quinta-feira, 23 de julho de 2020

Donde estás corazón?


É, meus caros, tenho que admitir, após 25 anos de luta contra, que onde o coração não está, eu não consigo permanecer bem nem que a vaca tussa. Sim, sou dessas. Me lenhei. Não tem razão que comande 100% minhas emoções. Já evoluí muito, mas... Vai ver que é por causa do meu tipo psicológico, sentimento/sensação. Eu tenho bom senso, até gosto da rotina, do conhecido, mas desde que eu extraía algo subjetivo também disso tudo. Só pelo dinheiro, não rola. Eu seria uma péssima prostituta.

Mas mais preocupante que essa constatação está outra: a de que eu não sei onde está meu coração, só onde ele não está.

E que Deus me ajude a cumprir essa jornada.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Fersami




Fernanda Santana Miranda aka fersami (pelo menos no e-mail que eu ajudei a criar nos anos 2000 e que ela usava até a última vez que nos encontramos, hehe) faleceu no último domingo, depois de oito anos de uma batalha cheia de dignidade, generosidade e sabedoria contra o câncer que teimava ocupar seu jovem corpo de 40 anos. Não lamentei que tivesse partido; até eu, que estava de fora, estava exausta de "câncer vai, câncer volta", imagine ela. Na verdade, lamentei anos antes, quando soube da metástase. Fernanda era muito jovem, muito dinâmica, cheia de vida, amigos e interesses.  Eu lembro dela assim, como nessas fotos, e era assim que ela estava antes da doença. Mesmo desgastada pelos tratamentos, ela tinha uma aparência corada, bonita, mas eu quero lembrar dela assim.
Como disse, senti alívio com a notícia, acompanhado de um sentimento natural de tristeza. Na verdade, eu chorei a morte de Fernanda em 2014, antes do diagnóstico de metástase, quando o câncer voltou. Tinha ido na casa de uma amiga de meu cunhado, que joga cartas, e acabei perguntando por Fernanda, e a mulher me disse que ela não ia escapar. Fui pro jornal, meu emprego na época, chorando muito, tentando cobrir os olhos com os óculos escuros. Parecia cena de filme de Paul Thomas Anderson, daquelas em que sobe o som e o personagem se acaba no drama. E confesso que não chorei só pela má sorte dela. Eu e ela temos a mesma idade, ela 17 dias mais nova que eu. Chorei ao descobrir a minha própria mortalidade. Gente de 30 anos não costuma saber que pode morrer. Com Fernanda eu vi a minha própria morte. Vejo hoje as meninas, Mariana e Ceyse, chorando e sei que não é só saudade, mas a perda da própria inocência, a certeza de que o que nasce, morre também - e bem poderia ser qualquer um de nós já que pôde ser Fernanda. A gente nunca chora pelos outros sem chorar a si mesmo em alguma medida.
Plot point
Nem sempre Fernanda foi uma pessoa legal, embora nunca tenha sido detestável. Mas ela era do grupinho que se achava descolado, da escola, e às vezes era meio metidinha (delas, a única que consegui realmente gostar depois de adulta foi justo ela). No entanto, sempre foi educada. Lembro-me de uma atividade da escola, em que mandamos bilhetes secretos para colegas, e ela elogiou minha inteligência de um modo muito sincero e bacana. Depois que foi morar fora, mudou, amadureceu e deixou essa versão Garotas Malvadas para trás definitivamente. Se ela fosse essa pessoa aos 12 anos, teríamos sido grandes amigas. Ou talvez ela já fosse e eu não via. 
Fernanda tinha uma personalidade que admiro no sentido de ser audaciosa na atitude individual e suave na abordagem dos outros. Acho que por sempre valorizar os outros, teve tantos amigos. Áries com ascendente em Libra. Era muito ligada à cultura, ao aprendizado. Nisso eu me identificava com ela. 
Vi que Fernanda tinha se tornado outra pessoa quando assumiu ser lésbica. Conhecendo ela desde priscas eras, senti que ela evoluiu porque sempre a vi como alguém que se preocupa com a opinião dos outros (se bem que ela andava com artistas, um meio em que a homossexualidade é natural). E principalmente aceitou com muita docilidade os revezes, tanto na vida amorosa (foi abandonada de forma escrota quando descobriu que tinha metástase) quanto na saúde. Nisso, ela se mostrou mais evoluída que 99% dos meus conhecidos, inclusive essa que aqui escreve. Eu não seria tão sábia e desapegada quanto Fernanda foi. Bato palmas para quem ela se tornou. Onde muitos esmorecem, ela se agigantou. Lamento que tenha sido pelo caminho da dor, mas Fernanda passou pela escola da vida e com louvor. Fico com as palavras do amigo dela, Alexey:

E foi assim que a gente se conheceu: por causa do câncer, em 2014. O meu, bem menos grave que o dela. Descobertos na mesma época. Deram-lhe um mau prognostico, mas Fernanda teimou: “pelo menos quarenta anos eu vou fazer”. E fez, este ano. Se dissermos que foram seis anos sem sofrimento, estaremos mentindo. Mas foram seis anos heróicos, nos quais Fernanda ajudou uma quantidade descomunal de mulheres com o mesmo problema. Ajudou-as como profissional, como mulher, como paciente oncológica. Dedicou-se profundamente a ajudar a quem, como ela, sofria. Uma vez, me disse que isso dirimia as dores físicas que sentia. Ao dedicar-se aos outros, esquecia-se do próprio padecimento. Talvez seja este, o segredo.
Neste ínterim, aconteceram milagres médicos: os tumores sumiram. Voltaram. Sumiram. Voltaram. Mas Fernanda nunca, jamais sumiu. Ela até pode ter nos deixado hoje, mas sumir é impossivel.
Foi-se suave, e como queria: sem dor, e ao lado da mãe.
Adeus, minha amiga querida. Não sei se existe vida após a morte, mas sei que existe vida antes da morte. Nem todo mundo tem vida antes de morrer.
Você teve.  (Alexey Dodsworth Magnavita)

domingo, 5 de julho de 2020

A soma de todas as opressões (e depressões)




Sou rata de YouTube e sigo alguns canais de brasileiros que moram fora e de gringos que moram no Brasil. Tem jeito não: tenho rodinhas na alma, o mundo é minha nação. Uma conversa entre franceses ontem me chamou atenção para um tema: o número de travestis no Brasil. Sei lá, de cada 10 na Europa, 8 são brasileiras. Me espanta o baixo número de travestis europeias. Daí que a gente vê que é uma questão local e não apenas da condição de gênero e sexualidade das pessoas. Para um menino gay afeminado no Brasil só deve sobrar isso como alternativa de sobrevivência. Talvez europeus e americanos nessa mesma condição tenham oportunidades mais variadas de trabalho. 

A travesti, coitada, é um pot-pourri das opressões: são afeminadas em um país profundamente machista, que rechaça o feminino, ainda mais a traição de um homem de nascimento à masculinidade; geralmente são negras e da periferia. Enfim, juntam gênero, sexualidade, raça e classe num pacote só. E como as oportunidades para seres periféricos já são poucas e com a autoestima sendo esfrangalhada desde criança (quando não sofrem violência desde a infância, no colégio e no bairro), o que muitas vezes sobra pra pessoa é trabalhar com beleza ou vender sexo, momento em que recebe algumas migalhas de atenção. Não vamos esquecer que o sexo também serve para isso: para se sentir desejada e de alguma forma valorizada e às vezes até é uma das poucas oportunidades de estar no comando - Cleópatra que o diga. Não é à toa que, no Brasil, travesti tem expectativa média de vida de 35 anos. Poucas histórias são como as de Dani. Ariana, né, more? Nem o cão pode com essa raça. Mas ali foi a satanariana brigando para viver, na força do ódio. Mas ela não esqueceu o que ela viveu. Alguns relatos são de partir a alma de verdade. 98% das pessoas que conheço não sobreviveriam, assim como muitas travestis não sobrevivem mesmo. Eu imagino que fora a violência, a taxa de suicídio deve ser enorme entre essa população. Não é fácil viver - e num país que já te atrapalha tanto como o Brasil - sendo tratada como uma aberração. 

Eu me pergunto como um continente tão belo, com uma cultura tão foda e gente tão diversa e bonita pode ser tão cruel como é a América. Que maldição é essa que a gente traz desde os nossos antepassados? Quando isso vai parar? O colonialismo, que produziu o racismo, foi a pior coisa da história da humanidade, porque é estrutural e inconsciente muitas vezes. Tô quase passando um zap pra Cláudia pra ver se ela soluciona isso, se é que ela não desapareceu do mundo original. 

E a pior, hoje me dou conta, é o racismo. Essa porra (desculpa o palavrão, mas eu sou baiana, tô revoltada e o blog é meu!) mata as pessoas aos poucos, tira a autoestima, as adoece física e psicologicamente, quando não mata à queima roupa. O racismo nunca foi o meu marco de opressão, embora tenha experimentado isso na minha vida embora nunca frontalmente. Venho de uma saga de mulheres com relacionamentos ruins, infelizes, então a questão de gênero sempre foi mais forte na minha vida, inclusive nas (faltas de) oportunidades e dores. Há dores que eu só experimentei porque sou mulher no Brasil. 

Claro que se eu tivesse a aparência da Marina Ruy Barbosa ou da Bruna Marquezine - para falar de uma mulher que não tem aparência europeia, mas não é lida como negra - minha vida seria muito mais fácil, inclusive a amorosa (em parte, porque eu sei que é deixar de ser mula para ser bicho de estimação; o machismo é um jogo que a gente nunca ganha). Mas eu tenho uma passabilidade nessa questão de raça. Se me esforçasse como Renata para embranquecer, nem seria uma questão marcante na minha identidade, não na maioria dos círculos. Minha questão como mulher é que nem sou a "troféu", de quem o homem vai suportar muita coisa até em alguns casos (porque algumas delas têm o dom da chatice, da nojentice, reúnem o pior do estereótipo da feminilidade tóxica) apenas pelo símbolo que ela representa para a sociedade, nem sou a mulher dócil, simpática. Explico: eu tenho senso crítico, sou franca e não sou sedutora; não sou de ir atrás de ninguém. Em uma cultura de subserviência feminina, como a do Brasil, não "ser dada" é um problema e tanto para uma mulher, ainda mais se for das que não agregam ao camarote. O homem fica com ressentimento, achando que você não valoriza. Eu sou eu o tempo todo e as pessoas não estão acostumadas com isso. Nunca aprendi a jogar o jogo - e essa minha afirmação não é um autoelogio; é uma constatação, com todos os problemas e virtudes que não jogar traz. 

Tenho amigas ótimas que não conseguem ter um relacionamento duradouro justamente porque são ótimas mesmo sozinhas. Não são muitas, não; infelizmente as conto nos dedos. Tem um monte de mulheres que se acham ótimas só porque são esteticamente bem cuidadas e ganham bem; falo de mulheres feministas na prática, alegres, engajadas na própria vida, esclarecidas e solidárias a outras minorias. Uma das minhas amigas que é assim é da umbanda. Uma vez, a pomba gira deu a real a ela: disse que todos os ex terminaram com ela ainda gostando muito dela, por medo de não estarem sendo correspondidos, pois, afinal, ela não demonstrava dependência. E eu acho que rola também uma certa inveja dessa independência, dessa autoestima a mais. Isso só me lembra a frase que ouvi de um homem uma vez: "A única coisa que um homem tolera que a mulher seja mais que ele de boa é ser mais bonita"... Olha o que é o ser humano (isso é universal, tanto faz homem ou mulher): a pessoa prefere estar com alguém de quem gosta menos ou nem gosta e que oferece menos do que com alguém de quem gosta muito, que admira, mas que não mostra dependência emocional, não dá a segurança do controle sobre o outro. Olha com que tipo de espírito as pessoas entram nos relacionamentos. Olha o que a masculinidade tóxica produz, fazendo homens acreditarem que devem estar sempre por cima e as mulheres sempre aceitando isso. Olha a nossa pobreza afetiva. :/ 

Meu mal, como disse Juan Del Diablo, foi achar que todos os seres humanos são iguais. Aliás, o de muita gente. Dizem isso pra gente na infância e alguns piscianos ou ingênuos mesmo acreditam, bichinhos. Hoje eu já sei que não, mas já me iludi bastante me achando igual em ambientes elitistas e tomando na cara, da forma mais dura - da parte de pessoas pelas quais tinha afeto ou em circunstâncias que me eram caras -, quando essa diferença vinha à tona. E o pior: por que eu mesma achava que devia estar naqueles lugares e entre aquelas pessoas que, no final das contas, vi que não acrescentavam nada para o que eu realmente queria? A gente é tão martelado com determinados modelos de felicidade que a gente se encaminha pra eles automaticamente, sem nem perguntar se aquilo é o que nos preenche realmente. 

Que as pessoas, aqui e acolá, marquem posições, eu ainda consigo entender porque gente não é gente. Mas já as instituições... Bem, o mal é que as instituições são feitas de gente. E nem adianta sonhar com as máquinas não, pois elas também são programadas por pessoas, algumas explicitamente preconceituosas. Só o meteoro pra dar jeito nesse caos. 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Qual é o meu conceito de felicidade e o que me faz bem nessa vida? (Tchan, tchan, tchan, tchan...)


Primeiro que eu não acredito em felicidade mas em alegria, ou seja, não acredito em um estado, mas em uma atitude diante da existência. Tem gente que, como dizia Freud, nasce com uma natureza mais favorável, que sabe fazer do limão a limonada.

Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, mas é onde eu releio o que escrevo e, ademais, ninguém lê. E, a propósito, mesmo que alguém lesse, é a minha verdade e ninguém precisa pensar igual a mim.

Não peguemos emprestado os conceitos dos outros. Isso distrai e deprime, e o pior, sem razão de ser, sem necessidade. É como um cego definhando porque deseja um livro que não é escrito em braile.

Vamos lá, vou fazer esse exercício agora, na linha Faustão de "quem sabe faz ao vivo".

Eu entendo por "felicidade" bem-estar e afeto. A essa altura eu já percebi que meu barato maior não está em ser a mais popular, a mais rica, a mais famosa, enfim, todos esses clichês. Aprendi até muito tarde na vida que quem não é feliz comendo pão com café não vai ser feliz com nada. Acho que o difícil mesmo é dar sentido ao ordinário, aprender a ser apesar e acima de tudo, porque tudo pode nos ser tirado. E aí? Quem sou eu sem meu emprego, meu marido, minha fortuna, minha juventude, meus amigos e meu filho que não fazem mais parte da minha realidade? Meu barato é ter qualidade de vida. Eu nunca ia querer ser Lady Gaga simplesmente porque, embora eu adore música, canto, nunca seria feliz em uma rotina que me transforme em máquina de trabalhar. E não me venha com essa palestra de "quando você acha um propósito". Meu propósito, de preferência, tem que caber em um turno de trabalho. No restante, eu quero viver a gosto, sem compromisso. Get a life, don´t be a workaholic. A maioria de nós não é Picasso, Steven Spielberg, Bill Gates ou Mandela que nasceu para dar algo significativo à humanidade. Nossa missão aqui é desenvolvermos a nós mesmos.

Por isso, gosto de viver fragmentada entre vários interesses e aprendizados. Acho que é por isso que gosto tanto de ler, assistir, fazer cursos, bater papo e viajar.
Eu gosto de fazer no meu tempo, sem pressa. Eu, cansada, erro até o meu nome.
Eu gosto de ter autonomia. A essa altura, eu percebi que definitivamente preciso disso. Não aguento administrar gente, não tenho saco para executar ordem burra.

E gosto de afeto, mas de intimidade. Esse negócio de grandes grupos, eu passo. Gosto de poucos, mas íntimos. Gente com quem eu me sinto à vontade, que me aprecia, que me acompanha, que me ama de verdade. Porque tem gente que gosta de sua companhia, mas só faz aquele extra quem te estima de verdade. Não quero ser útil para ninguém. A gente passa a vida inteira querendo se fazer amável até o dia em que a gente descobre que o amor acontece mesmo quando você é "inútil" pra quem te ama, só por ser.

Eu gosto dos pequenos prazeres, do conhecimento, da realização, da autonomia e da intimidade. Isso me energiza.

And you?