sexta-feira, 23 de maio de 2008

Uma questão de interpretação

Essa semana foi a semana das boas interpretações, pra mim.
A primeira foi a comentadíssima cena de Laura Cardoso em "Duas Caras". Que atriz é aquela?!!! Se fosse estrangeira e tivesse acabado de chegar ao Brasil e ligado a televisão na Globo, naqueles dia e horário, pensaria que estava vendo um depoimento da vida real. De arrepiar, sem dúvida!
A segunda, na verdade, foi um reencontro com Carlos Gardel. "Muita (c)alma nessa hora". Artista, principalmente cantor, no meu gosto, tem que ter paixão. Gosto de Bossa Nova, mas é por essas e outras que nunca vai ser dos ritmos que mais aprecio. É muito aguado. Falta fogo que esquente a água do caldeirão. Sabe aquela coisa bem dramática, meio toureiro, meio cara de dor de barriga? (risos)
Pois é, Gardel tem uma voz razoável, mas sabe compensar isso com muita emoção. Luís Miguel que não me escute (risos), mas "El día que me quieras" é muito mais bonita na voz do argentino. Que na verdade é uruguaio. E é dele, também, uma das melhores histórias de amor que já vi (Gardel & Baires). Tem uma frase dele que a-do-ro: "Nasci, aos três anos, em Buenos Aires". Muito lindo, não é?
Pois é, e não é que "topei" com "Por una cabeza", na net, essa semana? A canção só emociona porque é ele quem canta. É lindaaa, um deleite pra quem gosta de interpretações viscerais! Tanto é que é trilha de uma das cenas mais marcantes do cinema: o tango, no restaurante, em "Perfume de Mulher".
O caso é que parece, mesmo, que essa tal "Lei da Atração" existe (risos). Zappeando, ontem, encontrei esse filme sendo exibido.
É impressionante como nunca tenho a mesma visão sobre a história. Aliás, se já ouvi algo verdadeiro nessa vida foi aquela frase que diz que é impossível se banhar duas vezes na mesma água. Vi o filme aos 12 anos e uma década e meia depois, ele sempre me diz algo diferente. Não é o único. Isso acontece até quando escuto, de novo, meus antigos discos do Menudo (Vixe!... Me entreguei!hehehe).
O que me impactou, dessa vez, foi a sede de vida, a intensidade do personagem de Pacino. Isso sempre ficou evidente, obviamente, mas foi diferente dessa vez. Essas coisas mudam de acordo com a sua maturidade e estado de espírito. Normal.
Duas seqüências me impressionaram. Uma delas é quando o capitão (Al Pacino) vai fazer um test drive de uma Ferrari. Ele dirige em alta velocidade, e então o carro é parado por um guarda. Charles (O´Donnel) está apavorado. O coronel, cego, não move os olhos, claro, o que poderia ser um grande problema. Pede que o garoto deixe a situação nas mãos dele. É tão carismático, vivaz e seguro que desvia a atenção do guarda de tudo isso. Por último, o sujeito o elogia: "Garoto, seu velho está em ótima forma". Detalhe: o coronel está com um pé na cova; na seqüência seguinte, não se agüenta em pé e cai duas vezes no meio da rua.
A vida, parece, é um vagão que seguiu viagem sem ele, o passageiro, desde que ficou cego. Na despedida de Charlie, o coronel fica tateando o rosto dele por um longo instante. Lógico, não se trata de atração nem vontade de decorar os traços do novo melhor amigo. O toque na pele lisa do rapaz é como sentir a juventude outra vez, ou como diz Bial em "Filtro Solar", é como sentir o poder e a beleza da juventude. (Já conversei com diversos velhinhos sobre a velhice e uma coisa notei: envelhece razoavelmente bem quem não faz lá tanta questão de ter poder. Pra quem é viciado nisso, a velhice é o Juízo Final, o pior dos castigos. Perde-se a potência do corpo, o poder de atração, de comando social - principalmente laboral, e às vezes até o familiar -, enfim, é um exercício de humildade para o qual, definitivamente, o materialista séc. 21 não nos prepara)
A outra é bem, bem intensa. O coronel aponta uma arma para Charlie, na tentativa de assustá-lo e fazê-lo deixar o quarto, para que possa se suicidar. Na flor da idade, o adolescente não entende. Ele mesmo está tentando salvar o resto da sua vida, pois se meteu numa grande confusão antes de passar essas horas com o militar cego. Na compreensão de Charlie, o que importa é sobreviver, não importa como. Pergunta ao coronel como pode fazer isso com a sua vida, ao que ele responde: "Que vida, Charlie?! Que vida?!". Os dois extremos da alma humana, cara a cara: a apatia e a intensidade, invertidas, por assim dizer, nos corpos de um jovem e de um velho.
E então, nessa hora, se tirassem o áudio da fala de Al e colocassem, no lugar, "Por una cabeza", diria que o intérprete do cego estava cantando o tango. Aliás, a canção foi extremamente bem escolhida, pois fala de um sujeito que tem compulsão tanto por corridas de cavalos quanto por mulheres. Se arruína por conta disso, mas são duas paixões, como dizem os americanos, larger than life. Diante delas, não há muito o que fazer. O personagem de Pacino - maravilhoso, como sempre, mas dessa vez anormalmente excelente, até mesmo em se tratando dele - tem compulsão pela intensidade - ainda que ela culmine no ato de dar fim a própria vida.
Lindo! Lindo! Lindo!... O coronel de Al Pacino é simplesmente excepcional!
Ahhh!... Esses italianos!... (risos)


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