Após mais de 20 anos ouvindo "Montecastelo", do Legião, finalmente atentei para um trecho da música que achei fantástico, ou melhor, muito significativo: "É ter com quem nos mata lealdade" ("... tão contrário a si é o mesmo amor"). Provavelmente essa frase da canção (que na verdade é a versão musicada de um texto antigo) fala da dependência emocional. O lance é que essa mesma moeda tem um outro lado, oposto, muito bonito, diria nobre: a liberdade emocional, que faz um indivíduo continuar leal a um alguém, ainda que este ou esta lhe traga dissabores.
Há casos em que ser leal é quase uma fatalidade, uma atitude semi-involuntária, digamos. Isso acontece muito entre parentes. Nem sempre há grande sentimento entre as criaturas, mas o sangue sempre acaba falando mais alto no frigir dos ovos. Não é uma atitude fácil - por vezes é uma contradição dos fatos, uma incoerência com a história de ambos -, mas, enfim, isto está mais para o instinto que para qualquer outra coisa.
Fico admirada é com a "lealdade escolhida" e proveniente da compreensão e do respeito, ou, em último caso, do amor incondicional. Mas quem tem "altura" para alcançar um grau de altruísmo desses? Conto nos dedos da minha mão direita os casos que conheço...
Por falar em família, ontem mesmo comentava com uma amiga o quão difícil é manter-se respeitoso com as escolhas daqueles que nos são íntimos. Em certas circunstâncias, a depender da temperatura dos acontecimentos e, claro, dos ânimos, rompem-se inclusive os relacionamentos. "Fulano vai ver que eu estava certo!". "Beltrano nunca foi quem eu pensava!". Dramas aparentemente banais como esses pesam muito na alma e

é inegável que todos nós lidamos com isso o tempo inteiro. Viver é relacionar-se bem, ou melhor, viver bem é aprender a conviver nesse hospício chamado sociedade e manter-se saudável. Arrisco dizer que nada, nesse planeta, é mais difícil. Estamos aqui quase que exclusivamente só para aprender a superar os desafios do coração.
Como manter-se leal em casos de desapontamento? Não há fórmula universal e cada um que trate de criar a sua até para o seu próprio bem. Viver como um entre tantos que existem no mundo e não o contrário disso ajuda bastante, creio. Tentar a gratidão pode ser um bom recurso. Cuidar-se e assumir que viver é "pessoal e intransferível" (e, portanto, não dá para bancar o Deus nas questões alheias e vice-versa) talvez seja pré-requisito.
A palavra lealdade pode ter dois significados: sinceridade e permanência. A meu ver, tem muito mais a ver com o segundo. (Já reparou que algumas mulheres dizem que o marido "foi infiel mas não desleal"? Parecem a mesma coisa, mas o que elas argumentam faz sentido.)
Nunca esqueci da história do marido bissexual de "Por amor", novela de Manoel Carlos. Rafael esconde o fato há anos da família e quando esta descobre fica arrasada, obviamente, mas continua ao lado dele. Bonito momento de Virgínia, a esposa, que se separa, mas não nega, diante dessa relevante omissão do marido, o homem admirável que ele sempre foi.
O caso é que a relação tinha lastro.
O amor dele nunca foi uma mentira e ela sempre se sentiu cuidada pelo marido, como mulher e como amiga - e nessas coisas não há como blefar: a gente sente quando o outro está ou não está conosco! Mesmo traída, ela teve condições de considerar, apesar da dor que facilmente cega uma pessoa nessa situação, que, se por um lado o ex escondeu um dado importante da intimidade dele, o que viveram juntos, até então, nunca foi uma enganação; não houve má-fé, desrespeito, mas apenas medo de rejeição. Enfim, a lealdade, por anos a fio, de Rafael garantiu que Virgínia quisesse permanecer na vida dele - porque apenas o amor, quase sempre, não basta nessas horas -, apesar de, após descobrir a bissexualidade dele, estar lidando, de certa forma, com uma pessoa desconhecida para ela.
Infelizmente não é assim para todo mundo, até porque muita gente nem sabe o que é essa tal de lealdade e outras gentes, mesmo sabendo, não fazem lá muita questão dela.