavam sendo cogitadas?
Uma tentativa de resposta veio em 2003. O "BMJ" (2003, 327) publicou um interessante e enigmático artigo de Olshansky e Dossey, "History and Mystery" (história e mistério), em que os dois médicos dão prova de conhecimentos de física quântica muito acima de minha cabeça. O argumento de fundo é o seguinte: há modelos do espaço-tempo nos quais é possível que haja relações físicas entre o passado e o presente (ou seja, modelos em que o presente pode alterar o passado).
Que o leitor não me peça para explicar como isso aconteceria. As dimensões do "espaço de Calabi-Yan" e os "campos bosônicos", para mim, são tão obscuros quanto os ectoplasmas, os espíritos e os milagres.
Moral da história: embaixo do sol (ou da chuva), deve haver muito mais do que imaginamos, até porque nossa ciência está longe de ser acabada. Alguns colegas positivistas talvez durmam mal com esse barulho.
Eu não acredito nas paranormalidades, mas, em geral, durmo melhor ninado pelo mistério do que pelas certezas.

ccalligari@uol.com.br

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

"We are a family..."


"...I´ve got all my sisters (and Derniba) with me!".

Foto tirada no 30º aniversário da Renata, no Caminho de Casa. E quem adivinhar para onde estou olhando, ganha um doce!...Nem eu sei! haha...
Eu mesma queimo meu filme postando essa foto na qual estou com uma expressão bizarra. Tsc Tsc... Lamentável!(risos)
Olha, não ser fotogênica é um problema nessa era dos "holofotes para todos"; a tecnologia "está armada e apontada para a cara do sossego" do fotografado (risos). Mas quer saber?! Eu a-do-ro tirar fotos! Em breve, comprarei minha câmera! Para isso conto com a especialíssima consultoria de Vossa Santidade, que sempre me manda as promoções dos sites - né, Gri (risos)!

As três irmãs Renata, à esquerda, e Flávia, à direita.

domingo, 26 de novembro de 2006

Pensamento de um domingo melancólico

"O tempo é um ladrão", disse Liv Ullman, se não me engano. Nossa sorte é que ele também nos rouba certas coisas das quais queremos nos livrar.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

É meu amigo! É meu amigo!*

Eu me lembro
OPINIÃO - A Tarde - sábado, 18/11/2006


CLAUDIO LEAL

Andávamos todos a perguntar: e o filme de Navarro, quando sai? Por que não sai o filme de Navarro? Você já viu Eu me lembro? Penso no quanto nos vulgarizamos a ponto de negar ao cineasta Edgard Navarro as condições materiais para realizar seu primeiro longa-metragem. A fita parecia um poema de Paul Éluard no casaco do pintor Cícero Dias, antes de chegar às mãos do General de Gaulle, na Resistência Francesa. Finalmente em cartaz o poema de Navarro: Eu me lembro.
Um navio abre o filme. Memória que abraça o transatlântico de Amacord, de Fellini, na noite de um vilarejo italiano – o mundo que nos passa distante; melancolicamente, aceitamos o nosso. Navarro desembarca do Vera Cruz as suas memórias de infância.Mas que as pinceladas autobiográficas não desbotem seu impulso recriador. Eu me lembro é o desenvolvimento de um homem em seu tempo. E a lembrança de Fellini não é ocasional: o menino Guiga imerso na educação religiosa, coagido pelo destempero do pai, cercado de paredes incestuosas, comovido com o universo felliniano, poético e grotesco.
O olhar do adulto não se intromete nas memórias infantis. Cá está um dos méritos do filme. Navarro reconstruiu as memórias sem a verborragia que o caracteriza. Alguma parte de seu desencanto, de seu humor destrutivo, transparece nas seqüências do vitral da escada. A irmã explica a Guiga que por trás dele há um céu, um Deus. Mais tarde, uma pedra é lançada contra o vidro. E o garoto percebe que, do outro lado, havia apenas a vizinha a ajustar as roupas no varal. Esse momento de apostasia não arranca dele todos os traços da formação cristã. Arrisco dizer que o diretor continua a olhar o mundo da perspectiva do vitral quebrado. Nada o fará, no entanto, restituir a fé.
O trabalho de direção dos atores ressaltou os talentos de Fernando Neves (Guilherme, o pai), Valderez Teixeira (Créu), Arly Arnaud (Aurora) e Lucas Valadares (Guiga) – que não se percam no vazio cultural baiano. Atores preciosos. Gosto menos quando surge a ditadura militar. Os personagens discursam platitudes. Vema intromissão de fotos de guerrilheiros mortos e o filme empaca na superfície. Mas a crise nervosa devolve Guiga aos fantasmas da infância. Bela a cena em que pergunta aos céus o que é que há. Nesse conflito, Navarro nos conduz ao fim. Mas terá apaziguado os tormentos de criador? As viúvas do pretérito que me perdoem, mas Eu me lembro supera qualquer filme do Ciclo Baiano de Cinema (1959-1963) – não desconsidero os momentos históricos, muito menos os avanços técnicos; falo da intensidade dramática, congregada ao humor, atingida por Navarro. Agora que nos iluminamos com seus horrores e libertinagens, passamos a ser também responsáveis pela concretização de seus próximos filmes.
Num artigo sobre Eu me lembro, o crítico André Setaro, estudioso pioneiro dos ciclos do cinema baiano, sintetizou no título um compromisso geracional: “Que toda a dor se transforme em luz”. Assim na terra como no inferno.
* O jornalista, e não o cineasta.

sábado, 18 de novembro de 2006

"Painho" fala a Veja


Entrevista: Antonio Carlos Magalhães
O príncipe da Bahia

À maneira de Maquiavel, o pensador
florentino, ACM diz que, entre ser respeitado
e ser querido, fica com a primeira opção

Thaís Oyama

Só há um assunto do qual o senador Antonio Carlos Magalhães entende mais do que política, e esse assunto é poder. Seja por usufruir dele há mais de meio século, seja por ter convivido com quem o teve em abundância, ACM lida com naturalidade com o tema – e o aprecia também. "Tenho gosto pelo exercício do mando", diz. Nas últimas eleições, o mando do senador sofreu um baque histórico. Além de assistir a seu grupo perder a hegemonia de dezesseis anos na Bahia, viu-se, pela primeira vez, cercado de adversários por todos os lados: na prefeitura, no governo estadual, no governo federal. Próximo de completar 80 anos de idade, ele admite a derrota, mas não o fim do jogo. "Voltarei com mais força do que tinha antes", afirma. ACM, que se orgulha de ser "a única sigla que pegou no Brasil, além de JK", recebeu VEJA em sua cobertura em Salvador para uma conversa em que falou de política, presidentes – e, claro, poder.

Veja – Em 2004, seu grupo já havia perdido a prefeitura de Salvador e, nas últimas eleições, foi derrotado também no governo estadual. Em 2007, o senhor fará 80 anos. Acha que ainda pode recuperar sua antiga força política?
ACM – Tenho certeza. Vou voltar com mais força do que tinha antes, porque os meus adversários fracassarão. E fracassarão porque sabem fazer campanha mas não sabem governar. De maneira que minha volta não será fruto do meu trabalho, e sim fruto do erro deles. Como já disse, derrotados não falam, derrotados esperam. Quantas vezes já disseram que o carlismo havia morrido?

Veja – Algumas.
ACM – Em 1986, quando perdi o governo para Waldir Pires; em 1998, quando o meu filho (deputado Luís Eduardo Magalhães) morreu; em 2001, quando renunciei; em 2004, quando João Henrique ganhou a prefeitura. Hoje, se você perguntar sobre João Henrique em Salvador, ninguém dirá uma palavra simpática. E digo mais: não é justo dizer que fui derrotado no governo estadual. O próprio Paulo Souto (atual governador da Bahia, candidato de ACM à reeleição e derrotado no primeiro turno pelo petista Jaques Wagner) disse à imprensa: "Quem perdeu fui eu. Até porque o ACM se meteu muito pouco ou quase nada no meu governo".

Veja – Não foi o senhor que mandou que ele desse essa declaração?
ACM – Não, eu não tenho conversado muito com ele. Só vou lá para dar carinho a Paulo Souto, não para chateá-lo. Ele mesmo achou que tinha a obrigação de fazer isso. Mas que eu estava com vontade de dizer isso, estava.

Veja – O senhor conheceu dezesseis presidentes da República. Conviveu com diversos deles e foi íntimo de alguns. Quem, dentre todos, considera o melhor?
ACM – Juscelino, de quem fui mais próximo (ACM prepara um livro sobre o período em que ele, jovem deputado udenista, se tornou amigo do presidente bossa-nova). Juscelino foi o melhor porque tinha gosto pela administração e porque tinha o dom de não guardar mágoas de ninguém, mesmo daqueles que mais o injuriavam, mais o atacavam.

Veja – Essa é uma qualidade positiva num político?
ACM – Para aqueles que conseguem, sem dúvida é uma boa qualidade. Evidentemente, não é o meu caso.

Veja – O senhor é admirador de Napoleão Bonaparte e leu quase todas as suas biografias. Que características admira nele?
ACM – O gosto pelo poder é a primeira. Também admiro sua visão de mundo – para alguns, imperialista. E o fato de que ele sabia mandar. Saber mandar é uma coisa vocacional. Se você sabe mandar, vai poder mandar em tudo: da sua casa até o órgão mais importante da República. Se você não sabe mandar, pode assumir grandes postos e não adiantará nada – acontece o que está acontecendo hoje no Brasil. Esse problema do controle aéreo, por exemplo: quando isso ocorreu nos Estados Unidos, o presidente (Ronald) Reagan resolveu em 24 horas. Quem está aí não sabe mandar.

Veja – O senhor se refere ao presidente Lula ou ao ministro da Defesa?
ACM – O presidente é o maior responsável, mas o ministro da Defesa não poderia estar ali. Ele não conhece o assunto, fica sabendo das coisas por terceiros, e o resultado é que acha que está tudo na maior normalidade. Um apagão aéreo! Isso é normal? Se tivesse lá alguém de pulso, isso já teria terminado.

Veja – Dos presidentes que o senhor conheceu, quem melhor sabia mandar?
ACM – O presidente mais completo era Juscelino, mas comandava com suavidade. O mais duro no mando, mas muito competente, era Geisel. A figura dele já impunha autoridade. Nem por isso deixamos de ter algumas divergências, como no caso da Light. Quatro ministros já haviam assinado a entrega da Light por uma bagatela, um negócio que iria beneficiar umas vinte pessoas no Rio de Janeiro. Eu era presidente da Eletrobrás e resisti. O Geisel chegou a se levantar e dizer: "Você quer mandar? Sente na minha cadeira, então". Mais tarde, ele me chamou para uma viagem a Santarém e disse: "Olha, vou lhe dar razão no caso da Light. Mas, se você sair por aí contando vantagem, eu o demito". Isso também é saber mandar.

Veja – Qual dos presidentes não tinha essa vocação?
ACM – Figueiredo. Figueiredo não sabia mandar. Quando tentava, não era obedecido. Havia uma forte razão para isso: ele mandava muito errado. Seu fracasso como presidente acabou apressando o fim do regime militar.

Veja – E Lula?
ACM – Não manda. Ele me disse certa feita que havia comprado um carro novo e o partido o obrigou a vendê-lo. Noutra vez, a Erundina (ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina) o convidou para um espetáculo no Teatro Municipal e o partido achou que ele não devia ir, porque era no Municipal – muito burguês. Ele me disse isso numa conversa em 18 de dezembro de 1995, na casa de um amigo comum, o doutor Márcio Thomaz Bastos. Agora, está tentando se livrar do petismo criando o lulismo. Ele está tentando, não sei se vai conseguir. Sei que, se conseguir, isso será prejudicial ao país. No momento em que se tenta fortalecer os partidos, fazer uma reforma política, vem o lulismo? Isso é um retrocesso do ponto de vista democrático.

Veja – Como o senhor avalia os primeiros movimentos do presidente depois da reeleição?
ACM – O mal do Lula é que, em seu primeiro mandato, ele fez um governo fraco com homens fracos. Tudo leva a crer que vai repetir esse erro. Se você olhar os nomes que estão visitando o Palácio do Planalto nesses últimos dias, verá que são tão fracos como os que estão aí. Todos com passado ruim. Lula fez um ministério de derrotados. À exceção do doutor Márcio Thomaz Bastos – que é a alma deste governo, porque, com a prática da advocacia criminal, o salvou –, só tem a Dilma Rousseff. No governo Lula, a pessoa que sabe mandar é Dilma Rousseff. Ela tem capacidade.

Veja – O que o senhor acha da estratégia de Lula de aproximar-se dos governadores como forma de driblar a oposição no Congresso?
ACM – É um grave erro. Mesmo porque, de modo geral, os governadores não têm levado as suas bancadas. No Senado, temos hoje uma maioria provável para determinadas votações. Jamais o presidente Lula conseguirá uma reforma constitucional, que exige 49 votos, se não for acertando conosco. Agora, o campo dessa conversa tem de ser o Congresso, e não o Palácio do Planalto. O Congresso é para conversar. O Palácio do Planalto é para cooptar.

Veja – O pensador florentino Nicolau Maquiavel dizia que o governante deve ser antes temido do que amado. O senhor concorda?
ACM – O ideal é ter as duas coisas, mas, entre ser respeitado e ser querido, prefiro ser respeitado. O amor é instável. Hoje você é querido, amanhã não é. Já o respeito é permanente. É fruto da credibilidade que você adquire. O sujeito não chega batendo em sua barriga. Agora, autoridade não significa autoritarismo. O autoritarismo é coisa dos incompetentes, dos que querem aparecer pela força.

Veja – Mas o senhor mesmo já destruiu gravadores de repórteres e agrediu fisicamente adversários. Não foram manifestações de uma personalidade truculenta?
ACM – Os meus adversários me adjetivam assim, mas não sou. Eu lhe digo sinceramente: há jornalistas de quem não gosto. Nunca me fizeram nada, mas não gosto deles. Eu sei que não gostam de mim, por que vou gostar deles? Sou muito intuitivo: olhando para você, sei o que você pensa de mim. Depois de cinqüenta anos lidando com pessoas, isso não é nenhum dom sobrenatural.

Veja – Voltando à questão da autoridade: que atitude é necessária para preservá-la?
ACM – Por exemplo: se você me faz uma pergunta altamente ofensiva, fecho a cara para você e você não faz a segunda.

Veja – Entendi.
ACM – Não, não estou falando isso para você. É um exemplo que não precisa servir para um jornalista, pode ser para um deputado. O que não pode é você deixar passar de um certo limite. Um limite que você adquiriu com o quê? Com seus três mandatos de governador, não sei quantos de ministro, com cinqüenta anos de política, com seus cabelos brancos, tudo isso.

Veja – O senhor disse que tem "gosto pelo exercício do mando". Quais as boas coisas que o poder proporciona?
ACM – O poder tem de ser um instrumento para você realizar, para você servir à coletividade. O poder pelo poder, pela satisfação pessoal, nunca dá certo. Os que quiseram fazer isso fracassaram. (Fernando) Collor é um exemplo.

Veja – Mas o senhor preza os ritos do poder. Quando era presidente do Senado, fazia questão de que seus assessores o aguardassem todos os dias na entrada do Congresso, por exemplo.
ACM – Até hoje é assim. Quando chego ao Senado, gosto que os meus auxiliares estejam me esperando na porta. E que me levem à porta na hora de eu ir embora. Meu ritual é completo. Eu disse uma vez a Luiz Viana Filho (seu antecessor no primeiro mandato como governador da Bahia) que era muito chato passar em revista as tropas. Ele me disse: "No início você acha chato, depois se acostuma e depois sente falta".

Veja – Qual foi o seu maior erro político?
ACM – Acho que foi a troca de agressões com Jader Barbalho.

Veja – Por quê?
ACM – Porque resultou no meu afastamento do Congresso e no dele.

Veja – O senhor costumava se aconselhar muito com o seu filho, Luís Eduardo. Desde a sua morte, qual foi o momento em que mais sentiu falta desses conselhos?
ACM – Eu sinto a falta de Luís Eduardo todos os dias – diria até que em todos os momentos. Mas dos seus conselhos, da sua ajuda, acho que senti mais falta em 2000, 2001, quando tive aqueles problemas no Congresso.

Veja – O senhor se refere à violação do painel de votação do Senado e à descoberta de que adversários seus e uma amiga haviam sido grampeados? (Ambos os episódios foram atribuídos a ACM).
ACM – Eu não tive nada com o painel. Nada com o painel. Eles me puniram exclusivamente porque não puni o (José Roberto) Arruda (então líder do governo no Senado) e a dona Regina (Regina Borges, então funcionária do Senado). Entendeu? A tese era essa: eu tinha de puni-los quando tomei conhecimento do fato. E não puni porque achava que era muito pior tornar sem efeito a votação do que consumá-la. A votação era uma vontade do Congresso e era uma coisa justa.

Veja – Quanto ao episódio dos grampos, o senhor também o considera uma injustiça?
ACM – Quando eu digo que não tive nada diretamente com o assunto, as pessoas não acreditam por causa das coincidências que existiram. Mas o fato é que não tive nada diretamente com isso. Agora, confesso que esse é um assunto de que, em respeito às pessoas que estiveram envolvidas nele, eu não trato. Se Luís Eduardo estivesse comigo naquele momento, eu não teria passado por nada daquilo, tenho certeza. Ele próprio teria atuado em meu favor e resolvido os assuntos, com certeza absoluta.

Veja – Existe alguém que o senhor não perdoe?
ACM – Tenho um caso apenas. É o de uma pessoa que afrontou a memória de minha filha (Ana Lúcia, que se suicidou em 1986, aos 28 anos). Mas tenho como regra não declarar o nome dos meus inimigos. Inimigo você deve esquecer. Se você o esquecer, ele morre por si. Claro que nem sempre você consegue esquecer, mas, na aparência, tanto quanto possível, deve ignorá-lo – o que não significa que não deva destruí-lo no tempo certo.

Veja – O senhor se considera vingativo?
ACM – Não. Ao contrário do que dizem, não sou vingativo. Meus inimigos se destroem por si próprios.

Veja – O senhor tem medo de quê?
ACM – De nada. De nada, nada, nada. Aquilo que o Schmidt (o poeta e editor Augusto Frederico Schmidt) disse de Juscelino, podem dizer de mim também: "Deus o poupou do sentimento do medo". Agora, uma coisa devo dizer: os homens que têm juízo devem sempre temer o ódio das mulheres.

Veja – O senhor já perdeu uma filha e um filho. Já adoeceu gravemente, já sofreu grandes derrotas políticas e já teve de renunciar a um mandato sob a ameaça de tê-lo cassado. Em todas as ocasiões, pensou-se que o senhor submergiria e isso não aconteceu. O que lhe dá energia para voltar sempre?
ACM – A vontade de demonstrar aos meus adversários que eles são bem mais fracos do que eu. É isso que me move. Se não fossem os meus adversários, talvez eu já tivesse deixado a vida pública. Eles são o melhor incentivo que tenho para continuar lutando. Os inimigos nos fustigam, nos chateiam, mas, sem eles, não tem graça

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Na cova dos leões



Morreu Ana Carolina Reston, modelo de 21 anos, de insuficiência renal, ou melhor, de anorexia. Morte por anorexia me deixa triste porque indica mais do que um transtorno mental do morto quando era vivo; é a prova do estado de abandono e solidão em que se encontrava. Afinal, demora-se meses e meses até que a pessoa fique gravemente doente. E, nesse meio tempo, ninguém vê nada, não nota que a pessoa está definhando, é?! Depois todo mundo sabe chorar e se lamentar, mas ninguém quer ter um pingo de trabalho.
Essa menina certamente dava um bom lucro à agência e à família, e devia sofrer pressão para isso. Pra quê ajudá-la se quem está se dando mal com a doença é ela mesma e ninguém mais, né?
Isso me lembra, embora pareça que não tem relação alguma, um caso que aconteceu com a minha vizinha cega, há pouco. Ela comprou sozinha um produto numa loja de eletrodomésticos e foi lesada pelo maldito do vendedor (pode!?). Não foi a primeira vez que fez algo do tipo. Minha vizinha perdeu a visão aos 71 anos, e não aceita de jeito nenhum o fato. Vira-e-mexe tenta provar que não precisa de ninguém. É que com a capacidade de ver foi-se também a dignidade dela - acho até que essa foi a pior perda, na verdade -, e a dignidade neste mundo está demasiadamente atrelada à auto-suficiência. É feio e humilhante precisar dos outros, depender, "incomodar". Ninguém dá a ela mais atenção agora do que quando era vidente. Claro, não se trata de fazê-la de coitada (isso também tira a dignidade), mas não é a mesma pessoa, com a mesma capacidade de antes. É fato, e isso exige adaptações da parte dela e de quem a cerca. A questão é que a cegueira já não é novidade, assim como depois de amanhã não será mais a morte da garota.
Não é só a fama que dura 15 minutos hoje em dia. As emoções também.
Ana Carolina e minha vizinha foram "premiadas" com a falta de empatia e atenção. Haverá um dia, e acho que não está muito longe, no qual os bebês vão ter que se limpar, se alimentar. O horror à dependência é um valor muito forte em nossa sociedade, para todos nós, infelizmente. É horrível admitir isso, mas é verdade. E é mais forte que a gente, às vezes...Muitas vezes!

Passando pelo UOL, me deparei com este artigo de Rosely Sayão. Muito oportuno!

Onde estão os adultos?

Vocês devem ter lido a notícia da morte da garota Ana Carolina, 21 anos, modelo. Ela foi vítima de anorexia. Esse tipo de notícia sempre me faz pensar muito. Afinal, qual a parcela de nossa responsabilidade nessas mortes trágicas de jovens? Não dá para fazer de conta que não temos nada com isso, não é verdade? Será que não estamos jogando nossas crianças e nossos jovens aos leões?Nossos jovens buscam, hoje, um corpo perfeito. O índice de cirurgias plásticas praticadas em adolescentes em nosso país já é alarmante. O de distúrbios alimentares também, e as garotas são as vítimas preferenciais. A anorexia, por exemplo, é nove vezes mais comum em mulheres do que em homens. A idade em que mais ocorre é na adolescência, mas os médicos dizem que ocorre cada vez mais precocemente. Essa busca por uma aparência socialmente cultuada pode ser constatada facilmente por qualquer observador. As academias de ginástica estão repletas de jovens e consultórios de médicos que orientam dietas também, só para citar dois indicativos do fenômeno. E a fabricação e a comercialização de produtos diet e ligth, então? Alguém já parou em frente a uma banca de revistas e olhou atentamente para as capas delas? Mulheres magras, sempre muito magras.
Parece que ter um corpo magro, hoje, é fundamental. Os adolescentes que não são magros sabem muito bem o peso que é carregar um corpo que não se encaixa nesse padrão. Mas, precisamos saber que nós alimentamos cotidianamente esse conceito. Nós, os adultos. Quem paga as cirurgias desses jovens, quem estimula – mesmo sem perceber – o consumo de alimentos de baixas calorias, quem banca as mensalidades das academias, afinal? Quem consome as caras roupas mostradas em desfiles por essas modelos extremamente magras?Estamos tão ocupados na busca de nossa juventude permanente - tema que tem muito a ver com a aparência também - que estamos tratando de questões delicadas da vida dos mais novos com muita displicência. Outro dia, uma leitora reagiu a um texto meu e escreveu perguntando se eu não tinha compaixão pelos pais. Vou falar com franqueza: minha compaixão é dirigida às novas gerações. Os mais novos, crianças e adolescentes, precisam de nós. E, pelo jeito, estamos tão mergulhados em nós mesmos que o lugar de adulto perante eles tem permanecido vago. Não é à toa que a palavra educação tem sido tão usada – muitas vezes de forma inconseqüente – na atualidade. Educar exige a presença de adultos. Onde estão eles?

***

Às vezes há pessoas próximas a nós em situação delicada, mas não conseguimos ajudá-las por melhor que sejam os nossos esforços neste sentido. Quando fico sabendo de casos assim, lembro-me das palavras do Reverendo MacLean, personagem de A River Runs Through It/Nada é para sempre - filme de fotografia belíssima dirigido por Robert Redford:

Cada um de nós alguma vez na vida olhou para um ser querido que estava necessitando de ajuda e se fez a mesma pergunta: Nós estamos dispostos a ajudar, mas se há alguma coisa a ser oferecida, o quê? É fato que freqüentemente não podemos ajudar aqueles que nos são mais próximos. E que nem sabemos qual parte de nós devemos oferecer ou, com mais freqüência, a parte que temos que oferecer é recusada. E assim aqueles com quem convivemos e que deveríamos conhecer nos iludem. Mas nós ainda podemos amá-los - nós podemos amar completamente sem compreender por completo.

Massa, né?
Ah! Os americanos realmente são feras na arte de escrever diálogos para o cinema!

Grávidos!

Extra! Extra!
Notícia de última hora: Donaldson e Lilian estão grávidos! Êêê!!!...Parabéns ao casal!
E como seguimos a cartilha leãolobiana neste blog, damos sempre os créditos da informação: P@Z Cintilante Comunicação.

***
Vejam que linda coincidência: os quatro que viajaram para Cruz das Almas na disciplina de Impresso tiveram destinos "casadinhos": Don e Paulo estão casados e serão papais em 2007; Lisbôa e Salvatore estão trabalhando nos dois mais famosos jornais paulistas, solteiros na selva de pedra!
O destino é ou não é "uma gracinha" (copyright by Hebe Camargo)?

A lógica da irracionalidade

O trecho abaixo foi retirado do perfil do estilista Guilherme Guimarães, escrito por Danuza Leão e publicado no primeiro número de Piauí, em outubro. Essa, aliás, é uma revista bem bacana cujo critério de noticiabilidade é o texto em si, sua qualidade, e não a relevância do tema ou a sua atualidade. Não sei quanto tempo vai durar - acho que não muito -, então, vamos aproveitar Piauí enquanto é tempo.

Este post eu dedico ao Alex, que nunca entendeu muito bem a lógica por trás das minhas conclusões aparentemente sem racionalidade (risos).


Conta sobre o dia em que viu Zélia Cardoso de Mello na televisão, garantindo que não mexeria na poupança; na hora, lembrou que dias antes, numa festa em Brasília, Zélia tinha usado uma estola de pele, e aí ele pensou: “Não é possível acreditar em quem usa uma estola de pele no calor de Brasília” — e tirou todo o dinheiro da poupança.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Dr. Contardo: O espírito de porco da razão


Eu gosto de ler e ouvir esses médicos que aparecem na imprensa, especialmente os psicanalistas. Dr. Gikovate, Dr. Angelo Gaiarsa...Bem, se não nos fazem mudar, ao menos colaboram para o autoconhecimento e instigam novos caminhos para o pensamento.
Meu preferido é o Dr. Contardo Calligaris. Leio toda quinta-feira a coluna dele na Ilustrada. Isso até me intriga pois, desses, é o mais - se não o único - "Poliana", e esse não é o meu estilo. Mas talvez goste do Dr. Contardo justamente por causa disso, por conta desse esforço que faz para não ceder ao cinismo - uma das marcas fortes do nosso tempo - ou à visão catastrófica das coisas.
O texto abaixo foi publicado na Folha de São Paulo, no ano passado se não me engano. Aliás, quem não viu, veja Hotel Ruanda! Boa história, comovente mesmo, daquelas de dar nó na garganta e fazer refletir por dias.

"Hotel Ruanda" e o espírito de porco da razão

O que você estava fazendo entre abril e junho de 1994? Para mim, foi uma época sem grandes eventos: atendia a meus pacientes, cuidava de filhos, família e tal.
Pois bem, enquanto tocávamos nossa vida, em Ruanda (um pequeno país que até então mal sabíamos situar no mapa da África) 1 milhão de homens, mulheres e crianças foram assassinados. Uma média de 10 mil por dia, a golpes de facão.
Graças à estréia do filme (imperdível) "Hotel Ruanda", de Terry George, muito está sendo escrito, nestas semanas, sobre a história do massacre e suas "causas" absurdas. Mas quero apenas pensar no grito das vítimas pedindo ajuda e na nossa capacidade (ou incapacidade) de ouvir e intervir. No caso de Ruanda, a intervenção foi nula: depois do assassinato de dez soldados da força que devia manter a paz no país, as Nações Unidas evacuaram os ocidentais e diminuíram sua presença armada até à insignificância. O maior esforço da ONU, durante a crise, consistiu em evitar qualificar os acontecimentos como genocídio, pois esse termo teria forçado o conselho de segurança a recorrer à força para pôr fim ao massacre e punir os responsáveis.
As hesitações do mundo inteiro eram compreensíveis: uma expedição militar apropriada custaria caro em fundos e vidas. Agir sem a coragem de encarar baixas seria uma estupidez; a prova já fora feita em 1993: depois da morte de 18 soldados americanos em Mogadício (narrada em "Falcão Negro em Perigo", de Ridley Scott), a ONU, simplesmente, voltou para casa, deixando a Somália nas mãos de hordas de bandidos.
Obviamente, qualquer governo, na hora de oferecer meios e tropas, prefere sentir-se legitimado pela opinião de seu povo: se não pela voz das massas, ao menos pela das elites pensantes. Quando o presidente Clinton, em 1995, despachou 20 mil soldados para a Bósnia, sua decisão era aprovada por apenas 36% da população americana. No entanto muitos intelectuais e jornalistas americanos pressionavam o governo: viajavam para a Bósnia, relatavam o horror e elevavam sua voz pedindo uma intervenção imediata.
Chegaram a ser chamados "bombardeiros de laptop". Ora, freqüentemente, durante as tragédias dos últimos anos, as elites intelectuais ocidentais se esqueceram daquela idéia da razão moderna que diz assim: qualquer homem é nosso semelhante, nosso vizinho. Com isso, recusaram-se a ser porta-vozes do grito das vítimas. Preferiram (e seguem preferindo) adotar outros traços da razão moderna, confirmando o pessimismo de Max Horkheimer em "Eclipse da Razão" (ed. Centauro). Para a razão moderna em sua versão cínica, 1) não há avaliação objetiva dos atos, ou seja, o que importa não é considerar os efeitos de um ato, mas avaliar as motivações do agente, 2) toda motivação é, em última instância, interesseira. Conclusão: a ação é sempre culpada, pois suas "verdadeiras" razões devem ser sórdidas.
Uma das conquistas iniciais da razão moderna foi a descoberta seguinte: os acontecimentos não se confundem com necessidades naturais - atrás deles, sempre há interesses subjetivos. Essa conquista se transforma em miséria por causa de um estranho espírito de porco, que conclui: quem se mete é sempre sujo, melhor não se meter e reservar-se assim o direito de berrar, ao mesmo tempo, contra a inação dos poderosos ou, caso eles se atrevam a agir, contra os motivos supostamente abjetos de sua ação.
Assim, as tropas brasileiras estão no Haiti para servir à política escusa (e fracassada) do Itamaraty. Imaginar que elas estejam salvando vidas, por mais que seja um fato, seria um conto para boi dormir. Se houver baixas brasileiras, só ouviremos críticas à política do governo; nenhuma palavra sobre o grito dos haitianos: será que ninguém ouve?
Os que dizem hoje que "Hotel Ruanda" é um ato de acusação contra a covardia do Ocidente são os mesmos que protestaram contra a intervenção da Otan na Bósnia. Os que se indignam porque o Ocidente deveria intervir hoje no Sudão gritariam, se a intervenção acontecesse, que o Ocidente está apenas perseguindo seus sinistros desenhos. Para eles, quem age é vergonhosamente interesseiro e quem não age é um covarde: só eles, que protestam contra os dois, saem bem na foto. Essa é a moral do espírito de porco da razão moderna.
Pequeno dilema moral. Um de meus filhos me contou que, na semana passada, voltando para casa de bicicleta, viu uma moça que acelerava o passo enquanto estava sendo importunada por um homem. Ele perguntou à moça se ela precisava de ajuda. A moça respondeu que sim, por favor. Meu filho (capoeirista) encarou o homem; uma rasteira resolveu a situação.Ora, talvez ele não tenha se metido pelas melhores razões: ele é briguento e, provavelmente, estava interessado na moça. Além disso, comprar uma briga noturna com um desconhecido é um risco insensato, que eu preferiria que ele não corresse, sem contar que uma rasteira pode matar quem cai sem preservar a nuca. Agora, ele teve ou não razão de intervir?



sábado, 11 de novembro de 2006

A festa (no apê) de Nandete






Danuza Leão, em sua crônica do domingo passado, falou sobre a mesmica que resulta da educação exemplar. Danuza - que talento!...que raiva dela!(risos) - mais uma vez tem razão: pessoas muito educadas são sempre iguais. Mas Danuza não conhece Nandy. Se a conhecesse, a apresentaria como a exceção da sua teoria. Definitivamente Fernanda tem personalidade, mas sem abrir mão de ser uma lady ("Yeah! She´s a lady" - lembrei agora da canção de Tony Bennett). Uma personalidade superemocional que, segundo um amigo em comum nosso, a faz sentir tudo três vezes mais que o resto da humanidade. Não é à toa que ama a cultura hispânica ("Los ricos también lloram", né, Nandy? haha).
Hoje aconteceu a feijoada em comemoração ao aniversário dela, que fez anos ontem (10/11). Esperei el autobús por séculos, mas, cansada, entreguei os pontos, me deixei nocautear pelo cansaço. Horas mais tarde, fiquei chateadíssima comigo mesma por isso. Entretanto, mais pirada fiquei com a falta de compromisso de Donaldson que havia me ga-ran-ti-do uma aparição exclusiva no meu aniversário, em março de 2007. Que negócio é esse de comparecer na reunião de Fernanda?! A Fraude, que sempre nos dá el cano, também apareceu. Até Camarada Lília!...Enfim, não tivesse eu dado a louca (e o zig na comemoração), o quórum da feijoada de Fernanda teria me tirado a poli position. Deus definitivamente escreve certo por linhas tortas!
Mas a próxima eu não perco, Fernanda! Se Deus quiser, estarei em condições de participar de todas as sete comemorações na ocasião do seu 25º aniversário! "Ôpa!"
FELIZ ANIVERSÁRIO, NANDY!!!

Um dia nós, seus amigos, ainda ouviremos dizer que a Editora Trip disse a você as mesmas palavras, cantadas por Carly Simon, que fizeram tão felizes o James Bond e a Bond Girl em "007 - O espião que me amava":

Nobody does it better
Makes me feel sad for the rest
Nobody does it half as good as you
Baby, you're the best

Legendas:
(1) Nosso amigo Alosa atrasa cinco horas e se chateia por não ter encontrado Ingrid para poder dar-lhe os parabéns no estilo "antes tarde do que nunca". Ok, ok. O que importa - fora que o Banco Real dá dez dias sem juros no cheque especial - é que ele compareceu.
(2) Esq-dir: Ingrid, Cláudio, Don, Camarada e Eduardo atacam o feijão das Braga Girls.
(3) Durante comemoração no Bar do Chico, Nandy passa o título de "Seios Inclassificáveis" (Copyright by Luciano) para a amiga Gri (pec.7).

Fotos by P@Z Cintilante Comunicação

Prejuízos da maternidade







Eu tenho duas teorias sobre a maternidade: 1) no período em que se tem um novo bebê na família, geralmente alguma situação de sorte acontece nela; 2) a gravidez, não importa se é a primeira ou a quarta, tira um pouco da vitalidade, da jovialidade, da mãe.
Olhe as primeiras duas fotos de Britney Spears e Katie Holmes. Olhou? Agora olhe as duas últimas, abaixo, tiradas antes dos bebês. Muita diferença, né? Quer dizer, o cabelo, o peso e etc estão iguais, mas elas parecem mais desgastadas, sei lá. A própria Britney..."Envelheci dez anos ou mais nesse último mês". Se bem que ela fuma e bebe, mas, por outro lado, Katie não faz nada disso, é toda careta (por falar nisso, o que Katie faz com o excêntrico do Tom Cruise, pelo amor de Deus? poxa, com Jake Gyllenhaal [foto] dando sopa na praça!...tsc, tsc).
Isso me faz lembrar de uma colega de faculdade que um dia chegou meio cabisbaixa, dizendo se sentir culpada porque, ao comparar as fotos da mãe antes e depois da sua gravidez, viu que havia "bagaceado" a pobre. Acho que ela se tornou uma filha mais grata depois disso (risos). Espero!



***
Oops! She did it again!

Britney separou do marido, como diz a manchete da People. Demorou até, né? Antes dele, casou "de brincadeira" com um amigo de infância em Las Vegas, para desespero dos seus advogados (reza a lenda que um deles perguntou sarcasticamente a ela se estava a fim de fazer caridade com o seu patrimônio ao entregar de bandeja metade dele - Spears, claro, não teve tenpo de fazer pre-nup. sorte dela que o marido de cinco minutos não foi mau caráter de roubá-la).
O segundo marido, além de ter bancado o gigolô, quer a guarda dos filhos para pegar a pensão da cantora - mas a ex dele (olha a baixaria!), que também é cantora, disse que não vai deixar porque ele não paga pensão aos outros dois filhos que tem com ela. Ah, eu quase esqueci o "melhor" da história: Brit-Brit entrou com a papelada do divórcio porque ficou sabendo que o marido estava pensando em fazê-lo, e quis se poupar de mais esse vexame (fim de feira total! alguém cate o nível, que foi parar no núcleo da Terra!). Saldo da presepada: uma relação que foi motivo de chacota no mundo inteiro (com direito a contagem regressiva num site da net), duas crianças que poderiam muito bem ter vindo daqui a uns seis anos e não aos 24, a estagnação da carreira num momento crucial e agora uma briga na justiça que promete ser das mais vexaminosas.
Eu sei que não deveria gastar meu tempo lendo e muito menos escrevendo sobre isso. Mas é mais forte que eu. Essa gente como Britney, Sandy, Aguilera, Paulo Vilhena e Avril Lavigne me intriga (é quase um olhar antropológico) e às vezes até me indigna. Cada um a seu modo é insensível à grande sorte que teve na vida - Sandy é um caso um pouco diferente dos demais. Quantos jovens ultratalentosos tentam o estrelato todos os dias e conseguem o patamar de sucesso deles? 0,00001? Poderia - e como poderia! - nunca ter rolado o sucesso para essas pessoas, e elas parecem que não sabem disso.
Esse povo não tá nem aí para o que possui (e muitas vezes o conseguiu sem ter feito praticamente nada, sem ter realmente qualidades), "dorme no ponto" em relação à carreira, brinca com a vida, se rebaixa ao se relacionar com as criaturas mais bizarras. Enfim, parece que menospreza o privilégio que tem sem um píngo de culpa.
Spears é um fenômeno só comparável a Schwarzenegger (que é feio, tapado, machista, péssimo ator, desengonçado e tem voz de ogro): não sabe cantar, suas letras são pobres, seus arranjos idem, deixa a desejar enquanto entertainer, não é charmosa, não é instigante e nem é essas coisas todas em termos de beleza (Jessica Simpson, por exemplo, é muito mais bonita), mas vendeu 90 milhões de discos numa carreira que estourou quando tinha só 16 (da série "corpo fechado"...)!
Podem falar o quiserem de Madonna, mas ela é uma artista responsável com o que tem, soube fazer render o que ganhou, e esse é o hiato entre ela e a mais nova divorciada do pedaço. Por isso que a outra não sai da sombra, que não é promovida do posto de princesa do pop - na mesma idade Mad já era rainha e com Michael Jackson, Whitney, Prince e Cindy Lauper nos calcanhares!
Fala sério! Essas pessoas não têm pai, mãe ou qualquer outro alguém para colocá-las nos trilhos?!

Agora, deixe-me ir que, ingratos ou não, eles tão com a vida ganha, e eu ainda tenho que labutar! E muito!

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Tenha fé


Após dois ônibus, com direito a uma traumática passagem pela Faixa de Gaza soteropolitana* - saving private Ryan -, e uma boa caminhada desde a esquina da Delirius até o final da Rua São Jorge, finalmente chego ao almoço de aniversário da Ingrid. Na verdade, ela fez anos dois dias antes da comemoração, em 03/11. Seu primeiro ato de respeito ao catolicismo, aliás, foi ainda na barriga da mãe: como boa cristã, guardou o Dia de Finados, vindo ao mundo somente no dia seguinte.
Espero até que alguém atenda a porta e, pela milésima vez desde que o colaram no portão da casa, dou risada do adesivo com a caveira da Delta Segurança. É engraçado ver o ícone do perigo e da morte justo na residência de uma das famílias mais pacatas e cristãs que eu conheço.
A própria me dá as boas-vindas. Ninguém chegou ainda. Sem-graça, me desculpo por ter ido tão cedo. “Humm...” – e ela dá a sua típica pausa ingridiana, como quem diz “Deixe-me refletir sobre isso” – “Acho que as pessoas é que estão atrasadas”, e me convida a entrar com o ar melancólico de quem começa a pensar que ninguém virá.
O tempo passa e algumas pessoas com quem contava encontrar não aparecem (Luize, Don, Deb´s, Liu e Cláudio). Fernanda eu sei que não virá por causa das bodas dos pais no interior – mas com certeza ela compareceria. Chega o namorado da Renata, o Marcus (“com ‘u’”, ele ressalta), e como Salvador é uma provinciazinha, logo descobrimos uma amiga em comum. Por sorte tratava-se de uma pessoa querida, por isso não tive que me policiar. Aliás, tenho percebido que a cada dia fica mais arriscado falar mal de algum conhecido nessas reuniões.
Sandra também se junta ao grupo, e com tanto sono que chega a me dar alívio o fato de estarmos comendo algo sólido e não pastoso, pois, se assim fosse, teríamos grande chances de ver “ao vivo” uma daquelas cenas típicas de filme B de comédia com a convidada afundando a face no prato. O tempo passa e estranho a ausência de Cláudio – a única que me causa espanto, na verdade, porque mais do que no “furo jornalístico”, a nossa turma é chegada num “furo de compromisso”.
Acho que também contando com a provável presença de Cláudio, Lico resolveu aparecer para nossa (boa) surpresa. Só se levantou para ir embora quando o sol começou a nos incomodar e falou apenas meia dúzia de frases, como sempre. Mas tudo bem, o nosso amigo tem alma de cowboy (mas nada parecido com "Brokeback Mountain", é bom dizer), e a gente já se acostumou com isso.

A Paixão de Ingrid

Diante de uma farta mesa de carne de churrasco, cerveja e refrigerante, em pleno domingo à tarde, o mais natural a fazer é jogar conversa fora e filosofar sobre a vida. Assim, trouxemos à tona a má-fé da imprensa paulista com o presidente Lula; reclamamos do mercado de trabalho (o substituto, enquanto somos solteiros, dos cônjuges e filhos); comentamos as ascensões meteóricas de Alosa e Padre Pinto no candomblé e a rápida ascensão econômica pós-A Tarde de Camarada Lília; discutimos o mercado fonográfico, a origem do samba, a credibilidade do noivado de Beyoncé e Jay-Z e as estrelas da black music; e divagamos sobre o mal-estar da alta burguesia no século XXI, especialmente nas Américas, onde, segundo Ingrid, o culto ao self-made man é fortíssimo e por isso opressor para quem nasceu com privilégios de nobre - eu concordo com ela e relato a minha teoria de que os lugares tendem a cristalizar o espírito de seus pioneiros. O que foi o continente americano, especialmente o seu norte, se não a esperança de ascensão econômica e social dos rejeitados da Europa, o espaço de uma elite que assim se tornou por esforço próprio, a exemplo, nos EUA, dos Kennedy? (tristes tempos esses em que os herdeiros têm que trabalhar! em solidariedade, ofereci silenciosamente e simbolicamente o último pedaço de carne da mesa a essa elite que perdeu um de seus direitos mais antigos e fundamentais: o de se coçar)

A conversa avança até a maior paixão da aniversariante depois de Rick Martin e da música: o catolicismo.

Parágrafo únicoA este blog compete o dever de registrar tudo o que no futuro, durante o processo de canonização de Ingrid, possa constituir prova de que a candidata ao posto de santa da Igreja Católica Apostólica Romana, com sede no Vaticano, Itália, teve uma vida prévia de pecados, condição sine qua non para a constituição e, portanto, a comprovação da santidade pleiteada**.

“Eu não compro livros de conteúdo religioso” (pec. 1), ela me disse rindo assim que viu um dos dois livros que dei de presente, uma reunião de mensagens do papa João Paulo II. Aproveita um comentário de Marcus para defender a Igreja Católica, alegando que é onde geralmente nascem os movimentos sociais, mas deixa claro seu pé-atrás com a Teologia da Libertação (pec. 2), que é uma corrente marxista da Igreja, fazendo uma cara que eu aposto ter sido a mesma de Elvis quando este foi pela primeira vez à uma reunião da Cientologia com a mulher Priscila - na ocasião, segundo os biógrafos, um ultrajado Elvis teria dito “It´s too much brain without a heart!”. Também aproveita uma deixa minha para criticar a renovação carismática (pec. 3): “Na boa, esse negócio de ir à igreja pra ficar cantando ‘E Maria?!' 'E Maria, lálálálá...' 'E Jesus?!' 'E Jesus, pápápápá...’ não me agrada. Eu gosto da missa tradicional, da reflexão”, explica. É. Não dá pra botar fé numa corrente que tem em “Chatelo” Rossi um dos seus principais representantes. Ingrid também nos deixa saber que largou a cáritas (pec.4). Por último, mais uma vez contestou o slogan da Igreja Universal (pec. 5), “Pare de sofrer!”. “Isso é irreal, é inclusive anticristão. O sofrimento faz parte da vida”, defende. Amparada nessa opinião, presenteei-a também com um livro autobiográfico, escrito por um deficiente físico espanhol que viveu em orfanatos na ex-URSS. Quer maior sofrimento do que escrever um livro com um só dedo!? Um presente supercristão. Nada cristão (pec. 6) foi ela ter confessado que quase comprou “Memórias de minhas putas tristes”, do GGM, para mim no meu último aniversário, mas que preferiu comprá-lo para si mesma.

Na carona

Assisti “Dança no Gelo”, comi, ouvi Célia Cruz, comi mais ainda – uau! é difícil fazer dieta naquela casa! - e, quando vi, todo mundo havia ido embora, menos eu.
A família, então, me deu carona até o Cabula CXXXVII. Santas pessoas!

Levei o dia inteiro na rua, estava cansada ao chegar em casa, mas o saldo foi superpositivo: encontrei os amigos (mais de um, usa-se “os”), comi e bebi muito e bem, bati bom papo durante horas e economizei os dois vales transportes da volta. Pra quê melhor!?

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Top 5: Frases memoráveis de Ingrid:

1) “Norah Jones é a resposta à ‘mariahcareyzação’ da música americana nos anos 90”.
2) “André, você votou em Luiz Alberto em 2002? Agora fiquei curiosa”.
3) “Sempre sobra para o Espírito Santo fazer o trabalho sujo que o Pai e o Filho não querem assumir”.
4) “A fé madura é para poucos”.
5) “Exato”.

Top 5: O que os outros dizem dela:

1) “É uma santa!” (Cláudio)
2) “É uma santa!” (Alosa)
3) “É uma santa!” (Lília)
4) “Ingrid é o cão!” (Nadja)
5) “Ela em primeiro lugar!” (Riachão)
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* Leia-se “Estação Iguatemi”, que depois da invasão de ambulantes mais parece uma praça de guerra. Isso vem me fazendo considerar a possibilidade de andar por lá munida de granadas – só assim será possível afastar aquela gente toda da frente e visualizar algum ônibus chegando.

** São Paulo perseguia católicos e Santo Agostinho foi dos mais promíscuos. Precisamos inventar um passado maculado para nossa candidata a santa.

Na ilustração Linus, que sempre teve fé na Grande Abóbora.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Saldão de livros

Tá difícil consumir cultura hoje em dia. Livros, por exemplo, $ó con$igo comprá-los em sebos (no Berinjela para ser mais exata, pois o Brandão perdeu totalmente a noção!). Mas durante a minha peregrinação atrás de livros para dar de presente aos meus amigos que aniversariam por agora, me deparei com umas promoções legais na Civilização Brasileira.
Comprei "O cinema segundo François Truffaut" por menos de R$ 15. Quase levei "Moby Dick" pelo mesmo preço, mas me contive; estou com muita leitura atrasada. Infelizmente já havia comprado o presente de Gri quando finalmente me deparei com o livro perfeito para presenteá-la: "Quero meu nome de volta - a história de Ike Turner". Gri, se você ainda quiser saber os detalhes das cacetadas que Tina Turner levou do ex-marido, essa é uma boa pedida, acho que ainda está em promoção. Eu li o trecho no qual ele fala mal das pernas dela e achei legal. Quase levei "O guia da mulher sozinha" para uma amiga que faz aniversário esta semana, mas preferi a amiga à piada. E meu telhado também é de vidro. haha...

Será o eleitor paulista a 7ª pessoa depois de ninguém?






Há dois anos, quando Clodovil Hernandez foi demitido da Rede TV!, um dos seus desafetos, o jornalista e ator Leão Lobo (diz ele que é, né!), declarou o seguinte: "Clodovil!...Fim de feira! Ser demitido por causa de Luisa Mell, a 5ª pessoa depois de ninguém!? Fim de feira, Clô. Sinceramente!...".
Seguindo a lógica leãolobiana, vamos fazer as contas: para Clô ser passado para trás pela 5ª pessoa depois de ninguém, tem que ser, ao menos, a 6ª pessoa nessa fila. E para o eleitor achar que Clô deve representá-lo, portanto sentir transferência, deve estar na melhor das hipóteses no 7º lugar, três antes da 10ª pessoa depois de ninguém!
É, concordo com Leão: fim de feira, mas para os paulistas!
É capaz deles ainda dizerem que a eleição de Clô foi obra de eleitor descendente de nordestino...

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Apesar de ser um dos grandes picaretas da política de todos os tempos, acho mais plausível ver Paulo Maluf eleito que Clodovil. O ex-governador de São Paulo é LADRÃO, mas, não podemos negar, é um animal político - com apetite político semelhante, entre os vivos, acho que só mesmo ACM e Lula. O que dizer de alguém que faz "campanha política" dentro da prisão, aceitando comida dos colegas de presídio, pra fazer média, e tratando, inclusive, as carcereiras por "minha princesa"? É ou não é "maravilhoso" esse Malufinho?(risos)
A política brasileira já virou um circo (dos horrores), e hoje votamos levando em conta quem é o melhor palhaço. Lamentável! Veja a que ponto chegamos!

terça-feira, 7 de novembro de 2006

A saúde (e a vez) dos homens


Men´s health. Já ouviu falar dessa revista da Editora Abril? Pois é, resolveram criar uma versão de Nova Cosmopolitan direcionada aos homens. A publicação é, como diria meu amigo Cadu, "maneiríssima". Gostei. Ainda assim, é esquisito ver o discurso de Nova adaptado para os homens. É quase tão bizarro quanto vê-los dando chapinha nos cabelos - é, janjãos do meu Brasil, isso está acontecendo bem debaixo dos seus narizes! (Nandy Braga Boys, usted por acaso tem algo a comentar sobre isso?)

Segue, abaixo, uma matéria da revista.

COMO MANTER ELA A SEU LADO
Agora que a mulher é quase sua, não dê moleza...
Por: Matt Bean
Publicado 01/08/2006

Uma nova relação pode definhar rapidamente se não for bem administrada no início. Veja aqui algumas dicas para conservar o clima sempre em alta temperatura.

Esqueça "as regras"
Não deixe que um fim de semana longe dela esfrie o relacionamento. Faça ao menos contato. "Mesmo que vocês não se vejam com freqüência nesse primeiro momento,é importante mantê-la sob seu radar", aconselha o escritor Ian Kerner, autor do livro Fala Sério! Você Também Não Está a Fim Dele
(Ed.Best Seller). Mas não é o caso de entupi-la com ligações telefônicas. Mande um e-mail ou mensagem de celular sugerindo que ela indique um lugar para vocês se encontrarem novamente, por exemplo. Não cometa, no entanto, o erro da insistência caso ela não dê um retorno a você. "Duplicar mensagens, ligações e e-mails não respondidos dá impressão de desespero", alerta o escritor.

Guarde bem seu passado
Nada de ficar se lamentando da perda da última namorada. Se ela tocar no assunto, seja breve na explicação, tipo: "Nos divertimos muito, mas não deu certo". Mais que isso, há chance de ela assumir a postura de conselheira sentimental, o que pode pôr tudo a perder! "Remoer paixões antigas pode indicar ainda que você não se conformou com o último fracasso e, pior, pode parecer que você está tentando reconstruir a auto-estima", diz Lisa Clampitt, diretora executiva de um site americano de relacionamentos.

Cuidado com o drinque
Não use o copo como válvula de escape, agarrando-o na tentativa de se acalmar. Esse truque pode ajudá-lo em reuniões de trabalho, mas não na hora de conhecer uma mulher. Sem contar que você pode se embriagar cedo demais e levar a relação para um terreno bem pantanoso. Se você não consegue largar o drinque em algum canto, segure-o na mão esquerda e deixe a direita livre e quentinha para apresentações.Caso você seja destro, ok?

Devagar!
Grude e dependência não são nada saudáveis, mesmo no início do namoro, quando tudo é perfeitamente gostoso e não há motivos para não querer ficar ao lado da mulher conquistada. "Um pouco de dependência vai existir naturalmente, mas acontecerá de forma gradual", afirma Kerner. "Se ela quiser deixar a escova de dentes em sua casa, tudo bem. O que não pode é ela esquecer os amigos dela só para sair com os seus e, com isso, esquecer a vida que ela tinha antes. E vice-versa, claro!", lembra Lisa Clampitt. "Quanto mais cedo vocês sentirem que não vivem sem o outro, mais fácil fica saturar a relação e, conseqüentemente, acabar com tudo." Ou seja, mantenha uma tensão saudável, que o relacionamento jamais esfriará.
Agora, cá entre nós: provavelmente a revista é a versão brasileira de uma publicação estrangeira, mas ainda assim e mesmo sendo direcionada, digamos, a um público A, o título, além de ser sem sal, é pouco funcional. Ingrid, como sempre, matou a charada: "Título estrangeiro só funciona se for simples de pronunciar, como é o caso da revista Playboy". Pois é: o "h" de "health", por exemplo, gera confusão - na língua inglesa, pode ser mudo ou ter som de "r".

Mas hein?!

Todo mundo fala em crescimento econômico, reclama que o Brasil está abaixo de muitas nações menores. A Exame desta semana já tratou de botar o homem na capa, questionando o compromisso dele com o crescimento do país. Agora, só uma pergunta: o Brasil tem infra-estrutura para suportar esse desejado crescimento?

domingo, 5 de novembro de 2006

Eles não se arrependem

Alckmin e FHC não foram os únicos a colocar a boa-fé esquerdista na berlinda. Cláudio - oposição desde embrião - se tornou "a mosca que pousou na sopa" vermelha de Alosa, que, num entusiasmo nunca antes visto (nem nos tempos de Bomba!), entupiu nossas caixas de e-mail com spam político. "Deixe o homem trabalhar" - "... e Alosa também", ele dizia nas entrelinhas. Em tempo: Alosa/André agora também atende por um nome afro...ha!ha!ha!

Ingrid costuma dizer que Cláudio é a consciência da turma, e que geralmente o pessoal decide botá-lo para escanteio quando se cansa de ter uma. A questão é que nem isso Alosa faz. E como poderia, se desde que fez o primeiro exercício da sementinha, no curso de teatro, ele não ruboriza mais?! Ele é quase o nosso Jesus preto; ele dá a outra face! Ou será que ele bota fé na máxima de Odorico, personagem de Engraçadinha, que afirma que "só sobe na vida quem nunca se ofende"? "O que será que será?"

Mas há sentimento, existe fraternidade, que eu sei. E se Alosa algum dia se desse ao trabalho de responder ao seu personal Carlos Lacerda, tenho certeza de que faria das palavras de Caê na canção abaixo as suas também:

Não me arrependo
(Caetano Veloso)

eu não me arrependo de você
cê não me devia maldizer assim
vi você crescer
fiz você crescer
vi cê me fazer crescer também
pra além de mim

não, nada irá nesse mundo
apagar o desenho que temos aqui
nem o maior dos seus erros,
meus erros, remorsos, o farão sumir
vejo essas novas pessoas
que nós engendramos em nós
e de nós

nada, nem que a gente morra,
desmente o que agora
chega à minha voz.

***
Alosa vai pro governo de Wagner, of course. Só espero que ele não esqueça dos amigos, especialmente daqueles a quem deve favores (meio copo de Sukita em PE, lembra?)!

***
Muita gente anda dizendo que essa música de Caetano é uma in(direta) para Paula Lavigne. Há realmente muita chance de que seja, mas, na boa, as pessoas estão obcecadas em relacionar a vida privada do produtor com o seu produto. Isabela Boscov, crítica de cinema da Veja, é um exemplo. Ela tem o vício de relacionar a vida dos artistas com a arte deles, o que é oportuno para estabelecer um link com o leitor, mas é pouco produtivo em termos de análise audiovisual.
Uma vivência pode trazer uma idéia que não necessariamente traduz a vida privada ou a opinião do artista sobre algo ou alguém. Ex: Bob Dylan diz que nunca foi politizado, mas que, entretanto, sempre teve a habilidade de captar e transmitir as transformações políticas/sociais que aconteciam a sua volta.
E a obra tem, de certo modo, vida própria, não é tão manipulável assim!

sábado, 4 de novembro de 2006

Hoje é dia de Drica (A GOS-TO-SA!)



Nunca fui muito chegada a crianças. Que me desculpem os sentimentais e/ou hipócritas pela sinceridade, mas elas, de um modo geral, não me instigam; prefiro os cachorros. Primeiro, têm a péssima mania de imitar (no que há de pior) os mais velhos; segundo, aproveitam-se da imunidade para abusar de quem está a sua volta; terceiro, demandam uma paciência e uma atenção que não tenho nem com as coisas mais importantes da vida, que dirá(mas nem é culpa delas, realmente. por trás de uma criança chata, quase sempre há um par de pais despreparados) ... Já os bebês - que na minha classificação são esses pequenos de 0 a 4 anos -, embora também sejam crianças, são outra história. Eles são irresistíveis, né? E ai deles se não fossem, é até uma questão de sobrevivência da espécie! (risos) Possuem uma graça que vem da mão minúscula, do cheiro bom de talco e das atitudes espontâneas de quem ainda não foi maculado pela cultura, pelo meio social.
Essa introdução toda foi para falar da Drica, ou melhor, da GOSTOSA (assim mesmo, no capslock, para não deixar dúvidas sobre a soberania dela na categoria). Ela é essa moreninha de nariz de fusquinha. Hoje completa seu primeiro ano de vida e, infelizmente, “forças ocultas” me impedem de ir até o Itaigara vê-la vestida de Mônica (sim, refiro-me a personagem do Maurício de Sousa).
Letícia - a irmã dela - eu já conheci “pronta”; Drica eu vi ainda "na planta". A gestação de Renatinha se deu durante o auge da minha histeria astrológica, em 2005, fruto de uma das minhas crises existenciais (já que não dá para evitar, preciso ganhar grana com isso, como fazem os poetas, woody allen, as duplas sertanejas, etc... risos).
“Meu Deus, vai ser péssimo para a Adriana nascer dia 04/11!” - eu exclamava nos e-mails para a minha irmã Renata, que é meu link com os pais das meninas – “Diga a ela (a mãe) para marcar para sábado de manhã, pois o mapa da menina ficará mais equilibrado”, pedia, e minha irmã se acabava de rir com tal preocupação. A mãe queria mais é se livrar logo da pesada barriga, e deu de ombros para a minha indicação. Dona Adriana fez o mesmo com o horário marcado para a cesariana: nasceu “atrasada” - o que segundo os astrólogos não existe, pois a criança dita a hora em que deve nascer -, e trocou o melancólico ascendente em Peixes pelo enérgico Áries, o que acrescentou mais Fogo a um mapa já incendiário, mas, por outro lado, neste tipo de civilização, melhor ter um desequilíbrio de Fogo que de Água – ainda assim, ela tem boa quantidade desse último elemento na carta. Numa análise superficial do mapa natal da Adriana, acho que posso dizer que, com tal mistura Água-Fogo, terá muita necessidade de auto-expressão, uma inclinação para a arte quem sabe e, nesse caso, vai gostar das que necessitam de palco e platéia - será mais uma que vai "vir do teatro"?(risos)
Drica tem pouco Cardinal (dificuldade de desencadear as próprias ações), deficiência de Terra e Ar (elementos que dão capacidade de construção, senso de limite e propensão à socialização), Nodo Norte em Áries (missão de firmar uma personalidade, de ser auto-suficiente) e Lição de Vida número 4 (cobra muita disciplina), elementos que exigem ego forte e força de vontade de quem os vive. Por isso, a assinatura sagitariana do mapa – com Lua neste signo, aliás – e o excesso de Fogo, em detrimento aos outros três elementos, veio a calhar. Entusiasmo parece ser a palavra-chave da sua carta natal. Bem, brilho nos olhos ela já tem...
(Hummm... Minhas considerações sobre o mapa da menina devem estar soando a conversa de salão de beleza, não é mesmo? Mas eu considero a astrologia e a numerologia - as duas, inclusive, envolvem matemática -, embora reconheça que são saberes falíveis - todos são na verdade, não? A descrença nessas práticas milenares tem a ver, basicamente, com questões outras e não com evidências que possam desacreditá-las. Quer um exemplo? O preconceito contra a astrologia vem do mau uso feito dela pelos caldeus. Bem, é uma longa história...)

“And so it is. Like you said it would be…” Um ano depois, ela é essa bolinha feliz aí da foto. A essa altura, nossa aniversariante já encerrou sua primeira grande festa. Não deve ter se cansado nem estranhado a agitação, pois os filhos, naquela casa, já nascem festejando, exercitando a joie de vivre, que é tão importante numa educação quanto a disciplina.
Só espero que o pai não tenha esquecido o desastre que foi a surpresa que fez a Letícia há seis meses (a menina, quando o viu fantasiado de príncipe na frente dela, caiu no choro assustada) e não tenha inventado uma fantasia de Cebolinha, Cascão, Louco ou algo do tipo (risos). Que pai figura! Só ele mesmo para protagonizar esse tipo de cena, que eu pensei que fosse coisa de filme B de comédia! hahaha... Mas, tadinho, ele é um pai preocupado, que deseja acertar, e é isso que interessa.

***
Apesar de não ter sido de todo ruim, como vimos, continuo achando que dia 04 foi uma idéia não muito boa. Ninguém deveria nascer entre os dias 1º e 05. Imagine, a criança vira adulto, está numa fase de crise econômica...Todo mundo sabe que as contas geralmente vencem até o dia 05, então como a pessoa poderá comemorar um aniversário no dia 04 sabendo que os juros vão comer a partir do dia 06? Os pais precisam pensar nisso na hora de marcar uma cesariana!

Gosto de "Adriana" - até porque eu sou uma "... + Ana" também -, mas esta foi uma escolha inadeqüada, tendo em vista o século em que vivemos. Já vi o que Adriana Lima (modelo) passa quando falam o nome dela na TV americana. Aliás, os coitados dos apresentadores pagam um mico danado contorcendo a língua para pronunciar "Eidruiana". Isso pode até dar em processo por dano físico!
Bem, a questão é que a escolha do nome é um desafio à parte para os pais do novo milênio. Tem que atender duas exigências do mundo globalizado: 1) ser universal (ex.: Gloria, Daniel, Ana); 2) precisa facilitar a criação de uma conta de e-mail (ex.: Tenaflae, Ceyse). Eu me pergunto: como conciliar demandas aparentemente conflitantes? Hummm...

Eu me preocupo! (risos)

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FELIZ ANIVERSÁRIO, DRICA!

Velha infância


Out. 1981 - Esta foto significa para mim muito mais do que pode sugerir a um espectador qualquer, ou seja, a ordinária imagem de uma nenezinha gracejando para o papai fotógrafo amador (dá para perceber de quem eu herdei a falta de coordenação motora, né? ele cortou minha mãe e privilegiou meio km de grama seca. tudo torto, fala sério!). É o início da minha vida e um dos melhores clicks da minha infância em BSB - que não é a sigla de Backstreet Boys; é a de Brasília(DF).

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O meu nascimento trouxe sorte para a minha família. Não é delírio de grandeza; é fato. Um dos indícios mais significativos é que mais ou menos um ano após a minha chegada nesse mundo, meu pai, após 23 anos de capital federal, finalmente conseguiu um imóvel bacana e próprio para morarmos (antes disso habitávamos um daqueles apês situados em cima dos comércios das 500s Sul e, antes, os "Breatles" - como brinca meu pai - foram orgulhosamente pioneiros de várias cidades satélites que nasciam no DF - mas essa é outra história que depois eu conto). Mudamos para esse prédio branco com detalhes em verde oliva - o bloco "P" da 412 - no meio de 1981 e lá passei sete maravilhosos anos de minha vida até nos mudarmos para o bloco "I", o que não foi uma boa idéia.
Não consigo lembrar o que comi no café da manhã há uma semana, mas me lembro de cada segundo nesse lugar - para a desconfiança de minhas irmãs mais velhas, que dizem que eu invento tudo (o despeito é uma coisa triste!hehe).

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De certo modo a minha vida em família sempre foi uma espécie de gincana, e uma das minhas principais tarefas é adaptar-me às mudanças de humor do pessoal - será que é assim em todas as famílias? Flávia e minha mãe lideram essa "categoria" (é impressionante como esse povo com Lua em Câncer muda de estado de espírito a cada vez que vai ao banheiro! rsss).
O vizinho de cima, na época um famoso radialista de Brasília, tinha o péssimo "hábito" de levar seus convidados vips para almoçar lá em casa, de supetão, sem avisar. É que o talento culinário da minha mãe era diretamente proporcional à falta de habilidade da esposa dele na cozinha. Ela ficava p. da vida, e, como boa vizinha, falava mal do bicão pelas costas (que na cara é muita falta de consideração), mas não se impunha. Até que um dia ele teve o azar de abordá-la num desses momentos em que "a macaca"* se apossa dela**. Ela lhe disse meia dúzia de desaforos entalados, e bateu a porta na cara dele e do convidado, sem pensar duas vezes. Só muito depois é que percebeu que o tal "extra" trazido pelo vizinho era ninguém menos que Luiz Gonzaga, o rei do forró. Ela ficou sentida; Luiz Gonzaga ficou constrangido pelo comportamento do radialista, e enviou um LP para minha mãe com uma dedicatória bem bacana.
O disco sumiu alguns anos depois, na mudança para Salvador, para meu desgosto. :(

* O macaco deste blog me pergunta: "A propósito, o que a macaca tem a ver com o mau humor dos humanos?" . Good question, Monkey Pee!
** Vou acatar a bronca de Medrado e não vou completar a frase com um "como se apossa de todo mundo". Ora, quando elogiamos, não estendemos o gracejo ao resto da humanidade. Por que fazer isso quando falamos dos defeitos, não é mesmo?... Liga não, mãe: as rosas de plástico não morrem nem espetam, mas não têm o perfume e a beleza das de verdade, mesmo com seus espinhos - aêê...falei bonito!hehe

***
Minha paixão pela leitura começou na banca de revistas que fica entre a 11 e a 12 - ela existe até hoje! Lá, à noite, costumava ficar o Cachorro Quente do Vô, lendário ponto de paquera dos adolescentes dessas quadras nos anos 80. Por causa dessa turma jovem - os amigos das minhas irmãs -, acrescento às minhas referências musicais da infância, além da Xuxa, do Balão Mágico e das canções sertanejas que meu pai gosta, o rock brasileiro e internacional dos anos 80.
É impossível escutar "Everytime I see you falling", do New Order, "Tempo perdido", do Legião, "You´ll always on my mind", na versão dos Pet Shop Boys, ou "A little respect", do Erasure, e não me remeter à BSB dos anos 80. Lico, o negão antenado da turma dos adolescentes, de vez em quando nos ensinava as coreografias da moda, debaixo do bloco "I". A gente se achava o máximo quando isso acontecia (rsss).
Se eu não tô variando, já pelo final da década, ouvia nas redondezas algo que era meio parecido com música eletrônica. Meu irmão largou uma fita desse estilo lá em casa, isso bem no iniciozinho dos anos 90. Ainda bem que ele nunca quis saber dela, pois eu a usei para gravar trilha de novela (risos).

***
Sempre vivi cercada de viajantes. Tenho a impressão de que minhas irmãs não se vêem assim, mas eu me vejo como uma viajante - ao menos tenho a instabilidade espacial de um. Já chego sabendo que vou ficar por pouco tempo - sempre é assim, e as formigas me dão o aviso. Aliás, as histórias de nossas famílias materna e paterna são as trajetórias de viajantes.
Brasília é uma cidade para a qual as pessoas vão por uma temporada, a fim de fazer um dinheirinho bom, e, eventualmente, fincam raízes - geralmente por acomodação, distração. Convivi com famílias de cariocas (família Sardinha), mineiros (família Vianna), paulistas (família Milani), gaúchos (família Ferri), baianos (a família do zelador do bloco G...sobrou pra Bahia!haha) e de pernambucanos (a família do Permambuco, que morava na outra portaria do bloco)... Curioso como ninguém era de Goiania... Ainda bem (risos)!
Mas até lá a "gringaiada" me perseguiu. Havia uma família de portugueses na vizinhança. Eles eram importantes para a comunidade entre a 11 e a 14 porque tinham um comércio de roupas e tecidos, então se alguém precisasse de uma blusa, algo do tipo, era neles que a gente comprava. Lembro de cada centímetro da loja, como se fosse um filme. Humm... Não gostava muito deles não, era uma gente muito estressada. Esse jeito brusco da classe média baixa européia é muito estranho para um latino, especialmente para uma criança, embora tenha algo de muito familiar.
Eu brinquei com o fato da família do zelador ser da Bahia, né? Infelizmente ser nordestino é um problema no Centro-Sul - um problema de ignorância das pessoas de lá, diga-se de passagem, pois o nordestino, e digo isso sem afetação, é a alma do Brasil. Na infância, uma das formas de ofender alguém era dizer que a pessoa era da Ceiândia, a cidade satélite mais nordestina do DF. Tão ruim quanto ser do Nordeste, para a gente do Distrito Federal, é ser pobre, e a Ceilândia agregava essas duas "qualidades".

***
E a academia de dança da Silmara?! Ainda tenho na mente alguma coisa da coreografia de "La Bamba", que cheguei a ensaiar mas não apresentei. Nossa! Até eu tenho dificuldades de pensar em mim usando algum dia aqueles meiões à "Flashdance"! Mas eu já os usei, ainda que por pouco tempo! hehe...
Perdi as contas de quantas vezes fomos ao Clube do Exército ver Renata (minha irmã do meio) dançar, ou melhor, liderar a coreografia. Eu adorava porque, apesar dessas apresentações serem tediosas - você tem que ver mil até que chegue a que te interessa -, era o meu momento de barganhar roupa e tênis - "Mãe, ou você me deixa levar esse All-Star preto, ou eu não vou, viu!".
Numa dessas apresentações anuais, a minha irmã mudou, sem avisar a ninguém, o final da coreografia. Detestava o menino que era seu par na dança, e não queria que ele a levantasse no ar (esse era o final certo da coreografia, mas estranhamente o arranjo feito por ela, que pegou de surpresa até o pobre do garoto, ficou melhor). Eita Renatinha que foi voluntariosa! Machado de Assis tem razão: o menino é o pai do homem! ;)

***
"Quem vai querer o dindin? Dindin geladinho, gostoso!", e a Renata me olhava com pena e, escondido da mãe que ficava histérica diante da possibilidade de mais uma crise de garganta minha, fazia o "contrabando" do sorvete. Devo também a esta minha irmã mais velha os ovinhos de Páscoa que consegui levar para casa durante o Jardim de Infância (risos), pois ela sempre aparecia na hora H, quando os meninos mais velhos roubavam os mais novos, dando-lhes meia dúzia de cascudos e rosnando que fossem se meter com crianças do tamanho deles. Ter irmãos mais velhos têm lá as suas vantagens (hihi).

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"Welington Jean Ricardo Camelo de Souza!...Sobe, meu filho!". E foi gritando com sua voz fanha e arrastada o nome completo do primogênito - até esse fatídico dia, apenas Jean para os amigos da quadra -, que Margarida, a atrapalhada dona-de-casa do bloco ao lado, criou um dos bordões mais famosos da 12 por anos a fio.
Pobre Jean!...Essa bizarrice foi fruto de um porre homérico que o marido da Margarida tomou por conta do nascimento do primeiro rebento. Os três nomes, na verdade, eram as três opções, mas bêbado até o último fio de cabelo e pressionado pelo escrivão do cartório para que decidisse logo (e àquela altura sem a mínima lembrança do nome preferido por Margarida), resolveu, "por segurança", registrar o menino com os três, pra Margô não ficar chateada. ha!ha!ha!...Depois disso não tivemos mais dúvidas do motivo dele ser um adolescente revoltado (repare que ainda tem um raio de um "Camelo", que é herança materna).
O pai dele, de quem já não recordo o nome, era figura! Cachaceeeeiro!...
Cozinheiro-chefe do presidente da República, vira-e-mexe fazia jantares maravilhosos "patrocinados" pela cozinha oficial, e convidava a vizinhança. E dá-lhe camarão, lagosta, feijoada...Ave Maria! Se Sarney soubesse dos desvios do seu freezer...(mas ele merece! por duas vezes fez com que me arrumasse com o uniforme completo da escola, e desmarcou a visita da minha turma ao seu gabinete em cima da hora)
Um desses jantares foi inesquecível. Tiago, o filho caçula, ouvira o pai dizer, de brincadeira, que sabão fazia o feijão ficar gostoso. Não entendeu que se tratava de uma piada, e tascou o tal na tão esperada feijoada. Cara, se ele não tivesse cinco anos, teria sido linchado, com certeza! O povo ficou pra morrer com essa traquinagem dele, após dias de espera pelo "feijão presidencial"! (rsss)
O menino, aliás, era inacreditavelmente distinto dos outros membros da família na aparência. Loiro, de olhos azuis e principalmente bonito, chocou o povo da quadra por ter nascido com tais características. Acredita-se que ele veio diferente de tanto que Margô "secou" Taquara, um modelo igualmente loiro e lindo que morava nas redondezas, durante a gravidez. É a força do pensamento positivo, minha gente (sim, porque ninguém, muito menos o Taquara, em sã consciência gostaria de conhecer "biblicamente" Margarida!)!
Margô era uó - digo isso de modo carinhoso, pois ela era muito gente fina, apesar da super lerdeza. Amamentou Tiago por três anos, e sacava os peitos no meio de toda a gente; ninguém queria ver aquilo mais. Andava de calcinha e sutiã pela casa. E se tocava a campainha, improvisava um vestido com o pano de prato. Um dia comentou com minha mãe que precisava ir ao oftalmo. Minha mãe pediu seus óculos e os limpou. Ela, com toda a sua lerdeza, exclamou: "Uai, Jô! E não é que eu tô enxergando bem de novo?!". Olha, só comíamos na casa dela quando o marido estava à frente. Afinal, se o presidente não morria, tava tudo certo.
A mulher do cozinheiro era pés-si-ma motorista também! Demorou dois anos para tirar a carteira - e tentando uma vez depois da outra com todo o afinco. Desconfiávamos de que ela cansou tanto os examinadores com a sua incompetência que resolveram se livrar dela dando-lhe a habilitação (mais uma, menos uma, né!...).
Sair no fumegante de Margô não era fazer um mero passeio; era uma aventura. Primeiro porque nunca sabíamos se voltaríamos inteiros da viagem (minha mãe só pediu carona a ela uma vez, e porque de todo modo queria ir pro setor hospitalar mesmo, então, qualquer coisa...). Segundo, era preciso se preparar para ouvir os piores palavrões. Vinte minutos de trânsito e já estávamos moralmente arrasados por ela, pelos desaforos que lhe diziam os outros motoristas. Margô neeem se abalava e metia brasa na barbeiragem... Ê criatura da cuca fria!...

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Gostaria de saber notícias do Seu Crispim, o pançudo dono do bar da quadra, que anotava na caderneta até os refrigerantes consumidos pelos próprios netos, mas que, vira-e-mexe, cedia um de cortesia para a "Juju" - aliás, quando me chamam assim, é fatal: ou é muito carinho ou muita falsidade da pessoa comigo -, privilégio muitíssimo justo para quem pronunciou as primeiras palavras em seu balcão.
Tinha outro avô postiço na quadra, aliás, dois avós, o Seu Haroldo e a Dona Iara do 106, que me tratavam realmente como neta. Bem, eu era muito amiga dos netos deles e não via distinções, até presente eu ganhava também - uma vez eles brigaram porque ele não agüentou esperar o Dia das Crianças e me mostrou o que compraram pra mim. Seu Haroldo foi meu primeiro contato com a política e matava minha "carência canina" emprestando-me eventualmente a Suzuki, pequinesa que viveu por 16 anos, tendo falecido em 1990.

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Na galeria de saudades, claro, está a alegre Tia Marinalva, a quem vô Gino, marido dela, chamava de Xuxa (não me perguntem o motivo! talvez fosse uma gozação com a loirice de farmácia). Como esquecer aquela gargalhada contagiante? Até minha mãe admite que deveria ter sido ela a minha madrinha, e não a minha prima Silvia, de tão forte que era a nossa ligação na infância.
Há quase vinte anos ela mora no Rio de Janeiro. Aliás, a primeira viagem que fiz a esta cidade foi justamente para visitá-la. Tinha seis ou oito anos de idade, não lembro direito. Cinco impressões fortes sobre o Rio ficaram comigo desde então: é LINDO; é QUENTE; a água é a mais GELADA que eu entrei na vida; tudo é LONGE à beça; e é LINDO.
A primeira vez que fui à praia, em Copacabana, se meu pai não estivesse guiando o carro, suspeitaria de seqüestro, de tantas voltas que demos para chegar até lá.
Dia desses voltarei ao Rio. É uma promessa antiga, né, Dr. Alex? Vou ver o Cristo e dar um abraço na Tia Xuxa, que não vejo há 13 anos.

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Eu sei que é uma grande idiotice minha, mas, olhando para trás, certos diferenciais de uma infância em Brasília me fazem sentir meio que parte de um clube exclusivo, diferenciado. Por exemplo, entre os meus contemporâneos, não conheço quem tenha jogado bets quando era criança. E algum de vocês, não-brasilienses, já sentiu a alegria de bater de porta em porta, no São Cosme e Damião, pedindo doce, pra voltar com a sacola cheia de guloseimas no final do dia? Já correram dos bate-bolas no Carnaval? E sabem o quanto era divertido fazer guerra com o líquido de uma planta chamada xixi de macaco? E o que dizer daqueles pomposos desfiles oficiais em dias da pátria que só existem na capital federal? "Só se vê em Brasília".
No Distrito Federal, ao menos naquela época (metade da minha infância foi durante a ditadura), respirava-se patriotismo e, por ser o centro do poder, era inevitável ser testemunha ocular da História. Vi de perto os presidentes Collor (conversamos por uns três min. em 15.11.91) e Tancredo (dentro do caixão, infelizmente). Esse dia do Collor foi interessante. Na volta para casa, comentei com os meus país: "O presidente conversou comigo. Ele é legal, mas tem olhar de maluco". Dez anos depois, jogando conversa fora com um amigo do Seu Beneh (meu primeiro chefe) que havia sido assessor dele, constatei que não foi impressão minha: "Juliana, era recomendação nas campanhas não chegar a câmera muito perto dos olhos dele, todo mundo tem a mesma impressão!", riu ele ao ouvir minhas lembranças do evento. O engraçado é que um vizinho tinha um adesivo pró-Collor grudado no vidro do carro, que dizia "Vamos Collorir o Brasil", mas eu o lia "Vamos, Collor, rir do Brasil". Uma gênia, uma vidente, desde criacinha! (risos)
Pois é, eu vivenciei o clima de euforia que foi a eleição de 89. Para dar um exemplo, eram tantos materiais de campanha que o meu vizinho, colecionador dos adesivos, não tinha mais onde colocá-los em sua janela na reta final das eleições. A criançada fez a festa naquele período: camisas, adesivos, bonés, "Meu nome é Enéas!", etc. Até votação na escola teve. Votei em Covas, como meus pais, é claro - Sandy, com 24 anos, faz o mesmo quando vai votar (risos).
Peguei o último bonde da boa escola pública. Minhas irmãs e eu freqüentamos algumas de fazer inveja (ao menos em estrutura física e opções de atividades) aos "melhores colégios soteropolitanos", tendo a oportunidade de conviver com todo o tipo de gente, do fulano que morava num amplo 4/4 numa das superquadras, passando pelo filho da cozinheira do colégio e aquele que morava em invasão, até as crianças deficientes (essa é a diversidade que deve estar presente na escola pública, ou melhor, em qualquer escola). A estrutura do Setor Leste, por exemplo...Nunca vi nada parecido aqui em Salvador. A Escola Parque também era muito bacana! Ela funcionava nos moldes americanos, então um semestre tínhamos aulas de teatro, no outro podíamos escolher as de cerâmica ou as de música... Só não dava para escapar da educação física (mas eu vivia entregando atestado médico para não encarar o handball!) e das aulas de religião. Era incrível como sempre vinha um imbecil, de tempos em tempos, perguntando o motivo de estudarmos religião segundo o catolicismo. "Ué, qual é a religião oficial dessa República, 'cara pálida'? Faltou às aulas de Educação Moral e Cívica (EMC)?"

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Uma das lembranças mais nítidas da infância é justamente da minha escolinha na 413. Via Renata indo para a aula, e queria ir também, punha minha mochilinha vermelha dos Gremilins nas costas (que depois minha prima Fernanda "herdou", e depois dela, se não me engano, meu primo Raniel). Seguia rumo à porta, e sempre era barrada por minha mãe. Recordo-me perfeitamente do seu parquinho lindo, dos brinquedos, dos banhos de mangueira em dias de festa, da nossa hortinha, da hora do lanche(até hoje sinto saudades daquele mingau maravilhoso de lá!hummm!...), do uniforme xadrez em vermelho e branco... Minhas professoras...Tia Penha, criatura boníssima... A Tia Alaíde, diretora dura na queda que uma vez me obrigou a bater num menino mais velho, que vivia machucando a garotada do Pré, pra ele ver como era estar em desvantagem - e eu fiquei com dó de machucá-lo e me recusei (o que é a generosidade dos pequenos!). Guardo boas lembranças daquela que me alfabetizou, a Tia Maria Luísa, mistura perfeita de afeto e disciplina. E, claro, não poderia deixar de citar aquela peste dos infernos, a outra Maria Luísa (eram três), professora de educação física, uma baixinha bigoduda e nervosa que me deixou com trauma de esportes e da palavra "saliente", a primeira que fiz questão de procurar assim que aprendi a mexer no dicionário - ao invés de gritar "Parem com isso!", a louca berrava "Seus salientes!".
Era um lugar ótimo, o ambiente que toda criança deveria ter. Não pude evitar o nó na garganta quando soube por uma comunidade do Orkut, no ano passado, que será demolida.

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Nesse prédio branco e verde, que hoje se encontra totalmente cercado de grades e está desbotado, fiz minhas primeiras amizades (é memorável o trio que formei com Léo e Cebolinha, meus primeiros amigos na vida), tive minhas primeiras dores do coração (por que não?! Já disse Nelson Rodrigues que os amores fundamentais de uma pessoa são aqueles que acontecem até os 12 anos de idade), perdi o medo de andar de bicicleta, tive as únicas e melhores festas de aniversário da minha vida...
Também tive a "sorte" de ganhar inúmeras vezes no sorteio da Xuxa. Essa era uma armação secreta do meu pai, que se divertia à beça ao ver o entusiasmo da filha caçula com os concursos e o seu empenho em concorrer ao que quer que fosse. Eu adorava concursos, desde os tempos em que nem sabia escrever, chegando a importunar a pobre da Renata para ficar em frente à tv esperando a hora do apresentador mostrar o endereço na tela...Já naquela época desconfiava um pouco dessa sorte toda, mas só adolescente tive a confirmação de que os prêmios que ganhei da Xuxa haviam sido comprados por meu pai. Bem, o que importa é que eu causei muiiita inveja na vizinhança por conta dessa fraude paterna!hihi... João Alves não é o mais "abençoado" do Brasil! (risos)

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Short Cuts - cenas da vida
"Lá vem a maluca da Te Segura! Corre!". "O prédio do outro lado é mal-assombrado, eu é que não entro lá". A casa da árvore - projeto coletivo e várias vezes fracassado - é um grande sonho. As reuniões do clube clandestino no quartinho vazio do zelador, a gente sempre firme e forte na adoração dos ídolos infantins, ao menos até que o chato do síndico nos descobrisse (mas nós sempre voltávamos). Minha mãe se recusa a pagar minhas aulas de natação no SL, mas eu não me rendo e dou meu jeito de acompanhar a galera: viro "aluna clandestina" usando o nome da vizinha, minha xará, que era matriculada no mesmo horário (hehe). Coleção de papel de carta é uma obsessão. Os presentes que minha mãe trouxe do "estrangeiro" (leia-se Paraguai) são bacanas - "olha só essa boneca que fala!" "Disco novo da Xuxa! Eu tenho! E você ainda não comprou? Hããã!...". Eu amo "Armação Ilimitada" e, claro, meu preferido é o Bacana. É bom o fim de semana na casa da tia doceira que fazia vistas grossas para os furtos de brigadeiros e outras delícias. Não há coisa melhor que a piscina do clube da Caixa Econômica, aos domingos. Comer pastel na Feira do Guará é de praxe. É a tarde do amigo-oculto de fim de ano na sede da Caixa, e lá vem o Santiago com a Eliane Sardinha, a camisa dele igual a do meu pai - bizarrice da mulher que teimava em transformar os dois amigos em um ridículo par de vasos. Natal sem graça na casa da vó Ana, em Goiânia, mas o importante é estar em família. Férias dos sonhos em Salvador, na associação do DNER, em Itapuã - "Me passe o gato!". Acampamento em Caldas Novas, várias famílias amigas e muita bagunça! Roma, Paris, Nova Iorque...A volta ao mundo todo é feita várias vezes ao dia e de graça (os bancos de cimento se transformam, com a boa vontade da imaginação infantil, cada um num lugar diferente). Ar seco de agosto, e nada de aulas! Dormir com três cobertas é muito bom, só é ruim na hora de acordar. "Olha o quebra-queixo! Quem vai querer?".

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BSB: Up and Down
Foi um ótimo lugar para passar os primeiros anos. Além das coisas públicas funcionarem por lá, havia espaço para o lazer; as crianças podiam brincar nas superquadras sem ficarem à mercê do trânsito frenético, como acontece nas outras capitais. Havia muitas áreas verdes e praticamente cada SQ tinha sua própria quadra de esportes.
Tenho um pé atrás com a Brasília atual porque é o reino da violência gratuita, dos crimes de classe média e o povo usa drogas muito mais pesadas (cocaína é coisa ordinária por lá desde que me entendo por gente). Outra coisa, para a qual nunca tive um pingo de paciência, é a cultura da ostentação, das aparências e status acima de tudo. A infância também não dura muito tempo nessa cidade - se é que você me compreende...
Apesar de ter a melhor qualidade de vida do Brasil, e faz muito tempo, já naquela época, na década de 80, Brasília se destacava em duas estatísticas nada bacanas: nas de alcoolismo e nas de suicídio.
[Salve a Bahia!...E o seu sol que não deixa ninguém triste! hehehe]
Acho que fui embora na hora certa. Se tivesse passado a adolescência em BSB, pelo andar da carruagem, ou teria ficado no "Bloco do Eu Sozinho" ou teria que sucumbir à maioria para me adequar, ou seja, virar uma "porra-louquinha" - nada mais clichê, especialmente quando se é adolescente! -, o que teria sido demasiadamente ruim. Outsider de nascença - de nascença mesmo! (risos)... essa é outra história... -, tenho uma grande e inata desconfiança do bom senso da maioria. Só consegui, por exemplo, simpatizar com a idéia de ter blog depois que passou a moda... Enfim, tenho mais a agradecer que a reclamar por ter vindo para SSA aos 12 anos. Penso que no Nordeste existe uma calma, uma inocência e uma liberdade que não é mais possível, e há muito, no Centro-Sul. Mas demorei muito a sacar essas vantagens.