"Senhor, dai-me coragem para mudar o que pode ser mudado, serenidade para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra."
Uma das situações mais difíceis da vida adulta é se deparar com uma injustiça e não poder fazer nada a respeito. Infelizmente, essas situações não são raras. E o pior, até que a punição chegue ao vilão da história, demora-se muito tempo, às vezes mais que o tempo de uma vida. Até lá, é preciso aceitar, por mais que a impunidade [momentânea] nos doa.
Mas muita atenção na diferença entre aceitar e ser omisso. Aceitar pressupõe deixar o fato se desenvolver por si só, na falta de condições de resolvê-lo sozinho; ser omisso é ser covarde, é ser indiferente diante de uma situação na qual cabia perfeitamente uma intromissão sua.
A aceitação é um processo muito difícil para a esmagadora maioria dos seres humanos. Talvez porque mais do que nunca vivemos numa sociedade cujo pilar é a crença de que somos responsáveis por tudo o que nos acontece e que estimula a fantasia do controle. Dos BBBs aos celulares com GPS, tudo leva a crer que estamos no comando, de modo absoluto. Que ilusão. Ilusão essa, aliás, que serve muito bem a uma sociedade de consumo como a nossa.
Uma boa parte da humanidade ocidental passa por crises em relação a essa idéia de controle, em algum ponto da vida, geralmente em torno dos 50 ou dos 60 anos de idade. A chegada da velhice, com as primeiras grandes limitações físicas e a proximidade da morte, nos faz perceber que não somos tão potentes e que temos, sim, limites de ação. A minha crise veio muito mais cedo, aos 20 anos, e culminou na minha ida, no início deste ano, a um centro religioso indiano para aprender sobre meditação. Falei sobre isso com uma amiga que, para a minha surpresa, topou a aventura. O curso foi bem interessante e fazê-lo com a tal amiga foi bom para estreitar laços. Não consegui exatamente o que queria, mas ganhei algo de que precisava.
Chego agora no ponto que desejava: numa das aulas, o professor falou sobre a importância de sermos um observador desapegado. O tema, que a princípio parece simples, gerou a maior polêmica dentre todos os ensinamentos do curso.
Claro, só poderia! É que ser um observador desapegado vai de encontro com a nossa cultura do "make it happen" e a nossa moral cristã. As pessoas questionavam o professor: "Quer dizer que se uma velha com uma criança estão mendigando na rua, devo fingir que não é comigo?". Minha amiga ficou confusa com a idéia. Ela dizia: "Juli, isso é impossível para mim! Se alguém te sacaneia ou se você está sofrendo, eu, como amiga, tenho que fazer alguma coisa. Acho que sou mundana demais", resmungava.
O professor cortou um dobrado para explicar seu ponto de vista, e eu sentia que a resistência do povo era tão forte que eles simplesmente não queriam entender [porque a explicação foi bem clara]. Aliás, nem deveria me surpreender com isso. É incrível a resistência que as pessoas têm em absorver ensinamentos que divirjam dos seus conceitos. Tem gente que é tão cabeça dura, que a idéia vem, bate com toda força mas cai pro lado, coitadinha!...
Por "observador desapegado" entenda-se o comportamento de aceitar o mundo como ele é, de fluir com a corrente da vida. Num estágio mais avançado, você simplesmente não sofre nem se apega porque não mais deseja. Essas religiões orientais, assim como o kardecismo, pelo pouco que conheço, entendem o sofrimento como uma oportunidade, ou de pagar um mal feito no passado e se livrar do carma ou de desenvolver uma habilidade que o fará um ser humano mais preparado para a vida. Por esse motivo o professor insistia nesse ponto. O pessoal não entendeu que não havia ali uma apologia a permissividade ou a indiferença, mas um convite à mudança de visão a respeito do sofrimento - algo difícil nesse momento de ode ao hedonismo em que vivemos, no qual, mais que em qualquer outra época, sofrer virou coisa de otário, como se uma vida sem sofrimento fosse possível. Ai, ai... Como bem disse Pessoa, "quem quiser passar além do Bojador, tem que passar além da dor".
Por último, já vencido pelo cansaço, apenas aconselhou: "Siga seu coração".
Se pensarmos bem, o coração é um juiz de grande valia. Não é fácil decidir racionalmente. As pessoas têm medo de seguir seus sentimentos, mas na minha opinião, somos muito mais passíveis de engano agindo através da mente. Separar aceitação de omissão não é bolinho! Ouvir o coração é fundamental nessas horas.
Eu venho de uma família passional, neste sentido. Cresci sendo ensinada a ajudar, a não ser indiferente ao sofrimento alheio. Minha mãe, por exemplo, uma vez deixou de fazer a minha roupa da apresentação anual da academia de dança para fazer a da vizinha, amiguinha de minha irmã, que tinha uma mãe alcoólatra e estava passando por uma fase conturbada em casa.
Para mim, esse tipo de dilema é sempre custoso, desgastante. Odeio passar por isso! Pior, odeio não poder corrigir uma injustiça! Mas c´est la vie. O sofrimento é sempre uma oportunidade, e eu tenho aproveitado os casos do tipo, que vem me ocorrendo nos últimos tempos, para desenvolver na prática aquilo que defendo na teoria.
Há uns dois anos e pouco, estive numa saia-justa ética. Tudo começou quando fui checar meu resultado num concurso público federal. Estava eu passando as páginas do pdf, quando meu olho bateu em cima do nome de um conhecido dos tempos da escola. Olhei para cima e vi o que não queria ter visto [não ao menos para ficar na condição que fiquei, entre a cruz e a espada]: o fulano havia se classificado nas vagas para deficientes!!
A indignação subiu na hora. Os pensamentos começaram a surgir como raios. Tentei dar o benefício da dúvida, tentei não pensar mal do sujeito [para o meu próprio bem, inclusive], mas esse tipo de atitude casava muito bem com o comportamento do fulaninho nos tempos do colégio. Desde aquela época, ele já dava mostras do seu egoísmo e da sua elasticidade de caráter. Tentei acreditar que talvez ele tivesse sofrido um acidente e tivesse sendo verdadeiro. Cheguei a checar a história com três amigas em comum e nenhuma sabia dizer algo a respeito [elas sabiam que não havia acidente, deficiência, mas não quiseram se comprometer]. Isso só me fez ter certeza do óbvio: ele estava tentando pegar a vaga através de uma fraude. A mãe dele é médica. Meu pensamento foi de que talvez ela conhecesse o médico do tal órgão e já estivesse com tudo arranjado. Se isso fosse verdade, ficaria duplamente triste, pois sempre tive simpatia pela mãe desse rapaz.
O sangue foi todo pra cabeça. O fulano é um mauricinho, filho da classe média alta, que teve e tem todas as oportunidades de estudo; era só se esforçar que conseguiria o mesmo resultado através do próprio esforço. É aquela coisa: o brasileiro não dá um pingo de valor ao mérito, ao trabalho duro; "ser foda" é conseguir as coisas na malandragem, na base da "esperteza". Será que algum dia as pessoas, neste País, vão se tocar que o "ser ou não ser foda" está nos meios que se usa e não nos fins alcançados?!... E é como digo, três listas, para mim, são sagradas: a de transplante, a de vestibular e a de concurso. Tem gente que vende até o carro e larga o emprego para investir nisso, poxa!...
Os dias foram passando, a história foi crescendo na minha cabeça e a minha raiva foi subindo cada vez que pensava no assunto. Eu queria denunciar o caso, mas isso me causaria problemas pessoais, pois arrumaria uma meia dúzia de inimizades com gente que foi meu amigo de infância, praticamente. Que fazer?
No auge da ansiedade, escrevi a um amigo advogado e foi ele quem conseguiu me acalmar. Acho que meu amigo percebeu o tamanho da minha indignação e, num pensamento inspirado, me tranqüilizou com o seguinte argumento: "Mesmo que ele ou a mãe conheça alguém lá, vai ser difícil ele ser admitido não sendo deficiente de verdade. Diria que quase impossível. Se ele entrar, alguém, uma hora, vai descobrir e ele vai ser posto para fora de lá".
Foi assim que consegui largar o osso, finalmente. Eu nem sei que fim levou essa história e nem quero saber. Aliás, para que saber tanto? Só para passar raiva? Sempre me pergunto o que Deus quer de mim nessas situações. Só pode ser testar meu autocontrole, minha paciência. Tarefa nada fácil para a minha pessoa. Como diz a letra daquela canção do Coldplay, "a parte mais difícil é deixar rolar e não tomar partido". "It really breaks my hearrrt...".
Às vezes bancar o justiceiro é um risco incalculado e que tem um alcance que a gente nem imagina, a princípio. Mas em certas ocasiões nada paga a sensação de dever cumprido, apesar dos riscos.
Minha irmã que está morando no exterior quase se deu mal desmascarando uma criatura perigosa que estava pegando o dinheiro de uma turma de brasileiros. Ela poderia estar até morta agora, mas como a pessoa não tem um pingo de juízo na cabeça, não contou até três e, assim que descobriu a vigarice, pôs a boca no mundo. De quebra, acabou ajudando um monte de gente a se livrar de uma criatura dissimulada, desonesta, sanguessuga [o termo anda banalizado, mas essa criatura é uma psicopata, definitivamente!]. Depois disso, essa turma de brasileiros ficou muito amiga da minha irmã, que havia acabado de chegar naquele país; sabiam que muita gente boa se omitiria numa situação dessas, por medo. Nunca disse isso a minha irmã para não botar lenha na fogueira, já que a criatura não tem muita noção do perigo [risos], mas fiquei com um orgulho retado dela por conta disso.
Na época do colégio, eu me dava bem com todo mundo, mas não ia nem um pouco com a cara de um certo professor [não vou dizer de que matéria, pois ele virou estrela da área dele, então...]. Desde o 1º ano, eu falava ao pessoal da minha turma: "Ei, prestem atenção que esse professor é um falso e, além disso, uma fraude". Tirando uma amiga nada impressionável e a minha melhor amiga na época, ninguém mais botava fé na minha opinião. As pessoas não costumam ver além das aparências e como o fulano era do tipo brincalhão, a galerinha se deixava levar por isso, apostava que o sujeito era gente boa. Com o tempo, cansei de "pregar sozinha no deserto" e lavei as mãos.
Meus olhos são pequenininhos mas são atentos. Sou da teoria de que as entrelinhas, os pequenos gestos, revelam a verdadeira personalidade. Eu só ficava observando o movimento. Eu percebi que esse professor vigarista estava causando intriga entre dois professores que eram compadres, quase irmãos. Um deles, deslumbrado com a ascensão desse fulano, começou a debandar para o outro lado, abandonando o ex-grande amigo e virando o melhor amigo do outro. Até o jeito de dar aula da criatura chucky ele começou a copiar. Era patético! O cachorro e o dono. Gostava dele, até porque é uma pessoa de bom coração, mas me matava ver a sua absoluta falta de personalidade. E também a ingratidão para com o outro amigo [e se tem uma coisa que dói na alma é traição de amigo!]. Como sabiamente disse Cláudio, uma vez, "é muita falta de referência".
Uma coisa que havia reparado no jeito desse professor antipático lecionar é que ele não ensinava zorra nenhuma. Ele não sabia explicar, era péssimo de esquema, mas era brincalhão e elaborava provas difíceis. Daí vinha a falsa fama de que era um professor retado, muito competente: o aluno aprendia não por causa dele, mas por causa do livro e do conhecimento prévio de que a prova seria difícil, o que forçava quem quisesse passar a estudar muito. O que passei a fazer? Simplesmente pensava na morte da bezerra à vontade, enquanto ele falava, e "tomava aulas particulares" com o livro, que era ótimo.
Numa das provas, fui a única a tirar uma nota azul. Ele quis argumentar que não falhara mas sim a turma, me usando como argumento, tipo, "se Juliana conseguiu tirar a nota, vocês também poderiam; a aula foi a mesma para todos". Eu pedi a palavra. Acho que ele pensou que eu iria agradecer a menção elogiosa e criticar a turma, mas aconteceu o contrário. Desmascarei o método dele na frente de todo mundo - com educação, claro, mas essas coisas não contam muito para o ser criticado. Ele ficou vermelho e parou de falar. Seguiu a aula.
Uns dois anos depois, na aula final desse professor bonzinho que perdeu a amizade do outro professor, estávamos somente duas colegas, o professor e eu, e o nosso mestre nos fez uma confidência: essa minha crítica foi assunto de todo conselho de classe daquele dia em diante. O tal professor vigarista sempre tocava no assunto, com amargura: "Porque tem aluno nessa escola que diz que eu não dou aula direito!...". Detalhe: o sujeito nem sabia que eu existia antes desse episódio, mas daquele dia em diante, passou a me tratar com uma simpatiaaa, embora quisesse afogar minha cabeça num tanque de água, isso sim!... O professor injustiçado e eu já rimos disso. Muito! Não só daquela vez, mas em outras ocasiões nas quais nos encontramos [a última vez foi em 2004, mais de cinco anos depois do fim da escola]. Os olhinhos dele brilhavam de satisfação. O professor nunca me agradeceu formalmente por isso - e nem precisava -, mas eu sentia no jeito dele o "obrigado" implícito. Não só fiz justiça para os meus colegas, naquele dia, como havia feito para ele também - e, olhe, corria risco e nem sabia, pois se precisasse da criatura chucky para alguma situação de conselho de classe, estaria superferrada! Fiz, sem nem ter a intenção, aquilo que esse professor queria fazer, mas por questões éticas não podia. Bem, minha mania de meter o bedelho onde não fui chamada, dessa vez, serviu para lavar a alma de alguém. Uma vez na vida não me queimei em vão! :D
No final do terceiro ano, a máscara daquele cidadão "de bem" caiu. Ele aprontou uma com a turma, de modo que os alunos que ele calculava que não passariam no vestibular perdessem de ano (para não sujar a boa reputação dele, pode?). Só que a galera descobriu a tempo. Hoje a minha turma sabe que aquele sujeito não é massa, o tiozinho legal, como queria nos fazer crer... Acho que preciso criar uma coreografia do "Eu não te disse?".
Quando a gente é novinho faz dessas coisas, mas depois de uma determinada fase, a idade não mais nos protege, e você tem que escolher suas causas como um adulto. Fica até ruim para a nossa cara ficar comprando briga a torto e a direito, fala a verdade!
Situações como a da colega de trabalho que "dá" para o chefe e sobe na hierarquia vão ser corriqueiras, e não é possível nem justo perder o emprego que custou tanto - e foi mérito! - para posar de paladina da justiça e da verdade, toda vez que se deparar com uma injustiça como essa. Não se trata de cinismo ou de culto à indiferença. É questão de confiar na vida e eleger as brigas que realmente valem a pena. As máscaras, um dia, caem. Sempre caem. Como dizem por aí, "a justiça tarda mas não falha". Essa pessoa, que a princípio é "a esperta", está cavando sua própria cova. Nem todo chefe vai querer "comê-la", o cargo de chefia costuma ser rotativo e a juventude não dura para sempre. O que essa criatura vai fazer quando não puder mais se utilizar da "arma secreta"? Esse menino que fraudou no concurso, mesmo, é um exemplo disso. Sempre passou de ano, no colégio, colando. Quando fez vestibular, nem na primeira fase da Federal passou. Quando saiu da faculdade, bem, essa fase dispensa descrições. Que esperteza a dele, né? Como ele se deu bem na vida!... :P
Enfim, é tão bom ver o destino dando o troco sem a gente ter que sujar as próprias mãos!... Não é questão de jogar praga ou de desejar o mal do próximo, não. É a lei da vida, ou como gosta de dizer a minha mãe, é a lei do retorno. Djalma Argollo - se não me engano, ouvi isso dele - tem uma frase que é supimpa: "O mal é como uma compra de cartão de crédito: você faz hoje, mas pode esperar que um dia a fatura disso chega".
Ser um observador desapegado é um exercício de fé, esforço de compreensão e paciência.
Na dúvida, como disse o professor, siga seu coração. Ele sempre sabe o que é melhor para gente, por mais bobo que isso possa soar. Tudo que precisa saber já está dentro de você.
Ou melhor, aproveitando que estamos próximos do Dia das Mães, se encare como se fosse seu próprio filho. Se você fosse mãe de você mesmo(a), puxaria sua orelha por ter agido assim? Ficaria orgulhoso de você por ter agido assado? Pense nisso.
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