
Eu tenho boa intuição para filmes. Foi assim, sem informação nenhuma, só no palpite, que "descobri" Matrix (fui com uma colega de faculdade, que não queria entrar na sessão achando que era outro filme à la Schwarznegger, e nos surpreendemos), Em boa companhia, A professora de Piano e diria até Chouchou, que de péssimo, chega a ser ótimo. Em seu lugar (In her shoes, EUA, 2005) foi mais um título desses. Bem, devo confessar que qualquer coisa com Toni Collette no elenco já é, pra mim, uma boa referência, um convite para a tela grande (ou pequena). Quem não viu, veja Pequena Miss Sunshine, que também conta com a atriz nos créditos.
A história é a seguinte: duas irmãs, órfãs de mãe desde a infância, são o oposto uma da outra. Em comum, só o mesmo número de calçado.
A mais velha, Rose (Toni), é advogada, muito bem-sucedida, mas um "fracasso" enquanto mulher: solteira (aos 40), desleixada e que não sabe se impor nas relações pessoais, inclusive na relação com a irmã caçula, Maggie (Cameron Diaz). Essa é a personificação da mulher confiante, aquela que conquista qualquer um, que chama atenção na multidão. Em contrapartida, não se formou, não tem carreira, é demitida de todos os empregos e a irmã vive reparando as confusões que causa. Uma acha que a outra tem "a" vida boa, mas ambas desconhecem a sensação de fracasso que a outra carrega por dentro. Um fracasso parcial mas bastante significativo dentro do todo (o povo gosta de dizer que "beltrano tem auto-estima" e "cicrano não tem", mas acho que quase sempre as duas coisas se alternam dentro duma mesma pessoa).
Numa dessas pisadas de bola da personagem de Cameron, as irmãs rompem de vez. Como Maggie não tem dinheiro e com a madrasta e o pai não há chance, vai atrás da avó materna, que nunca viu mais gorda, interpretada por Shirley MacLaine (ah, se eu fosse um travesti, esse seria meu nome! haha). No começo, ela tenta fugir dos problemas se "divertindo", mas a convivência com a avó, a ausência da irmã e o conhecimento de certos fatos do passado fazem com que amadureça aos poucos.
Poder, pela primeira vez, não se preocupar com a irmã problemática e o surgimento de um namorado apaixonado fazem com que Rose se torne mais confiante em si mesma (já que após tantos fracassos na vida pessoal, ela já estava naquela fase em que se convencia de que nunca daria certo com alguém). No final, o casamento de Rose e o conhecimento de Maggie de importantes acontecimentos em torno da morte da mãe acabam unindo as duas; elas se enxergam como são e como a outra é pela primeira vez na vida, em mais de 30 anos. Nesse sentido, é muito legal a presença de espelhos por todo o filme bolada pelo Curtis Hanson (diretor). Há sempre um pedaço delas refletido, e estão sempre se olhando neles, como se tivessem se procurando.
Moral da história: relacionar-se intimamente é uma via de mão dupla, não funcionamos a parte das pessoas que compartilham da nossa intimidade. Você afeta e é afetado. É impossível achar sua humanidade sem considerar a humanidade dos outros, e vice-versa.
Orgulho e preconceito - O que eu acho interessante nesse filme é como as primeiras impressões sobre os personagens são desfeitas ao longo da história e viram o contrário ao final. A opinião inicial sobre Rose é que se trata de uma criatura medrosa, sem vida, e então a gente descobre que ela teve que assumir muita coisa ao mesmo tempo e cedo, e foi podada. A gente pensa que Maggie é mimada, irresponsável, rebelde sem causa, mas daí descobre que ela tem problemas de saúde que acabaram minando sua auto-estima - meu Deus, estou falando como a Oprah! - e o seu futuro (uma boa dose de orgulho de não querer procurar ajuda contribuiu, claro, pra isso). Não são óbvias, mas existem justificativas para os comportamentos das duas.
Eu odeio essas explicações vindas do passado que o cinema americano (e Oprah) adora sacar da manga. Se não tivesse sido na última parte, teria levantado da cadeira quando assisti, no cinema, "Retratos de uma obsessão". O roteirista veio com a seguinte explicação pro desequilíbrio do personagem de Robin Williams: ele era obcecado pela família que revelava as fotos porque sofreu abuso sexual na infância (zorra! todo doente mental tem que ter sofrido abuso, my God?!). Mas no caso de In her shoes, tudo foi feito de forma sutil, sensível.
Para entender alguém, como sugere o título do filme em inglês, é preciso "calçar os sapatos" dessa pessoa. Sapatos apertados, na visão de quem não os calça, nunca dão a (real) dimensão do quão incomodos estão. As pessoas só acreditarão na dor se estiver muito visível ou se mostrar o pé ferido. Na parte sentimental, é a mesma coisa: alguém está mal só quando apresenta provas palpáveis disso. É uma pena. Quem tem distúrbio mental, por exemplo, sofre três vezes nessa sociedade que valoriza o self made man e prega que todos podemos ser o que quisermos (desde que persigamos o padrão. vá entender uma miséria dessas...): da doença em si, do preconceito social e da frustração em ter limitações (só pra ele) palpáveis que se choca com essa máxima de que podemos ser o que quisermos, e isso depende de nós.
Como dizia a frase de introdução de um antigo programa da MTV, "Você pensa que sabe, mas não tem idéia"... Muita gente argumenta "Eu conheço fulano/a desde que estávamos no maternal, eu sei quem ele é". O tempo quer dizer muito pouco, a não ser que seja um observador sensível (nota: os egoístas sempre acham que são. é incrível, né? não, é óbvio: faz parte do egoísta sempre se ver da melhor maneira). Como nos seriados policiais, o melhor caminho para desvendar um crime é pensando com a cabeça do criminoso. Sem entrar na pele do outro, qualquer análise falará mais sobre o analista que sobre o analisado.
O ser humano tem a mania de julgar os outros segundo os seus próprios valores. Tanto é que virtudes e defeitos quase sempre serão conceitos relativos, variando conforme o olhar de cada um.
Aquele chavão de que "cada cabeça, um mundo" é verdadeiro. Uma coisa que não entra muito na minha cabeça, por exemplo, são essas mulheres (homens também, mas, infelizmente, as mulheres são a maioria) que viram namoradas, esposas, enfim, se relacionam com uns homens repugnantes só pela fama e/ou dinheiro desses (tenho um pouco de nojo das Maria Chuteira, confesso). Minha irmã sempre tenta me explicar: "Mas, Juliana, pra algumas pessoas, o dinheiro é o mais importante, ter status vem antes do amor. Tudo depende dos valores que a pessoa cultiva". Sei disso e sei também que a gente deve respeitar as escolhas pessoais dos outros, mas, confesso, continuo não entendendo essas pessoas. Isso me leva a outro questionamento: mesmo sabendo que o outro sabe que está sendo usado, é certo ter dignidade pelos dois e dar um freio na história, ou cada um que se responsabilize pelo que faz (e não faz)?
Eu penso que, geralmente, as pessoas querem coisas parecidas e passam por muitas situações similares. Mas, por outro lado, é aquilo que todo mundo sabe mas ninguém se lembra: apesar da "humanidade" em comum, não dá para padronizar a emoção e, principalmente, a reação/natureza. "Cada cabeça, um mundo". Somos uma sociedade de palpiteiros que se julgam "os" realistas e sabichões, mas verdade mesmo é que, apesar de ser necessário ter opiniões ainda que furadas, pra saber realmente sobre alguém, só estando/entrando na pele do outro.