
"... And I say, 'it´s all right'"
No começo, tudo era verão. Nasci no final da primeira estação do sol da década de 80, uns bons dias após o Carnaval (era pra ter nascido em fevereiro, bem na festa, mas creio que me atrasei propositalmente, porque nunca gostei de muvuca). Vim ao mundo numa tarde ensolarada de sábado do mês de março. (Aliás, Elen, você sabe o que se diz na Suécia das crianças que nascem aos domingos? Só não vá ficar metida depois que descobrir! risos)
Mesmo sendo filha da cidade construída no meio deserto, como previu Dom Bosco num sonho, sempre estive perto do mar, ou melhor, da água. Antes mesmo até de dar os meus primeiros passos, brincava nas areias da praia de Piatã - que era deserta, deserta, deserta e ótima de se banhar -, junto com umas quatro famílias de brasilienses que, hospedadas com outras famílias de tudoquantoécanto do Brasil, na colônia de férias do DNER (uma que fica um pouco antes da Rua K; ela existe até hoje e agora tem algo que eu sempre desejei naqueles anos: uma piscina!), davam vida àquilo ali, faziam a maior bagunça. Minhas irmãs mais velhas paqueraram naquele espaço, fizeram amigos que se comunicam com elas até hoje. Eu, que era criança, também não saí "no prejuízo"; brinquei demais naqueles gramados e corredores e ainda mantenho contato com gente daquela época.
Durante nove anos seguidos, os 20 dias de verão em Salvador, em janeiro, eram contados a partir da hora em que chegávamos em Brasília, vindos da Bahia. "Pai, quanto tempo falta para o Natal?", eu começava, uns dois meses antes das festas de final de ano, mas não só pra saber quando eu iria ganhar presente (que com uma irmã oito anos mais velha e totalmente espírito de porco, não havia como ter essas fantasias de Papai Noel), como também para saber quanto faltava para estar perto do mar. Enquanto isso, ia matando a minha sede de água com o banho de mangueira na minha escolinha na Asa Sul, nas idas semanais ao Clube da Caixa, nas viagens esporádicas para Caldas Novas (esse ano, se Deus quiser, volto lá!) e, eventualmente, na piscina de ondas do Parque Pithon Farias (psiu, viu! não espalhem isso por aí que pega mal!).
Nada disso era melhor que o mar! Quando a gente chegava na orla da cidade e reconhecia a praia de Piatã, era um tal de short sendo jogado pra cima, camiseta arremessada pro lado e a gente implorando "Pára aí, pai, pra gente dar um mergulho! Vai ser rapidinho, a gente promete!". Ele sabia que era enganação e após 1.500 km no volante, negava, sem culpa, o pedido.
Primeira providência no Paes Mendonça: comprar três pranchas de isopor, uma pra cada uma. Ok, ok, a gente sabia que aquilo ali não ia durar dez dias e que, mesmo cientes do fato, voltaríamos para a areia com cara de cachorro que caiu da mudança, com a metade da prancha que o mar deixara pra gente de "souvenir". Mas a esperança era a última que morria. E enquanto ela durasse, nossa diversão de pegar jacaré (e a do meu pai, sádico, de nos ver levando caldo) seria máxima. Era aquela história: "Que não seja eterno posto que é prancha de isopor, mas que seja infinito o nosso surf enquanto dure".
Eu, particularmente, era um peixinho. Renata entrava, saía; Flavia ficava sentada que nem um Buda na areia e às vezes ia jogar frescobol; meu pai sempre 100% concentrado na “loira” e minha mãe de olho em todo mundo. As horas passavam e eu lá, dentro d´água. No décimo dia, só se via o branco dos olhos, de tão queimada que ficava. Só saía do mar mediante alguma proposta tentadora (tipo peixe frito, picolé da Kibom, etc) ou pra acompanhar os cálculos do barraqueiro, o saudoso Negão, que trapaceava só pelo prazer de dar risada ao me ver refazer a conta e brigar com ele pela correção (Tio Patinhas desde menininha! hehe).
Eu poderia contar muitas coisas bacanas daquela época, inclusive que éramos tão queridos na colônia que uma vez tentamos dividir o roteiro de férias com Maceió e fomos "boicotados" pelos demais hóspedes do DNER. Fica pra uma roda de bate papo, que é muita coisa e vai ficar entediante, por escrito.
Depois desse período, começamos a viver o verão de Salvador o ano todo, pois nos mudamos para essa cidade. Isso foi bem nos primeiros dias de verão. O primeiro que passamos aqui, como “soteropolitanos”, pra mim foi o mais memorável, o mais bacana. Época das vacas gordas, né, então alugamos uma casa maravilhosa na rua K, quase dentro da areia da praia. Tá certo que eu era a menor e a minha euforia foi natural, mas ninguém gostou mais, a princípio, de morar à beira mar do que eu.
De Brasília, vieram meu irmão-verme, meu primo quase inocente porém altamente influenciável (risos) e um amigão da turma da quadra, "Tio Keké", aquele tipo safado com cara de inocente que fazia a alegria das garotinhas. Não preciso dizer que os meninos de Brasília foram responsáveis por uma invasão de adolescentes baianas lá em casa (algumas amigas da colônia, que foram trazendo amigas, que foram trazendo amigas... e eu comecei a me irritar com a falta de vergonha e de espaço! ai, ai...). Suspeito que as dependências do fundo, onde eles ficaram, foram altamente freqüentadas (Ô!... Mas melhor nem pensar nisso. hehe). Bem, ter uma casa lotada de jovens, localizada a 20 passos da praia, foi muito, muito bom.
No segundo verão, foi a vez das primas de Brasília. Elas chamaram menos atenção (porque homem não é tão oferecido), mas nem por isso deixaram de render boas histórias. Foi a época de "Mila", de Netinho, que até hoje me faz lembrar da minha prima e das mangas rosa gigantes, tiradas do nosso próprio quintal e chupadas durante intermináveis tardes de preguiça e bate-papo na varanda.
Depois disso, ninguém mais veio pra animar as nossas férias. "Adulteciam" e precisavam cuidar da vida; agora já estagiavam/trabalhavam, tinham namorados/as e já haviam, afinal, matado a vontade de passar férias na Bahia. Por outro lado, as minhas irmãs começaram a namorar e a viver rotinas paralelas.
O mar virou mais uma paisagem que perdeu a graça por conta do hábito. Eu parei de ir à praia, caí na real de que estava longe de casa e que Salvador era, agora, (muiiito) mais responsabilidade que diversão, e meio que fiquei melancólica por conta disso. Sair de férias e ir para algum canto diferente é o que dava sentido ao meu ano de trabalho (leia-se, escola). Por fim, comecei a ter mais idade e ficar obcecada com o tão temido quanto sonhado futuro, e me envolvi com mil planos pra ele, esquecendo que havia esse tal de tempo presente, que é onde a curtição veranista se insere.
Paradoxalmente, a cidade cujo mar me transformava em peixe durante três semanas por ano, começou a me fazer sentir um peixe fora d´água nela... Era difícil aceitar a nova cultura, era ruim lidar com a solidão de estar longe da família e dos velhos conhecidos, num bairro isolado de tudo, e era mais difícil ainda encontrar amigos do peito da minha idade, como os que havia deixado na minha terra, ou melhor, na minha quadra natal.
E assim os verões foram passando, e por conta do excesso de sol que "aturava" o ano todo, comecei a antipatizar com o aumento da potência dele entre dezembro e fevereiro. E porque era tudo sempre igual nessa época - até o ar que se respira fica focado no turista - e também porque eu ainda tinha coisas rotineiras para fazer enquanto a cidade ficava fora de rumo por conta das festas, passei 15 anos sem tomar conhecimento de que existia esse tal de verão. Em março, quando começavam as chuvas, sentia alívio porque ele (o verão) e toda a sua desordem e calor tinham ido embora. Pensava: "Já foi tarde".
Minha hibernação, milagrosamente, acabou neste ano. Uma pitada de amadurecimento, uma colher de vontade de mudar e um copo cheio de saudade do mar, após um ano no gélido Distrito Federal e mais outro no cimentado Cabula, me deram o empurrão que eu precisava para voltar "aos velhos tempos".
A praia continua com todos os defeitos que há muito pontuo; eu continuo me achando fora de forma e detestando torrar no sol, esparramada na areia, com gente chutando-a em mim; trabalhar no verão ainda desperta a minha ira contra o calor e as alterações de rota por conta das festas me deixam indignada. Mesmo assim, estou voltando a me alegrar com a passagem dessa época do ano. Apesar dos anos de afastamento, nunca consegui ser indiferente à paisagem, essa é que é a verdade.
Pois é, voltei, depois de muito tempo, à minha antiga filosofia sol, arena y mar. E digo mais: até lamento quando não posso ir (é bom demais "ficar de molho" dentro do mar ou dar aquela caminhada na areia). Pra quê meditar se a água do mar purifica tudo? Estou considerando, até, tentar a sorte novamente com as pranchas de isopor. Em quase 20 anos, não é possível que não tenham ficado mais resistentes, né!? (risos)
Aqui em casa está um ar de “Juliana, quem te viu, quem te vê, hein!". Minha irmã e minha tia mal acreditaram quando viram a minha cor. Na verdade, não mudei; voltei a ser um pouco do que eu era, isto é, uma pessoa originalmente solar. E isso é tão bom! Nada melhor do que poder dar vazão a sua própria essência - ainda que timidamente, ainda que a migalhas dela. Experimente e vocês verão - com o perdão do trocadilho - que isso traz paz.
Por mais que eu tenha meus arranca-rabos com ele, o Sol é rei, e não se discute!!!
Canção de verão
Roupa Nova
Composição: Thomas Roth - Lulu Guedes
É como um sol de verão
Queimando no peito
Nasce um novo desejo
Em meu coração
É uma nova canção
Rolando no vento
Sinto a magia do amor
Na palma da mão
É verão!
Bom sinal!
Já é tempo
De abrir o coração
E sonhar...
Ju, adorei saber que você se reencontrou com o sol, mas praia no inverno é muito bom também. Adoro tomar banho de chuva no mar (maluquice, né?). Beijos!
ResponderExcluirIngrid, sempre do contra...
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