
Entre as inúmeras roubadas que entrei nessa existência, via Alosa, a menos pior delas atendia pelo nome de Carlos Petrovich - ou apenas Petrô. Foi no verão de 2002/03 que Alosa e eu nos juntamos aos bons para abaixar a média da optativa oferecida pela Escola de Teatro, às sextas-feiras, capitaneada por Sir Petrovich.
Em meia-dúzia de palavras, para quem por acaso não souber de quem se trata, Petrô foi ator de Glauber Rocha, um dos fundadores do Teatro dos Novos e no plano espiritual, filho de Ogum. Um ator nos palcos e na vida. Não me refiro a falsidade ou coisa do tipo. Não foi isso que quis dizer. Aliás, eis um defeito do qual passava longe - sofria, pelo contrário, de sinceridade crônica e aguda. Sabia e gostava, isso sim!, de reinventar a realidade, o cotidiano. De cara, foi nos incentivando a fazer o mesmo:
- Mudem! Comecem pela maneira de tomar banho - aconselhava e depois exemplificava: Pra quê começar de cima para baixo? Comece de baixo para cima, esfregue-se de um jeito diferente!...
Petrô tinha uma implicância séria comigo. Não, não era bem isso. Petrô gostava de me provocar. Para ser mais exata ainda, adorava provocar qualquer um que lhe desse brecha, como se quisesse nos ajudar a desenvolver a capacidade de improvisação.
Lembro de um caso, de um colega de classe malandro, daquele tipo que só pela foto do RG você já identifica o "tipo psicológico" do cidadão. Pois bem, após ter matado o primeiro mês de aula inteirinho, alegando problemas de trabalho, o cidadão veio direitinho uma semana e na seguinte, chegou quase na metade da aula. Detalhe: nosso professor odiava impontualidade. Sabe o que a criatura disse? Que estava atrasado de qualquer jeito, e tinha duas opções: sair sem café da manhã ou se atrasar mais cinco minutos - contagem dele - e tomar café, e que ele priorizou fazer a tal refeição para estar justamente mais disposto no restante da aula. Petrô passou-lhe o sabão na frente da turma, mas seus olhos denunciavam o orgulho que, no fundo, sentia do pupilo. "Ah! Um talento desses no teatro!..." é o que aposto que se passava na cabeça dele, isso sim!
Não tive semelhante sorte. Pelo contrário: ele pegava bastante no meu pé!
Um dia, cheguei atrasada. Acordei com uma cólica de lascar o cano. Ele veio me questionar, com cara de zangado. Eu contei o que havia se passado. Ele simplesmente apontou pra mim e exclamou, diante de toda a sala:
- Tá vendo aí! Tá vendo aí! Não conhece o próprio corpo!
Um dia, quase provocou uma saia-justa entre mim e uma colega. Primeiramente, ele me botou numa sinuca de bico. A colega ao lado, simpática, me auxiliou. Nem tive tempo de me virar para agradecer, e ele foi logo exclamando:
- Tá vendo aí! Neeem agradece!
A tal moça me defendeu e foi aí que ele sossegou.
Por último, fui sugerir algo que não me recordo exatamente, e ele comentou:
- Ela tem nome de imperador! Olha como ela é autoritária!
Poxa, começo a pensar que ele não ia, realmente, com a minha cara! :( Não, peraí que ele me fez um elogio, uma vez: disse que eu era atenta aos outros e valorizava as falas de meus colegas nas minhas próprias falas. Também gostou do plano de vida que tracei para mim, no nosso exercício final da disciplina [belo plano, mas pena que ele ainda não se concretizou! :D]. Petrô, aliás, tinha uma "superstição": a de que as coisas só acontecem na nossa vida quando fixamos uma data para isso, quando botamos prazo para que elas se concretizem.
Petrô também dava muita importância à sedução e à família.
Como grande parte dos homens sensíveis, do teatro, ele dava muito valor à figura feminina. Até nos indicou umas leituras a respeito. Contou, várias vezes, as artimanhas de moleque que usou para seduzir a esposa, Vanda Machado.
Uma vez, discursou longamente sobre a importância do perfume. Por fim, sobrou para moi cheirar a barba dele. Pode?! Com Petrô, podia tudo! Ô!... No final do semestre, ao comparar minha nota com a de Alosa, fiquei brava ao ver que a pessoa havia passado com meio ponto a mais que eu na média. Pensei, chateada, cá com os meus botões: "Poxa vida, Alosa não fez nada e eu até tive que cheirar a barba da criatura!...".
Admirava à beça a relação afetuosa que tinha com o neto. Sua relação com essa criança, a julgar pelo que contava em sala, era das mais estreitas. Deveria ser uma delícia para o menino ter um avô como Petrô. Pense aí: de um lado, o garoto tinha por perto alguém com ampla vivência, muita coisa para transmitir, uma grande visão de vida; do outro, um velho com alma de criança, que falava de igual para igual com ele e que, acima de tudo, tinha verdadeira adoração pelo pequeno.
Quando o nobre ator morreu, há quase quatros anos, pensei no neto. A grande perda naquele momento, a meu ver, era do neto do falecido. Teria sido valioso para o menino tê-lo por perto na puberdade e na época da faculdade, pelo menos.
Não saberia dizer se Petrô intuía que lhe faltava pouco tempo de vida, mas era inegável a importância que dava à tarefa de transmitir sua experiência aos mais novos. Pouco aprendemos de teatro na disciplina. Pouco nos exercitamos nessa arte. Mas ele gostava de ensinar e queria sinceramente nos preparar, de algum modo, para a vida. Há algum tempo li uma frase de um autor indiano, que me remeteu aos quatro meses de convivência semanal com aquele professor de teatro, e dizia algo mais ou menos assim: "É impossível ser infeliz estando no presente. A infelicidade vem quando estamos com a mente ou no passado ou no futuro". O objetivo de Petrô, naquela disciplina, era justamente o de despertar as duas condições básicas para que alguém viva plenamente o presente, feliz consigo mesmo: estar consciente e ter comprometimento.
Em meia-dúzia de palavras, para quem por acaso não souber de quem se trata, Petrô foi ator de Glauber Rocha, um dos fundadores do Teatro dos Novos e no plano espiritual, filho de Ogum. Um ator nos palcos e na vida. Não me refiro a falsidade ou coisa do tipo. Não foi isso que quis dizer. Aliás, eis um defeito do qual passava longe - sofria, pelo contrário, de sinceridade crônica e aguda. Sabia e gostava, isso sim!, de reinventar a realidade, o cotidiano. De cara, foi nos incentivando a fazer o mesmo:
- Mudem! Comecem pela maneira de tomar banho - aconselhava e depois exemplificava: Pra quê começar de cima para baixo? Comece de baixo para cima, esfregue-se de um jeito diferente!...
Petrô tinha uma implicância séria comigo. Não, não era bem isso. Petrô gostava de me provocar. Para ser mais exata ainda, adorava provocar qualquer um que lhe desse brecha, como se quisesse nos ajudar a desenvolver a capacidade de improvisação.
Lembro de um caso, de um colega de classe malandro, daquele tipo que só pela foto do RG você já identifica o "tipo psicológico" do cidadão. Pois bem, após ter matado o primeiro mês de aula inteirinho, alegando problemas de trabalho, o cidadão veio direitinho uma semana e na seguinte, chegou quase na metade da aula. Detalhe: nosso professor odiava impontualidade. Sabe o que a criatura disse? Que estava atrasado de qualquer jeito, e tinha duas opções: sair sem café da manhã ou se atrasar mais cinco minutos - contagem dele - e tomar café, e que ele priorizou fazer a tal refeição para estar justamente mais disposto no restante da aula. Petrô passou-lhe o sabão na frente da turma, mas seus olhos denunciavam o orgulho que, no fundo, sentia do pupilo. "Ah! Um talento desses no teatro!..." é o que aposto que se passava na cabeça dele, isso sim!
Não tive semelhante sorte. Pelo contrário: ele pegava bastante no meu pé!
Um dia, cheguei atrasada. Acordei com uma cólica de lascar o cano. Ele veio me questionar, com cara de zangado. Eu contei o que havia se passado. Ele simplesmente apontou pra mim e exclamou, diante de toda a sala:
- Tá vendo aí! Tá vendo aí! Não conhece o próprio corpo!
Um dia, quase provocou uma saia-justa entre mim e uma colega. Primeiramente, ele me botou numa sinuca de bico. A colega ao lado, simpática, me auxiliou. Nem tive tempo de me virar para agradecer, e ele foi logo exclamando:
- Tá vendo aí! Neeem agradece!
A tal moça me defendeu e foi aí que ele sossegou.
Por último, fui sugerir algo que não me recordo exatamente, e ele comentou:
- Ela tem nome de imperador! Olha como ela é autoritária!
Poxa, começo a pensar que ele não ia, realmente, com a minha cara! :( Não, peraí que ele me fez um elogio, uma vez: disse que eu era atenta aos outros e valorizava as falas de meus colegas nas minhas próprias falas. Também gostou do plano de vida que tracei para mim, no nosso exercício final da disciplina [belo plano, mas pena que ele ainda não se concretizou! :D]. Petrô, aliás, tinha uma "superstição": a de que as coisas só acontecem na nossa vida quando fixamos uma data para isso, quando botamos prazo para que elas se concretizem.
Petrô também dava muita importância à sedução e à família.
Como grande parte dos homens sensíveis, do teatro, ele dava muito valor à figura feminina. Até nos indicou umas leituras a respeito. Contou, várias vezes, as artimanhas de moleque que usou para seduzir a esposa, Vanda Machado.
Uma vez, discursou longamente sobre a importância do perfume. Por fim, sobrou para moi cheirar a barba dele. Pode?! Com Petrô, podia tudo! Ô!... No final do semestre, ao comparar minha nota com a de Alosa, fiquei brava ao ver que a pessoa havia passado com meio ponto a mais que eu na média. Pensei, chateada, cá com os meus botões: "Poxa vida, Alosa não fez nada e eu até tive que cheirar a barba da criatura!...".
Admirava à beça a relação afetuosa que tinha com o neto. Sua relação com essa criança, a julgar pelo que contava em sala, era das mais estreitas. Deveria ser uma delícia para o menino ter um avô como Petrô. Pense aí: de um lado, o garoto tinha por perto alguém com ampla vivência, muita coisa para transmitir, uma grande visão de vida; do outro, um velho com alma de criança, que falava de igual para igual com ele e que, acima de tudo, tinha verdadeira adoração pelo pequeno.
Quando o nobre ator morreu, há quase quatros anos, pensei no neto. A grande perda naquele momento, a meu ver, era do neto do falecido. Teria sido valioso para o menino tê-lo por perto na puberdade e na época da faculdade, pelo menos.
Não saberia dizer se Petrô intuía que lhe faltava pouco tempo de vida, mas era inegável a importância que dava à tarefa de transmitir sua experiência aos mais novos. Pouco aprendemos de teatro na disciplina. Pouco nos exercitamos nessa arte. Mas ele gostava de ensinar e queria sinceramente nos preparar, de algum modo, para a vida. Há algum tempo li uma frase de um autor indiano, que me remeteu aos quatro meses de convivência semanal com aquele professor de teatro, e dizia algo mais ou menos assim: "É impossível ser infeliz estando no presente. A infelicidade vem quando estamos com a mente ou no passado ou no futuro". O objetivo de Petrô, naquela disciplina, era justamente o de despertar as duas condições básicas para que alguém viva plenamente o presente, feliz consigo mesmo: estar consciente e ter comprometimento.
Sem mais o que dizer sobre essa marcante figura do cenário artístico baiano, apenas me resta puxar, aqui, um VIVA PETRÔ!!! - porque na minha mente e na de tantos outros que o conheceram, sua lembrança permanecerá por muito tempo ainda vivíssima, tanto ou mais que a sua colorida personalidade.
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