
Out. 1981 - Esta foto significa para mim muito mais do que pode sugerir a um espectador qualquer, ou seja, a ordinária imagem de uma nenezinha gracejando para o papai fotógrafo amador (dá para perceber de quem eu herdei a falta de coordenação motora, né? ele cortou minha mãe e privilegiou meio km de grama seca. tudo torto, fala sério!). É o início da minha vida e um dos melhores clicks da minha infância em BSB - que não é a sigla de Backstreet Boys; é a de Brasília(DF).
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O meu nascimento trouxe sorte para a minha família. Não é delírio de grandeza; é fato. Um dos indícios mais significativos é que mais ou menos um ano após a minha chegada nesse mundo, meu pai, após 23 anos de capital federal, finalmente conseguiu um imóvel bacana e próprio para morarmos (antes disso habitávamos um daqueles apês situados em cima dos comércios das 500s Sul e, antes, os "Breatles" - como brinca meu pai - foram orgulhosamente pioneiros de várias cidades satélites que nasciam no DF - mas essa é outra história que depois eu conto). Mudamos para esse prédio branco com detalhes em verde oliva - o bloco "P" da 412 - no meio de 1981 e lá passei sete maravilhosos anos de minha vida até nos mudarmos para o bloco "I", o que não foi uma boa idéia.
Não consigo lembrar o que comi no café da manhã há uma semana, mas me lembro de cada segundo nesse lugar - para a desconfiança de minhas irmãs mais velhas, que dizem que eu invento tudo (o despeito é uma coisa triste!hehe).
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De certo modo a minha vida em família sempre foi uma espécie de gincana, e uma das minhas principais tarefas é adaptar-me às mudanças de humor do pessoal - será que é assim em todas as famílias? Flávia e minha mãe lideram essa "categoria" (é impressionante como esse povo com Lua em Câncer muda de estado de espírito a cada vez que vai ao banheiro! rsss).
O vizinho de cima, na época um famoso radialista de Brasília, tinha o péssimo "hábito" de levar seus convidados
vips para almoçar lá em casa, de supetão, sem avisar. É que o talento culinário da minha mãe era diretamente proporcional à falta de habilidade da esposa dele na cozinha. Ela ficava p. da vida, e, como boa vizinha, falava mal do bicão pelas costas (que na cara é muita falta de consideração), mas não se impunha. Até que um dia ele teve o azar de abordá-la num desses momentos em que "a macaca"* se apossa dela**. Ela lhe disse meia dúzia de desaforos entalados, e bateu a porta na cara dele e do convidado, sem pensar duas vezes. Só muito depois é que percebeu que o tal "extra" trazido pelo vizinho era ninguém menos que Luiz Gonzaga, o rei do forró. Ela ficou sentida; Luiz Gonzaga ficou constrangido pelo comportamento do radialista, e enviou um LP para minha mãe com uma dedicatória bem bacana.
O disco sumiu alguns anos depois, na mudança para Salvador, para meu desgosto. :(
* O macaco deste blog me pergunta: "A propósito, o que a macaca tem a ver com o mau humor dos humanos?" . Good question, Monkey Pee!
** Vou acatar a bronca de Medrado e não vou completar a frase com um "como se apossa de todo mundo". Ora, quando elogiamos, não estendemos o gracejo ao resto da humanidade. Por que fazer isso quando falamos dos defeitos, não é mesmo?... Liga não, mãe: as rosas de plástico não morrem nem espetam, mas não têm o perfume e a beleza das de verdade, mesmo com seus espinhos - aêê...falei bonito!hehe
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Minha paixão pela leitura começou na banca de revistas que fica entre a 11 e a 12 - ela existe até hoje! Lá, à noite, costumava ficar o Cachorro Quente do Vô, lendário ponto de paquera dos adolescentes dessas quadras nos anos 80. Por causa dessa turma jovem - os amigos das minhas irmãs -, acrescento às minhas referências musicais da infância, além da Xuxa, do Balão Mágico e das canções sertanejas que meu pai gosta, o rock brasileiro e internacional dos anos 80.
É impossível escutar "Everytime I see you falling", do New Order, "Tempo perdido", do Legião, "You´ll always on my mind", na versão dos Pet Shop Boys, ou "A little respect", do Erasure, e não me remeter à BSB dos anos 80. Lico, o negão antenado da turma dos adolescentes, de vez em quando nos ensinava as coreografias da moda, debaixo do bloco "I". A gente se achava o máximo quando isso acontecia (rsss).
Se eu não tô variando, já pelo final da década, ouvia nas redondezas algo que era meio parecido com música eletrônica. Meu irmão largou uma fita desse estilo lá em casa, isso bem no iniciozinho dos anos 90. Ainda bem que ele nunca quis saber dela, pois eu a usei para gravar trilha de novela (risos).
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Sempre vivi cercada de viajantes. Tenho a impressão de que minhas irmãs não se vêem assim, mas eu me vejo como uma viajante - ao menos tenho a instabilidade espacial de um. Já chego sabendo que vou ficar por pouco tempo - sempre é assim, e as formigas me dão o aviso. Aliás, as histórias de nossas famílias materna e paterna são as trajetórias de viajantes.
Brasília é uma cidade para a qual as pessoas vão por uma temporada, a fim de fazer um dinheirinho bom, e, eventualmente, fincam raízes - geralmente por acomodação, distração. Convivi com famílias de cariocas (família Sardinha), mineiros (família Vianna), paulistas (família Milani), gaúchos (família Ferri), baianos (a família do zelador do bloco G...sobrou pra Bahia!haha) e de pernambucanos (a família do Permambuco, que morava na outra portaria do bloco)... Curioso como ninguém era de Goiania... Ainda bem (risos)!
Mas até lá a "gringaiada" me perseguiu. Havia uma família de portugueses na vizinhança. Eles eram importantes para a comunidade entre a 11 e a 14 porque tinham um comércio de roupas e tecidos, então se alguém precisasse de uma blusa, algo do tipo, era neles que a gente comprava. Lembro de cada centímetro da loja, como se fosse um filme. Humm... Não gostava muito deles não, era uma gente muito estressada. Esse jeito brusco da classe média baixa européia é muito estranho para um latino, especialmente para uma criança, embora tenha algo de muito familiar.
Eu brinquei com o fato da família do zelador ser da Bahia, né? Infelizmente ser nordestino é um problema no Centro-Sul - um problema de ignorância das pessoas de lá, diga-se de passagem, pois o nordestino, e digo isso sem afetação, é a alma do Brasil. Na infância, uma das formas de ofender alguém era dizer que a pessoa era da Ceiândia, a cidade satélite mais nordestina do DF. Tão ruim quanto ser do Nordeste, para a gente do Distrito Federal, é ser pobre, e a Ceilândia agregava essas duas "qualidades".
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E a academia de dança da Silmara?! Ainda tenho na mente alguma coisa da coreografia de "La Bamba", que cheguei a ensaiar mas não apresentei. Nossa! Até eu tenho dificuldades de pensar em mim usando algum dia aqueles meiões à "Flashdance"! Mas eu já os usei, ainda que por pouco tempo! hehe...
Perdi as contas de quantas vezes fomos ao Clube do Exército ver Renata (minha irmã do meio) dançar, ou melhor, liderar a coreografia. Eu adorava porque, apesar dessas apresentações serem tediosas - você tem que ver mil até que chegue a que te interessa -, era o meu momento de barganhar roupa e tênis - "Mãe, ou você me deixa levar esse All-Star preto, ou eu não vou, viu!".
Numa dessas apresentações anuais, a minha irmã mudou, sem avisar a ninguém, o final da coreografia. Detestava o menino que era seu par na dança, e não queria que ele a levantasse no ar (esse era o final certo da coreografia, mas estranhamente o arranjo feito por ela, que pegou de surpresa até o pobre do garoto, ficou melhor). Eita Renatinha que foi voluntariosa! Machado de Assis tem razão: o menino é o pai do homem! ;)
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"Quem vai querer o dindin? Dindin geladinho, gostoso!", e a Renata me olhava com pena e, escondido da mãe que ficava histérica diante da possibilidade de mais uma crise de garganta minha, fazia o "contrabando" do sorvete. Devo também a esta minha irmã mais velha os ovinhos de Páscoa que consegui levar para casa durante o Jardim de Infância (risos), pois ela sempre aparecia na hora H, quando os meninos mais velhos roubavam os mais novos, dando-lhes meia dúzia de cascudos e rosnando que fossem se meter com crianças do tamanho deles. Ter irmãos mais velhos têm lá as suas vantagens (hihi).
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"Welington Jean Ricardo Camelo de Souza!...Sobe, meu filho!". E foi gritando com sua voz fanha e arrastada o nome completo do primogênito - até esse fatídico dia, apenas Jean para os amigos da quadra -, que Margarida, a atrapalhada dona-de-casa do bloco ao lado, criou um dos bordões mais famosos da 12 por anos a fio.
Pobre Jean!...Essa bizarrice foi fruto de um porre homérico que o marido da Margarida tomou por conta do nascimento do primeiro rebento. Os três nomes, na verdade, eram as três opções, mas bêbado até o último fio de cabelo e pressionado pelo escrivão do cartório para que decidisse logo (e àquela altura sem a mínima lembrança do nome preferido por Margarida), resolveu, "por segurança", registrar o menino com os três, pra Margô não ficar chateada. ha!ha!ha!...Depois disso não tivemos mais dúvidas do motivo dele ser um adolescente revoltado (repare que ainda tem um raio de um "Camelo", que é herança materna).
O pai dele, de quem já não recordo o nome, era figura! Cachaceeeeiro!...
Cozinheiro-chefe do presidente da República, vira-e-mexe fazia jantares maravilhosos "patrocinados" pela cozinha oficial, e convidava a vizinhança. E dá-lhe camarão, lagosta, feijoada...Ave Maria! Se Sarney soubesse dos desvios do seu freezer...(mas ele merece! por duas vezes fez com que me arrumasse com o uniforme completo da escola, e desmarcou a visita da minha turma ao seu gabinete em cima da hora)
Um desses jantares foi inesquecível. Tiago, o filho caçula, ouvira o pai dizer, de brincadeira, que sabão fazia o feijão ficar gostoso. Não entendeu que se tratava de uma piada, e tascou o tal na tão esperada feijoada. Cara, se ele não tivesse cinco anos, teria sido linchado, com certeza! O povo ficou pra morrer com essa traquinagem dele, após dias de espera pelo "feijão presidencial"! (rsss)
O menino, aliás, era inacreditavelmente distinto dos outros membros da família na aparência. Loiro, de olhos azuis e principalmente bonito, chocou o povo da quadra por ter nascido com tais características. Acredita-se que ele veio diferente de tanto que Margô "secou" Taquara, um modelo igualmente loiro e lindo que morava nas redondezas, durante a gravidez. É a força do pensamento positivo, minha gente (sim, porque ninguém, muito menos o Taquara, em sã consciência gostaria de conhecer "biblicamente" Margarida!)!
Margô era uó - digo isso de modo carinhoso, pois ela era muito gente fina, apesar da super lerdeza. Amamentou Tiago por três anos, e sacava os peitos no meio de toda a gente; ninguém queria ver aquilo mais. Andava de calcinha e sutiã pela casa. E se tocava a campainha, improvisava um vestido com o pano de prato. Um dia comentou com minha mãe que precisava ir ao oftalmo. Minha mãe pediu seus óculos e os limpou. Ela, com toda a sua lerdeza, exclamou: "Uai, Jô! E não é que eu tô enxergando bem de novo?!". Olha, só comíamos na casa dela quando o marido estava à frente. Afinal, se o presidente não morria, tava tudo certo.
A mulher do cozinheiro era pés-si-ma motorista também! Demorou dois anos para tirar a carteira - e tentando uma vez depois da outra com todo o afinco. Desconfiávamos de que ela cansou tanto os examinadores com a sua incompetência que resolveram se livrar dela dando-lhe a habilitação (mais uma, menos uma, né!...).
Sair no fumegante de Margô não era fazer um mero passeio; era uma aventura. Primeiro porque nunca sabíamos se voltaríamos inteiros da viagem (minha mãe só pediu carona a ela uma vez, e porque de todo modo queria ir pro setor hospitalar mesmo, então, qualquer coisa...). Segundo, era preciso se preparar para ouvir os piores palavrões. Vinte minutos de trânsito e já estávamos moralmente arrasados por ela, pelos desaforos que lhe diziam os outros motoristas. Margô neeem se abalava e metia brasa na barbeiragem... Ê criatura da cuca fria!...
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Gostaria de saber notícias do Seu Crispim, o pançudo dono do bar da quadra, que anotava na caderneta até os refrigerantes consumidos pelos próprios netos, mas que, vira-e-mexe, cedia um de cortesia para a "Juju" - aliás, quando me chamam assim, é fatal: ou é muito carinho ou muita falsidade da pessoa comigo -, privilégio muitíssimo justo para quem pronunciou as primeiras palavras em seu balcão.
Tinha outro avô postiço na quadra, aliás, dois avós, o Seu Haroldo e a Dona Iara do 106, que me tratavam realmente como neta. Bem, eu era muito amiga dos netos deles e não via distinções, até presente eu ganhava também - uma vez eles brigaram porque ele não agüentou esperar o Dia das Crianças e me mostrou o que compraram pra mim. Seu Haroldo foi meu primeiro contato com a política e matava minha "carência canina" emprestando-me eventualmente a Suzuki, pequinesa que viveu por 16 anos, tendo falecido em 1990.
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Na galeria de saudades, claro, está a alegre Tia Marinalva, a quem vô Gino, marido dela, chamava de Xuxa (não me perguntem o motivo! talvez fosse uma gozação com a loirice de farmácia). Como esquecer aquela gargalhada contagiante? Até minha mãe admite que deveria ter sido ela a minha madrinha, e não a minha prima Silvia, de tão forte que era a nossa ligação na infância.
Há quase vinte anos ela mora no Rio de Janeiro. Aliás, a primeira viagem que fiz a esta cidade foi justamente para visitá-la. Tinha seis ou oito anos de idade, não lembro direito. Cinco impressões fortes sobre o Rio ficaram comigo desde então: é LINDO; é QUENTE; a água é a mais GELADA que eu entrei na vida; tudo é LONGE à beça; e é LINDO.
A primeira vez que fui à praia, em Copacabana, se meu pai não estivesse guiando o carro, suspeitaria de seqüestro, de tantas voltas que demos para chegar até lá.
Dia desses voltarei ao Rio. É uma promessa antiga, né, Dr. Alex? Vou ver o Cristo e dar um abraço na Tia Xuxa, que não vejo há 13 anos.
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Eu sei que é uma grande idiotice minha, mas, olhando para trás, certos diferenciais de uma infância em Brasília me fazem sentir meio que parte de um clube exclusivo, diferenciado. Por exemplo, entre os meus contemporâneos, não conheço quem tenha jogado bets quando era criança. E algum de vocês, não-brasilienses, já sentiu a alegria de bater de porta em porta, no São Cosme e Damião, pedindo doce, pra voltar com a sacola cheia de guloseimas no final do dia? Já correram dos bate-bolas no Carnaval? E sabem o quanto era divertido fazer guerra com o líquido de uma planta chamada xixi de macaco? E o que dizer daqueles pomposos desfiles oficiais em dias da pátria que só existem na capital federal? "Só se vê em Brasília".
No Distrito Federal, ao menos naquela época (metade da minha infância foi durante a ditadura), respirava-se patriotismo e, por ser o centro do poder, era inevitável ser testemunha ocular da História. Vi de perto os presidentes Collor (conversamos por uns três min. em 15.11.91) e Tancredo (dentro do caixão, infelizmente). Esse dia do Collor foi interessante. Na volta para casa, comentei com os meus país: "O presidente conversou comigo. Ele é legal, mas tem olhar de maluco". Dez anos depois, jogando conversa fora com um amigo do Seu Beneh (meu primeiro chefe) que havia sido assessor dele, constatei que não foi impressão minha: "Juliana, era recomendação nas campanhas não chegar a câmera muito perto dos olhos dele, todo mundo tem a mesma impressão!", riu ele ao ouvir minhas lembranças do evento. O engraçado é que um vizinho tinha um adesivo pró-Collor grudado no vidro do carro, que dizia "Vamos Collorir o Brasil", mas eu o lia "Vamos, Collor, rir do Brasil". Uma gênia, uma vidente, desde criacinha! (risos)
Pois é, eu vivenciei o clima de euforia que foi a eleição de 89. Para dar um exemplo, eram tantos materiais de campanha que o meu vizinho, colecionador dos adesivos, não tinha mais onde colocá-los em sua janela na reta final das eleições. A criançada fez a festa naquele período: camisas, adesivos, bonés, "Meu nome é Enéas!", etc. Até votação na escola teve. Votei em Covas, como meus pais, é claro - Sandy, com 24 anos, faz o mesmo quando vai votar (risos).
Peguei o último bonde da boa escola pública. Minhas irmãs e eu freqüentamos algumas de fazer inveja (ao menos em estrutura física e opções de atividades) aos "melhores colégios soteropolitanos", tendo a oportunidade de conviver com todo o tipo de gente, do fulano que morava num amplo 4/4 numa das superquadras, passando pelo filho da cozinheira do colégio e aquele que morava em invasão, até as crianças deficientes (essa é a diversidade que deve estar presente na escola pública, ou melhor, em qualquer escola). A estrutura do Setor Leste, por exemplo...Nunca vi nada parecido aqui em Salvador. A Escola Parque também era muito bacana! Ela funcionava nos moldes americanos, então um semestre tínhamos aulas de teatro, no outro podíamos escolher as de cerâmica ou as de música... Só não dava para escapar da educação física (mas eu vivia entregando atestado médico para não encarar o handball!) e das aulas de religião. Era incrível como sempre vinha um imbecil, de tempos em tempos, perguntando o motivo de estudarmos religião segundo o catolicismo. "Ué, qual é a religião oficial dessa República, 'cara pálida'? Faltou às aulas de Educação Moral e Cívica (EMC)?"
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Uma das lembranças mais nítidas da infância é justamente da minha escolinha na 413. Via Renata indo para a aula, e queria ir também, punha minha mochilinha vermelha dos Gremilins nas costas (que depois minha prima Fernanda "herdou", e depois dela, se não me engano, meu primo Raniel). Seguia rumo à porta, e sempre era barrada por minha mãe. Recordo-me perfeitamente do seu parquinho lindo, dos brinquedos, dos banhos de mangueira em dias de festa, da nossa hortinha, da hora do lanche(até hoje sinto saudades daquele mingau maravilhoso de lá!hummm!...), do uniforme xadrez em vermelho e branco... Minhas professoras...Tia Penha, criatura boníssima... A Tia Alaíde, diretora dura na queda que uma vez me obrigou a bater num menino mais velho, que vivia machucando a garotada do Pré, pra ele ver como era estar em desvantagem - e eu fiquei com dó de machucá-lo e me recusei (o que é a generosidade dos pequenos!). Guardo boas lembranças daquela que me alfabetizou, a Tia Maria Luísa, mistura perfeita de afeto e disciplina. E, claro, não poderia deixar de citar aquela peste dos infernos, a outra Maria Luísa (eram três), professora de educação física, uma baixinha bigoduda e nervosa que me deixou com trauma de esportes e da palavra "saliente", a primeira que fiz questão de procurar assim que aprendi a mexer no dicionário - ao invés de gritar "Parem com isso!", a louca berrava "Seus salientes!".
Era um lugar ótimo, o ambiente que toda criança deveria ter. Não pude evitar o nó na garganta quando soube por uma comunidade do Orkut, no ano passado, que será demolida.
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Nesse prédio branco e verde, que hoje se encontra totalmente cercado de grades e está desbotado, fiz minhas primeiras amizades (é memorável o trio que formei com Léo e Cebolinha, meus primeiros amigos na vida), tive minhas primeiras dores do coração (por que não?! Já disse Nelson Rodrigues que os amores fundamentais de uma pessoa são aqueles que acontecem até os 12 anos de idade), perdi o medo de andar de bicicleta, tive as únicas e melhores festas de aniversário da minha vida...
Também tive a "sorte" de ganhar inúmeras vezes no sorteio da Xuxa. Essa era uma armação secreta do meu pai, que se divertia à beça ao ver o entusiasmo da filha caçula com os concursos e o seu empenho em concorrer ao que quer que fosse. Eu adorava concursos, desde os tempos em que nem sabia escrever, chegando a importunar a pobre da Renata para ficar em frente à tv esperando a hora do apresentador mostrar o endereço na tela...Já naquela época desconfiava um pouco dessa sorte toda, mas só adolescente tive a confirmação de que os prêmios que ganhei da Xuxa haviam sido comprados por meu pai. Bem, o que importa é que eu causei muiiita inveja na vizinhança por conta dessa fraude paterna!hihi... João Alves não é o mais "abençoado" do Brasil! (risos)
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Short Cuts - cenas da vida
"Lá vem a maluca da Te Segura! Corre!". "O prédio do outro lado é mal-assombrado, eu é que não entro lá". A casa da árvore - projeto coletivo e várias vezes fracassado - é um grande sonho. As reuniões do clube clandestino no quartinho vazio do zelador, a gente sempre firme e forte na adoração dos ídolos infantins, ao menos até que o chato do síndico nos descobrisse (mas nós sempre voltávamos). Minha mãe se recusa a pagar minhas aulas de natação no SL, mas eu não me rendo e dou meu jeito de acompanhar a galera: viro "aluna clandestina" usando o nome da vizinha, minha xará, que era matriculada no mesmo horário (hehe). Coleção de papel de carta é uma obsessão. Os presentes que minha mãe trouxe do "estrangeiro" (leia-se Paraguai) são bacanas - "olha só essa boneca que fala!" "Disco novo da Xuxa! Eu tenho! E você ainda não comprou? Hããã!...". Eu amo "Armação Ilimitada" e, claro, meu preferido é o Bacana. É bom o fim de semana na casa da tia doceira que fazia vistas grossas para os furtos de brigadeiros e outras delícias. Não há coisa melhor que a piscina do clube da Caixa Econômica, aos domingos. Comer pastel na Feira do Guará é de praxe. É a tarde do amigo-oculto de fim de ano na sede da Caixa, e lá vem o Santiago com a Eliane Sardinha, a camisa dele igual a do meu pai - bizarrice da mulher que teimava em transformar os dois amigos em um ridículo par de vasos. Natal sem graça na casa da vó Ana, em Goiânia, mas o importante é estar em família. Férias dos sonhos em Salvador, na associação do DNER, em Itapuã - "Me passe o gato!". Acampamento em Caldas Novas, várias famílias amigas e muita bagunça! Roma, Paris, Nova Iorque...A volta ao mundo todo é feita várias vezes ao dia e de graça (os bancos de cimento se transformam, com a boa vontade da imaginação infantil, cada um num lugar diferente). Ar seco de agosto, e nada de aulas! Dormir com três cobertas é muito bom, só é ruim na hora de acordar. "Olha o quebra-queixo! Quem vai querer?".
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BSB: Up and Down
Foi um ótimo lugar para passar os primeiros anos. Além das coisas públicas funcionarem por lá, havia espaço para o lazer; as crianças podiam brincar nas superquadras sem ficarem à mercê do trânsito frenético, como acontece nas outras capitais. Havia muitas áreas verdes e praticamente cada SQ tinha sua própria quadra de esportes.
Tenho um pé atrás com a Brasília atual porque é o reino da violência gratuita, dos crimes de classe média e o povo usa drogas muito mais pesadas (cocaína é coisa ordinária por lá desde que me entendo por gente). Outra coisa, para a qual nunca tive um pingo de paciência, é a cultura da ostentação, das aparências e status acima de tudo. A infância também não dura muito tempo nessa cidade - se é que você me compreende...
Apesar de ter a melhor qualidade de vida do Brasil, e faz muito tempo, já naquela época, na década de 80, Brasília se destacava em duas estatísticas nada bacanas: nas de alcoolismo e nas de suicídio.
[Salve a Bahia!...E o seu sol que não deixa ninguém triste! hehehe]
Acho que fui embora na hora certa. Se tivesse passado a adolescência em BSB, pelo andar da carruagem, ou teria ficado no "Bloco do Eu Sozinho" ou teria que sucumbir à maioria para me adequar, ou seja, virar uma "porra-louquinha" - nada mais clichê, especialmente quando se é adolescente! -, o que teria sido demasiadamente ruim. Outsider de nascença - de nascença mesmo! (risos)... essa é outra história... -, tenho uma grande e inata desconfiança do bom senso da maioria. Só consegui, por exemplo, simpatizar com a idéia de ter blog depois que passou a moda... Enfim, tenho mais a agradecer que a reclamar por ter vindo para SSA aos 12 anos. Penso que no Nordeste existe uma calma, uma inocência e uma liberdade que não é mais possível, e há muito, no Centro-Sul. Mas demorei muito a sacar essas vantagens.