quarta-feira, 26 de setembro de 2007

El piropo


Você sabe o que é um piropo? Pois é, eu também não sabia até ontem. A tal palavra quer dizer "cantada", na língua dos hermanos.

O tema veio à tona na aula de espanhol, por acaso, e foi bem revelador sobre os instintos do povo da sala. Foi quase uma sessão de psicodrama, nunca mais nos olharemos da mesma forma (risos).

Percebi, por exemplo, que meu excesso de sinceridade me prejudica. Falta-me aquela delicada hipocrisia feminina, de sorrir para tudo e para todos, mesmo que esteja uma droga. Isso eu não herdei da minha mãe, que casou com o meu pai mesmo achando uó as cartas que ele lhe escrevia (velho, nenhuma mulher merece coisas do tipo "Você não é produto da Shell, mas tem algo mais"! os textos de punho próprio deveriam ter integrado a campanha do desarmamento. acho que nas relações amorosas não existem duas "criptonitas" melhores que as declarações cretinas e, na convivência sob o mesmo teto, o grito grotesco de "Tem gente!").
Bem, mais uma vez, saí como "a" mulher insensível. Injustiça. É o contrário: o excesso de sensibilidade frente a algo muito ruim é que me deixa de mau humor (normal. o mundo e eu temos divergências estéticas seríssimas!). E em se tratando de romance, não existe meio termo: ou funciona ou não, ou melhor, ou encanta ou é um balde de água fria. Pense nos filmes românticos: ou eles são bons ou ruins, nunca vi quem gostasse mais ou menos de "E o vento levou" ou de "Diário de uma paixão".
Um piropo é como o Domingão do Faustão: é popular há anos, mas ninguém sabe por que ainda insistem em algo que, quase unanimemente, é considerado desagradável, apelativo, o supra-sumo da falta de criatividade e de charme.
Fora que ainda tem um quê de papo de telemarketing, é aquela conversa ensaiada a fim de agregar mais um "cliente". A não ser que o "alvo" seja dado ao deslumbre fácil ou ao cinismo sentimental, não vai querer algo pessoal com alguém que tem uma abordagem tão impessoal. Um bobo que seja natural é mais atraente. De tudo, de tudo, você dá risada e o cara ganha sua simpatia.

Voltando às descobertas, vi que o professor, aquele sujeito inteligente, educado, homem sério e de família, mestre em literatura, que combina a camisa com o sapato, tem o seu lado B: ama "fútbol" e inclusive torce para o Boca Juniors (ao menos podia ser River Plate...), adora praia, considera que Hebe faz um bom programa e pensa que o piropo é o que há em termos de paquera (não só acha como ficou batido ao ver que a prática não faz o mínimo sucesso entre seus alunos... agora compreendi o famoso histerismo das argentinas! elas devem pensar, ao ver o cara se aproximando: "Deus do céu, lá vem mais um piropo!"). Se não estivesse encostada na parede, cairia para trás por conta das descobertas, mas, confesso, no fundo acho esses contrastes fan-tás-ti-cos! É puro "Apocalípticos e integrados"...
Um exemplo próximo é Ingrid, que apesar de amar Ella Fitzgerald e defender o timbre suave de Norah Jones, vê repetidamente o dvd de Beyoncé, ainda que esse contenha cenas de muito mau gosto, como a entrada da cantora de cabeça para baixo, presa pelo pé por um pano ligado ao teto. O lado B de Ingrid é um dos mais divertidos que conheço - e não estou falando da noiva de Jay-Z! (mistééério! eu sou má, não vou contaaar! guardarei tudo para a ocasião da canonização. ho!ho!ho!)

Mas o melhor da noite foi ver meu amigo Gabriel sentindo a insustentável leveza do seu caráter impecável.

Gab é e sempre foi "o" garoto legal. Já vi quem tem um gênio tão bom quanto, mas não melhor. E olha que o conheci na fase geralmente crítica, quando tinha 16 anos.
Uma vez, no italiano, o professor perguntou-lhe que coisas costumava aprontar quando era criança. Ele confessou que não fazia traquinagens. Típico italiano do Sul, ficou chocado, custou a acreditar. Gabitcho, sempre inabalavelmente simpático, deu risada e fez graça: "Pensava que meus pais podiam me expulsar de casa, só descobri que não quando entrei na faculdade. Já contei a minha irmã pequena que eles não podem expulsá-la até os 18 anos, agora é com ela".
Apesar do ar melancólico, de quem está com gripe - e quase sempre isso é verdade -, Gabinho vive num comercial de margarina ("Oh, happy day!"): a família dele é legal e unida; seu poodle é alegre e comportado; a empregada trabalha direito e só ouve Globo FM; os amigos o adoram; os colegas simpatizam com ele de cara; a namorada tem tudo a ver e é a garota mais feliz que conheço; é engraçado; o examinador mais mal-humorado do Detran o aprovou de primeira; ele não mora longe nem anda de ônibus; nunca foi assaltado; conheceu Nova Iorque "na mala" da mãe, que foi lá p/ um congresso; e o cabelo da figura é maravilhoso, liso e loiro natural. Ó paí ó: ainda dá carona para residentes em Itapuã e adjacências! Brinco dizendo que é quase um au au, de tão fofo. E ele?! Acha graça disso, claro!

Mas ontem foi diferente. E tudo por causa de um piropo...

Divididos em duplas, tivemos que encarnar o Don Juan de rua. Sempre cheia de idéias e piadinhas, a dupla de nerds travou no terreno da paquera. Escreve, rabisca, escreve, rabisca e naaaada. Mas nem tudo estava perdido: lembrei de um piropo bizarro. Chega a hora da verdade. Gabriel engasga e amarela. "É muiiito brega, não consigo ler em voz alta!", cochicha pra mim. O celular chama bem na hora e ele fica mais vermelho. Por causa do que houve c/ Renan Calheiros, não me contenho ao vê-lo assim e chamo a classe p/ observar esse fenômeno raro no País: "Existe alguém que ainda ruboriza!", comemoro. Gab volta a si e sai pela tangente apresentando um insosso "Você vem sempre aqui?". O constrangimento é geral. O professor não se conforma, ao ponto de dizer que duvidava que só tínhamos pensado tal frase. Eu sinto meu orgulho ferido, tomo o caderninho e leio a cantada de pedreiro em voz alta. "Agora sim!", deve ter pensado o professor, a julgar pelos aplausos e o sorriso. A turma também aplaudiu muito. Sorry, periferia, ficamos entre os 3 melhores (???) da noite! Eu, que sempre achei uma fraude aqueles golpes certeiros de Daniel San depois de ter apanhado à beça, começo a acreditar em viradas fantásticas...

Mas isso não foi tudo. Meu amigo entrou em nova saia-justa. Aliás, não reparem o excesso de "Gabriellll" numa aula só, é que ele é o queridinho do professor - deve ser por causa da cara de italiano, do rabo-de-cavalo e da lembrança de Gabriel Batistuta... A turma formulou em conjunto uma história. O personagem dele mente pra namorada que vai sair com o amigo e omite que vai traí-la com as amiguinhas que o sujeito vai trazer. Vem a cena final, o confronto com a namorada, que era, coincidentemente, uma das amigas e encontra com ele num bar. Gab não consegue mentir para enrolar a patroa fictícia e nem percebe que ela também ia trai-lo. "Obrigado por me avisar", diz ao colega que o alertou do corno.

Ainda bem que a sorte também vai com a cara dele: só Ana mesmo, com sua atitude self-service diante da vida, para driblar a cautela de Gabriel no campo amoroso. E ela pode dormir tranqüila que, se ele fizer algo errado, ela não vai ter trabalho para descobrir (e olha que a lábia dele até que é boa quando se trata de assuntos práticos do dia-a-dia!). Gab também deve agradecer por seu destino de classe média alta. Além de detestar esportes, não teria chances de ascender como pagodeiro, muito menos, pelo visto, pagodeiro piropo... oops!, romântico. É um agnóstico muito do abençoado, viu!...

Fim de aula, volta pra casa. Ele está pensativo, um pouco descontente. Especulo qual será a razão: acho que, pela primeira vez, meu amiguinho sentiu o gosto amargo da sua boa índole. Eu, também pela primeira vez, entendi realmente o que Nelson Rodrigues quis dizer quando afirmou que "A virtude é triste, azeda e neurastênica”.

Ser virtuoso, às vezes, é um fardo.

***

A verdade sobre o piropo é que o mal não está exatamente nele. Quero dizer, é um treco deprimente, mas tudo depende de quem o diz. Você, mulher que lê esse blog, se por acaso o George Clooney aparecer na sua frente ou o Reynaldo Gianecchini, vai fazer diferença o texto? Pode ser até a lista telefônica, fale a verdade!... É a mesma diferença, por exemplo, entre "É o amor" interpretada por Zezé Di Camargo e por Maria Bethania.
Hombres, hablen, sí, con ellas, pero con los ojos, con la sonrisa, con su cuerpo! Afinal, como canta Miltón, "tudo que cala fala mais alto ao coração...". É mais envolvente e, principalmente, seguro. Cantada é pra quem tem o dom da oratória, e se tiver o borogodó, repito, nem precisa (vide galãs de Hollywood: Rhett Butler mandou Scarlett ir se danar e, mesmo assim, por conta do seu 1kg de charme, soou a galanteio. Isso é que é ter a técnica, o mojo!... kkk). Eu tive um vizinho que não só era gato, era ainda charmoso. De boca fechada. Quando abria, meu Deus!... Ele falava coisas como "buniteza"! Ficava numa frustração brascubana ("Por que encantador, se burro? Por que burro, se encantador?"). Deveríamos vir ao mundo com um controle remoto. Nessas horas, bastaria apertar o "mute". Não que eu não fale besteira (ô!... quem fala demais sempre acaba falando muita bobagem), mas, em algum momento, também faço meu gol. Ele não. Era de matar (tanto a presença quanto a estupidez dele)!... Sorte que ele falava muito pouco.

Eu falei de charme como substituto do bom papo, mas, no final das contas, as qualidades são meros acessórios no caso de haver sentimento. Quando a mulher está a fim, ele pode ser a cara do Ronaldinho Gaúcho, ter a estupidez do meu ex-vizinho e ser pior de composição que meu pai, e ela vai achar lindo. Se a vida não fosse um absurdo e o amor, a exaltação disso, a Humanidade não teria sobrevivido nem 200 anos... Alguém discorda?
Mas uma coisa temos que reconhecer, quando o assunto é cantada: o homem de rua é o último romântico, aquele que sempre tem um galanteio p/ a sua "musa", mesmo que a visão daquela que passa por ele seja tão inspiradora quanto a do Corcunda de Notre Dame! Os pedreiros bem sabem tudo: só o amor constrói...

(Alguns dos piores piropos: http://www.felipex.com.br/div_cantadas_xavecos01.htm)

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