sábado, 5 de outubro de 2013

"Só aceito se me der dois"

No início dos anos 80 havia uma colônia de férias, em Itapuã, onde várias famílias de diversos cantos do País e da Bahia costumavam veranear. Passados alguns anos, todo mundo já se conhecia e era amigo. Havia gente de toda idade, mas, naturalmente, os grupos se dividiam conforme a idade: a turma dos adultos/pais; dos adolescentes/jovens; e, claro, a dos pequeninos, que circulavam nos outros grupos.
Ele, um dos rapazes mais populares da turma dos jovens, era conhecido pela gula. Dizia: "Prefiro te dar outro a dar um pedaço do que estou comendo". Ninguém se atrevia a sequer pedir um pedaço - quando fazia, era para divertir-se com a reação raivosa dele.
Um dia, ele andava pela área comum do lugar, comendo um pacote de biscoitos recheados. Cruzou com ela, sua amiguinha 13 anos mais nova, olhou pro pacote e com vergonha de negar comida a criança, com certa reticência ofereceu:
- Aceita um?
Qualquer um da colônia teria ficado para lá de satisfeito com a oferta dele. Mas ela, do alto dos seus quatro anos de idade, foi categórica:
- Só aceito se me der dois!
Passado o susto, e dando risada da resposta criativa, ele deu os dois biscoitos. Ela partiu, comendo o doce como se nada tivesse acontecido.

A garotinha da história sou eu, à época a rainha das respostas desconcertantes.
Ia postar isso aqui por ser uma boa história da minha infância, mas, pensando bem, há alguns ensinamentos para adultos aí.

"Só aceito se me der dois"

Pois bem, não aceite o que estão dispostos a dar a você. Vá além. Lute pela sua satisfação. Não reaja; aja.

Mas eu sei porque disse isso a ele. Sei porque sou assim até hoje. Ele brincava comigo - posso dizer que era a criança predileta dele na colônia - e, como era bonito e engraçado, eu adorava aquela atenção. Então devo ter achado muito desaforo da parte dele me oferecer somente um biscoito. Isso é oferta que se faz a qualquer pessoa, ora! Se somos amigos, me ofereça algo mais, me mostre deferência.
Todo mundo que me ofereceu um biscoito, ao longo da vida, poupou o pacote mas perdeu a amiga.

Ele deu os dois biscoitos

 As crianças são seguras. Não é à toa que Renato Russo cantava "não sou criança a ponto de saber tudo". Certamente não pensei que teria meu pedido negado, que poderia ficar sem nenhum biscoito. Os complexos são coisas que os adultos transferem para as crianças. E é tão triste porque elas confiam tanto na sabedoria da gente.

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