Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
Ciclo da violência - ou o jogo de gato e rato
Toda demonstração de poder suscita resistência, correto? Pelo menos assim falava Foucault.
Às vezes a gente só vê e julga o resultado final, sem enxergar o processo, elemento de fundamental importância em toda história.
Confesso que ainda estou com a resposta de "Por que uma mulher bem colocada profissionalmente aguenta um marido violento?" na garganta. Mas a minha resposta não seria só sobre homens e mulheres ou sobre o "amor"; seria sobre relações humanas em geral.
A violência visível é apenas o último estágio de algo invisível, por vezes intangível, que a antecede. Sacou? Vou exemplificar.
Um marido que bate precede um marido que passou um longo período depreciando, ferindo psicologicamente aquela mulher, que fica porque, no fundo, acredita nele, acha que não vai conseguir nada melhor, mas, como o ser humano não gosta de ficar por baixo, nas brechas, tenta devolver a violência. Em um relacionamento abusivo, embora a maior vantagem seja do homem inegavelmente, quer pela força física, quer pela permissão social para esses abusos todos, há uma dança doentia com a mulher ferida, que não raramente também manipula ou, na "melhor" das hipóteses, fica inerte, o que é uma forma de manipulação, de vitimização. Muitas vezes quem foi agredido nem se reconhece ao sair dessas relações, mas é inegável que houve interação, que houve co-participação. Há gozo no sofrimento, infelizmente; há uma mística entre agressor e agredido.
A situação só não progride quando você tem autoestima e pulso suficientes para cortar ao primeiro sinal, quando, aliás, se é capaz de se reconhecer num ambiente violento. Mas quem nos ensina essa capacidade? Quando há piedade, só Deus e o tempo.
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