sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Coração Selvagem (e lições sobre a vida)






Um aviso antes de começar este texto: neste blog é proibido falar mal de Fernando Colunga e Eduardo Palomo. De resto, problema seu se não gosta de novela latina. :P

Essas fotos são da novela Coração Selvagem, terceira versão. Eu a assisti quando tinha uns 14 anos, depois quando tinha 17 e 21 e, graças ao YouTube, me deparei com ela de novo em dezembro passado. É uma das minhas novelas preferidas e a melhor novela não brasileira que já assisti. :) A história, que é baseada em um romance dos anos 50 da mexicana de ascendência cubana Caridad Bravo Adams, teve quatro versões para a tv. A última delas, de 2009, é, aliás, pavorosa. Tiveram a capacidade de juntar nos papéis principais a versão mexicana do cigano Igor com uma atriz canastrona para fazer gêmeas, a boa e a má (ideia mais cretina, até porque as personagens do livro não são gêmeas). A atriz em questão é a ex mulher de Luis Miguel. Agora eu entendo porque ele se separou dela. Realmente, com atriz canastrona não dá. Tomara que os filhos deles puxem ao pai em talento, hehe... Enfim, a única coisa que prestou nessa versão foi o tema, a baladinha de Chayanne, "Me enamoré de ti".
E essa terceira versão, com Edith Gonzalez e Eduardo Palomo, prima não só por um roteiro bem feito, dinâmico, que mistura romance com ação, mas por boas atuações de todo o elenco, com destaque para o par romântico, que teve muita química. Você assiste as cenas de Monica e Juan e parece que você está numa situação real, os atores realmente conseguiram passar verdade, conseguiram entrar mesmo num jogo cênico entre eles, inclusive se movendo em cena de acordo com os movimentos do outro. Palomo teve uma química com Edith que nem com a própria esposa dele conseguiu ter (aliás, outra canastrona). Suspeito até que essa química veio não só do talento de ambos e de um bom entendimento profissional, mas de algo fora das telas (veja bem, não estou dizendo aqui que se consumou, mas só a intenção já bastaria para mobilizar emoções, hehe)... A evolução do relacionamento de Monica e Juan foi um negócio muito bem feito, gradual. Monica, que saiu diretamente de um convento, começa bem tímida, mal sabia o que fazer com a boca nos primeiros beijos com o noivo, e termina a novela segura, outra mulher. Esse tipo de transformação sutil e ao mesmo tempo significativa só uma boa atriz pode conseguir. Viva Edith!
A direção também foi muito boa. A cena mesmo em que Juan corre montado a cavalo de frente pra câmera é massa. E em vários momentos os personagens passam informações sem abrir a boca, só pela expressão corporal, o que não é comum em novelas mexicanas (mas também trata-se de um elenco de larga experiência, inclusive no teatro). A cara de Juan para Monica, por exemplo, quando descobre que ela mentiu sobre Aimée já ter ido pra lua de mel dispensa texto. Outra cena boa é quando, já casado com Monica, Juan recebe o irmão em sua casa, de quem ele morre de ciúmes por ter sido a paixão da vida inteira da esposa. Na hora de se despedirem, já sabendo que faz parte do ritual que seu irmão beije a mão de Monica, ele se adianta para abrir a porta e estar de costas quando isso acontecer, pra não ver Andrés se aproximando de Monica. Também é muito boa a cena do choro misturado com riso de Monica ao saber que Juan não estava morto como disseram a ela e ainda quando Monica, olhando fixamente pra frente, vai embora depois de dar de cara com Juan pela primeira vez após meses separada dele, como quem diz "Não vou nem olhar para ele para não cair em tentação, para não sucumbir a esse olhar 43 aí". Muito boa a expressão de saudade e desespero de Juan ao vê-la depois de tanto tempo. Mas a melhor direção, a meu ver, foi a do "balé" dos dois na escada da casa de Andrés, enquanto faziam uma DR. <3
Bem, a história de Coração Selvagem fala de um quarteto amoroso formado por duas irmãs de uma família nobre e falida, de caráteres completamente opostos (Aimée Altamira, a atrevida e sem caráter e Monica Altamira, a gente boa e tímida) e dois meio irmãos que não se sabem irmãos (Andrés Alcázar, o rico e Juan del Diablo, sem sobrenome mesmo, o pobre, filho bastardo de Francisco Alcázar) até determinada altura da história, que se passa numa cidadezinha costeira do México, em 1902. Só pra explicar o eixo da trama: Monica e Andrés tinham um compromisso firmado pelas suas mães desde a infância, mas ele morou no exterior a vida inteira, portanto, não tiveram contato. Só que ao conhecer Aimée na capital - ela foi criada por uma tia de lá, por causa da falta de recursos de sua mãe -, Andrés se apaixona por ela. Quando Aimée volta pra San Pedro, a cidadezinha da história, conhece Juan e eles têm um caso. Poucos dias depois, é a vez de Andrés voltar. Ele rompe o compromisso com Monica, que fica devastada e resolve entrar pra um convento, e se declara para Aimée, que por ambição e ódio gratuito pela irmã resolve aceitar o pedido de casamento. Neste meio tempo, Juan, que já está apaixonado por Aimée, pede ela em casamento, prometendo que vai voltar rico de uma viagem que vai fazer (é dono de um barco de carga, onde faz entregas e carrega mercadorias para vender), e ela aceita, mas da boca pra fora e duvidando que isso aconteça. Juan, o azarado, volta um dia depois do casamento de Aimée e Andrés. Pra ele, foi um soco no estômago: primeiro, por ter sido enganado pela mulher que ele queria se casar e depois porque ela conseguiu a proeza de, com isso, por o dedo na pior ferida dele, que sempre foi complexado por ser um bastardo, sem sobrenome e sem família, que viu o irmão crescendo com tudo que ele poderia ter também e não teve - Aimée ter preferido se casar com Andrés foi a cereja desse bolo. Em determinada altura, Juan e Monica se veem meio que empurrados a se casarem, e a partir daí coisas bacanas e coisas tristes acontecem.
Quem é o coração selvagem? Juan, o arrebatado? Monica, a apaixonada? Aimée, a egoísta? Ou Andrés, o iludido?
Essa novela é o folhetim clássico e a prova que, se bem feitos, produtos deste gênero não ficam nada a dever às tramas descoladas de HBO e Netflix. Os personagens são críveis, humanos, e você torce pelos mocinhos e odeia os vilões (em determinada altura, eu mesma, se pudesse, daria cabo de Aimée, Bautista, Espíndola e até de Andrés, Açucena e dona Catalina. Ô vontade de chamar Nazaré Tedesco pra empurrar esses insuportáveis da escada!... Gente, é tão bom se zangar com personagem de novela! É catártico! hehe). 
Como toda boa história, essa rende algumas reflexões sobre a vida (atenção, daqui pra baixo vão rolar uns spoilers mesmo).

1 - Quem vê cara, não vê coração
Tanto no livro como na ótima adaptação de Maria Zarattini para a TV (uma roteirista italiana, autora da Televisa, que também é responsável por outra novela que fez muito sucesso, embora bem inferior a Coração, "Amor real", outra adaptação de um livro de Caridad Bravo Adams), Aimée é descrita como uma mulher belíssima, extrovertida, sem nenhum pudor em viver a sua sexualidade (essa parte da sexualidade fica mais evidente no livro que na novela). Os caras ficaram hipnotizados, mas logo quando descobriram como ela era egoísta, mentirosa e sem escrúpulos, se desapaixonaram (pelo menos isso, né?). Já Monica, que por ser pudica e tímida ninguém dava um vintém por ela, despertou amores mais intensos, por incrível que pareça. Na verdade, Monica é uma pessoa apaixonada, porém contida. Isso demora de ser mostrado na novela, mas logo nas primeiras descrições da personagem no livro é dito: se trata de uma mulher muito intensa, mas que vivia isso em silêncio. Ela tinha a mesma energia e força que Aimée, só que enquanto essa extravasava pela via do egoísmo, Monica usava essa paixão de forma mais positiva - além disso, ao contrário da irmã, ela tinha conteúdo.
Gosto do fato de Juan e Monica terem se escolhido pela qualidade do ser humano, abrindo mão até dos seus padrões até o momento: ele gostava de mulheres com "sangue nas veias" e ela foi criada para casar com um cavalheiro.
Moral da história: às vezes as melhores opções não vão estar piscando na prateleira, pelo contrário. E nem tudo que reluz é ouro.

2 - A potência de ser diferente
Geralmente quando você destoa da média, quase ninguém vai ter olhos pra você, mas quem tem, encontra algo que ninguém mais seria capaz de dar, daí o motivo do encantamento bater forte. Explico: Juan, por ser um pária, com fama até de marginal, por mais que tivesse qualidades humanas importantes, só despertava paixão nas mulheres, que justamente por ele ser bonito, masculino, rude, "selvagem", buscavam nele mais emoção na vida amorosa. Monica foi a exceção: ela gostou dele primeiro pelas qualidades como pessoa. Foi a primeira vez que ele conseguiu juntar amor e paixão, aliás, o amor puxou a paixão. Na verdade, como Don Noel fala no início da novela, por ter vivido toda a rejeição que viveu, a grande fome de Juan era de afeto, e isso Monica tinha de sobra pra dar. Quando ele percebeu que Monica era melhor que a média, generosa apesar de pertencer a classe alta, brigou com unhas e dentes pra ficar com ela. Juan poderia achar mulheres mais exuberantes, mais charmosas, mais performáticas, mas não com a integridade e afetuosidade dela. Mesmo no século 19, suspeito que a coisa andava difícil (risos). Ao se casar com alguém marginalizado como Juan, Monica praticamente cometeu suicídio social (na novela, porque no livro é diferente o caminho pelo qual eles se unem), coisa que nem Aimée no auge da paixão teve coragem, admitindo que tinha vergonha dele. Aimée, aliás, só corre atrás de Juan quando já não tem mais nada a perder, e até então ela queria juntar a paixão de Juan com a fortuna de Andrés. O tipo de criatura que só pensa em si.
Monica também encontrou um homem diferente do que ela imaginava: íntegro, carinhoso e que a trata de igual para igual, o que não é comum hoje, muito menos há 120 anos. Como li no comentário de uma espectadora, no YouTube, Juan é o sonho de qualquer mulher: gato, rico, sincero e apaixonado (risos). Mesmo Andrés sendo um bom rapaz, ele tinha aquela ideia errada de que mulheres de alta classe devem ser tratadas como seres puros e incapazes que devem ser tuteladas pelos homens, quase como um animal de estimação caro. Melhor resposta de Juan pra essa baboseira: "Uma mulher é uma mulher, quer tenha nascido num estábulo ou palácio". Homem bitolado como Andrés tem mesmo o destino de perder a mulher para homens mais lúcidos e espontâneos como Juan.

3 - Nem sempre o que você queria era o que te convinha
Pelo perfil de Monica, ela teria sido feliz com qualquer um dos dois, embora a oportunidade dela de crescer e evoluir estivesse com Juan (aliás, é curioso como um puxou no outro aquilo que sempre tiveram, mas estava recalcado: nele, o lado carinhoso; nela, o lado apaixonado e corajoso). Mas ele, se tivesse se casado com Aimée, teria sido muito infeliz. Um cara simples, generoso e afetuoso como Juan logo ia se frustrar com uma mulher frívola, egoísta e sem caráter como ela. A felicidade não ia durar 30 dias. E, com o tempo, comparando-a com Monica, mais uma vez ia se ressentir do irmão ter levado a melhor e ele, a pior. Juan e Monica comprovam uma teoria que tenho há algum tempo: para qualquer tipo de parceria, especialmente casamento, as pessoas podem até ter temperamentos opostos, mas precisam ter os mesmos valores.
Como Juan mesmo disse, é de agradecer a Aimée que o tenha traído, pois permitiu que conhecesse Monica. Aliás, foi a única coisa boa que resultou de Aimée, porque binha só trouxe problema pra vida dele.   

4 - É preciso acreditar em segundas chances e não se paralisar pelas experiências ruins
Monica e Juan se juntam de forma muito rápida depois de terem passado por grandes decepções amorosas. Mas se permitiram tentar mais uma vez quando se apaixonaram de novo, um pelo outro. Acho massa que tanto ele quanto ela admite ter já se apaixonado por outras pessoas, mas reforçando que Monica/Juan foi a pessoa a quem mais amou na vida, que foi algo diferente, especial. Se tivessem sido dominados pelo trauma, olha só a oportunidade que teriam perdido. 
Aliás, neste ponto, o Juan da novela merece mais aplausos que o do livro. No romance, Juan se casa pra se vingar; ele acha que Monica combinou com Aimée a armadilha que os levou ao casamento. Ele a arrasta para o navio dele, contra a vontade dela, e conforme vão se conhecendo, vão se apaixonando (eu acho que a novela deveria ter demorado um pouco mais nesse processo. Entre se conhecerem e se apaixonarem, Juan e Monica levam apenas dez capítulos. É bom deixar o público um pouco ansioso, na espera). O Juan da novela se casa com uma mulher por quem ele já está apaixonado mas que ele pensa que ainda está apaixonada por outro. Mesmo tendo sofrido muito por Aimée, que foi uma aposta alta que ele fez (arriscando a vida pra ficar rico e poder dar uma vida confortável a ela, moça de classe alta acostumada a luxos), mesmo sendo orgulhoso, Juan aposta de novo e em Mônica, em poder fazê-la se apaixonar por ele. Claro que isso deixa ele ciumento a novela inteira (até porque tem um gênio do cão), principalmente no começo do casamento quando ele não tinha ainda segurança no amor dela. Mas Juan dispensa a segurança, o orgulho e aposta tudo na felicidade dele, mesmo morrendo de medo de sofrer de novo e bem mais, porque com Monica ele tinha altas expectativas por ela ser como é. Bravo, Juan! Como diz o outro, quem não morre também não vê Deus.

5 - Um casal precisa se comunicar
Esse problema é muito maior no livro que na novela. E dá até raiva da teimosia e falta de autoconfiança de Monica e Juan. Eles se apaixonam, mas passam quase o livro inteiro sofrendo, achando que não podem se declarar porque serão rejeitados. Um beijo roubado, uma carta, uma conversa teria abreviado o sofrimento. O Juan do livro é mais orgulhoso. De tão ciumento, acha que todos os gestos de Monica são de amor a Andrés (que no livro se chama Renato), e mesmo quando bichinha, que é mais fechada que uma ostra, toma coragem e se insinua um pouco, ele dá um jeito de ver de outro modo. Os dois passam o livro entendendo tudo errado porque não conseguem conversar sobre seus sentimentos. O Juan da novela é mais barraqueiro e entrão: quer saber das coisas, enche o saco de Monica para que ela fale francamente, pergunta a outras pessoas, fala o que sente e até escala muro e entra pela janela quando está muito difícil ter acesso a ela pelas vias civilizadas. Isso, Juan: melhor se arriscar que passar vontade! hehe...

6 - Nem sempre haverá chance para consertar um erro
Essa parte é muito interessante: tanto Andrés quanto Juan são boas pessoas, gente de bom coração, mas as vivências fizeram a diferença no caráter de cada um deles. Andrés é autocentrado e confiante, já que nunca teve uma vontade negada e sempre teve todo mundo ao seu redor disposto a satisfazê-las. Juan cresceu numa situação de vulnerabilidade, portanto sabe que solidariedade é condição de sobrevivência pra ele e pras pessoas que o cercam. Como ele sabe que no mundo real é cada um por si e Deus por todos, quando ele se depara com Monica, ele percebe que está com alguém especial, que mesmo sofrendo, ainda é generosa. Para Andrés, essas qualidades só vão valer de alguma coisa depois que ele quebrar a cara com Aimée e perceber que Juan está muito feliz com Mônica, se arrependendo pela primeira vez de não ter ouvido o conselho de sua mãe de que conhecesse Monica primeiro antes de se decidir de vez pela irmã dela. Tão acostumado que está de não se importar com ninguém além dele, Andrés não reparou nos sinais de que Aimée não sentia nada por ele; não se colocou no lugar de Juan, que passou pela mesma coisa que ele com Aimée, achando que só ele foi ofendido e sofreu e que podia descontar em Juan sua frustração causada, na verdade, por ele mesmo e Aimée. Com Monica, então... Andrés, apesar de ter muito afeto por ela, nunca a enxergou: terminou o compromisso sem nem sequer considerar o sofrimento dela (o que valeria ao menos uma conversa, uma atenção com os sentimentos dela); tentou empurrar um marido que ela não queria (Alberto), quando ele mesmo esperneou contra um casamento arranjado, e de qualquer modo a forçou a se casar, o que ela acabou fazendo felizmente com Juan; e quando quis se vingar de Juan, Andrés em nenhum momento considerou o sofrimento que iria imputar a principal prejudicada da história, Monica, ainda querendo forçar um casamento com ela só pra se vingar do irmão. No livro isso se dá um pouco diferente, porque depois de se decepcionar com Aimée, ele realmente se dá conta de que ama Monica e tenta de todos os modos, inclusive não éticos, tirar ela de Juan, se negando a aceitar que ela já está apaixonada por outro. Enfim, muito provavelmente quem vai te ferrar na vida não é uma pessoa maquiavélica, vilão de novela, mas alguém como Andrés, que não está jogando contra você, mas a favor dele. Tá certo que ele tinha uma essência boa enquanto Aimée era gente ruim, perversa, mas ambos só olhavam o próprio umbigo. Se mereciam mais do que Andrés merecia Monica e Aimée, Juan. 
Aimée também foi outra que percebeu a burrada que fez tarde demais. Se deslumbrou com dinheiro e prestígio social e achou que poderia dar uma de esperta em cima dos dois homens apaixonados por ela tendo o melhor dos dois mundos, e acabou perdendo ambos, principalmente o que mais lhe interessava (Aimée iria adorar o século XXI, onde a galera é bem assim: quer tudo e não aceita abrir mão de nada, mesmo que pra isso tenha que ferrar com os outros). Quando percebeu que gostava de Juan e que não ia conseguir esquecê-lo, já era tarde demais. Certas coisas que você faz (ou não faz) aos outros mudam a visão que as pessoas têm a seu respeito pra sempre. 
Na novela, Juan também dá um vacilo e quase perde Mônica. Um vacilo por amor, mas um vacilo, inclusive advertido por Don Noel, a consciência externa de Juan. Mas como ele não larga o osso e tenta por todos os meios fazê-la perdoá-lo (esse cabra é de Escorpião e de Ogum. Certeza!) e Monica se derrete por ele (essa figura é de Peixes, só pode!), dá certo no final.

7 - The Power of Love
Pode me chamar de brega, mas eu acredito no poder do afeto. Primeiro, eu preciso esclarecer que eu também acredito em personalidade, em essência. Quem é generoso, é, quem é egoísta, é, e não dá pra apagar isso totalmente, só piorar ou melhorar. Juan Del Diablo é o case desse tipo de situação. Na novela, sabemos que ele é filho de um adultério, o que em 1880 era algo gravíssimo; que a mãe logo morreu; que o marido dela maltratou ele até não poder mais; que o pai verdadeiro, quando soube, tentou reconhecê-lo, mas morreu antes disso; que a mulher do pai tocou ele pra fora da fazenda como se toca um cão sarnento, então ainda muito novo ele teve que se virar sozinho. Somado a isso, tem a pobreza extrema, a fama de contrabandista e marginal num povoado pequeno e a falta de sobrenome, o que fechava várias portas pra ele, desde ter um negócio a se casar. De afeto mesmo, só Don Noel, que o alimentou, ensinou a ler, escrever e tinha uma santa paciência pra orientar ele na vida. A novela suavizou coisas que o livro mostra e, por outro lado, a novela modernizou uma história que, afinal, foi escrita nos anos 50 e, enfim, continha umas coisas ultrapassadas demais. Pois bem, no livro sabemos que Don Noel deu o primeiro presente da vida de Juan, um saco de laranjas, ao perceber que ele estava com fome, e que o marido da mãe tentou matá-lo algumas vezes, uma vez aos 10 anos e a facada.
Toda essa volta foi pra contrastar com a generosidade dele, que nunca se apagou apesar dele ter sido super maltratado. Mas, apesar de ser uma pessoa de bom coração, era uma pessoa dura, rude, o que só mudou por influência de Monica, que era uma pessoa muito carinhosa. A direção e o ator agregaram dois detalhes preciosos ao personagem: Juan mudava de tom, se tornava mais suave automaticamente quando estava com Monica; ele nunca sorria e, a despeito de ser uma novela mexicana, onde os mocinhos sofrem o tempo inteiro, ele só deu um sorriso e uma gargalhada a novela inteira, marcando a aspereza da vida do personagem que influiu na personalidade dele. 

8 - Conselhos para a juventude!
Aprendam com a voz da experiência, Don Noel: "O verdadeiro amor é correspondido".
Dona Amanda dá importante recado às mulheres que pensam que podem mudar um homem: "É a gente que acaba mudada: infeliz, amarga, frustrada".
Método Juan del Diablo de gestão de crise: na dúvida (da parceira), parta pro amasso. Todas as vezes em que ele via Monica titubear, beijava na boca ou agarrava pela cintura. Funcionava. Tanto que, quando soube que o marido não havia morrido (não é spoiler! protagonista não morre, ué), foi logo lavar o instrumento do pecado. 
E tome nota de mais essa de Juan: "Quando se ama de verdade, se dá tudo e se quer tudo. Ninguém fica satisfeito com um amor pela metade".
Santa Monica alerta que, ao término de um relacionamento, às vezes é melhor ir devagar porque o santo pode ser de barro. Ao ser questionada pela mãe e depois pela prima sobre o porquê de não querer se casar com Andrés, já que ele é tão bom partido e ela não quer mais saber de Juan, Monica encara a questão objetivamente e com sinceridade: o perigo de fazer isso, quando se tem um sentimento tão intenso por um ex, é procurá-lo na outra pessoa o tempo todo, gerando inclusive rancor nessa pessoa atual. Foi por ignorar isso que, aliás, Aimée se ferrou. Essa história de que só se cura um amor com outro amor só é verdade quando se está com o coração aberto.

9 - Don Noel! <3
Meu personagem preferido depois dos protagonistas. E como Palomo e Ezalde tiveram química em cena! O texto também era muito bom. Os melhores diálogos da novela eram os de Juan e Noel. Tá aí uma coisa que é muito melhor na novela que no livro: a participação de Don Noel.
Bem, Don Noel é aquele sujeito "a voz da razão". Todo mundo mete o bichinho no meio dos problemas e ele, prontamente, ajuda a resolvê-los. Geralmente usa da lábia de advogado para não ser tão indelicado quando precisa tratar de um assunto delicado, menos com Juan. Com ele, é a verdade nua e crua, de um jeito que um sujeito como ele só faz quando se importa muito. Mesmo quando Juan não gosta - às vezes espertamente ele desvia o rumo da conversa -, no fundo o escuta, ele respeita as broncas de Don Noel. Quisera eu ter uma pessoa assim. Geralmente, a gente encontra essa figura no terapeuta, e com sorte. Gente sensata, que presta atenção na gente e interessada de verdade em ajudar é raridade, então, se topar com uma figura dessa, aproveite. Deixe de birra e escute com atenção.

10 - Bonus track - o que não aguento mais ouvir depois dessa novela
Apellido(#ranço); desdichada/o; dulce-suave-tierna; Deveras?; mi cielo; licenciado; santurrona; necio; Se lo suplico, se lo ruego! (by Monica); bastardo; zorra (exclusivo para Aimée).

11 - Bonus track 2 - check list dos pilares das novelas mexicanas em Corazón Salvaje:
1 - Uma mãe rica que passa a novela atrapalhando o romance dos protagonistas, ou melhor, a vida da parte pobre do casal. (x)
2 - Uma mulher rica e bonita, que é a fim do protagonista masculino e quer acabar com a mocinha. (x)
3 - A madrinha. (x)
4 - Um rapaz pobre chamado Serafim. (x)
5 - A reviravolta do/a personagem que sempre foi pobre e vira rico/a. (x)
6 - Mocinho lerdo, o único a não ver o que todo mundo tá cansado de saber. (x)
7 - Mocinho com nome composto (mas aqui, excepcionalmente, só é chamado por um dos três nomes.). (x)
8 - Um bastardo ou órfão. (x)
9 - Alguém perdendo a virgindade. (x)
10 - Um segredo bombástico. (x)
11 - Inédito - Santa Monica foi a protagonista com a melhor vida sexual da história das novelas mexicanas. Geralmente, mal rola a besteirinha e as personagens já ficam grávidas (vide Açucena). Monica passou a novela inteira se pegando com Juan e demorou quase um ano pra engravidar. Espero que ele tenha dado a ela a viagem de barco antes do bebê ter nascido, porque senão já era lua de mel.

PS.: Essa foi a primeira vez que vi uma novela toda em espanhol, na língua original. Confirmei algo que eu já desconfiava: a dublagem do SBT acaba com a interpretação dos atores latinos. Fora que todo galã é dublado pelo mesmo dublador de Fernando Colunga - que é horrível, só tem a voz bonita. Todo mundo é reedição de Carlos Daniel, de "A usurpadora", hehe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário