Outro dia estava no metrô, quando entraram uma mulher e duas crianças de aproximadamente oito anos - um menino e uma menina. Enquanto a acompanhante distraia-se pensando provavelmente na morte da bezerra, os dois pequenos seguravam-se em um dos mastros de ferro do vagão. Começaram a conversar - em inglês, ao que tudo indica, o primeiro idioma deles. O clima esquentou e o ruivinho, tentando pôr fim, na marra, à queda de braço na qual nitidamente levava desvantagem, tentou dar uma cabeçada na face da garota.
Ela, sem titubear, começou a fungar, como quem está por cair no choro, chamou a adulta, e para garantir que seria entendida, fez a queixa em francês, contando como havia se desenrolado a tentativa de agressão física. Puro charme daquela mocinha de cabelos castanhos e olhos azuis, a adulta deve ter suposto, assim como era evidente pra mim. Se soubesse falar francês fluentemente, teria tomado a liberdade de brincar com a pequena: "Ora, vamos, ele nem acertou direito o alvo, deixe de manha, vá, que eu vi que não doeu!". Mas, com ou sem presepada, o caso é que ela ficou uma graça de queixosa - e parecia saber perfeitamente disso. "Une femme est une femme".
O ruivinho, aparentemente sem fluência no francês e envergonhado pela denúncia pública da companheirinha, ficou cabisbaixo. Após alguns segundos, sem levantar a cabeça ainda, inclinou a franja alaranjada pra frente, de modo a fazer carinho com os cabelos na testa da amiguinha, como quem diz: "Era isso que eu queria fazer naquela hora; não quis te machucar. Me perdoa."
O ruivinho, aparentemente sem fluência no francês e envergonhado pela denúncia pública da companheirinha, ficou cabisbaixo. Após alguns segundos, sem levantar a cabeça ainda, inclinou a franja alaranjada pra frente, de modo a fazer carinho com os cabelos na testa da amiguinha, como quem diz: "Era isso que eu queria fazer naquela hora; não quis te machucar. Me perdoa."
Nosso vagão começou a apresentar problemas, os quais ele nem parecia notar enquanto ela parecia excitadíssima com toda aquela indefinição do nosso destino. Nós saímos dele, por fim. Durante o tempo em que olhei para o lado esperando avistar o próximo vagão, ouvi a voz (aborrecida) da acompanhante adulta. Virei na direção dela e a moreninha, com cara de zangada, havia ido se sentar. Sorri ao pensar que cada sexo, desde o início, já mostra as suas habilidades inatas: enquanto eles se calam e preferem a ação (ainda que imprudente), elas dançam com as emoções e as palavras (ainda que inventadas).
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