domingo, 21 de outubro de 2007

Cansei

Não. Eu não aderi a essa campanha da moda. A corrupção no Brasil? Simplesmente "passei", faço a minha parte e pronto. Não vou ser eu quem vai "evangelizar" alguém - pra começar, o brasileiro é pouco chegado a uma crítica, ou melhor, a uma auto-crítica, pois pra criticar os outros!...

Eu cansei foi de ser tolerante. Porque às vezes eu sinto que ninguém reconhece meus esforços para conviver com as diferenças, mas muito pouca gente tem boa vontade com as minhas particularidades. Nesse caso, as coisas se tornam um esforço duplo pra mim: aceitar os outros e aceitar não ser aceita por eles. Isso não é justo, a longo prazo mata qualquer boa vontade.
Viver com gente diferente até um certo ponto nos enriquece, mas é muiiito tedioso e às vezes até penoso. Outro dia estava pensando que o meu expert no mundo das novelas vem em grande parte da minha falta de oportunidade de travar uma conversa consistente com 90% das pessoas que passa(ra)m na minha vida (e olha que eu tô sendo generosa nessa minha "estatística").
Com a esmagadora maioria delas eu não posso falar de literatura, de cinema, de música, de relacionamentos, do sentido da vida, fazer o meu tipo de humor ou comentar aforismos. Sobra-me, não tem jeito, a novela ou algo que valha. Ultimamente a coisa anda feia pro meu lado, nesse sentido, pois nem novela eu tenho visto. Porém pior do que lidar com gente sem conteúdo, é lidar com gente impertubável. Sabe aquele tipo que tem até cacife para travar uma conversa mais pensante e verdadeira, mas não gosta disso, não quer pensar "em problemas"? Com esses eu falo de cinema ou de seriados...
Então acaba que você passa quase o tempo todo gastando saliva com o que lhe diz pouco e não tem a oportunidade de falar do que realmente te interessa. Você até gosta da esmagadora massa de gente superficial que te cerca, mas, no fundo, isso traz uma bruta frustração pessoal, como disse acima, e como essas pessoas não te instigam muito, não há o impulso de dar atenção a elas, o que gera muita culpa pois há afeto no meio, então há também um certo "dever" de querê-las mais do que realmente quer. E aí quando gasta o seu tempo com essas pessoas, vem uma pontada de culpa de estar desperdiçando-o, de algum modo, e não estar utilizando esse precioso recurso da existência com quem realmente interessa ou com você mesmo.
Lógico que falar besteira de vez em quando é bom e tem a sua função. Mas quando isso é a sua única ponte com a maioria dos que te cercam, é de lascar. No meu caso, esse tipo de deslocamento se torna duplo. Explico: do mesmo modo que o "povão" me deixa o vazio de não poder travar uma conversa de verdade, a elite e a intelectualidade também me trazem o mesmo problema, com a diferença que a superficialidade deles vêm de um excesso de informação. Então tudo vira o que Lacan disse, o que Bergman fez, o que Rilke escreveu e a pessoa parece que perde a capacidade de elaborar um conjunto de saberes e sentidos próprios. É como ser subnutrido tendo comida à vontade. Um grande balde de água fria...
Decidi que não vou fazer mais isso comigo, não. Meu ponto de corte vai ser a fluência na conversa, a convergência de valores e de nível mental. As diferenças pesam com o passar do tempo. É bobagem negar.
Vai ser uma briga das boas. De um lado, a minha educação doméstica, de "dar atenção a gente simples". Do outro, minha falta de gosto por relacionamentos, minha pouca disposição para a sociabilidade... Aliás, eu ando meio marrenta nesse sentido. Eu não devo ficar constrangida porque gosto de pensar e da idéia de viver para ser melhor. A esmagadora maioria das pessoas que eu conheço e que não tem conteúdo, que não se aperfeiçoam "por dentro", não o fazem porque não querem. Por que eu tenho que me ajustar? É um deserviço que presto a elas (que se acomodam) e a mim (que alimento culpa injusta).
Quando eu digo que quero largar o Jornalismo, as pessoas não entendem. Eu gosto de criar e tenho o mesmo interesse por gente que eu tenho pelos animais do zoológico, é um treco bom de observar. O Jornalismo não dá muita oportunidade para criar e me faz entrar em contato com o pior lado das pessoas: a vaidade e o orgulho. Ainda por cima, paga muito, muito mal.
Pois é, tô colada nos 30 anos. Meu retorno de Saturno me cobra uma atitude meio Titãs, e eu só quero saber do que pode dar certo. Não tenho tempo a perder.
Gastar nossa vida com o que não nos diz nada é avareza, maldade com a gente mesmo.
Por que é tão difícil arranjar quem fale a mesma língua? Simplesmente não entendo!...
Cansei.

domingo, 7 de outubro de 2007

Proust & Nelson

Noite chata de sexta-feira. Estou sentada na sala, vendo uma novela igualmente tediosa. Toca o telefone. "Piririm, piririm, piririm, alguém ligou pra mim":

- Eu liguei porque preciso compartilhar!... - uma voz abafada me explica.

Hum... "Compartilhar"?! Eu logo penso "Oba, fofoca!", mas a pessoa do outro lado da linha é Ô Ingrid, e, vindo dela, já sei que não é nada ilegal ou imoral - no máximo, algo que engorda. : (
Era ela numa ação tipicamente ingridiana: queria que eu ligasse no programa de culinária de Nigella Lawson, uma inglesa que prepara receitas "com açúcar e com afeto". Muiiito afeto (o programa deveria ser oferecido por Sazón). E se o ingrediente ainda permitir, ela não titubiteia em acrescentar uma pitada de lirismo à ordinária e lenta arte de cozinhar.
Ingrid continua:

- Juliana, é simplesmente fan-tás-ti-co! É como ter Proust na cozinha! - elogia.

Eu não iria tão longe no entusiasmo: as comparações de Nigella não chegam nem perto do chatíssimo José de Alencar e a voz pretensiosamente sensual me lembra o estilo cafona-sexy-rouco de Paulo Ricardo (diga aí, Gri: euzinha, sim, que chego perto das comparações proustianas! :) ). Maravilha, mesmo, na minha opinião, é a capacidade infinita de Ingrid de se encantar com as coisas mais comuns da face da Terra! Não é à toa que a gente se dá tão bem. Ingrid Campos é uma das raríssimas pessoas que compartilham comigo o fascínio pelo ridículo transcendental - a diferença é que ela percebe o ridículo de forma mais racional e se impacta com maior facilidade que eu.
Diria mais: o dom de Ingrid é comparável ao de Nelson Rodrigues, com a diferença que funciona no pólo oposto ao dele. Onde o anjo pornográfico via pecado, a anja do IAPI vê a santidade.
Outro dia li que o dramaturgo carioca começou a simpatizar com Arnaldo Jabor ao vê-lo numa passeata tomando sorvete e gritando "Abaixo a fome! Abaixo a fome!". Nelson ficou encantado com tamanho cinismo e ao mesmo tempo intrigado: será que Jabor, ao segurar a casquinha, propôs o sorvete como solução para a fome no Brasil?
Aposto que Ingrid ficaria igualmente encantada, mas elogiaria: "Nossa, eu não acredito que ele se ocupou de denunciar a maior miséria que atinge o povo enquanto tomava uma casquinha de sorvete! Quem se preocuparia com a fome alheia, enquanto come, ainda mais sendo burguês?! Muito bom! Na boa, Jabor é quase uma Evita Perón!...".

É ou não é "o cããão"?! (risos)

POST nº. 100 DO BLOG!

Barthes

Canso de ir ao Berinjela e comprar livros cujos títulos (ou autores) me interessam, e deixá-los na pratileira. Resolvi "chamar para dançar", essa semana, Fragmentos de um Discurso Amoroso do nosso "saudoso" Roland Barthes. Pois é, decidi dar uma chance a um dos caras que me chatearam no primeiro semestre da FACOM. Geralmente funciona. Gosto muito mais do Umberto Eco off-Semiótica, por exemplo.
A quem possa interessar, adorei o livro, mesmo não estando in love e - pasmém! - apesar dele ser sapecado de trechos de um dos poucos livros que abandonei antes da metade por não agüentar a narrativa: Werther. Uma amiga me emprestou esse livro, há alguns anos, fazendo altas recomendações (por favor, nunca façam isso comigo, meu interesse morre no primeiro elogio, eu gosto de descobrir coisas!). Odiei. Achei bobo, exagerado, meloso... Arrrgh! Queria eu mesma atirá-lo do penhasco!
Mas nada como a sensibilidade de Barthes para desvendar o extraordinário por trás do ordinário. Estou até com vontade de dar uma segunda chance a Goethe...
Eis alguns trechos do livro:

"O horror de estragar (a imagem do objeto amado) é ainda mais forte que a angústia de perder".

"Ao chorar, quero impressionar alguém, pressioná-lo (´Veja o que você faz de mim'). Talvez seja - e geralmente é - o outro que se quer obrigar desse modo a assumir abertamente sua comiseração ou sua insensibilidade; mas talvez seja também eu mesmo: me faço chorar para me provar que minha dor não é uma ilusão: as lágrimas são signos e não expressões. Através das minhas lágrimas, conto uma história, produzo um mito da dor, e a partir de então me acomodo: posso viver com ela, porque, ao chorar, me ofereço um interlocutor empático que recolhe a mais "verdadeira" das mensagens, a do meu corpo e não a da minha língua: ´Que são as palavras? Uma lágrima diz muito mais´". (Schubert)

"Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum".

"O coração é o órgão do desejo (o coração se dilata, falha, etc., como o sexo), tal como ele é retido, encantado, no campo do Imaginário".

"Ela aprecia mais meu espírito e meus talentos que esse coração, que entretanto é meu único orgulho [...] Ah, o que eu sei, qualquer um pode saber - meu coração só eu o tenho". (Werther)

"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras".

"Te darei mais do que me dás, e assim te dominarei".

"Procuro me fazer mal, expulso a mim mesmo do meu paraíso, me empenhando em procurar em mim imagens (de ciúme, de abandono, de humilhação) que me podem ferir; e, aberta a ferida, eu a sustento, e a alimento com outras imagens, até que uma outra ferida venha desviar a atenção".

"Sou ´uma bola de substância irritável'. Não tenho pele (a não ser para as carícias)". (Freud)

"A resistência da madeira não é a mesma segundo o lugar onde enfio o prego: a madeira não é isotrópica. Nem eu; tenho meus "pontos fracos". Só eu conheço o mapa desses pontos, e é por ele que me guio, evitando, procurando isso ou aquilo, segundo condutas exteriormente enigmáticas; eu gostaria que esse mapa de acupuntura moral fosse distribuído aos meus novos conhecidos (que, de resto, poderiam utilizá-lo também para me fazer sofrer mais ainda)". (R.H.)

"A preocupação amorosa implica num desgaste que força o corpo tanto quanto um trabalho físico". (Werther)

"O mundo está cheio sem mim, como na Naúsea; ele brinca de viver atrás de uma vidraça; o mundo está num aquário; vejo de perto e entretanto separado, feito de uma outra substância; me abandono continuamente fora de mim mesmo, sem vertigem, sem névoa, na exatidão, como se estivesse drogado. 'Oh, quando essa magnífica natureza, aí exposta diante de mim, me parece tão fria quanto uma miniatura envernizada...'" (Sartre)

"Sou demais, mas, duplo luto, aquilo do que estou excluído não me atrai".

"Quando Albert a abraça pela cintura esbelta um arrepio lhe corre por todo o corpo". (essa é em homenagem a Ingrid, que se impressiona com o fascínio dos homens pela cintura feminina)

"Há pessoas que nunca se apaixonariam se nunca tivessem ouvido falar de amor". (La Rochefoucauld)

"O mundo me deve tudo de que preciso. Preciso de beleza, do brilho, da luz, etc.". (Wagner)

Muito bom, não?
O curioso é que me identifiquei com as reflexões de Barthes e seus "convidados". Alguém que sabe da minha hipocondria dirá que é o hábito de relacionar-me a qualquer descrição de sintomas. Mas penso que não. Sou um ser apaixonado, mas o problema é que meu objeto de amor não é palpável: a vida. (mentira, que eu gosto, mesmo, é mais de mim do que dela. haha)

Mas essa releitura fragmentada de Werther me deu um insight: Alosa e eu somos o amor romântico aplicado ao terreno da amizade. Ele é meu Charlotte e eu, sua Werther: eu o idealizo, eu exalto as qualidades dele, ele mal sabe que eu existo, tenho obsessão em expressar essa minha dor de cotovelo... Outro dia ouvi no rádio uma canção que me fez lembrar de nós dois (não, não é "Entre tapas e beijos" do meu conterrâneo Leonardo, mas leiam devagar, que é pra degustar a poesia):

"Diga aonde você vai
Que eu vou varrendo
Vou varrendo
Vou varrendo
Vou varrendo"

Só o Molejão entende os meus profundos sentimentos!... Ai, ai...




sábado, 29 de setembro de 2007

Quem tem medo de Alosa Woolf?

Eu tenho! Muito!
Se você tem algo contra ele, é melhor começar a sentir também ou virar a casaca rapidinho. E tenho dito!

Já perceberam que todos os algozes de Alosa foram, aos poucos, ladeira abaixo?! "Pois é, pois é, pois é!"... O Xixi de Macaco apresenta, a seguir, uma reunião dos fatos. Leia e perceba com os seus próprios olhos, caro leitor!

Jerônimo
O que fez: queimou Alosa pro chefe.
Onde está: quem sabe?

Eliane
O que fez: não quis admitir que era vizinha de Alosa, preferiu se posicionar no lado mais elite da linha que separa Pernambués e Cabula.
Onde está: após uma temporada de poucos frutos em Sampa, voltou a trabalhar na esquerda socialista.

F. Conceição
O que fez: empurrou Alosa para uma pauta que o fez ficar mais queimado que churrasco de pobre.
Onde está: na berlinda e pode ser expulso da UFBA.

Iara
O que fez: virou a cara para Alosa quando soube que ele era o autor da tal matéria que irritou sua amiga, Aninha.
Onde está: no ostracismo.

ACM
O que fez: era o cacife do grupo que atravancava o caminho daquele outro que, historicamente, sempre apadrinhou Alosa.
Onde está: a sete palmos, para onde também levou a única oposição capaz de barrar a galera dele na Bahia.

Aninha
O que fez: torturou psicologicamente Alosa até não poder mais, por conta de uma matéria na Província.
Onde está: foi parar na chon depois que retiraram a verba de manutenção do teatro que administrava.

Alosa, diz pra mim, pra eu poder dormir tranqüila: Você vai com a minha cara?! Goste de mim, vai, que eu não mereço o seu desafeto! Pense que eu já sou mulher, brasiliense, classe média, moro longe...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A dor de cada um


Depressão e terapia

CONTARDO CALLIGARIS

Quem está no desespero, antes de qualquer consolação, pede que sua dor seja reconhecida

UM DIA, ao acordar, um conhecido meu encontrou sua mulher morta, ao seu lado, na cama. À dor de perder sua amada juntou-se o choque de descobri-la já fria e a culpa atormentada por ter dormido na hora em que ela morria.No velório, muitos amigos e parentes tinham as mesmas palavras de consolação: "Ao menos, ela não sofreu", "É o melhor jeito de morrer...". Outro conhecido, anos atrás, na Flórida, perdeu sua casa e tudo o que ela continha, num tornado. Alguns dias depois, seus pais foram visitá-lo e confortá-lo; enquanto ele contemplava, com eles, os escombros de sua existência, a mãe disse: "Pelo menos você está são e salvo". E o pai: "Ainda bem que você tem seguro". São exemplos de "reavaliações" -é assim que a psicologia chama as tentativas, diante de uma catástrofe, de encontrar razões para suavizar o sofrimento do sujeito. Suspeito que, freqüentemente, as reavaliações facilitem sobretudo a vida de quem as sugere, ou seja, dos amigos e parentes que não estão muito a fim de se debruçar sobre o desespero de quem perdeu seu amor ou suas coisas. Eles se saem da embaraçosa situação de oferecer pêsames graças a um achado otimista: "Pense bem, no horror, você teve sorte".
De fato, essas intervenções são quase intoleráveis para os sujeitos que elas deveriam beneficiar. Para quem sofre, só fica uma impressão de escárnio: os outros sequer reconhecem o tamanho de sua perda, de seu dano e de seu luto.
Há especialistas em perdas, danos e luto; são os psicólogos treinados para oferecer assistência imediata às vítimas e aos próximos das vítimas de calamidades (acidentes aéreos, desmoronamentos de túneis do metrô, inundações etc).
No Brasil, conheço o Quatro Estações (http://www.4estacoes.com.br/), um instituto que treina e disponibiliza uma rede de psicólogos capazes de prestar assistência urgente em todo o território nacional, ou quase. Nos EUA, a própria Cruz Vermelha oferece um treinamento específico que qualifica os psicólogos e psicoterapeutas que ela mobiliza em caso de catástrofe. Pois bem, os especialistas em luto são, em princípio, unânimes: quem está no desespero, antes de qualquer consolação, pede que sua perda e sua dor sejam RECONHECIDAS e só depois, eventualmente, suavizadas.
Essa unanimidade encontrou recentemente uma espécie de confirmação experimental indireta. O "Journal of Neuroscience" publicou, em 15 de agosto 2007, uma interessante pesquisa de Tom Johnstone e outros. Foram constituídos dois grupos, um de 21 sujeitos diagnosticados como depressivos graves e um grupo de controle de 18 sujeitos (obviamente, não depressivos).
A atividade cerebral de todos os sujeitos foi monitorada por ressonância magnética funcional enquanto lhes era mostrada uma série de imagens, boa parte das quais foram concebidas para produzir preocupação, medo, desespero e tristeza. Os sujeitos eram também convidados a reavaliar essas imagens deprimentes, ou seja, a reinterpretá-las de maneira a suavizar ou mudar seu impacto negativo.
Deixo de lado a complexa descrição da atividade cerebral constatada nos dois grupos durante a experiência. O que importa aqui é a constatação final: os sujeitos deprimidos, aparentemente, tiveram a maior dificuldade em reavaliar as imagens negativas. Pior, a tarefa de reavaliação que lhes era pedida parecia deprimi-los ainda mais.
É possível imaginar que esta seja uma propriedade dos quadros depressivos: uma incapacidade de reavaliar positivamente o que acontece de negativo. Mas é também possível que a depressão seja aqui apenas um fator, que torna mais aguda a propensão ao desespero e impede de discriminar entre imagens e eventos aflitivos.
Seja como for, a experiência confirma o que já sabíamos: quando alguém sofre, a primeira tarefa dos próximos (e dos profissionais) não é a de consolá-lo sugerindo reavaliações, mas a de ajudá-lo a encarar seu sofrimento assim como ele é. Mais uma nota: essa constatação é também relevante na hora de administrar a necessária medicação antidepressiva.
Talvez os raros efeitos paradoxais dos antidepressivos (o paciente que "estava muito bem" e, de repente, tenta o suicídio) tenham a ver não com o fracasso, mas com o sucesso da medicação, que produziu uma melhora substancial antes que o sujeito tivesse o tempo de dizer sua dor.

ccalligari@uol.com.br

***

O texto acima é muito útil, especialmente para quem adora tirar da cartola um chavão, em momentos de crise. Não fazemos isso por mal - muito pelo contrário -, mas às vezes não falar nada é dizer tudo.
Alguém que perde uma pessoa querida pode chorar um dia, uma semana e até um mês, mas mais que isso é considerado falta de caráter, fraqueza. É que em tempos de ditadura do hedonismo, o sofrimento virou coisa de otário e quase ninguém está preparado para a visita dele (o que torna o processo duas vezes pior, pois não bastasse suportar a dor, surge o sentimento de humilhação), e pior ainda, ninguém está preparado para lidar com o sofrimento alheio.
Sou a primeira a confessar que me sinto uma autista nessas horas, apesar de entender o que se passa e querer ajudar.
A verdade é que essa cultura do self made man nos condicionou à falta de solidariedade; cada um que se vire e, se não conseguir, problema dele/a, é falta de força de vontade.
Então, da próxima vez que for a um enterro ou que o seu amigo se ferrar feio em alguma situação, ouça com atenção e, se sentir que não tem o que dizer, fique quieto/a. Se possível, faça um afago. É a minha postura habitual em velórios, por exemplo.
Quando eu tinha 15 anos, minha melhor amiga perdeu a mãe, uma semana após a avó (dois anos depois, foi a vez do pai). No enterro da mãe, optei por guardar minhas obviedades para outras pessoas, cheguei, sem lhe dizer nada, e dei um abraço forte.
É aquela coisa: fora "Eu estou muito triste com o que aconteceu" e "Eu gostaria que isso não estivesse acontecendo", tudo que se diz para consolar nessa hora é mentira. Não há consolo no modo "a" ou "b" de morrer. Morreu, uma pessoa se foi e nada ameniza o fato. Não há felicidade em tocar a vida sem alguém fundamental nela, ainda que você pudesse ter morrido também e tenha escapado disso. Morte é morte. Quem perde alguém nunca mais fica inteiro. Vive-se de felicidades possíveis para quem já não tem outro alguém. É como perder uma perna, a visão ou o seio: aprende-se a conviver bem com isso, mas não é natural, nunca vai ser confortável como nos dias em que se era inteiro. Um dia a gente melhora, mas nunca sara.
Ela entendeu o recado e respondeu apertando com muita força a minha mão. Eu também entendi o recado dela: a dor estava insuportável, embora quem a visse ali, sem derramar uma lágrima, pudesse pensar que se tratava de uma pessoa fria.
Ela e eu temos a mesma reação ao sofrimento: dar alguma leveza à situação fazendo graça.
Ela apertou minha mão mais forte ainda, ao ponto de me machucar. Eu gritei "aiii!" , e, num reflexo, fiz cara de zangada e ela deu risada de mim, repetindo o nosso número de todos os dias. Ali, eu vi que ela queria esquecer um pouco a própria miséria e aliviar o meu desconforto em estar ali. A verdade é que aquele abraço estava angustiante para as duas, precisávamos mesmo da sagaz saída pela tangente que ela improvisou.
Ter atitude faz a diferença até nessas horas.


quarta-feira, 26 de setembro de 2007

El piropo


Você sabe o que é um piropo? Pois é, eu também não sabia até ontem. A tal palavra quer dizer "cantada", na língua dos hermanos.

O tema veio à tona na aula de espanhol, por acaso, e foi bem revelador sobre os instintos do povo da sala. Foi quase uma sessão de psicodrama, nunca mais nos olharemos da mesma forma (risos).

Percebi, por exemplo, que meu excesso de sinceridade me prejudica. Falta-me aquela delicada hipocrisia feminina, de sorrir para tudo e para todos, mesmo que esteja uma droga. Isso eu não herdei da minha mãe, que casou com o meu pai mesmo achando uó as cartas que ele lhe escrevia (velho, nenhuma mulher merece coisas do tipo "Você não é produto da Shell, mas tem algo mais"! os textos de punho próprio deveriam ter integrado a campanha do desarmamento. acho que nas relações amorosas não existem duas "criptonitas" melhores que as declarações cretinas e, na convivência sob o mesmo teto, o grito grotesco de "Tem gente!").
Bem, mais uma vez, saí como "a" mulher insensível. Injustiça. É o contrário: o excesso de sensibilidade frente a algo muito ruim é que me deixa de mau humor (normal. o mundo e eu temos divergências estéticas seríssimas!). E em se tratando de romance, não existe meio termo: ou funciona ou não, ou melhor, ou encanta ou é um balde de água fria. Pense nos filmes românticos: ou eles são bons ou ruins, nunca vi quem gostasse mais ou menos de "E o vento levou" ou de "Diário de uma paixão".
Um piropo é como o Domingão do Faustão: é popular há anos, mas ninguém sabe por que ainda insistem em algo que, quase unanimemente, é considerado desagradável, apelativo, o supra-sumo da falta de criatividade e de charme.
Fora que ainda tem um quê de papo de telemarketing, é aquela conversa ensaiada a fim de agregar mais um "cliente". A não ser que o "alvo" seja dado ao deslumbre fácil ou ao cinismo sentimental, não vai querer algo pessoal com alguém que tem uma abordagem tão impessoal. Um bobo que seja natural é mais atraente. De tudo, de tudo, você dá risada e o cara ganha sua simpatia.

Voltando às descobertas, vi que o professor, aquele sujeito inteligente, educado, homem sério e de família, mestre em literatura, que combina a camisa com o sapato, tem o seu lado B: ama "fútbol" e inclusive torce para o Boca Juniors (ao menos podia ser River Plate...), adora praia, considera que Hebe faz um bom programa e pensa que o piropo é o que há em termos de paquera (não só acha como ficou batido ao ver que a prática não faz o mínimo sucesso entre seus alunos... agora compreendi o famoso histerismo das argentinas! elas devem pensar, ao ver o cara se aproximando: "Deus do céu, lá vem mais um piropo!"). Se não estivesse encostada na parede, cairia para trás por conta das descobertas, mas, confesso, no fundo acho esses contrastes fan-tás-ti-cos! É puro "Apocalípticos e integrados"...
Um exemplo próximo é Ingrid, que apesar de amar Ella Fitzgerald e defender o timbre suave de Norah Jones, vê repetidamente o dvd de Beyoncé, ainda que esse contenha cenas de muito mau gosto, como a entrada da cantora de cabeça para baixo, presa pelo pé por um pano ligado ao teto. O lado B de Ingrid é um dos mais divertidos que conheço - e não estou falando da noiva de Jay-Z! (mistééério! eu sou má, não vou contaaar! guardarei tudo para a ocasião da canonização. ho!ho!ho!)

Mas o melhor da noite foi ver meu amigo Gabriel sentindo a insustentável leveza do seu caráter impecável.

Gab é e sempre foi "o" garoto legal. Já vi quem tem um gênio tão bom quanto, mas não melhor. E olha que o conheci na fase geralmente crítica, quando tinha 16 anos.
Uma vez, no italiano, o professor perguntou-lhe que coisas costumava aprontar quando era criança. Ele confessou que não fazia traquinagens. Típico italiano do Sul, ficou chocado, custou a acreditar. Gabitcho, sempre inabalavelmente simpático, deu risada e fez graça: "Pensava que meus pais podiam me expulsar de casa, só descobri que não quando entrei na faculdade. Já contei a minha irmã pequena que eles não podem expulsá-la até os 18 anos, agora é com ela".
Apesar do ar melancólico, de quem está com gripe - e quase sempre isso é verdade -, Gabinho vive num comercial de margarina ("Oh, happy day!"): a família dele é legal e unida; seu poodle é alegre e comportado; a empregada trabalha direito e só ouve Globo FM; os amigos o adoram; os colegas simpatizam com ele de cara; a namorada tem tudo a ver e é a garota mais feliz que conheço; é engraçado; o examinador mais mal-humorado do Detran o aprovou de primeira; ele não mora longe nem anda de ônibus; nunca foi assaltado; conheceu Nova Iorque "na mala" da mãe, que foi lá p/ um congresso; e o cabelo da figura é maravilhoso, liso e loiro natural. Ó paí ó: ainda dá carona para residentes em Itapuã e adjacências! Brinco dizendo que é quase um au au, de tão fofo. E ele?! Acha graça disso, claro!

Mas ontem foi diferente. E tudo por causa de um piropo...

Divididos em duplas, tivemos que encarnar o Don Juan de rua. Sempre cheia de idéias e piadinhas, a dupla de nerds travou no terreno da paquera. Escreve, rabisca, escreve, rabisca e naaaada. Mas nem tudo estava perdido: lembrei de um piropo bizarro. Chega a hora da verdade. Gabriel engasga e amarela. "É muiiito brega, não consigo ler em voz alta!", cochicha pra mim. O celular chama bem na hora e ele fica mais vermelho. Por causa do que houve c/ Renan Calheiros, não me contenho ao vê-lo assim e chamo a classe p/ observar esse fenômeno raro no País: "Existe alguém que ainda ruboriza!", comemoro. Gab volta a si e sai pela tangente apresentando um insosso "Você vem sempre aqui?". O constrangimento é geral. O professor não se conforma, ao ponto de dizer que duvidava que só tínhamos pensado tal frase. Eu sinto meu orgulho ferido, tomo o caderninho e leio a cantada de pedreiro em voz alta. "Agora sim!", deve ter pensado o professor, a julgar pelos aplausos e o sorriso. A turma também aplaudiu muito. Sorry, periferia, ficamos entre os 3 melhores (???) da noite! Eu, que sempre achei uma fraude aqueles golpes certeiros de Daniel San depois de ter apanhado à beça, começo a acreditar em viradas fantásticas...

Mas isso não foi tudo. Meu amigo entrou em nova saia-justa. Aliás, não reparem o excesso de "Gabriellll" numa aula só, é que ele é o queridinho do professor - deve ser por causa da cara de italiano, do rabo-de-cavalo e da lembrança de Gabriel Batistuta... A turma formulou em conjunto uma história. O personagem dele mente pra namorada que vai sair com o amigo e omite que vai traí-la com as amiguinhas que o sujeito vai trazer. Vem a cena final, o confronto com a namorada, que era, coincidentemente, uma das amigas e encontra com ele num bar. Gab não consegue mentir para enrolar a patroa fictícia e nem percebe que ela também ia trai-lo. "Obrigado por me avisar", diz ao colega que o alertou do corno.

Ainda bem que a sorte também vai com a cara dele: só Ana mesmo, com sua atitude self-service diante da vida, para driblar a cautela de Gabriel no campo amoroso. E ela pode dormir tranqüila que, se ele fizer algo errado, ela não vai ter trabalho para descobrir (e olha que a lábia dele até que é boa quando se trata de assuntos práticos do dia-a-dia!). Gab também deve agradecer por seu destino de classe média alta. Além de detestar esportes, não teria chances de ascender como pagodeiro, muito menos, pelo visto, pagodeiro piropo... oops!, romântico. É um agnóstico muito do abençoado, viu!...

Fim de aula, volta pra casa. Ele está pensativo, um pouco descontente. Especulo qual será a razão: acho que, pela primeira vez, meu amiguinho sentiu o gosto amargo da sua boa índole. Eu, também pela primeira vez, entendi realmente o que Nelson Rodrigues quis dizer quando afirmou que "A virtude é triste, azeda e neurastênica”.

Ser virtuoso, às vezes, é um fardo.

***

A verdade sobre o piropo é que o mal não está exatamente nele. Quero dizer, é um treco deprimente, mas tudo depende de quem o diz. Você, mulher que lê esse blog, se por acaso o George Clooney aparecer na sua frente ou o Reynaldo Gianecchini, vai fazer diferença o texto? Pode ser até a lista telefônica, fale a verdade!... É a mesma diferença, por exemplo, entre "É o amor" interpretada por Zezé Di Camargo e por Maria Bethania.
Hombres, hablen, sí, con ellas, pero con los ojos, con la sonrisa, con su cuerpo! Afinal, como canta Miltón, "tudo que cala fala mais alto ao coração...". É mais envolvente e, principalmente, seguro. Cantada é pra quem tem o dom da oratória, e se tiver o borogodó, repito, nem precisa (vide galãs de Hollywood: Rhett Butler mandou Scarlett ir se danar e, mesmo assim, por conta do seu 1kg de charme, soou a galanteio. Isso é que é ter a técnica, o mojo!... kkk). Eu tive um vizinho que não só era gato, era ainda charmoso. De boca fechada. Quando abria, meu Deus!... Ele falava coisas como "buniteza"! Ficava numa frustração brascubana ("Por que encantador, se burro? Por que burro, se encantador?"). Deveríamos vir ao mundo com um controle remoto. Nessas horas, bastaria apertar o "mute". Não que eu não fale besteira (ô!... quem fala demais sempre acaba falando muita bobagem), mas, em algum momento, também faço meu gol. Ele não. Era de matar (tanto a presença quanto a estupidez dele)!... Sorte que ele falava muito pouco.

Eu falei de charme como substituto do bom papo, mas, no final das contas, as qualidades são meros acessórios no caso de haver sentimento. Quando a mulher está a fim, ele pode ser a cara do Ronaldinho Gaúcho, ter a estupidez do meu ex-vizinho e ser pior de composição que meu pai, e ela vai achar lindo. Se a vida não fosse um absurdo e o amor, a exaltação disso, a Humanidade não teria sobrevivido nem 200 anos... Alguém discorda?
Mas uma coisa temos que reconhecer, quando o assunto é cantada: o homem de rua é o último romântico, aquele que sempre tem um galanteio p/ a sua "musa", mesmo que a visão daquela que passa por ele seja tão inspiradora quanto a do Corcunda de Notre Dame! Os pedreiros bem sabem tudo: só o amor constrói...

(Alguns dos piores piropos: http://www.felipex.com.br/div_cantadas_xavecos01.htm)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Frase do Mês

"Ela anda na moto dele usando saia".
Ingrid Campos, candidata a santa da Igreja Católica, competindo com Nelson Rodrigues no quesito "sugestões eróticas".

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A má educação

Recebi o texto abaixo de um amigo meu, que é professor. É um e-mail de uma das suas alunas num curso técnico de Salvador. Eu vi esse texto no computador dele, portanto é tudo verdade, ninguém editou o que está escrito. Não preciso dizer que, apesar de não lecionar Português, ele quase entrou em depressão ao ver essa aberração. Mas esse e-mail não foi o único nesse "nível" que ele recebeu de um aluno. Na verdade, quase todos escrevem mal, é de dar dó.
É rir para não chorar!...

bom dia professor tudo bem? agradeço a oportunidade, que vc esta nos dando para faser esse trabalho mas eu preciso de um pouco mais, no dia da sua prova cheguei a
perguntar a vc a data da segunda chamada, vc desse que seria mais dificil, mas eu tentei faser a prova já sabendo que era imposivel eu estava arasada,estou çosinha aqui em salvador trabalho em dois lugares para poder mim manter e pagar o curso, mas no dia da prova eu estava com um grande poblema de familia e estava desesperada sem saber como ajudar mas mesmo com todos esses poblemas cheguei na sala cansada e fiquei sabendo que o meu colega ,falou absudo de mim para o professor Icaro, só pra consequi algo que nao tinha nececidade nenhuma dele metir ,falar de mim, para conseguiro que queria, mim desqulpe mas tinha que justificar o porquer de nao conseguir faser a prova pois estive presente em todas as suas aulas por isso te peço um trabalho que eu possa tirar a nota da prova nao estou com condiçoes nenhuma de pagar a recoperaçao obrigada professor leia e pençe com carinho beijos tenha um otimo final de semana beijos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Aonde você foi morar...

"Cadê Coração?!". E era por causa desse chamado meu, ainda entrando em casa, que ela saía de onde estivesse, toda manhosa e esfregando a pança no chão. Quer dizer, nem sempre. Às vezes, a safada me ignorava, o que gerava discussões (lembrava a minha irmã, só da minha parte porque o cão, claro, não me entendia. e eu respondia que a bronca não resolvia o problema do cachorro, mas aliviava o meu à beça! kkk) e ressentimentos temporários.
Aliás, vinha não só quando eu a chamava assim: Zita, Preciosa - esses dois continham uma ironia velada -, Mizinha, Neném, Gorda, Gigi, enfim, qualquer coisa em tom meloso, e lá vinha ela, se espreguiçando, pedindo carinho como quem não quer nada.
Camila era uma cadela especial. Isso eu soube desde o começo, quando ela chegou em casa, em abril de 1992. O que demorou foi eu conseguir admitir que gostava dela (questões de política doméstica, com alguma colaboração da malandragem dela, que já chegou roendo os meus chinelos e roubando a minha barra de chocolate recém-ganha na Páscoa). Gostava muito, muito dessa piveta. Nos piores momentos, ela foi fundamental. É até estranho dizer isso, mas é a verdade e quem tem animal sabe: não raro o bicho é mais sensível ao seu estado de espírito e mais seu companheiro que as pessoas que te rodeiam. São crianças que nunca crescem.
Inteligentíssima. Muito carinhosa, um doce. Má, em algumas circunstâncias. Preconceituosa (detestava chinelo Havaiana, crianças e negros). Valente. E muito bem comportada, isso sem ninguém ter lhe ensinado nada (tanto é que foi custoso fazê-la ficar no sofá para tirar essa foto. só comia se tivesse algum tapete, alguma cobertura onde pudesse colocar a comida e despejar os farelos). Linda. Altiva.
Ela era o que se chama de daschund zero, ou seja, a anã da raça. Nos foi dada para não ser sacrificada, já que nasceu aleijada e não poderia ser vendida com os outros filhotes. Chegou em casa arrastando as patas traseiras no chão, parecendo um rato preto de tão pequena. Sua teimosia e um pouco de "fisioterapia" a deixaram tinindo em pouco tempo, tanto que com um mês na família, roubou uma esfirra na praia, dando uma carreira, em seguida, digna de Robson Caetano. (Engraçado, Zé Luiz, que era amarelinho, não tinha esses instintos... Alosa, longe de mim, viu, insinuar alguma coisa!...)
Acho que, além da Lua em Escorpião (risos), a intensidade, agressividade e altivez de Camila eram frutos desse início de vida em desvantagem: anã, aleijada, rejeitada e, ao que tudo indica, maltratada pela família que cuidou dela nas primeiras semanas de vida (foi a explicação que encontramos para a intolerância dela a essas coisas que eu citei há pouco). Ela respeitava a hierarquia entre as pessoas da família (eu era a exceção; ela não me respeitava), mas não admitia posições subalternas fora disso, e acho que pegou isso da sua dona, minha irmã Renata.
Na sua última noite de vida, concretizei o desejo de quase 15 anos: deixei, excepcionalmente, que dormisse comigo (sempre fui metódica com os animais daqui de casa: dormir em cama, lambida na boca e esse tipo de coisa nada higiênica estavam fora da relação). No dia seguinte, ela entrou no veterinário para uma consulta e faleceu, após uma cirurgia de emergência. Meu pai chegou e eu, que estava no banho na hora, já sabia, mesmo sem nem esperar por isso. Ele, que nunca gostou da idéia de ter bicho em casa, fez questão de enterrá-la nas Dunas do Abaeté, deu uma volta pra não chegar em casa visivelmente arrasado e ficou calado por uns três dias.
Quero ter de novo um cão em casa, mas tenho receio de gostar menos do que dela. Aliás, minha irmã outro dia confessou o mesmo receio. Mas enquanto estiver em apartamento, não vai dar. Bicho precisa de espaço, seria egoísmo confinar um cão, ainda que pequeno, num apê.
Olha, eu devo dizer que fui feliz nas minhas relações c/ animais: fora o meu último papagaio (que me ignorava), um coelho que me fez parar no hospital (tenho alergia a pêlo) e virou cozido no sítio do Seu Pio, os pintinhos de feira que sempre morriam, um gato que eu matei por acidente na infância (Haley era o nome dele; escolhi por causa do cometa cuja passagem, em 1986, havia me impressionado muitíssimo. que coisa profética!...) e Duda, a filha histérica de Camila e Zé, que não se dava com ninguém, não tenho do que reclamar.
(Aliás, eu achava que não, mas, olhando para trás, a minha casa já foi bem animada. Houve um tempo em que animais, amigos, irmãs, primos - no verão - e namorados enchiam o ambiente. Os primeiros verões em Salvador foram muito dez!... De repente, como tudo na vida, o cenário mudou. E apesar de reclamar deles dia sim, no outro também (risos), falem tudo da minha família, mas que ela é divertida, ela é e a gente dá é risada quando a turma se reúne. Todo mundo aqui é meio metido a engraçadinho... Hoje está tudo tão quieto... Aos 20 e tantos, já sei como deve ser para os pais ver a casa vazia, sem os filhos. Mas eu mantive minha agenda cheia com aulas de italiano, dança de salão, o clube da meia idade (risos)... Tem que vir logo a próxima geração pra animar isso de novo - só não contem comigo! hehe. Fugindo um pouquinho mais do tema do post: Adoro uma reflexão do Anthony Minghella, em que ele diz que o trabalho de cineasta é, talvez, uma tentativa de voltar para a cozinha do restaurante italiano dos pais. Quando morava com a família, ele odiava a falta de privacidade do lugar: todo mundo tinha que trabalhar junto, um se metendo no que o outro estava fazendo e empregados participando dos conflitos da família; ele disse que se sente de volta aos velhos tempos quando está num set de filmagem. Nós somos loucos: vivemos metade do tempo querendo sair de onde estamos para passar a outra metade tentando voltar para o lugar do qual viemos.)
Meus animais sempre tiveram personalidade semi-humana. Por isso, também foram batizados c/ nomes de gente - contra a minha vontade, é bom deixar claro (meu voto sempre perde! :( ).
Sarney, meu primeiro papagaio, só falava palavrão. Aliás, meu pai o ganhou numa aposta de bar. O nome foi idéia da minha mãe que, sempre de oposição quando se trata de presidentes da República, resolveu comparar a falta de vergonha do verdinho com a do presidente da época (o único que ela elogia é Tancredo, e desconfio que é porque ele não viveu para virar presidente, realmente, e fazer alguma "maldade" com o contra-cheque do meu pai). Sarney foi expulso pela sindica por conta da boca suja.
Na verdade o problema foi que, através dele, ela descobriu que a gente a chamava de "Sargento Megera" pelas costas, e como alguma cabeça tinha que rolar, a mais fácil era a do bichinho. Foi o nosso Olgo Benário, entregue aos nazistas e, felizmente, nada grávido e muito menos de Luís Carlos Prestes. Entregue ao vizinho de bloco que tinha um sítio, Seu Pio, morreu assassinado por uma espécie de Glenn Close em Atração Fatal da sua espécie (ou será que esse também virou comida e meus pais não quiseram me dizer?).
Zé Luiz I era um cachorro de olhar doce, lindo, branquinho e de olhos azuis. Morreu por conta de uma planta venenosa. Antes disso, viveu três meses de tórrido romance com Tampico, o salsichinha gay do meu vizinho italiano. Tampico foi meu cachorro no verão de 86/87. Olha a coincidência: Tampi sumiu de casa e foi parar na colônia onde passava férias. Depois que fui embora, foi achado pelos donos. Anos mais tarde, fui passar o verão justamente na casa ao lado da dele.
Depois veio Zé Luiz II, ou just . Esse era um Zé mesmo, como diz meu pai! Uma espécie de Agostinho Carrara de quatro patas.
Ganhei-o da minha melhor amiga na 5ª série, Mary Ellen. Nunca esqueci: nasceu no São Cosme e Damião de 1991, e isso deve explicar o erê que ele tinha. Bem, estava crente que seria a dona do próximo cachorro-propaganda da COFAP, já estava até me imaginando dando entrevista no Jô ("Olha, Jô, eu juro que nunca imaginei que isso fosse acontecer na minha vida"). Pra variar, em uma semana, todas as minhas esperanças foram por água a baixo. Peguei o mais burro da cria. Ou melhor, o cão mais retardado (e safado) de todos os tempos!... Tudo bem, eu nem queria mesmo...
Mas não fosse a falta de inteligência, teria sido um estouro. O Zé era muito carismático. Bota carismático nisso! Onde ia, fazia amigos. Meu primo Renato que o diga: utilizava o bichinho pra paquerar no Parque da Cidade, segundo ele, com ótimos resultados. Meu pai odiava o cachorro e tentou "perdê-lo" várias vezes, mas sempre alguém (que a gente nunca tinha visto mais gordo) o reconhecia na rua e o devolvia, para a frustração do velho.
Nenhum cachorro foi mais covarde que o Zé (e ainda se deixava apanhar pelos adversários das poucas vezes que criou coragem p/ enfrentá-los. com cinco anos, era tão costurado quanto uma colcha de retalhos. meu pai pagava o veterinário por pressão coletiva, porque se dependesse dele...). E nenhum era pior em achar coisas escondidas (tanto é que meu pai sempre cozinhava um osso extra, sabendo que ele iria enterrar o dele e depois não conseguiria achá-lo, em seguida tentaria pegar o osso de outro cachorro da casa, levaria uma mordida e sairia chorando). Acho que poucos tinham um equilíbrio tão ruim (ele queria imitar Camila, correndo em cima do muro, mas sempre despencava lá embaixo ao fazer a curva). Era muito insistente, às vezes a gente custava a lanchar por causa da perturbação dele no pé da mesa. Tri cara-de-pau: comeu por dias a comida do cão do vizinho, que levou fama de pidão injustamente, só sendo inocentado mediante a sua magreza súbita; quando voltava do veterinário, sempre se fazia de doente-coitado quando via alguém chegando; ia para a casa do vizinho, subia no sofá e se esparramava, deixando o Sr. Pereira, o dono da sala, constrangido em expulsá-lo para poder se sentar (p/ variar, a família inteira do vizinho era apaixonada pelo cachorro); e quando filhote, chegava ao ponto de levar palmadas para parar de latir, e recomeçava pior ainda depois que a gente virava as costas. Era tarado. Ah, se as almofadas da sala de tv falassem... O cio de Camila era época em que ninguém dormia (saiu de casa deixando-a prenha. meu pai "adorou" o presentinho tardio. ah, e o melhor: ainda se separou e ficou c/ a casinha de madeira do "casal"! hahaha).
Eu tenho certeza de que ele tinha toc: seja lá com o que cruzasse na rua, tinha que levantar a perna, como quem vai fazer xixi. O bizarro é que nem mais xixi ele tinha nem havia altura suficiente para o ato, mas ele levantava a perna para qualquer coisa com mais de dois centímetros de altura. O Zé sabia ser chato...
Quando vendemos uma das casas que tivemos no Farol, meu pai conseguiu, a muito custo, me convencer a deixá-lo com os compradores, sob o argumento de que ele estava muito velho para ficar no quintal pequeno, quase inexistente, da outra casa. Em nome do amor pelo Zé, cedi, mas nunca engoli essa separação. Três anos depois, estava eu andando na rua, perto da rua K, quando senti um focinho gelado na minha bunda e ouvi um grito de "Zé"*. Adivinha quem?! Aquele dia foi uma festa pra nós dois, ele ficou numa felicidade!... Tive que ajudar a levá-lo de volta pra casa, mas me partiu o coração porque eu sabia que, ao me ver, o coitado pensou que tinha encontrado sua família outra vez.
* era a empregada da casa onde ele morava, de quem ele se soltou quando me viu.
Dolly, a box que passou breve temporada aqui em casa, era um doce, mas babava demais. Cartão vermelho. Dinho (Tande, na verdade), o pastor alemão, foi presente do "Guenro", um dos namorados da minha irmã mais velha. Parecia um bicho de pelúcia quando filhote, e vivia entalando a pança debaixo do armário da cozinha. Cresceu só no tamanho. Para o meu desespero, pulava em cima de mim, quase me derrubando no chão, toda vez que chegava. Respeitava Camila mesmo ela sendo cruel com ele e quatro vezes menor (Mi adorava morder a orelha dele, coitado, que só balançava a cabeça tentando fazê-la largar). Doeu quando tivemos que nos desfazer dele. O mal do cão de estimação é que, apesar de animal, ele sabe que está sendo deixado para trás, e faz aquela cara de carente que te faz se sentir a pior pessoa do mundo por entregá-lo a estranhos!
Depois vieram as "trigêmeas": Carol (que foi dada a Seu Luiz, o nosso corretor carioca, que, a propósito, nunca conseguia vender nada, nem a casa dele), Luizinha (a cópia do Zé) e Duda, uma mini Camila. Minha preferida era Lu. Ela era a alegria em forma de cadela, assim como o pai, e tinha crises de ansiedade: não podíamos vacilar com a porta, que ela entrava, e uma vez expulsa, ela entrava em pânico e soltava a bexiga. Elas também foram embora. Aliás, devo isso a meu pai: ele conseguiu dar fim em todos os animais e só não o fez com a Camila porque, nas vezes em que tentou, ela adoeceu. Onde fica a lealdade!? E isso porque adora a natureza. Vai entender...
Desde que Haley morreu, passei a odiar gatos. Aliás, acho que só gostei do Haley mesmo. Como diz Wilson Gomes, pessoas normais odeiam gatos. Que graça tem criar um animal que pouco interage, que é indiferente aos donos da casa (no meu caso, acrescento o "peludo" como defeito, já que não posso com pêlo de animal - é pronto-socorro na certa!)? Mas eu até que gostei de um gato que meu irmão uma vez arrumou: Charles. Ele tinha um ar tão aristocrático e britânico quanto o seu nome pode sugerir. Era tão blasé quanto um ator da Nouvelle Vague. Nem Camila, a anã encrenqueira, tinha vez com ele. Chiquérrimo, apesar de ser mais um gato branco com manchas marrons por aí. Charles se mandou e nunca mais o vimos... Os gatos são muito infiéis...
Ter animal é muito, muito bom. Dá trabalho, mas é bom. O animal é puro. Não sei como tem gente que não se apega ou maltrata. Quando estava em Brasília, em 2005, houve algo que, para ter uma idéia, conseguiu revoltar a insensível e pragmática vizinhança da L Norte: um FDP queria se livrar do cachorro e o largou sozinho na Ceilândia, a 15 km. Não é que ele conseguiu achar o caminho de casa!? Depois dessa, o dono não teve mais coragem de abandoná-lo.
No dia em que ganhar na loto, vou comprar um haras, pra ter cavalos, e uma casa enorme pros meus cães.
Que saudade da minha pequena!... :( Onde será que ela está? Reencarna e vem bater aqui em casa, zorra! É a cara dela não atender a um pedido meu!... Humpf!

sábado, 18 de agosto de 2007

La Prima Donna do Pop


Mad fez aniversário anteontem. Está com 49 anos, mas com corpinho de 36! (risos)
Apesar de pop, é uma mulher independente, dona do próprio nariz. Geralmente neste gênero os artistas ou são preguiçosos (Britney e Robbie Williams), ou são fabricados (Jessica Simpson, Vanilla Ice) ou manipulados (Whitney Houston, Mariah - nos primeiros discos) por pessoas da equipe. Isso quando a fama não os enlouquece (Michael Jackson). Ela é uma das poucas em que a gente percebe critério, conceito e comprometimento total. Olhem os clipes antigos de Madonna, principalmente os da fase Erotica. Acho as canções desse disco umas merdas, mas os videos são tão bons que beiram a obra de arte, não têm "validade".
Uma grande mulher, certamente.

Like a Prayer

"A vida é um mistério
Todos estamos sozinhos
Eu ouço a sua voz me chamar
E isso me faz sentir em casa"

Frozen

"Você só vê o que lhe convém
Como a vida pode ser o que você deseja
Você está congelado
Quando o seu coração não está aberto"

Live to tell

"Um homem pode contar mil mentiras
Eu aprendi bem minha lição
Espero viver para contar o segredo
Que aprendi
Isso vem me queimando por dentro"

domingo, 12 de agosto de 2007

Paulo Francis para maiores


Faz dez anos que Paulo Francis morreu, não é?

Mesmo não concordando com algumas coisas, gostava de ouvi-lo. Suas frases de efeito são ótimas, adoro a sua espirituosidade pessimista. Tem uma que eu adoro: alguém perguntou a ele se havia sido torturado enquanto esteve na prisão, nos tempos da Ditadura (diga se isso não daria um bom título para filme pornô: "Nos tempos da dita dura"? kkk). Francis respondeu: "Sim. O carcereiro ouvia Wanderléia o tempo todo".

Segue um trecho de entrevista (não sei a fonte) onde ele defende a crítica, aquela prática tão marginalizada e mal-compreendida nesse mundo de crianças crescidas, sem um pingo de tolerância para o lado B da vida.
Eu nem deveria postar isso aqui, meu espírito crítico está decadente. O mal é que com isso vai-se embora a esperança, pois a crítica é um ato de fé, acreditem ou não. A verdade é que eu estou velha. Minhas vistas estão fracas. Meus ossos doem. Não agüento mais as brigas de Beatriz e Heitor nos almoços de domingo (meu filho, Rodrigo, é muito liberal na educação desses meninos. assim não dá!).
Com vocês, o mal-humorado mais genial do nosso País, no séc. 20:


"Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que quem ofende os outros é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado."

sábado, 11 de agosto de 2007

Nasce uma estrelinha





Para quem nunca viu, essa é Suri Cruise, filha de Katie com Tom. Aliás, acho que só de olhar para o rosto da menina, isso fica óbvio, já que ela tem o nariz da mãe e, no resto, é a miniatura do pai.

Suri demorou a aparecer, mas desde então tem se mostrado uma figurinha, além de linda. A julgar pelas fotos divulgadas na imprensa, é bem mais expressiva que Shiloh, filha de Brad Pitt e Angelina. Só espero que não goste de subir em sofás na idade adulta! hehe


Legendas:
1 - Suri descansa no colo do pai, na Riviera Francesa.
2 - Puppy Love: a fofa faz um amiguinho de quatro patas em Berlim.
3 - Ansiosa pelo gol, no jogo de estréia de David Beckham.
4 - Tal mãe, tal filha... Se bem que Suri se veste como um bebê, ao contrário da Katie, que está elegante... Para uma mulher de 40 anos (ela só tem 28)!

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Eterna Magia
















Não me pergunte o motivo, mas tanto quanto a Itália, eu adoro a Irlanda!

É a terra da magia pela cultura celta, por aquela gaita (ou é um violino?) enjoadíssima que eu adoro, por causa da atitude drunk-quick witted do seu povo, do catolicismo e da paisagem verde e cinza. A comida parece ser péssima e é preciso desviar das bombas, mas são meros detalhes. Aliás, Machado de Assis estava errado: a julgar pela história da Irlanda, ao perdedor, sim, as batatas!

Ademais, os genes irlandeses produziram alguns dos homens mais bonitos do Hemisfério Norte, a exemplo das fotos acima. Particularmente, eu gosto do tipo: morenos, boa estrutura óssea, nariz com as abas um pouco largas, altura mediana, sorriso maroto, os sobrenomes iniciados com MC e O´...

Quem aqui assiste "Grey´s anatomy"? Gente, Patrick - quer nome mais irlandês que esse? -Dempsey melhorou uns 400 % nos últimos 20 anos (lembram dele naquele filme da Sessão da Tarde, Namorada de Aluguel? ele é aquele magrelinho cdf que paga p/ menina mais popular fingir que é sua namorada.). E ainda por cima, ficou charmoso. Ele é o cara da quarta foto...

Ingrid está mais uma vez certa: os estrangeiros têm um charme que é difícil de encontrar nos brasileiros. Por que será? Se bem que a estupidez nacional, a depender, tem lá a sua graça... As brasileiras deveriam dificultar um pouco mais para os homens desse País. Hoje em dia a coisa tá tão fácil, que eles não se esforçam para nada. Nunca fui ao exterior, mas pelo que sei, as gringas são mais criteriosas, os homens têm mais trabalho para chegar junto (mas depois que conseguem... homem é homem, mulher é mulher, e travesti Valéria é travesti Valéria! - Não tem jeito: Alosa é meu personal Wally!).

Para não deixar os meninos de fora da conversa: Grace Kelly era descendente de irlandeses.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

As más línguas atacam novamente

O povo não alivia mesmo!
Sabem da última? Estão dizendo que Bergman e Antonioni bateram as botas porque não suportaram ver Setaro no Domingão do Faustão (ele deu um depoimento no Arquivo Confidencial de Wagner Moura. vale a pena conferir, pois Setaro, em momento inédito, falou em ritmo normal! tem "milagres" que só a Globo faz! haha).

E aí? Tem fundamento? Eu acho que a teoria não é de todo absurda... (risos)

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Ticianíssima


O povo pediu, foi lá, bateu, deixou recado na caixa postal, e eis aqui meu comentário sobre a escalação provisória da Ticiana p/ o Atualissima, ao lado do muso inspirador deste blog, Mr. Leão Lobo (Sim, nossa colega tocou no deus da fofoca. Ai!... Que inveja! Informação essencialíssima: sabiam que Leão, Einstein e eu temos o mesmo signo e ascendente? Sorry, Leão, mas eu estou mais perto da genialidade porque Einstein e eu ainda temos a mesma Lua!kkk A Lua do Leão Lobo está em Leão. Será que é daí que vem o nome? Segundo Ingrid, o grupo Earth, Wind & Fire escolheu esse nome por causa do mapa astral do vocalista...).
Eu adoro o Leão. Acho-o uma figura e um mestre na arte de ser ridículo (e eu tenho paixão por pessoas ridículas! pra mim o ridículo é o quarto estado da matéria). Embora já tenha me acostumado com Ticiana na tv, confesso que levei um susto ao vê-la sentada junto a ele. Primeiro porque é estranho ver um conhecido seu ao lado de alguém famoso - literalmente ao lado. Segundo, é mais esquisito num programa que você assiste e diariamente.
Seria como ver Eliano no Globo Esporte ou Alex nos créditos de uma novela da Globo. É um cenário distante que fica próximo porque uma pessoa próxima está lá distante (deu pra entender?). Eu não conversava com Wagner Moura, mas me batia com ele toda vez que saia da aula de Estética e eu entrava na de Teorias da Comunicação. No começo fiquei meio pasma em ver aquele cara de andar ligeiro e expressão de poucos amigos, que conhecia do corredor da escola, na novela das sete. É surreal, vamos combinar...
À primeira vista, a associação pareceu estranha. Afinal, Leão Lobo é apresentador e persona trash; Tici é jornalista, tem aquela clássica postura dos profissionais da área; é uma mistura de Ana Paula Padrão (o corpo de bailarina) com Ilze Scamparini (a fidelidade ao cabelo comprido. veja só, ela até cobriu a vinda do papa ao Brasil, mas perdeu a oportunidade de chamar Vossa Santidade de "Joseph"! risos). Enfim, Ticiana possui uma classe natural e compromisso com a postura jornalística. Nada a ver com o Leão! haha
Mas ao contrário do povo da Facom, que deve ter, no fundo, achado o fim da picada ela ter "se prestado" a isso, eu adorei, penso que não ficou ruim essa inusitada mistura.
Tenho três motivos para defender a experiência de Ticiana no Atualíssima:
1) Ela preservou seu lugar de jornalista
Pois é, eu, pelo menos, não a flagrei em nenhuma propaganda de iogurteira nem contando uma fofoca de famoso. Pelo contrário: se restringiu a apresentar a parte jornalística "séria" do programa (cá entre nós, até sentia uma leve ironia, tiração de sarro, dela quando chamava o Leão p/ entrar em ação. o povo não tem jeito! kkk). Não que eu seja contra "viradas de casaca", mas acontece que não se pode ser duas coisas ao mesmo tempo. O próprio Leão Lobo tem o defeito de querer ser artista e jornalista. Não dá, né? Ou você reza na Universal do Reino de Deus ou vai bater tambor no terreiro! Se é pra ser apresentadora, ok, mas deixe o Jornalismo, e vice-versa. Ela firmou a opção dela pelo Jornalismo. Mais um passo rumo à credibilidade.
O que eu acho errado é essa mania da Band de não aceitar o Leão fútil como ele é; sempre querem agregar outra coisa pra "validar" o bichinho, coitado... Gosto dele "puro", sem "aditivos". Just Lion! (ui!)
2) Estamos aqui para experimentar
Um dos maiores pecados da juventude é não arriscar. Concordam? Quem é que sabe o que realmente quer, ou melhor, onde vai parar? Eu tenho minhas críticas ao meu currículo profissional, mas se tem uma coisa que aprecio nele é a variedade de temas: universidade, religião, engenharia, política, atividade sindical, televisão, governo... Aprendi com todos, matei minha curiosidade (em alguns eu só entrei pra isso).
Antes de tudo, estamos aqui pra ver, pra ter história pra contar. Trabalhar num programa de entretenimento, coisa diferente do que você está acostumado a fazer como jornalista, para um público extenso, é algo a se considerar. É um exercício de sedução do coletivo, pois o público desse tipo de atração se guia fundamentalmente pelo carisma e não pelo intelecto, propriamente. Ponto pra Ticiana: demonstrou ser uma pessoa curiosa. Fora que, com isso, ganha moral na emissora por não ter tido frescura (empresas valorizam muito o "jogo de cintura").
Particularmente não acho nossa colega nenhum fenômeno (não tem a presença de Liliane Reis e nem a expressão boa praça de quem veio do teatro... hehe); ela é uma jornalista de tv correta, dentro dos padrões e competente, como comentei um pouco atrás.
No entanto, como Ticiana é do meu semestre, posso dizer: foi uma das transformações mais visíveis que eu vi na faculdade. Possivelmente estou exagerando no meu julgamento, mas penso realmente que o que ela fez por ela mesma, naqueles anos, é digno de tomar nota e se inspirar.
Villas Boas nunca foi patricinha, mas eu a via como a filhinha da mamãe, cheia de não-me-toque. Lembro da primeira festa da turma, um churrasco na casa da Cinthia. Estávamos nós, as meninas, reunidas em roda, e ela se empolgou com as histórias de mochileira da Gina, daí comentou que gostaria de fazer intercâmbio, mas não iria "por baixo" (tipo, pra trabalhar com qualquer coisa, ser "peão" como geralmente os brasileiros são no exterior), falando meio que com desdém desse tipo de experiência. Três anos depois, estávamos Alosa e eu numa sala do Intercom, e quem a gente encontra, recém-chegada do intercâmbio na Espanha? Ticiana! Ela chegou contando as novas: viajou pela Europa e terminou o intercâmbio lavando chão na Inglaterra, "pra sentir como é que era". I want to break free total! (risos)
Eu tenho simpatia por esse contraste entre personalidade reservada e espírito aventureiro da Ticiana. Aprecio essa leveza que, a meu ver, ela conquistou conforme foi amadurecendo.
3) Deuses pós-modernos
Quem acha que o jornalismo marrom é futilidade está mal-informado, comendo mosca. Quem gosta de notícia é jornalista, como dizia Sampa Night Club (risos), meu ex-chefe; o povo quer é saber da vida dos outros. E não é à toa.
"Estamos sós e sem desculpas", disse Sartre. O século 21 não é sobre causas sociais e derrubada de instituições. É sobre ser, ou melhor, ter e parecer que somos. Nossa maior meta e inimigo, ao mesmo tempo, somos nós mesmos. Precisamos ser sempre felizes, nos destacar, mas não temos mais quem nos diga o que fazer - até Deus morreu, dizem por aí. Nossos "deuses" são essas pessoas que aparecem nas capas de People, Caras, Contigo!, Hola etc. As celebridades somos nós elevados ao cubo, o humano no máximo da sua realização material, enfim, o nosso ideal coletivo de perfeição.
Quem lida com esse tipo de jornalismo está inevitavelmente ajudando a orientar o senso de certo e errado do público. Muita gente pensa: "Se é bom para o/a fulano/a da Globo ou de Hollywood, é bom pra mim". Não precisa ir muito longe, não. Entre celebridades é assim. Robin Williams declarou que resolveu ir à reabilitação inspirado no progresso de Mel Gibson (antes do escândalo do ano passado, ele tinha passado mais de uma década sóbrio).
Cássia Kiss admitiu essa semana que tem bulimia e é bipolar. Isso deve ter despertado repugnância em muitas pessoas (ignorantes), mas deve ter sido um alívio para vários bipolares. A exposição da vida privada em público serve como uma espécie de ato de caridade - quase sempre involuntário. Poucas sensações na vida são melhores do que descobrir que alguém no mundo passa pelo mesmo problema que você. Isso nos aproxima e, sobretudo, nos dá esperança.
Trabalhar com esse universo dos célebres é uma tarefa de responsabilidade, infelizmente confiada a muita gente irresponsável (geralmente alguém com ego de famoso mas sem capacidade de se tornar célebre por conta própria). Por essas e outras que gosto da Sonia Abrão: ela sempre chama o psicólogo pra dar uma mãozinha! (risos)
O lado ruim é que a valorização desse tipo de imprensa vem contaminando o Jornalismo. A notícia "séria" está cada dia mais com cara de fofoca. Fora que vem invandindo o noticiário. Há nove anos, Sasha abriu o JN. Outro dia, um âncora da CNN quase que implorou à produção do canal para tirar a matéria de Lindsay Lohan do teleprompter, que ele queria seguir em frente com o jornal (imagine: a CNN divulgando notícia de estrelinha presa embriagada!).
O jornalismo de celebridades também estimula a atitude depreciativa: achamos qualquer mau comportamento normal (quando não o consideramos bacana, um exemplo de liberdade) e caímos no cinismo. A boa ação é desvalorizada, mas, paradoxalmente, meio que voltamos aos tempos do Coliseu. Virou esporte mundial: meta o pau em uma celebridade e sinta-se superior por 15 segundos. É uma coisa meio louca: falo mal mas aprecio o mau comportamento.
Há uns 50 anos, essa imprensa era bem diferente: tudo ia para debaixo do pano e a imprensa ajudava a levantar os famosos, endeusava demais, estimulava a "inveja boa". Isso também não era bom, mas agora estamos no outro prato da balança.
Também tem aquela coisa, o público possui sua dose de razão para ser cruel: é uma vida tão artificial, uma gente tão distante, um comportamento às vezes tão bizarro e que beira a chacota, que acaba sendo fácil esquecer que eles possuem emoção, um coração. Se você se comporta como um personagem, como as pessoas vão ver o ser humano?! É o preço que se paga quando se quer parecer intocável para o mundo; instintivamente as pessoas desconfiam porque, por mais que sejamos "ricuperianos" (o que é bom, a gente divulga; o que é ruim, a gente esconde), no fundo todo mundo sabe dos seus defeitos e fraquezas e, por tabela, que os outros passam pelo mesmo. Como gosta de dizer minha irmã do meio, quando vê as milagrosas transformações estéticas das celebridades, "tá certo que tem tudo na mão, mas nem por isso é melhor do que ninguém" - o ápice da indignação dela foi quando viu a barriga sarada da Carla Perez no Carnaval, dois meses após o parto! (risos)
Essa imagem de poder, que no fundo esconde um pavor à rejeição, causa a agressão. Às vezes a pessoa leva a paulada e não sabe o porquê. Nem tudo é inveja. Há quem se sinta ofendido na sua capacidade de perceber e raciocinar. Quem gosta de ter a sua inteligência subestimada, de ser descaradamente enganado?! A grande maioria reage mal e retribui com agressividade, menosprezo (a cantora Sandy é um exemplo, com aquelas mentiras sobre nunca ter beijado e aquela lenga-lenga da virgindade). A coletividade é que nem cachorro: quando fareja o medo, ataca. "Seja você mesmo" não é só uma filosofia de vida mas uma tática de sobrevivência (se a pessoa é autentica, a rejeição social não "evapora", mas pelo menos só vêm da parte dos idiotas e desses, como diz Nelson, só se pode desejar mesmo as vaias). As pessoas mais sagazes sempre descobrirão a fraude e eu gosto de acreditar que, no fundo, ninguém se engana e sabe o que é, portanto parecer o que não é pode ser uma dor interna pior do que não ser. Poupe-se desse vexame.
Eu acredito que a vida de famoso tem lá a sua dose de esquizofrenia: eles são deuses ao estilo pagão mas julgados de acordo com a moral cristã, pela imprensa e pelo público. Entretanto, ser celebridade, no fundo, não é diferente de ter qualquer outra vida, apenas é como ter a vizinhança ampliada (quem nunca foi vítima das más línguas?). Neste sentido, todos nós já tivemos ao menos 15 minutos de "fama".
Por tudo isso exposto acima, não tem como negar: a imprensa marrom é uma das principais arenas da sociedade atual. Uma arena Atualíssima.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Gente demais


Eu amo a Mafalda (de Quino)! Sério! A turminha argentina é mais refinada e politizada, claro, mas o tipo de humor me lembra o de Chaves: verossímil, direto e ingênuo. AMO!!! (vou parando por aqui, antes que vire miguxa total - porque miguxo, só Daniel Lisboa! kkk)

Post em homenagem a Rafael, filho do Donaldson, que nasceu na semana passada!

"Profissão Repórter" sintetiza linguagem do cinema moderno

PEDRO BUTCHER
CRÍTICO DA FOLHA

A câmera se afasta do corpo de Jack Nicholson, deitado na cama de um hotel vagabundo em um vilarejo espanhol; passa pela janela do quarto, passeia pelo pátio onde carros estão estacionados e se detém em alguns personagens, antes de retomar seu movimento lento, quase imperceptível, para então voltar ao quarto e ao corpo do ator -cujo personagem, agora, está morto.
Essa imagem, que está nos minutos finais de "Passageiro: Profissão Repórter" (1975), tornou-se uma espécie de síntese do cinema moderno -além de fetiche de muitos cinéfilos, cineastas e técnicos, que até hoje tentam desvendar seu virtuosismo técnico (a câmera, entre outra proezas, "atravessa" uma cerca sem que haja cortes).
Mas essa imagem é emblemática não só por ser um plano-seqüência virtuoso, na grande tradição inaugurada por Orson Welles, mas principalmente por conter em si as características mais importantes do cinema moderno: a imagem que incorpora o tempo (recusando o corte da montagem) e o chamado extra-campo, ou seja, aquilo que está fora do quadro.
A "informação" mais importante desse plano para a compreensão narrativa do filme está fora da imagem. É o som do tiro que mata o personagem de Nicholson. Antonioni chegou a dizer que só criou esse plano para não precisar mostrar o assassinato: "A idéia de vê-lo morrer me aborrecia".Um tiro que não se vê e que dá fim à vida "dupla" do personagem central, um repórter que, lá no começo do filme, assumiu a identidade de um traficante de armas. "Trama" que resume uma aflição presente até hoje em tantos filmes, mas que raramente encontrou expressão tão "precisa" -cuja força está, justamente, em sua imprecisão.

Sem medo do silêncio

Antonioni não tem medo do silêncio e do vazio, ou seja, das lacunas que fazem parte da nossa experiência de mundo, mas que o cinema, até então, recusava-se a enxergar.
Esse modo de ver se expressa em um trabalho de câmera genial, que nos obrigou a ver o cinema com novos olhos e transformou Antonioni em um cineasta de assinatura inconfundível, presente até em seus filmes mais recentes, como o criticado episódio do longa "Eros" ou o genial curta "O Olhar de Michelangelo".
Se Antonioni tivesse filmado apenas esse plano em toda sua vida, o fim de "Passageiro: Profissão Repórter" já teria justificado sua importância como cineasta. Mas a sua obra comporta muitas outras imagens marcantes que, de alguma forma, fazem parte do imaginário contemporâneo, como os corpos no deserto e as explosões fragmentadas de "Zabriskie Point" ou a névoa industrial que toma conta da imagem e faz desaparecer a atriz Monica Vitti em "Deserto Vermelho". Imagens que permanecem.

Famosos falam de Antonioni

Sabe que eu nunca vi um filme de Antonioni? Morro de vontade de ver "Blow-up" por causa de um conto de Julio Cortazar que li e fiquei sabendo que serviu de base para o roteiro desse filme.
Puxa, cá entre nós, Deus tá dando um fim mesmo no século XX.
Quando Dercy morrer, vou saber que realmente estamos no século XXI, e quando Dona Canô partir desse mundo, pararei de acreditar em alma imortal (viver tanto assim chega até a ser um insulto. Deus é mais!...).

ARNALDO JABOR, cineasta, em artigo na Ilustrada de 9/08/1994 "Ele é uma espécie de Albert Camus do cinema. Como ele, Antonioni teve uma revolta contra o real. Não se conformou com as convenções de Hollywood que determinavam o ritmo de nossas vidas. (...)Antonioni nos libertou de um mecanismo de defesa contra a morte, que o ritmo dos americanos inventou. A morte fica nua em Antonioni, o mistério, o suspense, o desaparecimento das pistas, a falta de motivo para a tragédia."
CARLOS REICHENBACH, cineasta "O cinema moderno perde um dos seus ícones, uma das figuras essenciais da modernidade no cinema. O cinema mundial, o cinema como arte moderna, dá um salto fenomenal com o olhar do Antonioni. Não quero atrair o olhar da dona Fatalidade, mas agora, depois das mortes de Bergman e de Antonioni, só sobrou o Godard entre os grandes do cinema moderno. Que tenha muitos anos de vida. E não me ligue amanhã para dar outra notícia desse tipo, pelo amor de Deus."
DOMINGOS OLIVEIRA, cineasta "O Michelangelo [Antonioni] foi o grande poeta do tédio. Ele é parte de uma geração que trouxe para a discussão cotidiana temas que não pertenciam a ela, dados culturais que mudaram as pessoas. Ele trouxe para a minha geração o tema da náusea, do tédio, foi muito importante. Era um cineasta de uma humanidade candente. É interessante observar que esses grandes cineastas estão morrendo tarde, o que parece mostrar que o bom caráter e a honestidade intelectual rendem frutos."
HECTOR BABENCO, cineasta "Não está ficando ninguém, estão indo todos os mestres, todas as grandes referências. Para mim, o Antonioni era o perfeito contraponto ao neo-realismo do [cineasta italiano Luchino] Visconti. Cresci tendo na mão esquerda o fascínio pelo Visconti e, na direita, o minimalismo, o silêncio e a profundidade existencial do Antonioni."
JÚLIO BRESSANE, cineasta Eu estive com ele algumas vezes, inclusive recebi-o em casa aqui no Brasil, fiz um filme chamado "Antonioni e Hitchcock - A Imagem em Fuga" e mostrei a ele. Estou bastante chateado. "Crônica de um Amor" (1950) e, principalmente, "A Dama sem Camélias" (1953) já antecipavam todo o cinema moderno. Foi um dos cineastas mais estudados e admirados da história, mas, apesar do esforço e de algumas tiradas de gênio, infelizmente deixou pouca influência no cinema de hoje, que teve uma queda grande de substância, vive submetido a uma grande tirania. É um dia de luto para o cinema.
NICOLAS SARKOZY, presidente da França "Antonioni foi um poeta da elegância estilística, do rigor e da pureza. Sua obra está marcada pela dificuldade das relações entre os indivíduos e o mundo. Ele acaba de se unir a Ingmar Bergman além das nuvens."
JOSÉ MANUEL BARROSO DURÃO, presidente da Comissão Européia "A morte de Michelangelo Antonioni deixa a Europa sem um de seus grandes artistas, alguém que se destacou no desenvolvimento do cinema na Europa e no mundo e cuja busca contínua por novas formas de expressão gerou obras-primas como "Blow Up" e "Zabriskie Point"."
GILLES JACOB, presidente do Festival da Cannes "Ele foi um alquimista do íntimo, o maior aquarelista do coração que o cinema moderno já conheceu."
THEO ANGELOPULOS, cineasta grego"[A morte de Antonioni e Bergman] é algo simbólico. Ambos haviam alcançado a plenitude em sua vida e em suas obras."

Adeus, Bergman (a segunda melhor coisa vinda da Suécia, depois do ABBA)!

A seguir, um belo depoimento sobre Ingmar Bergman que o cineasta Domingos Oliveira ("Todas as Mulheres do Mundo", "Amores", "Carreiras") gentilmente redigiu para a Ilustrada. Muito do que ele escreve abaixo também vale, creio, para Michelangelo Antonioni, morto menos de 24 horas depois de seu colega sueco.

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Bergman fez a vida valer, por Domingos Oliveira

No futuro, as crianças cineastas aprenderão nas escolas que, entre o início do século 20 e o início do século 21, viveram três cineastas a quem nunca mais ninguém se comparou. Artistas que contaram a humanidade como aquele outro, russo, chamado Dostoiévski. Dizem que é preciso entender da vida para compreender a arte. A formulação está inversa. É preciso conhecer da arte para saber o que é a vida. A arte é o arauto. Ela conta aos homens aquilo que, confusos e torturados, eles não conseguem compreender. Devassam o intenso mistério da condição humana.
Charles Chaplin, sem dúvida, dos três é quem mais amou. Fellini atravessava com sua câmera as paredes finas do real e filmava o transcendente. Bergman talvez tenha sido menos divino, o mais humano desses três reis magos. E trouxe a alma para o cinema. Aquilo que é mais complexo no homem. O mais complexo da sua consciência. E descobriu, segundo declarou, a cor da alma: é vermelha.
O verdadeiro artista, como um Cristo, não vem ao mundo para julgá-lo e, sim, para salvá-lo. A luz que Bergman lançou sobre a cultura ocidental. A alegria e a beleza que fez chegar até nós, somente poderão ser justamente avaliadas nos confins da eternidade. Filmes como "Vergonha", "Sorrisos de uma Noite de Verão", "Gritos e Sussurros" e, particularmente, "Fanny e Alexander" (foto) não são simplesmente filmes. São "a coisa" em si.
Quando morre um artista assim, perde-se um amigo, sem dúvida. Mas não se deve lamentar a morte de gente gloriosa. O inocente Ingmar, tão preocupado com as besteiras daquele pastor que o criou, morreu em idade aceitável. Fez os mais belos filmes, comeu as mais belas mulheres. Ou seja, realizou a maior das façanhas, que é fazer a vida valer.