
"Cadê Coração?!". E era por causa desse chamado meu, ainda entrando em casa, que ela saía de onde estivesse, toda manhosa e esfregando a pança no chão. Quer dizer, nem sempre. Às vezes, a safada me ignorava, o que gerava discussões (lembrava a minha irmã, só da minha parte porque o cão, claro, não me entendia. e eu respondia que a bronca não resolvia o problema do cachorro, mas aliviava o meu à beça! kkk) e ressentimentos temporários.
Aliás, vinha não só quando eu a chamava assim: Zita, Preciosa - esses dois continham uma ironia velada -, Mizinha, Neném, Gorda, Gigi, enfim, qualquer coisa em tom meloso, e lá vinha ela, se espreguiçando, pedindo carinho como quem não quer nada.
Camila era uma cadela especial. Isso eu soube desde o começo, quando ela chegou em casa, em abril de 1992. O que demorou foi eu conseguir admitir que gostava dela (questões de política doméstica, com alguma colaboração da malandragem dela, que já chegou roendo os meus chinelos e roubando a minha barra de chocolate recém-ganha na Páscoa). Gostava muito, muito dessa piveta. Nos piores momentos, ela foi fundamental. É até estranho dizer isso, mas é a verdade e quem tem animal sabe: não raro o bicho é mais sensível ao seu estado de espírito e mais seu companheiro que as pessoas que te rodeiam. São crianças que nunca crescem.
Inteligentíssima. Muito carinhosa, um doce. Má, em algumas circunstâncias. Preconceituosa (detestava chinelo Havaiana, crianças e negros). Valente. E muito bem comportada, isso sem ninguém ter lhe ensinado nada (tanto é que foi custoso fazê-la ficar no sofá para tirar essa foto. só comia se tivesse algum tapete, alguma cobertura onde pudesse colocar a comida e despejar os farelos). Linda. Altiva.
Ela era o que se chama de daschund zero, ou seja, a anã da raça. Nos foi dada para não ser sacrificada, já que nasceu aleijada e não poderia ser vendida com os outros filhotes. Chegou em casa arrastando as patas traseiras no chão, parecendo um rato preto de tão pequena. Sua teimosia e um pouco de "fisioterapia" a deixaram tinindo em pouco tempo, tanto que com um mês na família, roubou uma esfirra na praia, dando uma carreira, em seguida, digna de Robson Caetano. (Engraçado, Zé Luiz, que era amarelinho, não tinha esses instintos... Alosa, longe de mim, viu, insinuar alguma coisa!...)
Acho que, além da Lua em Escorpião (risos), a intensidade, agressividade e altivez de Camila eram frutos desse início de vida em desvantagem: anã, aleijada, rejeitada e, ao que tudo indica, maltratada pela família que cuidou dela nas primeiras semanas de vida (foi a explicação que encontramos para a intolerância dela a essas coisas que eu citei há pouco). Ela respeitava a hierarquia entre as pessoas da família (eu era a exceção; ela não me respeitava), mas não admitia posições subalternas fora disso, e acho que pegou isso da sua dona, minha irmã Renata.
Na sua última noite de vida, concretizei o desejo de quase 15 anos: deixei, excepcionalmente, que dormisse comigo (sempre fui metódica com os animais daqui de casa: dormir em cama, lambida na boca e esse tipo de coisa nada higiênica estavam fora da relação). No dia seguinte, ela entrou no veterinário para uma consulta e faleceu, após uma cirurgia de emergência. Meu pai chegou e eu, que estava no banho na hora, já sabia, mesmo sem nem esperar por isso. Ele, que nunca gostou da idéia de ter bicho em casa, fez questão de enterrá-la nas Dunas do Abaeté, deu uma volta pra não chegar em casa visivelmente arrasado e ficou calado por uns três dias.
Quero ter de novo um cão em casa, mas tenho receio de gostar menos do que dela. Aliás, minha irmã outro dia confessou o mesmo receio. Mas enquanto estiver em apartamento, não vai dar. Bicho precisa de espaço, seria egoísmo confinar um cão, ainda que pequeno, num apê.
Olha, eu devo dizer que fui feliz nas minhas relações c/ animais: fora o meu último papagaio (que me ignorava), um coelho que me fez parar no hospital (tenho alergia a pêlo) e virou cozido no sítio do Seu Pio, os pintinhos de feira que sempre morriam, um gato que eu matei por acidente na infância (Haley era o nome dele; escolhi por causa do cometa cuja passagem, em 1986, havia me impressionado muitíssimo. que coisa profética!...) e Duda, a filha histérica de Camila e Zé, que não se dava com ninguém, não tenho do que reclamar.
(Aliás, eu achava que não, mas, olhando para trás, a minha casa já foi bem animada. Houve um tempo em que animais, amigos, irmãs, primos - no verão - e namorados enchiam o ambiente. Os primeiros verões em Salvador foram muito dez!... De repente, como tudo na vida, o cenário mudou. E apesar de reclamar deles dia sim, no outro também (risos), falem tudo da minha família, mas que ela é divertida, ela é e a gente dá é risada quando a turma se reúne. Todo mundo aqui é meio metido a engraçadinho... Hoje está tudo tão quieto... Aos 20 e tantos, já sei como deve ser para os pais ver a casa vazia, sem os filhos. Mas eu mantive minha agenda cheia com aulas de italiano, dança de salão, o clube da meia idade (risos)... Tem que vir logo a próxima geração pra animar isso de novo - só não contem comigo! hehe. Fugindo um pouquinho mais do tema do post: Adoro uma reflexão do Anthony Minghella, em que ele diz que o trabalho de cineasta é, talvez, uma tentativa de voltar para a cozinha do restaurante italiano dos pais. Quando morava com a família, ele odiava a falta de privacidade do lugar: todo mundo tinha que trabalhar junto, um se metendo no que o outro estava fazendo e empregados participando dos conflitos da família; ele disse que se sente de volta aos velhos tempos quando está num set de filmagem. Nós somos loucos: vivemos metade do tempo querendo sair de onde estamos para passar a outra metade tentando voltar para o lugar do qual viemos.)
Meus animais sempre tiveram personalidade semi-humana. Por isso, também foram batizados c/ nomes de gente - contra a minha vontade, é bom deixar claro (meu voto sempre perde! :( ).
Sarney, meu primeiro papagaio, só falava palavrão. Aliás, meu pai o ganhou numa aposta de bar. O nome foi idéia da minha mãe que, sempre de oposição quando se trata de presidentes da República, resolveu comparar a falta de vergonha do verdinho com a do presidente da época (o único que ela elogia é Tancredo, e desconfio que é porque ele não viveu para virar presidente, realmente, e fazer alguma "maldade" com o contra-cheque do meu pai). Sarney foi expulso pela sindica por conta da boca suja.
Na verdade o problema foi que, através dele, ela descobriu que a gente a chamava de "Sargento Megera" pelas costas, e como alguma cabeça tinha que rolar, a mais fácil era a do bichinho. Foi o nosso Olgo Benário, entregue aos nazistas e, felizmente, nada grávido e muito menos de Luís Carlos Prestes. Entregue ao vizinho de bloco que tinha um sítio, Seu Pio, morreu assassinado por uma espécie de Glenn Close em Atração Fatal da sua espécie (ou será que esse também virou comida e meus pais não quiseram me dizer?).
Zé Luiz I era um cachorro de olhar doce, lindo, branquinho e de olhos azuis. Morreu por conta de uma planta venenosa. Antes disso, viveu três meses de tórrido romance com Tampico, o salsichinha gay do meu vizinho italiano. Tampico foi meu cachorro no verão de 86/87. Olha a coincidência: Tampi sumiu de casa e foi parar na colônia onde passava férias. Depois que fui embora, foi achado pelos donos. Anos mais tarde, fui passar o verão justamente na casa ao lado da dele.
Depois veio Zé Luiz II, ou just Zé. Esse era um Zé mesmo, como diz meu pai! Uma espécie de Agostinho Carrara de quatro patas.
Ganhei-o da minha melhor amiga na 5ª série, Mary Ellen. Nunca esqueci: nasceu no São Cosme e Damião de 1991, e isso deve explicar o erê que ele tinha. Bem, estava crente que seria a dona do próximo cachorro-propaganda da COFAP, já estava até me imaginando dando entrevista no Jô ("Olha, Jô, eu juro que nunca imaginei que isso fosse acontecer na minha vida"). Pra variar, em uma semana, todas as minhas esperanças foram por água a baixo. Peguei o mais burro da cria. Ou melhor, o cão mais retardado (e safado) de todos os tempos!... Tudo bem, eu nem queria mesmo...
Mas não fosse a falta de inteligência, teria sido um estouro. O Zé era muito carismático. Bota carismático nisso! Onde ia, fazia amigos. Meu primo Renato que o diga: utilizava o bichinho pra paquerar no Parque da Cidade, segundo ele, com ótimos resultados. Meu pai odiava o cachorro e tentou "perdê-lo" várias vezes, mas sempre alguém (que a gente nunca tinha visto mais gordo) o reconhecia na rua e o devolvia, para a frustração do velho.
Nenhum cachorro foi mais covarde que o Zé (e ainda se deixava apanhar pelos adversários das poucas vezes que criou coragem p/ enfrentá-los. com cinco anos, era tão costurado quanto uma colcha de retalhos. meu pai pagava o veterinário por pressão coletiva, porque se dependesse dele...). E nenhum era pior em achar coisas escondidas (tanto é que meu pai sempre cozinhava um osso extra, sabendo que ele iria enterrar o dele e depois não conseguiria achá-lo, em seguida tentaria pegar o osso de outro cachorro da casa, levaria uma mordida e sairia chorando). Acho que poucos tinham um equilíbrio tão ruim (ele queria imitar Camila, correndo em cima do muro, mas sempre despencava lá embaixo ao fazer a curva). Era muito insistente, às vezes a gente custava a lanchar por causa da perturbação dele no pé da mesa. Tri cara-de-pau: comeu por dias a comida do cão do vizinho, que levou fama de pidão injustamente, só sendo inocentado mediante a sua magreza súbita; quando voltava do veterinário, sempre se fazia de doente-coitado quando via alguém chegando; ia para a casa do vizinho, subia no sofá e se esparramava, deixando o Sr. Pereira, o dono da sala, constrangido em expulsá-lo para poder se sentar (p/ variar, a família inteira do vizinho era apaixonada pelo cachorro); e quando filhote, chegava ao ponto de levar palmadas para parar de latir, e recomeçava pior ainda depois que a gente virava as costas. Era tarado. Ah, se as almofadas da sala de tv falassem... O cio de Camila era época em que ninguém dormia (saiu de casa deixando-a prenha. meu pai "adorou" o presentinho tardio. ah, e o melhor: ainda se separou e ficou c/ a casinha de madeira do "casal"! hahaha).
Eu tenho certeza de que ele tinha toc: seja lá com o que cruzasse na rua, tinha que levantar a perna, como quem vai fazer xixi. O bizarro é que nem mais xixi ele tinha nem havia altura suficiente para o ato, mas ele levantava a perna para qualquer coisa com mais de dois centímetros de altura. O Zé sabia ser chato...
Quando vendemos uma das casas que tivemos no Farol, meu pai conseguiu, a muito custo, me convencer a deixá-lo com os compradores, sob o argumento de que ele estava muito velho para ficar no quintal pequeno, quase inexistente, da outra casa. Em nome do amor pelo Zé, cedi, mas nunca engoli essa separação. Três anos depois, estava eu andando na rua, perto da rua K, quando senti um focinho gelado na minha bunda e ouvi um grito de "Zé"*. Adivinha quem?! Aquele dia foi uma festa pra nós dois, ele ficou numa felicidade!... Tive que ajudar a levá-lo de volta pra casa, mas me partiu o coração porque eu sabia que, ao me ver, o coitado pensou que tinha encontrado sua família outra vez.
* era a empregada da casa onde ele morava, de quem ele se soltou quando me viu.
Dolly, a box que passou breve temporada aqui em casa, era um doce, mas babava demais. Cartão vermelho. Dinho (Tande, na verdade), o pastor alemão, foi presente do "Guenro", um dos namorados da minha irmã mais velha. Parecia um bicho de pelúcia quando filhote, e vivia entalando a pança debaixo do armário da cozinha. Cresceu só no tamanho. Para o meu desespero, pulava em cima de mim, quase me derrubando no chão, toda vez que chegava. Respeitava Camila mesmo ela sendo cruel com ele e quatro vezes menor (Mi adorava morder a orelha dele, coitado, que só balançava a cabeça tentando fazê-la largar). Doeu quando tivemos que nos desfazer dele. O mal do cão de estimação é que, apesar de animal, ele sabe que está sendo deixado para trás, e faz aquela cara de carente que te faz se sentir a pior pessoa do mundo por entregá-lo a estranhos!
Depois vieram as "trigêmeas": Carol (que foi dada a Seu Luiz, o nosso corretor carioca, que, a propósito, nunca conseguia vender nada, nem a casa dele), Luizinha (a cópia do Zé) e Duda, uma mini Camila. Minha preferida era Lu. Ela era a alegria em forma de cadela, assim como o pai, e tinha crises de ansiedade: não podíamos vacilar com a porta, que ela entrava, e uma vez expulsa, ela entrava em pânico e soltava a bexiga. Elas também foram embora. Aliás, devo isso a meu pai: ele conseguiu dar fim em todos os animais e só não o fez com a Camila porque, nas vezes em que tentou, ela adoeceu. Onde fica a lealdade!? E isso porque adora a natureza. Vai entender...
Desde que Haley morreu, passei a odiar gatos. Aliás, acho que só gostei do Haley mesmo. Como diz Wilson Gomes, pessoas normais odeiam gatos. Que graça tem criar um animal que pouco interage, que é indiferente aos donos da casa (no meu caso, acrescento o "peludo" como defeito, já que não posso com pêlo de animal - é pronto-socorro na certa!)? Mas eu até que gostei de um gato que meu irmão uma vez arrumou
: Charles. Ele tinha um ar tão aristocrático e britânico quanto o seu nome pode sugerir. Era tão blasé quanto um ator da Nouvelle Vague. Nem Camila, a anã encrenqueira, tinha vez com ele. Chiquérrimo, apesar de ser mais um gato branco com manchas marrons por aí. Charles se mandou e nunca mais o vimos... Os gatos são muito infiéis...
Ter animal é muito, muito bom. Dá trabalho, mas é bom. O animal é puro. Não sei como tem gente que não se apega ou maltrata. Quando estava em Brasília, em 2005, houve algo que, para ter uma idéia, conseguiu revoltar a insensível e pragmática vizinhança da L Norte: um FDP queria se livrar do cachorro e o largou sozinho na Ceilândia, a 15 km. Não é que ele conseguiu achar o caminho de casa!? Depois dessa, o dono não teve mais coragem de abandoná-lo.
No dia em que ganhar na loto, vou comprar um haras, pra ter cavalos, e uma casa enorme pros meus cães.
Que saudade da minha pequena!... :( Onde será que ela está? Reencarna e vem bater aqui em casa, zorra! É a cara dela não atender a um pedido meu!... Humpf!