sábado, 5 de dezembro de 2009

Ah, são coisas da vida...

"... e a gente se olha e não sabe se vai ou se fica..".
(Rita Lee)


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

3x Martha

Amigo de si mesmo
 
Em seu recém-lançado livro Quem Pensas tu Que eu Sou?, o psicanalista Abrão Slavutsky reflete sobre a necessidade de conquistar o reconhecimento alheio para que possamos desenvolver nossa autoestima. Mas como sermos percebidos generosamente pelo olhar dos outros? Os ensaios que compõem o livro percorrem vários caminhos para encontrar essa resposta, em capítulos com títulos instigantes como “Se o cigarro de Garcia Marquez falasse”, “Somos todos estranhos” ou “A crueldade é humana”. Mas já no prólogo o autor oferece a primeira pílula de sabedoria. Ele reproduz uma questão levantada e respondida pelo filósofo Sêneca: “Perguntas-me qual foi meu maior progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo”.
Como sempre, nosso bem-estar emocional é alcançado com soluções simples, mas poucos levam isso em conta, já que a simplicidade nunca teve muito cartaz entre os que apreciam uma complicaçãozinha. Acreditando que a vida é mais rica no conflito, acabam dispensando esse pó de pirilimpimpim.

Para ser amigo de si mesmo é preciso estar atento a algumas condições do espírito. A primeira aliada da camaradagem é a humildade. Jamais seremos amigos de nós mesmos se continuarmos a interpretar o papel de Hércules ou de qualquer super-herói invencível. Encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? E chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. E aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que bons amigos fazem: perdoam.
Ser amigo de si mesmo passa também pelo bom humor. Como ainda há quem não entenda que sem humor não existe chance de sobrevivência? Já martelei muito nesse assunto, então vou usar as palavras de Abrão Slavutsky: “Para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza”. É uma frase genial. O bem-humorado respeita as certezas, mas as transcende. Só assim o sujeito passa a se divertir com o imponderável da vida e a tolerar suas dificuldades.

Amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? Se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? Ora. Faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso. Negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. Não troque sua paz por encenação. Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. Mas seja gentil e educado, isso reforça laços, está incluído no projeto “ser amigo de si mesmo”.
Por fim, pare de pensar. É o melhor conselho que um amigo pode dar a outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha “sou rebelde porque o mundo quis assim”. Sem essa. O mundo nem estava prestando atenção em você, acorde. Salve-se dos seus traumas de infância.

Quem não consegue sozinho, deve acudir-se com um terapeuta. Só não pode esquecer: sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível, como bem escreveu Sêneca cerca de 2 mil anos atrás. Permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo.

Martha Medeiros - Jornal de Sta Catarina, 15/11/2009 

Cresça e divirta-se


Tenho viajado pra lá e pra cá acompanhando algumas pré-estreias do filme Divã, baseado no meu livro homônimo. Delícia de tarefa, ainda mais quando a gente gosta de verdade do trabalho realizado, e esse filme realmente ficou enxuto, delicado e emocionante. Além disso, ainda consegue me provocar. A personagem Mercedes (vivida pela incrível Lilia Cabral) está fazendo análise e leva pro consultório muitos questionamentos sobre sua vida. Até que, passado um tempo, finalmente relaxa e se dá conta de que não há outra saída a não ser conviver com suas irrealizações. Diante disso, o analista sugere alta, no que ela rebate: “Alta? Logo agora que estou me divertindo?”
Eu tinha esquecido dessa parte do livro, e quando vi no filme, me pareceu tão cristalino: um dos sintomas do amadurecimento é justamente o resgate da nossa jovialidade, só que não a jovialidade do corpo, que isso só se consegue até certo ponto, mas a jovialidade do espírito, tão mais prioritária. Você é adulto mesmo? Então pare de reclamar, pare de buscar o impossível, pare de exigir perfeição de si mesmo, pare de querer encontrar lógica pra tudo, pare de contabilizar prós e contras, pare de julgar os outros, pare de tentar manter sua vida sob rígido controle. Simplesmente, divirta-se.
Não que seja fácil. Enquanto um corpo sarado se obtém com exercício, musculação, dieta e discernimento quanto aos hábitos cotidianos, a leveza de espírito requer justamente o contrário: a liberação das correntes. A aventura do não-domínio. Permitir-se o erro. Não se sacrificar em demasia, já que estamos todos caminhando rumo a um mesmo destino, que não é nada espetacular. É preciso perceber a hora de tirar o pé do acelerador, afinal, quem quer cruzar a linha de chegada? Mil vezes curtir a travessia.
Dia desses recebi o e-mail de uma mulher revoltada, baixo astral, carente de frescor, e fiquei imaginando como deve ser difícil viver sem abstração e sem ver graça na vida, enclausurada na dor. Ela não estava me xingando pessoalmente, e sim manifestando sua contrariedade em relação ao universo, apenas isso: odiava o mundo. Não a conheço, pode sofrer de depressão, ter um problema sério, sei lá. Mas há pessoas que apresentam quadro depressivo e ainda assim não perdem o humor nem que queiram: tiveram a sorte de nascer com esse refinado instinto de sobrevivência.
Dores, cada um tem as suas. Mas o que nos faz cultivá-las por décadas? Creio que nos apegamos com desespero a elas por não ter o que colocar no lugar, caso a dor se vá. E então se fica ruminando, alimentando a própria “má sorte”, num processo de vitimização que chega ao nível do absurdo. Por que fazemos isso conosco?
Amadurecer talvez seja descobrir que sofrer algumas perdas é inevitável, mas que não precisamos nos agarrar à dor para justificar nossa existência.

Martha Medeiros
4/04/2009

O amor que a vida traz

Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.
O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos. Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar. O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja pra assistir em casa, no DVD. E seria bom que gostasse dos seus amigos. E precisa ter um emprego seguro. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar. Não é querer demais, é? Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.
Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.
E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada o amor solicitado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego. Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia encomendado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia que nem lhe pertence. Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu. Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!
Aquele amor discretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém para o qual um amor discretinho costuma ser desprezado, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado. Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns! Aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.

Jornal de Santa Catarina,24/04/2009


Bonnus Track:
Falsa intimidade

Fala-se muito sobre as frágeis relações amorosas de hoje, tão afetadas pela urgência de satisfazer desejos imediatos, pelas inúmeras possibilidades de contato instantâneo e pela pouca durabilidade dos sentimentos. Me pergunto: onde está o furo dessa história? O que perdemos no meio do caminho? Talvez nem tenhamos perdido, talvez simplesmente nunca tenhamos encontrado aquilo que só a poucos casais foi dado viver e que os mantém unidos a despeito de toda a artilharia.
A maioria, hoje, vive suas relações afetivas e sexuais de forma periférica. Contenta-se com cama, orgasmos e satisfação dos instintos. Isso somado a um cineminha, uma escapada no feriadão e um almoço em família configura uma privacidade compartilhada, e é o que basta para confirmar que a relação existe, seja ela chamada de rolo, namoro ou mesmo casamento.
Ainda me pergunto: onde está o furo da história? Por que essa privacidade compartilhada não se sustenta por muito tempo, não satisfaz 100% e gera tantas frustrações?
Com a possibilidade de acesso virtual a uma variedade de candidatos a grande amor e de seus cadastros (idade, profissão, time, fetiches), entrar na privacidade dos outros ficou muito fácil. Porém, em proporção inversa, perdeu-se a noção do que é intimidade, algo que nem mesmo algumas relações duradouras conseguem atingir.
Intimidade não se externa, não se divulga, não se oferece na internet. É nosso bem mais secreto, é onde guardamos a chave do nosso mistério, das nossas dores, das nossas dúvidas, da nossa emoção genuína. Não se compartilha isso com outra pessoa se ela não tiver sensibilidade suficiente para nos ouvir e entender, para nos aceitar e nos acrescentar, para nos respeitar e ofertar em troca sua própria intimidade, selando a partir daí um tipo de pacto que beira o sublime.
Essa intimidade requer confiança plena, compatibilidade na maneira de enxergar o mundo e nenhum instinto maléfico em relação ao outro. Intimidade é quando duas pessoas, mesmo distantes em espaço, estão profundamente unidas porque se reconhecem cúmplices, não competem pela razão. Claro que a intimidade não consegue evitar ciúmes e conflitos de ideias, e tampouco se pretende que ela acabe com a solidão de cada um, que é sagrada, mas ela assegurará a longevidade de uma união que será estabelecida pela generosidade do olhar: se estará mais preocupado em enxergar a alma do outro do que em fiscalizar para onde ele está olhando.
Amigos conseguem essa magia mais do que muitas duplas românticas, que frequentemente se enganam a respeito da falsa intimidade que o sexo faz supor. Invadir a a privacidade alheia é moleza, basta um torpedo, um telefonema, um encontro. Mas ter acesso ao mundo interno que o outro habita e sentir-se à vontade nesse mundo é que torna tudo mais raro, mais mágico e mais eterno.

Jornal de Sta Catarina-28/11/2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Tributo sem ação

Ter um governo é como ir ao dentista: um mal necessário. É ruim com ele, pior sem ele!
Quando vemos, nas aulas de História da escola, o que os reis já fizeram, agradecemos por vivermos numa república. E quando nos lembramos das atrocidades cometidas pelo comunismo, podemos comemorar a vida em democracia (se bem que a esse termo caberia umas aspas...). Mas, poxa, esse governo do Brasil é de uma inoperância colossal. Pra quê a gente paga esse tanto de tributo?! Não vemos nada, absolutamente nada de significante revertido a nosso favor. Os serviços são muito mal executados, pouco estruturados.
Desde criança, me espanta como um carro, por exemplo, custa tão barato para os gringos e pra gente sempre foi um produto caro. Às vezes penso que os nossos salários seriam maiores se os empregadores não fossem tão bombardeados de tributações, de´impostos e taxas.
Um amigo advogado me disse que a solução seria privatizar tudo e diminuir as "responsabilidades" governamentais. Pode ser. Será que conseguiríamos nos tornar mais mangueados que já estamos? Será que o governo vai cobrar, um dia, menos tributo e vai demonstrar mais ação?
O Brasil vem melhorando nos últimos 15 anos. Espero sinceramente que, antes de adquirir cabelos brancos, consiga ver o país nos trilhos, certinho e nos sacrificando menos em nossos bolsos.
(pô, esse é o terceiro post em que me dá vontade de finalizar com "um beijo, amigos". Me segura que tô ficando miguxa!hahaha... Um beijo para vocês, amores - bleargh, que miguxice danada! hahaha)

domingo, 22 de novembro de 2009

UNIBAN-dalheira

Alguém aqui não viu na tv ou não ouviu falar sobre o caso da estudante paulista que, por usar trajes curtos, foi expulsa da faculdade?! Até dois dias atrás, o caso da estudante Geisy Arruda andava na boca do povo. Como uma cadela no cio, a moça foi perseguida por uma horda de marmanjos grosseiros pelos corredores da faculdade. Lamentável.
Eu não vou entrar no mérito da falta de compostura da moça. Carências, egos e pobrezas de espírito à parte, o que interessa é que alguém foi humilhado e punido por exercer seu direito de vestir-se como quer. E isso em São Paulo, que se gaba de ser primeiro mundo! Durma com um barulho desse.
Eu não acreditei. Queria morrer e solicitar que, numa próxima vida, eu encarne num país decente, onde as pessoas têm respeito pelas outras. Você pode dizer "Ah, mas ela pediu". E eu digo: nem que ela estivesse pelada eles tinham o direito. Homem bota o pênis pra fora e faz xixi na rua e nada acontece. Por que uma mulher não pode usar saia curta?!
O machismo tem que acabar no Brasil. Na boa. Por mais que um homem ache uma mulher vagabunda, ele não tem o direito de destratá-la por isso. Cada um no seu quadrado e tudo dá certo.
Acho que sou meio bronqueada com esse tipo de situação porque passei por isso ainda novinha. Lembro que assim que cheguei a Salvador - tinha 11 pra 12 anos - fui inventar de dar uma volta na orla de Piatã, num domingo, com minha colega. Um bêbado se jogou em cima da gente, e eu, num reflexo, o empurrei, quase provocando a queda da criatura lá embaixo, na areia. Tomei o maior susto. Nunca mais andei na orla aos domingos. Até hoje não gosto de sair sozinha neste dia. As pessoas estão bêbadas, só tem vagabundo, a rua está vazia, é um horror... Anos depois, embora as tivesse avisado, minhas primas goianas passaram pela mesma situação. Voltaram pela areia, fugindo de um carro que as perseguia, morrendo de susto. Isso é vida?
Até países latinos/machistas estão mais avançados que o Brasil. Duvido que um argentino faça isso com uma argentina. Os espanhóis não mexem com as mulheres na rua, segundo fiquei sabendo. Aliás, nem é bom falar em Europa que a frustração cresce. Até topless a mulherada faz, e tudo se dá com a maior naturalidade... É fogo, é fogo!

Calos

Há muito sofria com sapatos. Já fazia algum tempo que o povo me via andando por aí, para cima e para baixo, com uma certa sapatilha preta, mas não era pela falta de outros sapatos, claro (risos); é que esse era o único par que não me doía (aliás, por isso mesmo, comprei logo dois de vez!). De uns tempos para cá, não tenho mais tido "avarias" em meus calcanhares. Distraída que só eu mesma, somente outro dia percebi que ganhei um calo no lugar que costumava ficar em carne viva. Eba! Agora posso andar por aí sem ter que carregar na bolsa um rolo de esparadrapo. A sapatilha continua firme e forte. Tarde demais: acho que já me apeguei a ela! :D
Assim como usar sapatos, já não me dói mais um monte de coisa que antes me doía - e, literalmente, graças a Deus! Em oito meses - as coisas mudaram de rumo, olhem só, bem na semana em que fiz aniversário! -, cresci muito como pessoa, mudei bastante a (qualidade da) minha atitude. 2009 foi o ano em que me livrei de muito "lixo", de muito "peso". Parto rumo a 2010 sem "excesso de bagagem". Estou aprendendo a "viver a vida". Criei "calos" que me protegem, agora, da dor, ou melhor dizendo, os pequenos atritos já não me deixam mais em "carne viva". E apesar das recaídas e dificuldades que ainda tenho, me sinto muito abençoada pela oportunidade que a vida vem me dando de consertar muita coisa, de aprender muita coisa, ainda jovem. Queria ter sabido o que sei hoje há dez anos. Mas, como diz o outro, tudo tem seu tempo certo. Fazer o quê, né?!
Uma amiga, que assim como eu também gosta de "filosofar", sempre me lembra o quanto temos sorte por isso. Ela me diz: "A esmagadora maioria das pessoas só vai se tocar da miséria que foi a própria vida quando já for tarde demais, quando estiverem face a face com a morte". Quem viveu bem, vai morrer bem. Fato. A esmagadora maioria das agonias que vemos em pessoas que estão em fase terminal mais se deve ao desperdício de vida que a iminência da morte. Outro fato.
A verdade é inevitável, não adianta fugir dela. Vai querer dar de cara com tudo que sempre evitou só na hora da morte, quando nada mais se pode fazer?! "Façam tudo que forem capazes só para viverem em paz".


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Linhas Cruzadas

Outro dia Bruninho, calouro empolgadíssimo da Facom que conheci aqui no trabalho, adentrou a sala onde fico indignadíssimo com uma cena de telejornalismo(veja link). Pôs o vídeo pra rolar no pc, e depois discutimos o lance. Ele achou um absurdo os modos da repórter da Record de Brasília durante a transmissão ao vivo para o programa da rede, o "Hoje em Dia".
Ok, foi uma grosseria danada da parte da moça ter feito as coisas do modo que fez. Ponto. Mas, de certo modo, compreendo a raiva da pessoa. Todo mundo só quer dar exclusiva para a Globo - e isso deve ser muito frustrante para os repórteres de outras emissoras -, e, como se não bastasse, a tal emissora ainda demora uma vida para "desocupar a moita" e deixar as demais terem espaço na cobertura do fato. É compreensível, vamos combinar, embora tenha sido inegavelmente muito deselegante o comportamento da repórter brasiliense.
O pior nisso tudo foi o apresentador do "Hoje em Dia". A moça foi reativa, enquanto ele foi malicioso. O sujeito tinha consciência de que a emissora estava pongando no encontro agendado pela concorrente. Sabia, portanto, que podia dar no que deu - que maldade com a foca brasiliense!... mas o povo, também, se sujeita a muita coisa sem noção -, e ainda tentou colocar o telespectador contra a emissora carioca. Bizarro. Até minha mãe, uma simples dona-de-casa, ficou pirada com isso.
Graças a Deus, a opinião pública brasileira está evoluindo e as pessoas não estão mais tão abertas a disse-que-disse e outras picuinhas.

domingo, 8 de novembro de 2009

Reconhecimento

Buscar o reconhecimento externo não é uma atitude adequada e madura, eu sei, mas é altamente humana. Por mais que haja generosidade nata e bons princípios em jogo no bem que se faz ao próximo, todo mundo carece de um elogio, de um afago, de uma surpresa, enfim, de uma demonstração explícita de apreço, de vez em quando. O maior fogo, sem combustível, um dia se apaga.

É que às vezes não basta saber; é preciso também ver, experimentar aquilo sobre o qual se tem certeza.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Pituba...

... O inferno é ali!
Ô!...

Detesto andar na Pituba. Vivo em pânico naquelas ruas, achando que vou ser assaltada a qualquer instante. Acho que criei trauma por causa de Davi, a pessoa que certamente bate todos os recordes de assaltos no bairro tendo como alvo uma mesma pessoa! hahaha... Não moraria ali nem a pau, até porque, além de ser um lugar visado por marginais, é sem vida, sem alma. A Pituba é um "não-lugar", como diria um certo teórico da Comunicação.

Em dois meses que freqüento o bairro, já presenciei (o resultado de) um assalto, o roubo do som de um carro. Mas nada, até então, se comparava ao evento de hoje.
Um sujeito estava saindo do Bradesco da Manoel Dias, quando foi abordado por ladrões armados. No susto da situação, correu. Entrou num prédio. Os bandidos não se intimidaram, e continuaram a "caçada". Da minha sala, ouço um estrondo. Minha colega brinca: "Opa! Um tiro!". E era. Situaçãozinha bizarra - penso cá comigo.
Todos para fora. De repente, um homem de expressão sobressaltada - desculpem o trocadilho infame! -, adentra o lugar onde me encontro junto com dezenas de outras pessoas. Bebe água, nem consegue sentar, e conta a história, para depois, acompanhado de um policial, se retirar, ainda meio que em transe por conta do susto pelo qual passou.


Moral da história: a Pituba é uó - e Deus que nos defenda da energia bélica daquele lugar. (Amém!)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Terererê! Terererê!... A.F.T.!

E eis que cinco anos após a formatura, voltei a sala de aula! Yes!... Can I? Espero que sim, viu. (Não me visualizo sendo, um dia, professora, mas, por mim, serei eternamente rata de sala de aula, serei aluna até ficar velhinha!)
Tá. Nesse meio tempo, fiz aula de violão e de espanhol, mas foi bem diferente. Duas horinhas, duas vezes por semana. Tô encarando a pauleira de quatro horas por dia, seis vezes - no mínimo - por semana. Nome do curso: Auditor Fiscal do Trabalho. Achei a minha cara. Me disseram que posso combater injustiças, inclusive trabalho escravo. Me disseram também que morre-se muito neste cargo. Quem quiser ganhar dinheiro com seguro de vida, pode me procurar pra fazer um em meu nome! hehehe... Tenho medo disso, não. Só vou ter medo de morrer quando tiver meus filhotinhos (o espírito de Susanita baixou em mim!). Mas ainda vai demorar é tempo - infelizmente! E alô, Elenildes Maria! Tenho grandes chances de ser sua vizinha aí no Norte del Brazil!... (Outro dia viajaram na maionese dizendo que usted tá na França. Rebati que o mais próximo que se encontra disso é da Guiana Francesa. :D)
No começo, achei que o meu curso seria que nem o de Auditor Fiscal, cheio de almofadinhas. Que nada. Grupo heterogêneo. Nenhum simpático - se é que vocês me entendem. Quando finalmente encontrei um - tipo latino: moreno, cabeleira lisa, castanha e farta, traços bem hispânicos -, lamento o fato dele ser baixinho. Depois vi que ele é meio boyzinho. Mesmo assim "perseverei". Mas houve um dia em que a fantasia murchou de vez. Ele sentou do meu lado e, como diz uma colega, "passei o pente fino" no rapaz. Que decepção: cabelo branco, camiseta furada (duas brocas!) e ainda mau hálito. Deus é mais! Melhor estudar (e aguardar a próxima turma da PF, que, segundo dizem as meninas, é maraaaaaa! hahaha). Na verdade, tem um simpático na turma, mas ele, pra variar, é comprometido, e a namorada dele, pra variar (vol.2), está na turma também e é uma das pessoas de quem mais gosto lá.
Pois é, estudando de domingo a domingo tenho feito bons colegas.
Começamos a nos unir por conta de um professor sem noção de uma matéria. Deu a maior confusão entre ele, o curso e o grupo. Depois, mais confusão por conta do escopo, de algumas matérias. Uma baixariaaaaaaaa!... Teve um dia em que a coordenação do curso subiu pra conversar com a gente, e eu me senti na escola do prof. Girafales, com todo mundo falando ao mesmo tempo. Hilário!
Como não podia faltar, existe a "fauna" de tipos. A líder inflamada. A superarticulada. O organizadinho. As patricinhas united. A piriguete surtada. Os alternativos. A nerd fashion. A loira marombada. A forasteira com sotaque. A clássica. Somos a sala mais polêmica da CDC. Os professores já chegam dando a entender que tão sabendo disso. Fazer o quê? Sempre entre os rebeldes, essa é a minha sina... hahaha
O mais legal, além da formação, é que você ainda aprende com essas pessoas. Outro dia, peguei carona com um colega, e ele contou a vida dele. Nossa, nunca vi tanta desgraça acontecer com uma pessoa, de uma vez, num período curto. A gente fica preso no nosso mundinho, e de repente descobre que é tão afortunado e nem dá valor. Poxa, a gente ficou em altos papos (mas já me disseram que ele é gay. Realmente, neste sentido, a turma de AFT é a trevaaaa! :P).
As pessoas são solidárias. Se você falta, te puxam a orelha. E há troca de informação toda hora. Nem parece que somos concorrentes.
Os professores também são bacanas. Fiquei amiga de dois. Um deles, então, virou brother. Só lembrei de Elen. Assim como nossa amiga, ele também veio do teatro, e faz das aulas espetáculos. Só Daniel (double Elen! :P), mesmo, pra não me deixar dormir. Até confessou que faz de propósito. Se me vê piscando, aumenta o volume - os colegas de faculdade devem lembrar que nunca tive grandes pudores de dormir em sala de aula! (risos)
E sabe qual é o mais incrível disso tudo? Encontrei um colega de Ô Ingrid. Santíssima, tá lembrada de Nelson, da turma de AFT - 2007? Pois é. Mundinho pequeno...

Pois é, queridos, se não me virem na society por essas semanas, não estranhem. Até janeiro, tô na gang do AFT... Terererê, terererê!... AFT!!! :P

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Frase da semana

"O casamento é uma má idéia se você deseja se casar para ser feliz; mas uma boa escolha se o seu intuito é casar para fazer alguém feliz."
(Djalma Argollo, terapeuta junguiano e presidente da Sociedade AMAR)

Os dois Cs da questão

Outro dia, estava com uma turma de advogados num bar da Magalhães Neto - uma espelunca, por sinal! Um querido amigo estava se despedindo, e lá fui eu dar a volta na city pra ver o "meu mascotinho"[:P] - olha, uma culpa eu não vou levar dessa vida: eu cultivo minhas amizades, e faço é coisa em nome delas!
Conversa vai, conversa vem, as fofocas sobre a vida alheia vêm à tona, e instala-se o momento deprê da noite: os meninos, todos amigos, estavam indignados com um amigo em comum que está sendo corneado, mas custa a dar crédito às evidências, e até às "denúnicas" de alguns outros amigos.
Eu entendi perfeitamente o drama. O episódio diminuiu consideravelmente a admiração deles pelo amigo do peito. E não consigo pensar em muitas coisas mais tristes que amar alguém sem admira-lo. Como diz a menina da novela, "é a treva". Entre os homens essas coisas são piores. Ser corno (desavisado) é uma coisa; resignar-se a ser corno é outra bem diferente. Enfim, eles estavam arrasados com a cornice descarada do fulaninho - fora que não há nada pior do que ver alguém querido entrando numa roubada, e não poder fazer nada.
Quem já não passou por isso, hein? A gente fica cobrando do outro bom senso, coerência, e se choca quando percebe naquela pessoa de quem tanto gostamos algo que vai além da falta disso: a má vontade em ver a verdade. "Mentiras sinceras me interessam". Nunca entendi qual é a graça disso. Tá certo que a gente acredita em um monte de porcaria ao longo da vida. Mas pessoas relativamente saudáveis costumam não saber que são mentiras - as compramos como crenças geralmente por ignorância ou imaturidade. Duro é quando sabemos que se trata de uma ilusão, e (por qualquer motivo não muito digno) descartamos a verdade como quem corta um pedaço de unha. Eu fico, no final das contas, com muita pena. Para que mentiras sinceras interessem, há que se estar muito fragilizado diante da sua própria realidade.
Uma vez, uma pessoa bem próxima a mim, que vivia um namoro vexatório, pediu minha opinião sobre o namorado dela. Eu nunca gostei dele, mas nunca falei nada. Há tempos havia desistido de dar qualquer conselho à fulana (é como eu digo, enquanto eu estiver falando, é porque me importo...). Naquele dia, sentadas no meio fio, eu perdi a paciência, e perguntei a ela, entre berros, o que faltava pra se tocar que o beltrano não tinha um pingo de afeição por ela. Cinco minutos depois me arrependi. Aquele namoro, ainda que falido, era a única coisa que quebrava a monotonia daquela vida tão sem perspectiva. Mesmo de má qualidade, o namorado rendia-lhe histórias, dava-lhe o que conversar com as pessoas. Não lhe falei nenhuma mentira, mas senti que devia ter ficado quieta. Ela sabia perfeitamente daquilo que lhe disse (ô!...), e a minha sinceridade não serviu pra nada além de aumentar a vergonha dela em relação a si mesma. Fiquei me sentindo uma vilã; uma babá malvada que tira o bico da criança (e todos sabemos como esses bicos fazem mal, mas, por outro lado, são o consolo dos bebês).

É que a gente não percebe uma coisa muito óbvia nas relações humanas: mais do que serem convencidas, as pessoas querem ser cativadas. Não há muita gente bem-resolvida (de verdade) circulando por essa Terra. O povo é muito carente, e a vida é uma sucessão de atos repetitivos e mecânicos. No fundo, a esmagadora maioria não está aqui atrás da sua verdade, mas de alguma emoção, ou melhor, de alguma sensação.
Quem tem espírito de "novidadeiro" (aquele tipo de gente que vive pulando de novidade em novidade) tende mais a esse tipo de concessão. Quem tem como meta se superar, se expandir como ser humano segura muito mais a onda e procura não agredir a realidade. Mas não que seja fácil. Às vezes é preciso comprar colhões extras no MercadoLivre.Com pra poder segurar a barra... Ainda mais numa sociedade que prega ser o sofrimento - situação básica da existência humana - coisa de perdedor, de otário.

Há algum tempo já saquei que nem todo mundo agüenta grande dose de realidade, essa é que é a verdade. Pena. Manter-se na zona de conforto pode ser cômodo, mas não costuma gerar crescimento pra ninguém.


Dois celulares

(Calma, que o Edson continua sendo um só, e pertence a Claudia Raia!hehehe)
Há muito venho percebendo que grande parte do povo anda ostentando dois celulares. Com exceção dos médicos, advogados e empresários, não entendo a utilidade de se ter dois celulares para o resto das pessoas. Vai ver que é porque detesto telefone.
Resolvi investigar. Fiz uma pequena enquete com o povo do trabalho, e descobri como isso acontece. Ter dois celulares muitas vezes é como ter duas contas de banco: um dia, por necessidade, você precisa ter uma linha de outra operadora que não a sua (seja por conta do trabalho ou do/a namorado/a), e acaba se acostumando com o fato. Simples assim.

sábado, 24 de outubro de 2009

Sintonia

Encaixe, desencaixe... Quem já não teve essas sensações - e até se pegou refletindo seriamente sobre isso, sem quase nunca entender muito bem - durante a vida?
Tenho um amigo que, se for contar, só o vi umas cinco vezes em dez anos que nos conhecemos, mas, quando a gente se encontra, é sempre uma festa (nota: ele é gay - antes que alguém pense besteira!), como se o intervalo de tempo não tivesse sido tão grande entre um encontro e outro. Não temos tanto em comum, assim, mas rola uma sinergia incrível. A gente simplesmente se encaixa. Ponto... E como é bom, né? Quando isso acontece comigo, sinto que a alma acorda, sei lá!... Adoro!...
Tem gente que não se encaixa na gente mas nem por decreto! Você tenta resolver pela esquerda, e nada. Você tenta se adequar pela direita, e o desastre aumenta. Você olha, pensa, respira fundo, e simplesmente não entende o porquê do descompasso. Tinha tudo para ir bem, é verdade, mas o fato é que não dá samba. E essas coisas, vejam bem, simplesmente acontecem. Sim, acontecem. E a gente tem que realmente deixar acontecer, pois quando forçamos a barra, geralmente o tiro sai pela culatra.

Mais um fenônemo estranho by Vida para a minha listinha...
Vai ver dona Clarice tem razão, e viver realmente ultrapasse qualquer entendimento.

sábado, 10 de outubro de 2009

A era do tô me achando

Por que necessitamos cada vez mais da aprovação, do amor, da admiração e (até) da inveja dos outros? Entenda como funcionam os mecanismos da vaidade – e saiba como se imunizar para não ficar se achando a última bolacha do pacote

texto Ronaldo Bressane

“Bacanas teus óculos”, falei. Leves, classudos, num tom esportivamente escuro, cada lente com uma sombra que subia de baixo para cima, tornavam misterioso o olhar do amigo, um jovem editor. Comentei que nunca o tinha visto de óculos. Ele devolveu: “Pois é, mas eu estava com a vista cada vez mais cansada, até que fui ao oculista e ele me disse que precisava usar. Dois graus de miopia. Excesso de leitura. Fazer o quê...”, compungiu-se, o olhar vago, empurrando o par de lentes nariz acima com um charme intelectualmente sofrido. Mês depois, encontrei uma amiga cujo pai é oftalmologista. Entre anedota e outra, ela me contou que um curioso cliente do pai havia pedido um modelo de óculos sem grau. É, era ele mesmo – o editor.
Vivemos tempos curiosos. A cada segundo, e através de todos os meios possíveis, somos expostos aos corpos mais perfeitos, às biografias mais irretocáveis, à pose generalizada de famosos e anônimos. Vaidade pura. Mas um momento: você já experimentou sair por aí todo mulambento, comparecer despenteado a uma entrevista de emprego, esconder de parentes e amigos aquele êxito nos estudos? Impossível, não? Porque, hoje, não ter vaidade – não ter o hábito de apregoar aos quatro cantos, reais e virtuais, o quanto você pode ser atraente, sensacional e único – parece ser um dos maiores pecados da nossa era, esse tempo em que todo mundo parece estar “se achando”.
Por isso, os óculos de araque do meu amigo. No meio altamente intelectualizado em que ele vive, circulando entre Festas Literárias de Paraty e debates seguidos de sessões de autógrafo nas livrarias mais chiques do eixo Rio-São Paulo, ostentar uma armação bacanuda é o equivalente, em termos culturais, às pernas muito bem torneadas – horas de academia – da mocinha da novela das 8. Ou seja: tudo é vaidade.
Vício letal? Parece fácil, mas vaidade, como parâmetro norteador desta época, é algo bastante volátil para definir. Vai longe o tempo em que ser vaidoso bastava para condenar um cidadão, ou editor, ao inferno. No início da cristandade, a vaidade, sob a alcunha de vanglória, foi pecado capital; por volta de 1500, integrou a lista na forma de orgulho ou soberba; ainda é a mais diabólica contravenção para os cristãos ortodoxos; segue relacionada à Prostituta da Babilônia no Apocalipse. Foi o que conduziu Lúcifer, mais belo dos anjos, do lado direito do Senhor aos portões do inferno, por rejeitar a imagem de Deus em benefício da própria. Vanitas vanitatum, omnia vanitatum, diz o Qohélet (Eclesiastes), sobre o sentido da vida – a tradução corrente é “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, porém o poeta e tradutor Haroldo de Campos preferiu cercar a expressão “vacuidade” do hebraico ao termo “ilusão”. E, quando iniciamos o passeio pelo significado da palavra, este se adensa, ao mesmo tempo que esfumaça... Bem, estamos falando de aparências.
Pelo Dicionário Analógico da Língua Portuguesa de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, inexplicavelmente esgotado desde 1984, “vaidade” tem 71 substantivos afins, incluindo “ânsia incontida de despertar a admiração”, “parlapatonice”, “exibicionismo”, “pretensão”, “megalomania”, “egoísmo”, “inchaço” e, claro, “narcisismo”. (Um dicionário analógico não traz sinônimos, e sim conceitos dispersos pelo campo semântico das palavras; este do lendário Santos Azevedo, mestre de Sérgio Buarque de Holanda, estrutura-se em exatos mil verbetes, começando em “existência” e terminando em “templo”; “vaidade” está entre “ostentação” e “orgulho”.)
Meu sinônimo favorito, o que ajuda a iluminar nosso tempo, é “inchaço”. Até por causa da característica física da palavra – como se o vaidoso estivesse “cheio de si”. Mas que seria concretamente esse “si”? O ser ou o nada? Batom, botox ou fotos bacanas no Facebook? Sapatos Gucci, um iPod novo ou um belo currículo na Casa do Saber? O cabelo do Justus, a peruca da Dilma, os pneus de Ronaldo Fenômeno, o bigodão de José Sarney, o retrato de Dorian Gray? A obsessão pela juventude dos sessentões vampirescos atrás das menininhas, a susanavieirização do mulherio? A vaidade sempre seria ruim, ou poderia ser um componente positivo da competitividade, um estímulo caprichoso à autoafirmação? Ou seria mesmo um vício – e um vício letal, matando tanto anônimos que tentam ficar lindos na mesa da lipoaspiração quanto os Michael Jacksons que lutam pela glória através de remédios contra a dor de horas de torturantes exercícios físicos?
Narcisismo epidêmico
Óbvio que, na sua ampla e incansável psiquiatrização do cotidiano, os norte-americanos já tratam a vaidade como patologia. Autora de Generation Me (“Geração eu”, sem edição brasileira), a psicóloga Jean Twenge crê que a autoconfiante geração nascida em 1980 – que passa horas lambendo as migalhas da própria existência entre o Facebook e o Myspace – é muito mais narcisista que as gerações anteriores.
Twenge trabalhou com o colega W. Keith Campbell no recém-lançado best-seller a analisar os miolos moles dos ianques: The Narcissism Epidemic (“O narcisismo epidêmico”, ainda sem edição brasileira). Para a dupla, a coisa ficou preta e o espelho trincou – e o resultado, ora vejam, é o bode expiatório da vez, a malfadada crise econômica. Parece meio infame, tanto quanto o transtorno obsessivo narcisista (leia na pág. 27). Mas faz sentido – sobretudo para a alma norte-americana, sempre tão disposta a diagnosticar- se e tratar-se e partir para o próximo transtorno como se não houvesse amanhã, caso a doença mexa no bolso. Em entrevista à revista de educação US World Report, Campbell afirma ter comparado as pesquisas com jovens entre narcisistas e obesos: “Os resultados foram bem semelhantes”, diz. Numa amostragem de 35 mil jovens, a dupla de psicólogos descobriu que 6% sofriam de transtorno obsessivo narcisista. Contudo, somente 3% das pessoas acima de 65 anos tinham esse transtorno. “Um dado a comprovar que estamos em uma epidemia fora de controle”, afi rma o psicólogo.
Ele enumera quatro causas: a educação dos pais, a cultura de celebridades, a mídia e o crédito barato. “Muitos pais tratam seus filhos como reis”, diz. “Reality shows são altamente narcisistas, e supõe-se que sejam a vida real; neles, subentendese que o narcisismo é algo normal.” Campbell é especialmente duro com a rede. “As pessoas nunca falam que leem Guerra e Paz, de Leon Tolstói, no Myspace. Em vez disso, colocam fotos sensuais, a coleção de amigos, as músicas legais. Para piorar, crédito barato faz com que os jovens gastem para se parecerem melhores do que realmente são. Têm coisas que não fizeram força nenhuma para pagar.” Claro que esse argumento financeiro tem muito a ver com a realidade americana, onde bolhas econômicas costumam ser uma rotina – mas, afinal, o mundo está cada vez mais parecido com os Estados Unidos.
Vaidosos Anônimos
Provavelmente, a valorização do discurso da autoestima e a febre da autoajuda são culpadas dessa apoteose ao me-achismo. Porém, como depois da tempestade sempre vem a ambulância, conforme deduziria o pensador Vicente Matheus, imagino que daqui a alguns anos a loucura narcísica dará valor à autocasca-debanana, ao autofail: aprenderemos a puxar em público nosso próprio tapete. Como bem o faz esse grande vaidoso que é Woody Allen (vai dizer que deixar de ir receber um Oscar porque a data caía no mesmo dia em que ele toca com sua banda de jazz em um clubinho de Nova York não é o extremo da vaidade?). Esse culto desenfreado ao amor-próprio ainda vai produzir coisas estranhas... Em breve, abrirão inscrições para os Vaidosos Anônimos. Pode escrever.
Por enquanto, vamos vivendo a grande época da vaidade. A imodéstia saiu do armário e está toda serelepe: não à toa a burca foi proibida na França pelo presidente Nicolas Sarkozy (cuja soberba se estende dos saltos nos sapatos que o elevam à não menos digna de vaidade primeiradama Carla Bruni). Mas... não seria também a burca, ao esconder a figura feminina (ou os filhos do finado Michael Jackson), sinal de extrema vaidade? Não é cinismo: segundo o Islã, o véu torna as mulheres atraentes porque sutilmente apela à sua vaidade. Não importa quão feia ou velha seja a muçulmana: qualquer homem fica louco à mera visão de seus cabelos descobertos. Assim, sob seu modesto esconderijo, uma muçulmana é a mais desejável das criaturas. Já as pobres ocidentais, agindo livres, encontrando-se com homens em situações prosaicas, acabam, pela rotina, se tornando sem graça. A não ser que sejam jovens e belas, cairão fatalmente sob o olhar indiferente dos pares – deixarão de ser tratadas como objeto de mistério para virarem meros objetos sexuais. O que me faz pensar na pretensa vaidade de sujeitos como os escritores americanos Thomas Pynchon e JD Salinger, e os brasileiríssimos Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, reclusos ou arredios assumidos. Fogem de entrevistas e retratos como Madonna das trevas do anonimato. Paradoxo de hoje: o véu que os cobre não os tornará bem mais valorizados?
Na outra ponta do estudo do narcisismo, o filósofo francês Gilles Lipovetsky faz uma abordagem ao mesmo tempo eufórica e catastrófica – espelho fiel do espírito da época, a que ele nomeia de forma eloquente, ao gosto dos franceses, como A Era do Vazio. O próprio texto de Lipovetsky é hiperbólico, afeito aos paradoxos, extremamente vaidoso, cioso de si. Mas delicioso, e crivado de teses brilhantes. Em O Império do Efêmero, Lipovetsky faz uma leitura bastante original da cultura contemporânea através da importância cada vez mais crescente da moda. Muito gaulesmente, diz que a moda – espe- cificamente a fl orescida em Paris – condensa na ideia de individualidade os ideais da Revolução: liberdade, igualdade, fraternidade.
Solidão em massa
“A promoção das frivolidades só se pôde efetuar porque novas normas se impuseram, desqualificando o culto heroico de essência feudal e a moral cristã tradicional, que considera as frivolidades como signos do pecado do orgulho”, afirma Lipovetsky. “Da ideia de altivez relativa à dignificação das coisas terrestres saiu o culto moderno da moda, uma das manifestações (...) da humanização do sublime.” O filósofo não separa a moda – e, assim, o fascínio pelo Novo – da ideologia individualista, do culto ao bem-estar, aos gozos materiais, ao desejo de liberdade, à vontade de enfraquecer a autoridade e as coações morais, ao triunfo da ideologia do prazer.
No entanto, Lipovetsky lembra que a busca dos valores individuais traz um fenômeno ainda mais estranho que o estudado pelos senhores psicólogos acima: a “solidão em massa” refletida no número cada vez maior de suicídios. “A era da moda consumada é inseparável da fratura na comunidade e do déficit de comunicação: as pessoas se queixam de não serem compreendidas ou ouvidas, de não saberem se exprimir” – uma festa de autistas que lembra um pouco uma rave impulsionada por ecstasy, ou uma sessão furibunda de Twitter movida a banda larga.
O pensador francês sugere que vivemos um segundo momento da Era do Vazio, em que “a busca da riqueza não tem nenhum objetivo senão excitar admiração ou inveja”. Nesse mundo ultracompetitivo, o Outro só faz sentido se viabilizar o sucesso do Eu. No igualmente sombrio e triunfante A Era do Vazio, Lipovetsky aproxima os conceitos de vacuidade e vaidade, vazio e Narciso: “Que outra imagem é melhor para significar a emergência de individualismo na sensibilidade psicológica, centrada sobre a realização emocional de si mesma, ávida de juventude, de esportes, de ritmo? (...) O neonarcisismo é psicologia pop: a expressão sem retoques, a prioridade do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença em relação aos conteúdos, a assimilação lúdica do sentido, a comunicação sem finalidade e sem público, o remetente transformado em seu principal destinatário”.
Em uma imagem que resuma tudo: o meu elegante amigo observando-me superior por trás das lentes falsas, feliz da vida por enganar a si mesmo.

LIVROS O Império do Efêmero, Gilles Lipovetsky, Companhia das Letras A Era do Vazio, Gilles Lipovetsky, Manole

Você precisa estar no centro das atenções (médicas) se...

• Possui senso grandioso de autoimportância (espera ser reconhecido como superior sem que tenha feito ações à altura)
• Preocupa-se com fantasias de sucesso, poder, brilho, beleza ou amor ideal ilimitados
• Acredita que é “especial” e que só pode ser compreendido por outras pessoas especiais ou de status elevado
• Precisa de admiração excessiva
• Sente-se em posição de possuir direitos, ou seja, tem expectativas além do razoável de receber tratamento favorável ou de aceitação automática das suas expectativas
• Aproveita-se de relacionamentos interpessoais, isto é, manipula os demais para atingir seus próprios objetivos
• Não demonstra empatia, não tem disposição para reconhecer os sentimentos e as necessidades alheias ou identificar-se com isso
• Muitas vezes inveja os demais ou acredita que os outros o invejam
• Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes
• Leu este teste observando-se ao espelho (brincadeira...)

Fonte: DSM-IV, Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders,


Fonte: Revista Vida Simples, "Grandes Temas", outubro de 2009.

sábado, 3 de outubro de 2009

Cães & Gatos

Outro dia, assistindo a "Paraíso", ouvi uma comparação interessante feita por uma das personagens: "Cachorros seguem o caminhão da mudança; gatos ficam na casa".
Você é cachorro ou gato? Não entendeu? Eu quero saber se você segue os seus instintos ou se opta pela situação mais cômoda pra você.
Nunca gostei de gatos. Que me perdoem os admiradores dos felinos, mas os cachorros, sim, são fundamentais. Claro que se trata de uma questão de identificação. Nunca fui muito egoísta, no sentido "farinha pouca, meu pirão primeiro"; minhas tendências sempre foram mais gregárias, assim como são as dos cães. Ah, pra quê cuidar de um animal que só quer receber e pouco dá?
O cão é um ser sentimental, carinhoso e leal. Tanto é que o relacionam muito a palavra "amizade". "O cachorro é o melhor amigo do homem", dizem. O gato é o esperto, o malandro. Dizem do ladrão que se trata de um "gatuno".

Estereótipos, claro. De cão e de gato, para o bem e para o mal, todos temos um pouco.

sábado, 26 de setembro de 2009

Alter-ego


Não sei o porque, mas quando assisti a primeira cena dele em "Shrek", senti algo de semelhante! (risos)

Céu de Brasília, traço do arquiteto...

... GOSTO TANTO DELA ASSIM!!!

Essa música anda me perseguindo nas últimas semanas. Não faz mal: é Djavan. Aliás, eis mais uma delícia de canção by Djavan - de quem aprendi a gostar com minha professora de pilates que só botava isso pra tocar nas aulas (subi 5 escalas, agora, no "frescamômetro"! hihihi).

Sinto-me particularmente contemplada por esse trecho da canção! (risos) Mas gosto mesmo é desse trecho aqui:

Mas é doce morrer nesse mar
de lembrar e nunca esquecer
Se eu tivesse mais alma pra dar
eu daria
Isso pra mim é viver



Devagar com o andor

"Viver a Vida" está no ar há quase 3 semanas. Temos Helena... de novo. E temos Zé Mayer no papel de garanhão... de novo! :(
Não é de hoje que o autor força a barra em relação a valorização da sexualidade da terceira idade. Sabe, nada contra um galã de meia-idade, mas essa panfletagem de Manoel Carlos enche o saco, até porque anda mal feita, é expressa via histórias que mais causam crítica que simpatia. Alguém via liga entre Lorena e Expedito? Não tava na cara que ele, apesar de ser um cara honesto, estava com ela mais por comodismo que por real afeição? Pô, se quer defender a causa, pelo menos arme um contexto que realmente convença o receptor da mensagem daquilo que deseja transmitir.
Voltando a "Viver a Vida", Zé Mayer nunca foi bonito, mas, como ele mesmo disse outro dia, possui masculinidade. É um coroa que tem "it". Mas espera-se que com a idade alguém amadureça, principalmente o homem, que tem no autocontrole uma das condições para a tal masculinidade. É o contrário do que vemos na novela, através de Marcos. Pra mim, ao menos, é desestimulante esse tipo de sujeito metido a garotão que Manoel Carlos vem oferecendo para o Mayer interpretar. Nenhuma mulher inteligente se interessaria por um homem presunçoso e egoísta desse. Cadê o Dr. Moretti de "História de Amor"? Aquilo sim é que é partido!... Ô!...

Fora que há um detalhe básico nessa história: a bunda de gente velha não é das mais agradáveis de se ver. Sempre penso nisso nas cenas de quarto do Mayer com a Taís Araújo. Tudo bem que ali é ficção, novela, mas numa situação real, há de se ter muito amor para encarar um cara já com a cara murcha, imaturo, com 3 filhas da mesma idade que a sua e que ainda por cima está com a bunda velha. Não dá! Eu não acredito no amor de Helena, viu!...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

These Days...

... of fast, nothing last in this graceless age...

Yeah!... I DO like Bon Jovi´s energy!

Tema Musical da Semana

Homenagenzinha a João Havelange!