Há cerca de dois meses, passei por uma experiência inédita: fui trabalhar numa campanha a prefeitura, em uma cidade do Recôncavo. Algumas pessoas sabem o nome da cidade e da candidata, mas apesar do público do blog ser bem restrito, estamos na internet, então vou contar como foi essa história sem citar esses nomes, para manter alguma discrição.
Vamos lá!
Vidas Secas
Confesso que, quando Nanda me convidou pro trampo, eu não fiquei muito a fim. Mas eu tava precisando de grana e me inspirei numa amiga minha pra aceitar a empreitada ("O trabalho é chato, mas a grana é boa" - disse ela). Fui lá, conversei com o cara da agência, através da qual entrei na tal campanha, e comecei a viajar para a cidade.
Chegando lá, a primeira coisa que ficou clara para mim é que a política no interior é outra história. Dei uma mãozinha a Companheira Lília numa campanha a deputado federal, há dois anos, e o clima era outro.
No interior (e olha que estamos falando de uma cidade que fica a 1 hora de Salvador), a coisa toma ares de Copa do Mundo. As famílias se envolvem na campanha do seu candidato preferido, pedem voto, enfim, o clima é de festa de casamento sendo organizada numa família numerosa. Claro que esse empenho tem lá as suas segundas intenções. Tá todo mundo ali de coração na sua escolha e, muitas vezes, também de olho em algum cargo na prefeitura.
Isso foi uma coisa que me chocou. Na cidade em questão, só existe uma fonte de renda: a prefeitura. Ou você “está na folha" ou fora dela. Não há comércio. Para comprar qualquer coisa, você precisa ir nas cidades vizinhas. Como disse, numa infeliz observação, o ex-jornalista da campanha, nem banca de revista a cidade tem. Eu precisei ir à papelaria comprar uma caneta e não achei uma. Tive que me contentar com uma lapiseira vendida num botequim. Sério! Parece que só existem 3 mercadinhos. E a cidade só os tem por causa dos "forasteiros" que chegaram por lá e montaram mais dois mercadinhos.
Não há agricultura. No máximo, tira-se algum dinheiro da pesca. Não há nada com que se possa ganhar a vida por lá.
Então, para não dizer que a prefeitura é a única fonte, há quem trabalhe na indústria do petróleo, e esteja, por isso, melhor de situação. É só isso que separa a classe média dos pobres - que são muiiiitooos.
A cidade tem 30 mil habitantes, ou seja, poucos moradores, e uma renda de dezenas de milhões de reais, mas é extremamente pobre. Lembro que num dos meus primeiros dias lá, fui acompanhar um grupo numa visita a um distrito da cidade e fiquei chocada com a miséria. Isso foi revoltante de ver.
Quase paguei um mico daqueles. Numa das casas, as crianças estavam quase nuas, com os pés no chão, e o barraco era tão pequeno, que só tinha uma televisão minúscula, daquelas que a gente leva em acampamento. Ou seja, elas preferiam ficar lá fora, vendo e fazendo nada, do que assistindo tv, que é algo que toda criança gosta. Quando tocou aquela vinheta da "Sessão da Tarde", quase exclamei, indignada: "Cadê a ´Sessão da Tarde´dessas meninas?!". Sorte que eu tive algum tempo de raciocinar e me segurei. Porque bicho da cidade já não é bem visto no interior (as pessoas já pensam que é mais um para tomar o emprego que poderia ser de um nativo), ainda tendo chiliques... hahaha
Deu pra ver, também, o quanto aquelas pessoas ficam nas mãos da "boa vontade" política. Teve uma mulher, mesmo, que até chorou de raiva na nossa frente. Ela contou que ela e o marido trabalharam duro na eleição de um ex-prefeito e que quando o sujeito se elegeu, um vizinho fez a intriga, dizendo que eles eram da oposição, e o casal perdeu os benefícios (o que é bem conveniente ao político, que desocupou uma teta da Prefeitura, claro, para negociá-la com outro). É escravidão. É uma droga ver que esse tipo de coisa ainda acontece... Enfim, naquele dia fui para casa meio deprimida.
Encanta-me a capacidade que as pessoas têm de manter alguma docilidade apesar da exploração. Mas a pobreza é até esteticamente deprimente, além de tudo mais que ela significa. Faz mal pra saúde.
"Eu não acredito nos homens"
Pois é, colhendo depoimentos para o jornal da campanha, vi que o principal argumento da população para votar na candidata era o fato de se tratar de uma mulher. E olha que ela tem um bruta currículo: mestre pela UFBa, ex-professora do CEFET-BA, ex-secretaria de Educação do município e amiga de Lázaro Ramos (risos). Lázaro, na verdade, foi aluno dela. Só não deu seu apoio público à candidatura porque o contrato com a Globo não permite.
A mulherada, em peso, comprou a campanha da candidata. Primeiro, a mãe dela é uma espécie de Dona Canô daquele município. Segundo, ela é muito respeitada, como filha da terra que venceu na capital e como ex-secretária. Por último mas não menos importante, a ala feminina do município tava achando o máximo a possibilidade de que uma delas chegasse ao poder. Houve um comício, em homenagem às mulheres, que foi coisa de doido. Mulheres, com camisas customizadas, no palco, meninas também, todo mundo emocionado... Girl power total!
Há 20 anos elegendo prefeitos descaradamente corruptos, a cidade vem acompanhando o progresso dos vizinhos, cujas prefeituras estão sendo comandadas por mulheres. Digo que a eleição da candidata - ela levou a prefeitura, logo no primeiro turno, com 92% dos votos! - é o que se chama de "Perfect Storm": uma mulher candidata, numa época em que as mulheres estão crescendo nas prefeituras baianas, numa época em que a cidade também anda saturada de tanta corrupção, e ela ainda conseguiu cavar o apoio do atual prefeito (lembrem-se que a folha de pagamento da prefeitura é tudo naquela cidade e, naturalmente, quem tem o apoio do prefeito, tem os nomes da folha a seu favor também), do governador do estado e do presidente da República. Pra ajudar mais, até a campanha do principal adversário foi impugnada.
Fora que, na minha opinião, ela está num momento da vida e da trajetória política em que nem é tão verde mas também ainda não virou uma cínica ou uma pessoa cheia de vícios em seu ramo de atividade. Ela ainda é entusiasmada mas não é novata, entendem? Tem seus 40 e alguns anos, uns 12 anos de vida pública...
Enfim, ela teve todos os fatores a seu favor. Virou uma espécie de messias, de heroína, na cidade. Acreditam que até comparada a Nossa Senhora ela foi? Pois é, num dos vídeos, no último comício da campanha, a mãe da candidata contou que o pai dizia que via a imagem da santa na filha, quando essa era criança. Pode?!!! O pior é que o descompensado do videorrepórter queria fazer uma fusão das duas imagens, pra pôr no vídeo, mas o carinha da edição usou do seu jogo de cintura e conseguiu convencê-lo a não fazer tal bizarrice. Aliás, João e Marcus, "a equipe do vídeo", são duas figuras que vão ficar por muito tempo na minha memória. Ri e não foi pouco com esses dois! hehe... Pena que os descobri já tarde...
Foi tudo lindo, emocionante. Os problemas vão começar agora. No final, falarei sobre isso. Aliás, me arrependi de não ter feito anotações ao longo da campanha. Poxaaa!... Sinto que minha memória vai falhar sobre coisas que seriam interessantes de pôr aqui...
O uhhuuuu da baixariiiaaa
Gente elegante, almas puras, menores de 18 anos, se retirem, porque chegamos à parte baixo-astral dessa minha história (risos)!
Em cidade do interior, todo mundo sabe o que todo mundo faz. A gente pensa que esse tipo de vigilância freia comportamentos, digamos, mais ousados. Certo? Errado. Como bem disse o coordenador de marketing da campanha, aquela cidade é sui generis, e a baixaria, ali, pelo que pude ver, corre solta!
Sou cria da capital, nunca me meti em cidade pequena, mas pelo que via no cursinho, o povo do interior é tudo menos inocente. Cara, na época do Mendel, 80% da sala era de fora de Salvador. As meninas de 17 anos já eram ultra-safadas, você via (apesar da sonsice) que ali o know-how foi adquirido com anos de "batalha", de "pesquisa em campo".
Sui generis porque, além da putaria heterossexual, supercomum no interior, há a sacanagem homossexual. Nunca vi tanto gay e lésbica numa cidade só! O coordenador da campanha, um sujeito debochado com quem conversei muito durante as idas e vindas da cidade, ficou indignado porque, chegando numa festa de um carinha da campanha, só tinha gay e lésbica, ou seja, ninguém pra ele paquerar. hahaha... Ele me contou casos de famílias em que duas gerações seguidas eram homossexuais. Aliás, tivemos, na coligação, uma candidata lésbica, que parecia mesmo um homenzinho.
Pra vocês terem uma idéia, o povo da campanha não arredou o pé dela nem um dia, mas a tradicional caminhada de domingo sofreu uma esvaziada quando houve a Parada Gay de Salvador.
Teve uma noite de comício, mesmo, que foi pura "gaiola das loucas". Ô dia bizarro (mas em que ri de passar mal)!... Conheci uma figura da cidade, "Xuxa". Não se trata de uma loira bonitona, não; Xuxa é um gordinho, de cabelos parecidos com os de Cid Guerreiro, na faixa dos 30 e alguns anos e sem nenhuma noção das coisas! haha
O jingle da campanha, um arrochinha light, virou hit na cidade (mas a música era legalzinha, realmente). Xuxa deu seu toque pessoal ao material. Aprendam, que a "coreografia" é fácil: ponha os dois braços para trás, apoiados, e faça um movimento circular com a cintura, e, em seguida, jogue os cabelos, de modo selvagem, para o lado e - el grand finale! - passe a língua sensualmente pelos lábios. hehehe
Mas o ponto alto da bizarrice foi no dia em que a lésbica que trabalhou na campanha resolveu mostrar seu lado baixo-astral. Estávamos o coordenador da campanha, a moça lésbica, o amigo gay dela e eu no carro, indo pra casa, e ela nos vem com histórias de vibrador. Não vou entrar em detalhes porque o babado foi forte, mas Alosa teria se acabado de rir se estivesse naquele carro. O coordenador olhou pra minha cara, eu olhei pra cara dele, aquele ar de "Quem merece ouvir isso?" no carro... Rai ai...
A ala hetero da campanha também não ficou atrás. Quase que só rodeada de homens, a uma certa altura virei praticamente um dos caras, e eles não me poupavam mais de ouvir suas conversas sobre as paqueras e afins. Gente, saí nauseada dessa campanha. A fidelidade masculina é quase tão real quanto um unicórnio! Ao final de tudo, voltando para Salvador pela última vez, quase pedi para me darem uma carona até um convento; quando cheguei em casa, fui direto me inscrever na comunidade "Antes solteira do que corna". Assim como os eleitores, eu não acredito mais nos homens. O caso é sério. E olha que, neste quesito, tenho uma genética privilegiada: sou filha de goianos, meus genes suportam bem a dor de corno. hehe... Mas, falando sério, eu fiquei chateada. Perdi mais um pouco do restante da minha inocência em relação ao ser humano. :(
"She was the champion, my friends..."
Pois é, apesar das baixarias armadas pela oposição (apelidei o opositor e seu vice de Dick Vigarista & Rabugento), ela venceu, e de forma esmagadora. Uma vez, quase no final da campanha, que foi quando eu realmente me dei conta do que aquilo tudo significava para a história do município, perguntei a candidata a que ela atribuía tamanha empolgação e adesão da população: "É o povo me pedindo desculpas", disse ela. Há alguns anos, ela cometeu a besteira de assinar umas notas, descuidadamente, e entrou numa fria armada pelo então prefeito, que queria se livrar de um pepino com o Tribunal de Contas e a usou como bode expiatório. Por ironia do destino, esse sujeito a apoiou nessa campanha. Ela não ficou muito satisfeita com isso, a princípio, mas pior que estar com ele, por causa da "bendita" folha de pagamento, é estar contra e perder vários votos, de quebra.
Pois é, caso esclarecido, ela foi inocentada. Bem, pelo menos hoje é essa a versão que circula pela cidade, de que ela não teve nada a ver com a fraude armada pelo prefeito daquela época. Eu acredito nisso.
Ela me pareceu ser aquele tipo bem cdf, que se leva a sério, muito trabalhadora. É uma mulher de um pique enorme. Nunca a vi reclamando de cansaço, em nenhum momento da campanha. Ela também bolou ótimas propostas para a cidade. Mas agora é prefeita. Nunca se sabe o que o poder fará com uma pessoa. Tomara que ela resista. Ela e a população também.
As pessoas esperam dela um milagre que não vai vir. Não, ao menos, como elas pensam. Se ela conseguir fazer o grosso do que planejou, já vai mudar pra sempre o modo como aquela cidade faz política. Primeiro, porque ela vai criar um comércio, investir em educação e apostar na criação de cooperativas. A folha de pagamento nunca mais possuirá o poder que hoje tem. A população inevitavelmente ganhará mais autonomia.
Outra coisa: ela vai trabalhar com uma Câmara que é da oposição. A própria oposição vai dar trabalho, fará o máximo para atrapalhar.
E por último, a própria população pode ser um empecilho. Quem tá em folha, tá acostumado a receber sem trabalhar. E será que o povo não vai chiar quando ela colocar todo mundo para se mexer, pra trabalhar, pra estudar, pra se organizar?... Eu espero que dê tudo certo. Foi um processo muito bonito, muito mesmo; vocês não têm noção. As pessoas realmente estiveram envolvidas com a possibilidade de melhorar seu município, acreditaram na possibilidade de mudança e trabalharam duro para que ela fosse eleita.
Que Deus dê juízo a toda essa gente!
No final da história, fiquei contente por ter colaborado, quem sabe?, para o início da mudança positiva de um município que, até então, vinha sendo explorado por políticos da pior espécie.
Olha, tomaraaa!...
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