segunda-feira, 27 de outubro de 2008

The Perfect Storm

Dedicado a Bianca Mota

Quando ouvi, pela primeira vez, "Umbrella", não achei lá muita graça. Felizmente, nessas situações, não costumo me dar muita bola: sei que sou assim mesmo, tri-lenta para começar a gostar do que quer que seja. Por isso, abri a guarda para o clip da canção. Não me arrependi: ele me fez superar essa morna impressão inicial do hit de estréia. Com o tempo, não tive mais dúvidas de que "Umbrella" era realmente muito boa.
Mas devagar com o andor, que música de lançamento de álbum geralmente vem para arrebentar a boca do balão.
Mais para frente, outro hit de Rihanna na rádio. E depois, mais outro. E outro. Outro... Nenhuma das faixas me desagradou - aliás, acho que a ninguém. Conclusão: "Good girls gone bad", o primeiro cd da cantora de apenas 20 anos (ou melhor, o álbum que a pôs no mapa, porque é, na verdade, o terceiro), é bom do início ao fim (disgaçaaaada!...). Um achado, mesmo sendo um trabalho de apresentação. Aliás, um achado apesar de ser um trabalho de "estréia".
A pessoa já entrou kicking some butts, botando moral de veterana. Rihanna é a melhor coisa do pop americano desde o lançamento da carreira solo de Justin Timberlake! Aliás, ela é até melhor que JT, isto é, se botarmos as carreiras em perspectiva: não dança tão bem quanto ele, mas, por outro lado, tem uma presença que ele demorou aaaaanos pra adquirir (quem não lembra do cabelo a la Nissin Miojo, nos tempos do saudoso N´Sync?!). E ela nem teve a cancha de uma girl band, antes de ser solo.

Outro dia, vi seu show na TNT. Perfeito! Bem, ao menos, posso dizer que é a cara dela. Exclamei, sozinha, aqui no quarto: The perfect storm! Assim sendo, me rendi de vez - joguei minha umbrella no lixo; resolvi "pegar chuva".
Sem dúvida, Rihanna é a conjunção perfeita de características que caem como uma luva no mundo da música pop.

Só tenho uma pequena crítica a ela (adianto que não é ao trabalho, não): no VMA do ano passado, foi extremamente cruel ao rir da performance bombástica - no mau sentido - de Britney. Que é isso, mulher?! Pareceu deboche de vizinha venenosa!... Cuidado: um dia você pode ter uma filha gordinha, descomposta e que dança descordenada no palco, viu? :P


* Na foto, a estrela pop e o namô, o cantor Chris Brown, cujo clip de "With you" fez totalmente jus ao seu sobrenome. Bem, qualquer coisa é melhor que Jay-Z, né? hehe... Brincadeira. Gosto dele.

Escorpianos, um mal necessário!


Na infância, foram os arianos. Na adolescência, uma enxurrada de taurinos (fenômeno que se estende até os dias atuais). Aquarianos: poucos mas essenciais! Virginianos, geminianos e leoninos geralmente gostam de mim e eu deles (engraçado, só tive chefes mercurianos até hoje...). Rapazes saturninos são muiiito charmosos, mas - sorry pela franqueza! - só arrisco qualquer aproximação usando o devido equipamento de proteção.
Mas eis que, desde que comecei a ter contato com o Jornalismo, só sobram pro meu lado esses tais (e temidos) escorpianos. Até o meu amigo jornalista gaúcho é escorpiano. Ô sina!... E mais: até meu blog é escorpiano (faremos "aniversário" próximo dia 04, sabiam?)! :)
Tô brincando. Aliás, doce novembro que traz ao mundo toda essa gente do signo de Escorpião (e um bocadinho de outra raça que adoooro: os sagitarianos!). É um povo que, de tão intenso, chega a assustar. "Decifra-me ou te devoro". Eles dão uma canseira danada na gente, mas valem o ingresso.
[Vou dar vazão, um momentinho, à minha astrochatice: não gosto de gente com Lua em Escorpião, não. Vênus em Escorpião também é chatinha. É uma gente controladora, que não deixa ninguém respirar!...]
Dizem as más línguas que os filhos de Plutão gostam de uma plutaria, mas é mentira, seu Ratinho! Essa é a galera mais criteriosa, nesse sentido, que conheço. Escorpianos são grandes amigos. Talvez porque não saibam ser nada pela metade ("Pra mim é tudo ou nunnnca maiiis..."). É uma gente muito determinada, aplicada e focada no que quer - é verdade: são meio metidos a donos da razão, mas abstraia! Em todo caso, não conheço um que não seja muito inteligente.

Mafiosos do zodíaco, um viva para todos usteds!
Escorpianos são bons companheiros! Escorpianos são bons companheiros! Escorpianos são bons companheeeeeiroooooos!... Ninguém pode negar! haha

domingo, 26 de outubro de 2008

Psicopatas: eles estão entre nós

Como identificar pessoas que podem, de uma hora para outra, cometer crimes tão bárbaros como o que vitimou Eloá

Suzane Frutuoso

O País assistiu chocado à história de jovens ex-namorados que acabou em tragédia. Lindemberg Fernandes Alves, 22 anos, atirou contra a ex-namorada Eloá Pimentel e a amiga dela Nayara Rodrigues, ambas de 15 anos, após um seqüestro que durou 100 horas em Santo André, cidade do ABC paulista. Eloá morreu. Nayara, atingida no rosto, recebeu alta do hospital na quarta-feira 22. Lindemberg está preso. O caso traz à tona incômodos questionaPaís assistiu chocado à história de jovens exnamorados que acabou em tragédia. Lindemberg Fernandes Alves, 22 anos, atirou contra a ex-namorada Eloá Pimentel e a amiga dela Nayara Rodrigues, ambas de 15 anos, após um seqüestro que durou 100 horas em Santo André, cidade do ABC paulista. Eloá morreu. Nayara, atingida no rosto, recebeu alta do hospital na quarta-feira 22. Lindemberg está preso. O caso traz à tona incômodos questionamentos que a humanidade se faz sempre que está diante de situações como essa: como uma pessoa, até então insuspeita, é capaz de cometer um crime tão bárbaro? Personalidades que podem, eventualmente, levar a gestos extremos como o de Lindemberg são mais comuns do que se imagina.


A psicopatia, termo popular para transtorno de personalidade antissocial, atinge cerca de 4% da população (3% de homens e 1% de mulheres), segundo a classificação americana de transtornos mentais - sendo assim, um em cada 25 brasileiros enquadra-se nesse perfil. Isso não significa, é claro, que todos são assassinos em potencial. Mas, para a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, Lindemberg apresenta todas as características de psicopata. "Já está na hora de a sociedade aceitar que há indivíduos que nascem com má índole", afirma a psiquiatra, que lança na segunda-feira 27 o livro Mentes perigosas - o psicopata mora ao lado (Editora Objetiva).


Os graus de psicopatia variam do mais leve, como pequenos delitos e mentiras recorrentes, ao mais grave, que seriam os assassinatos e grandes golpes financeiros. As pessoas com perfil psicopático estão espalhadas em diferentes esferas do cotidiano, no trabalho, nas relações sociais, na família, agindo com excesso de razão e escassez de sentimentos. O desafio é identificá-los e saber lidar com eles.

EGOCENTRISMO
A pessoa com perfil psicopático passa por cima de tudo - e de qualquer um - para alcançar seus objetivos. É capaz, inclusive, de arquitetar a morte de seus próprios pais e não sentir remorso depois do fato consumado, como fez a jovem e rica Suzane von Richthofen. Em novembro de 2002, ela abriu a porta de sua casa para que o namorado, Daniel, e o irmão dele, Cristian, matassem seus pais, Marísia e Albert, com pancadas de barras de ferro. Depois, foi para um motel. Após o enterro, fez uma reunião com amigos na piscina de casa.

AUSÊNCIA DE CULPA

O traço de personalidade que melhor define um psicopata é a ausência de culpa. Exatamente o que demonstrou a empresária Sílvia Calabrese, presa em março, em Goiânia, por maltratar e torturar uma menina de 12 anos que morava com ela. A garota foi encontrada em seu apartamento com os braços acorrentados em uma escada, uma mordaça embebida em pimenta, dedos e dentes quebrados, unhas arrancadas, marcas de ferro quente pelo corpo. Questionada, Sílvia alegou que estava educando a criança e não mostrou nenhum arrependimento.

Os psicopatas não se importam de passar por cima de tudo e de todos para alcançar seus objetivos. Mentem, manipulam e não sentem remorso, muito menos culpa. Ao mesmo tempo, são charmosos e simpáticos. Se algo ou alguém ameaça seus planos, tornam-se agressivos. São mestres em inverter o jogo, colocando-se no papel de vítimas. E estão conscientes de todos os seus atos (não entram em delírio, como em outras doenças mentais). "A maioria não mata. Mas é capaz, porém, de sugar emocional e até financeiramente quem cai na conversa deles", diz Ana Beatriz.


É a pessoa perfeita, que se mostra encantadora, boa de papo, rapidamente apaixonada - e nunca tem dinheiro para nada ou começa a se mostrar possessiva. Dá desculpas como "sou ciumento porque meu pai batia na minha mãe" ou pede empréstimos ao parceiro para fazer um novo investimento (e sumir com o dinheiro). É o amigo que diz nunca conseguir emprego, que a família não o compreende e que o chefe o persegue. Por isso, depende de conhecidos para ter onde viver - e passar o dia sem fazer nada útil, usufruindo o conforto que os outros possam lhe proporcionar. É o familiar que humilha, agride física e/ ou verbalmente. Diz ser pavio-curto, mas afirma que isso só acontece porque outro o provocou. Nunca admite um erro e faz as pessoas parecerem culpadas e irresponsáveis. É o profissional simpático e amigo de todos - que logo diz que precisa alertar um colega sobre quanto um terceiro funcionário é falso. Faz intrigas e usa informações íntimas que as pessoas lhes confidenciam para manipulá-las. Nesses exemplos, não há derramamento de sangue, mas prejuízos, financeiros e emocionais, que podem se arrastar por toda a vida de quem cai na teia de um psicopata.


Os casos que despertam a atenção costumam ser os hediondos, que provam o grau de frieza a que chega um psicopata. No Brasil, há uma série de casos chocantes, como os que ilustram esta reportagem. No mundo, uma das histórias que mais horrorizaram, recentemente, foi protagonizada pelo austríaco Josef Fritzl, acusado de manter a própria filha presa no porão de casa durante 24 anos e de ter sete filhos com ela. Na última semana, dois jornais da Áustria revelaram parte do conteúdo do relatório da avaliação psicológica pela qual Fritzl passou. "Percebi que tinha uma veia para a maldade. Para alguém nascido para ser estuprador, até que agüentei por muito tempo", diz, em um trecho do relatório. Mas a maioria dos psicopatas não comete crimes. Prestar atenção no comportamento de algumas pessoas quando notar informações incoerentes ou superficiais é uma forma de se preservar. Desconfiar daqueles que são interessantes e parecem ter uma vida ou currículo fantásticos também. "Eles buscam a vulnerabilidade das vítimas. Cheque a história de vida de indivíduos sedutores", diz a psiquiatra Hilda Morano, coordenadora do Departamento de Ética e Psiquiatria Legal da Associação Brasileira de Psiquiatria. Entre os indícios que levam a psiquiatra Ana Beatriz a apontar Lindemberg como um psicopata está a premeditação do crime. "Ele falou para os amigos 'vocês vão ouvir falar de mim esta semana'", lembra Ana Beatriz. Ela vê também traços de egocentrismo no rapaz quando ele repetia no cativeiro ser o "príncipe do gueto". Namorar uma menina tão jovem (quando começaram o relacionamento, Eloá tinha 12 anos e ele 19) demonstraria a necessidade de manipulação. O ciúme que sentia, segundo atestam colegas de escola de Eloá, era a tradução do sentimento de posse sobre alguém que lhe dava prazer e lhe conferia status - a jovem era considerada uma das mais bonitas da comunidade. As idas e vindas do namoro, sempre por decisão de Lindemberg, lhe davam a sensação de controle. Só que, na última vez, a moça não quis reatar a relação. "Era como se ela estivesse quebrando o brinquedo que ele inventou", afirma a psiquiatra, que também descarta o crime passional. "Não foi um ato cometido sob forte impacto, como pegá-la com outro, ter um revólver do lado e atirar movido pela emoção. Ele planejou a ação.


Há quem arrisque dizer que Lindemberg é dono de um comportamento infantilóide. Até por isso, ele namorava uma menina mais nova. Eloá fazia parte do sonho adolescente de realização - era a namorada bonita que lhe pertencia, assim como a moto. "Ele teve uma crise de auto-afirmação diante da moça. Até então, se considerava o bom", afirma o psiquiatra forense Guido Palomba, presidente da Academia de Medicina de São Paulo. Palomba diz que para provar a Eloá que continuava sendo o bom - e assim reconquistá-la - o jovem aproveitou a situação para se exibir, conversar com a polícia, estender na janela a camisa do time, dar entrevistas à tevê. "Ele não sairia de lá de cabeça baixa, como um fracassado na frente dela", questiona o psiquiatra.


Está comprovado que o distúrbio na mente dos psicopatas acontece no sistema límbico, parte do cérebro responsável pelas emoções. Nessas pessoas, a atividade cerebral na região funciona menos do que deveria e, por isso, as emoções não afloram. Para elas, não há diferença entre uma cena de um estupro ou de um pôr-do-sol, por exemplo, como comprovou um estudo de dois neurologistas brasileiros, Jorge Moll e Ricardo Oliveira. Voluntários foram submetidos a uma seqüência de cenas, que mesclavam guerras e crianças brincando, entre outras situações. Exames de ressonância magnética revelaram que, quando a imagem era agressiva, o sistema límbico entrava em ebulição. A atividade registrada era maior devido à repulsa. Para os psicopatas, não houve diferença. A atividade cerebral não se alterava, independentemente da cena. A racionalidade deles é tamanha que não são pegos em detectores de mentira. Sabem exatamente o que estão fazendo e mentem com naturalidade.

Não há tratamento para esses casos. Psicoterapia e psicanálise podem até ensiná-los a manipular com ainda mais maestria, uma vez que aprendem detalhes sobre o comportamento humano. Por outro lado, psicopatas são satisfeitos consigo mesmos por não apresentarem constrangimentos morais ou sofrimentos emocionais. Descobrir o que ocorre no cérebro deles, além do que já é sabido sobre o sistema límbico, é um passo considerável para abrir frentes de pesquisa que busquem tratamentos. A psiquiatria começa a considerar a possibilidade de estudos com a implantação de eletrodos no cérebro que emitam pequenas descargas elétricas para regular o funcionamento, como já acontece com pacientes de depressão e mal de Parkinson. Por enquanto, é apenas uma hipótese. Tratamento mesmo só para as vítimas, que geralmente apresentam problemas emocionais depois de serem enganadas e agredidas.

FRIEZA
O psicopata é frio, não sente emoção, é racional ao extremo. Como o ator Guilherme de Pádua, que, após matar a atriz Daniella Perez com golpes de punhal, em dezembro de 1992, foi ao velório prestar solidariedade à mãe, Gloria Perez, e ao marido da vítima, o ator Raul Gazolla. Durante o interrogatório, depois de se entregar, estava calmo e relatou o assassinato sem esboçar reação alguma.

CHARME E SIMPATIA

Os psicopatas são sedutores. Adulam e agradam à "vítima", mas mudam radicalmente de comportamento se contrariados. Como a jovem Kelly dos Santos, 19 anos, presa em agosto de 2007, em São Paulo, acusada de estelionato, furto e falsidade ideológica. Kelly se passava por rica e cativava com sua simpatia e desenvoltura para depois furtar jóias, dinheiro, cartões de crédito e talões de cheque. Quando não convencia, era arrogante, fazia escândalo e destratava as pessoas.

Psicopatas nascem psicopatas. É importante registrar, porém, que o mundo contemporâneo está repleto de gatilhos para a psicopatia entrar em ação, como a impunidade. "Quando eles sabem que as leis não funcionam, se sentem à vontade para agir como bem entendem", diz Hilda Morano. A internet também se tornou uma porta de acesso fácil e rápida para manipuladores conseguirem seus objetivos e sedutores conquistarem pessoas indefesas. "Para pedófilos, por exemplo, é um trunfo. Eles não precisam se expor se aproximando de uma criança na rua", diz a psiquiatra Ana Beatriz. A atual cultura do "ter" também contribui. "Ela é um estímulo para conseguir um objeto de desejo a qualquer preço", afirma o médico Vladimir Bernik, coordenador da equipe de psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Quando a convivência com um deles for inevitável - como no trabalho, por exemplo -, a solução é se preservar, sem dar detalhes pessoais. Pode parecer exagero. Em muitos casos, até é. Mas, como diz a psiquiatra Ana Beatriz, só assim menos vidas serão dilaceradas.

Colaborou Claudia Jordão


***

A psiquiatra, autora de Mentes Perigosas, diz que o ato de Lindemberg revela uma personalidade psicopática
Martha Mendonça

O mal existe e não tem cura. É o que afirma a psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, que acaba de lançar Mentes Perigosas: o Psicopata Mora ao Lado. No livro, ela afirma que psicopatas nascem com um funcionamento cerebral que não permite conexão com os outros seres humanos – e por isso agem sem limites. Ana Beatriz diz ainda que é um equívoco relacionar psicopatas apenas com pessoas capazes de atos violentos ou assassinatos em série. “Eles são 4% da população e podem ser qualquer pessoa: um colega de trabalho, o marido ou um filho”.


ENTREVISTA - ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA

André Valentim QUEM É
Carioca, 42 anos, psiquiatra pós-graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

O QUE FAZ
É diretora das clínicas Medicina do Comportamento, no Rio e em São Paulo, onde atende pacientes e supervisiona tratamentos

O QUE PUBLICOU
Mentes Inquietas, Mentes & Manias, Mentes Insaciáveis: Anorexia, Bulimia e Compulsão Alimentar e Mentes com Medo: da Compreensão à Superação

ÉPOCA – O que é um psicopata?
Ana Beatriz Barbosa Silva –
Antes dessa definição, é preciso saber o seguinte: a maldade existe. Nós, latinos, afetivos, passionais, temos dificuldade de admitir que existem pessoas más. Psico quer dizer mente; pathos, doença. Mas o psicopata não é um doente mental da forma como nós o entendemos. O doente mental é o psicótico, que sofre com delírios, alucinações e não tem ciência do que faz. Vive uma realidade paralela. Se matar, terá atenuantes. O psicopata sabe exatamente o que está fazendo. Ele tem um transtorno de personalidade. É um estado de ser no qual existe um excesso de razão e ausência de emoção. Ele sabe o que faz, com quem e por quê. Mas não tem empatia, a capacidade de se pôr no lugar do outro.

ÉPOCA – Qual é a natureza da psicopatia? Os psicopatas nascem assim?
Ana Beatriz –
Os psicopatas nascem com um cérebro diferente. Os seres humanos têm o chamado sistema límbico, a estrutura cerebral responsável por nossas emoções. É uma espécie de central emocional, o coração da mente. Em 2000, dois brasileiros, o neurologista Ricardo Oliveira e o neurorradiologista Jorge Moll, descobriram a prova definitiva dessa diferença da mente psicopata, por meio da chamada ressonância magnética funcional, que mostra como o cérebro funciona de acordo com diferentes atividades. Nesse exame, mostraram imagens boas (belezas naturais, cenas de alegria) e outras chocantes (morte, sangue, violência, crianças maltratadas). Nas pessoas normais, o sistema límbico reagia de forma diversa. Nos psicopatas, não há diferença. O sistema límbico dessas pessoas não funciona. O pôr do sol ou uma criança sendo espancada geram as mesmas reações. Da mesma forma, não há repercussão no corpo. Eles não têm taquicardia, não suam de nervoso. Por isso passam tranqüilamente num detector de mentiras.

ÉPOCA – Há muitos psicopatas no mundo?
Ana Beatriz –
Mais do que se imagina. Cerca de quatro em cada cem pessoas, segundo as estatísticas americanas. Mais homens do que mulheres. Todos têm em comum a ausência do sentimento em relação às outras pessoas. Não conseguem se colocar no lugar do outro, daí agirem de forma fria e sem arrependimentos. O que caracteriza o psicopata não é o nível do crime, mas a forma como ele o comete, a predisposição para planejar e executar sem nenhum sentimento em relação à vítima.

ÉPOCA – Como saber se estamos convivendo com um psicopata?
Ana Beatriz –
Não é tão fácil detectá-los, especialmente quando temos alguma ligação afetiva com eles. Maridos que espancam suas esposas, por exemplo: as estatísticas mostram que 25% são psicopatas, e grande parte delas não aceita a verdade. Mas há algumas características básicas entre eles: falam muito de si mesmos, mentem e não se constrangem quando descobertos, têm postura arrogante e intimidadora por um lado, mas são charmosos e sedutores por outro. Costumam contar histórias tristes, em que são heróis e generosos. Manipulam as pessoas por meio de elogios desmedidos. Se tiver de começar a desconfiar de alguém, desconfie dos bajuladores excessivos. Chefes também podem ser psicopatas – o que costuma se manifestar pelo assédio moral aos funcionários. Um dado interessante é que eles não sentem compaixão, pena, remorso. Mas sabem, cognitivamente, o que é ter esses sentimentos. Daí representarem tão bem – e às vezes exageradamente – a vítima.

ÉPOCA – E a verdadeira vítima quem é?
Ana Beatriz –
Quase sempre pessoas generosas, em especial aquelas que não acreditam no mal e costumam tentar justificar as atitudes de todo mundo.

ÉPOCA – Um assassino pode não ser psicopata e um psicopata pode jamais matar?
Ana Beatriz –
Sim, isso é muito importante. É um equívoco pensar que apenas assassinos seriais são psicopatas, e um dos objetivos de meu livro é justamente este: mostrar que a psicopatia não está ligada apenas ao homicídio. Existem assassinos passionais que jamais matariam novamente. Um exemplo é a mulher que matou o estuprador do filho dela de 4 anos. Ela nada tem de psicopata. Ao contrário, apesar da violência, o crime dela pode ser compreensível para muitas mães. Ao passo que um psicopata pode nunca ter a necessidade de assassinar, resolvendo suas questões matando vidas afetivas e financeiras, prejudicando pessoas de forma irreversível, mas sem matá-las. Na população carcerária, segundo pesquisas feitas no Canadá e nos Estados Unidos, há de 20% a 25% de psicopatas.

ÉPOCA – Seu livro comenta o assassinato da atriz Daniella Perez. É um caso clássico de psicopatia?
Ana Beatriz –
O caso tem características que levam a esse diagnóstico. Guilherme de Pádua premeditou a morte da vítima, a atraiu para o crime e horas depois foi prestar solidariedade à mãe da moça.

ÉPOCA – Como você classificaria Lindemberg Fernandes Alves, que seqüestrou e assassinou a ex-namorada Eloá? Ele seria um psicopata?
Ana Beatriz – O ato é de uma personalidade psicopática. Ele usou a razão para dominar os reféns e controlar tudo em volta. Atirou na multidão e disse que era o “príncipe do gueto”, “o cara”. Deu entrevistas por telefone, conseguiu que uma das reféns voltasse ao cativeiro. No fim, com a invasão da polícia, não hesitou em atirar nas duas. Ele começou a namorar a Eloá quando ela tinha 12 anos. Certamente a tratava como propriedade, não admitindo perder esse controle.


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AS CARACTERÍSTICAS DE UM PSICOPATA

Super - Jul/06

CHARME: Tem facilidade em lidar com as palavras e convencer pessoas vulneráveis. Por isso, torna-se líder com freqüência. Seja na cadeia, seja em multinacionais.

INTELIGÊNCIA: O QI costuma ser maior que a média: alguns conseguem se passar por médico ou advogado sem nunca ter acabado o colegial.

AUSÊNCIA DE CULPA: Não se arrepende nem tem dor na consciência. É mestre em botar a culpa nos outros por qualquer coisa. Tem certeza de que nunca erra.

ESPÍRITO SONHADOR: Vive com a cabeça nas nuvens. Mesmo que a situação do sujeito esteja miserável, ele só fala sobre as glórias que o futuro lhe reserva.

HABILIDADE PARA MENTIR: Não vê diferença entre sinceridade e falsidade. É capaz de contar qualquer lorota como se fosse a verdade mais cristalina.

EGOÍSMO: Faz suas próprias leis. Trata as pessoas como coisas. Não entende o que significa "bem comum". Se estiver tudo ok para ele, não interessa como está o resto do mundo.

FRIEZA: Não reage ao ver alguém chorando e termina relacionamentos sem dar explicação. Sabe o cara que "foi comprar cigarro e nunca mais voltou"? Então.

PARASITISMO: Quando consegue a confiança de alguém, suga até a medula. O mais comum é pedir dinheiro emprestado e deixar para pagar no dia 31 de fevereiro.

Entrevista Robert Hare
Psicopatas no divã

O psicólogo canadense, criador de uma escala usada
para medir os graus de psicopatia, explica por que uma
pessoa aparentemente normal pode fazer as piores
coisas sem sentir remorso


Laura Diniz

Montagem sobre fotos divulgação e Album-Latin Stock

"O psicopata é como o gato, que não pensa no que o rato sente. Ele só pensa em comida. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato"

O trabalho do psicólogo canadense Robert Hare, de 74 anos, confunde-se com quase tudo o que a ciência descobriu sobre os psicopatas nas últimas duas décadas. Foi ele quem, em 1991, identificou os critérios hoje universalmente aceitos para diagnosticar os portadores desse transtorno de personalidade. Hare começou a aproximar-se do tema ainda recém-formado, quando, trabalhando com detentos de uma prisão de segurança máxima nas proximidades de Vancouver, ficou intrigado com uma questão: "Eu queria entender o motivo pelo qual, em alguns seres humanos, a punição não tem efeito algum". A curiosidade levou-o até os labirintos da psicopatia – doença para a qual, até hoje, não se vislumbra cura. "O que tentamos agora é reduzir os danos que ela causa, aos seus portadores e aos que os cercam."

Um psicopata nasce psicopata?
Ninguém nasce psicopata. Nasce com tendências para a psicopatia. A psicopatia não é uma categoria descritiva, como ser homem ou mulher, estar vivo ou morto. É uma medida, como altura ou peso, que varia para mais ou para menos.

O senhor é o criador da escala usada mundialmente para medir a psicopatia. Quais são as características que aproximam uma pessoa do número 40, o grau máximo que sua escala estabelece?
As principais são ausência de sentimentos morais – como remorso ou gratidão –, extrema facilidade para mentir e grande capacidade de manipulação. Mas a escala não serve apenas para medir graus de psicopatia. Serve para avaliar a personalidade da pessoa. Quanto mais alta a pontuação, mais problemática ela pode ser. Por isso, é usada em pesquisas clínicas e forenses para avaliar o risco que um determinado indivíduo representa para a sociedade.

"Não há como dizer se uma criança se tornará um adulto psicopata. Mas, se ela age de modo cruel com outras crianças e animais, mente olhando nos olhos e não tem remorso, isso sinaliza um comportamento problemático no futuro"

Todo psicopata comete maldades?
Não necessariamente com o intuito de cometer a maldade. Os psicopatas apresentam comportamentos que podem ser classificados de perversos, mas que, na maioria dos casos, têm por finalidade apenas tornar as coisas mais fáceis para eles – e não importa se isso vai causar prejuízo ou tristeza a alguém. Mas há os psicopatas do tipo sádico, que são os mais perigosos. Eles não somente buscam a própria satisfação como querem prejudicar outras pessoas, sentem felicidade com a dor alheia.

Até que ponto a associação entre a figura do psicopata e a do serial killer é legítima?
A estimativa é que cerca de 1% da população mundial preencheria os critérios para o diagnóstico de psicopatia. Nos Estados Unidos, haveria, então, cerca de 3 milhões de psicopatas. Se o número de serial killers em atividade naquele país for, como se acredita, de aproximadamente cinquenta, isso significa que a participação desses criminosos no universo de psicopatas é muito pequena. Por outro lado, segundo um estudo do psiquiatra americano Michael Stone, cerca de 90% dos serial killers seriam psicopatas.

Em que medida o ambiente influencia na constituição de uma personalidade psicopata?
Na década de 20, John B. Watson, um estudioso de psicologia comportamental, dizia que, ao nascer, nós somos como páginas em branco: o ambiente determina tudo. Na sequência, entrou em voga o termo sociopata, a sugerir que a patologia do indivíduo era fruto do ambiente – ou seja, das suas condições sociais, econômicas, psicológicas e físicas. Isso incluía o tratamento que ele recebeu dos pais, como foi educado, com que tipo de amigos cresceu, se foi bem alimentado ou se teve problemas de nutrição. Os adeptos dessa corrente defendiam a tese de que bastava injetar dinheiro em programas sociais, dar comida e trabalho às pessoas, para que os problemas psicológicos e criminais se resolvessem. Hoje sabemos que, ainda que vivêssemos uma utopia social, haveria psicopatas.

"Um psicopata ama alguém da mesma forma como eu, digamos, amo meu carro — e não da forma como eu amo minha mulher. Usa o termo amor, mas não o sente da maneira como nós entendemos. Em geral, é um sentimento de posse, de propriedade"

Como se chegou a essa conclusão?
Na década de 60, vários estudiosos, inclusive eu, começaram a pesquisar a reação de um grupo de psicopatas a situações que, em pessoas normais, produziriam efeitos sobre o sistema nervoso autônomo. Quando se está na expectativa da ocorrência de algo desagradável, a preocupação do indivíduo transparece por meio de tremores, transpiração e aceleração cardíaca. Os psicopatas estudados, mesmo quando confrontados com situações de tensão, não exibiam esses sintomas. Isso reforçou a conclusão de que existem diferenças cerebrais entre psicopatas e não psicopatas. Pouco a pouco, essas diferenças vêm sendo mapeadas.

É possível observar sinais que indiquem que uma criança pode se tornar um adulto psicopata?
Não há nada que indique que uma criança forçosamente se transformará num psicopata, mas é possível notar que algo pode não estar funcionando bem. Se a criança apresenta comportamentos cruéis em relação a outras crianças e animais, é hábil em mentir olhando nos olhos do interlocutor, mostra ausência de remorso e de gratidão e falta de empatia de maneira geral, isso sinaliza um comportamento problemático no futuro.

Os pais podem interferir nesse processo?
Sim, para o bem e para o mal, mas nunca de forma determinante. O ambiente tem um grande peso, mas não mais do que a genética. Na verdade, ambos atuam em conjunto. Os pais podem colaborar para o desenvolvimento da psicopatia tratando mal os filhos. Mas uma boa educação está longe de ser uma garantia de que o problema não aparecerá lá na frente, visto que os traços de personalidade podem ser atenuados, mas não apagados. O que um ambiente com influências positivas proporciona é um melhor gerenciamento dos riscos.

Os psicopatas têm consciência de que são diferentes?
A consciência, o processo de avaliar se algo deve ser feito ou não, envolve não somente o conhecimento intelectual, mas também o aspecto emocional. Do ponto de vista intelectual, o psicopata pode até saber que determinada conduta é condenável, mas, em seu âmago, ele não percebe quão errado é quebrar aquela regra. Ele também entende que os outros podem pensar que ele é diferente e que isso é um problema, mas não se importa. O psicopata faz o que deseja, sem que isso passe por um filtro emocional. É como o gato, que não pensa no que o rato sente – se o rato tem família, se vai sofrer. Ele só pensa em comida. Gatos e ratos nunca vão entender um ao outro. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato.

É muito difícil identificar um psicopata no dia a dia?
Superficialmente, um psicopata pode parecer um sujeito normal. Mas, ao conhecê-lo melhor, as pessoas notarão que ele é um indivíduo problemático em diversos aspectos da vida. Ele pode ignorar os filhos, mentir sistematicamente ou apresentar grande capacidade de manipulação. Se é flagrado fazendo algo errado, por exemplo, tenta convencer todo mundo de que está sendo mal interpretado.

Um psicopata não sente amor?
Acredito que sim, mas da mesma forma como eu, digamos, amo meu carro – e não da forma como eu amo minha mulher. Usa o termo amor, mas não o sente da maneira como nós entendemos. Em geral, é traduzido por um sentimento de posse, de propriedade. Se você perguntar a um psicopata por que ele ama certa mulher, ele lhe dará respostas muito concretas, tais como "porque ela é bonita", "porque o sexo é ótimo" ou "porque ela está sempre lá quando preciso". As emoções estão para o psicopata assim como o vermelho está para o daltônico. Ele simplesmente não consegue vivenciá-las.

Que figuras históricas podem ser consideradas psicopatas?
É difícil dizer, porque seu comportamento é mediado por relatos de terceiros, e não por um diagnóstico psiquiátrico. Mas o ditador da ex-União Soviética Josef Stalin, por exemplo, era de tal forma impiedoso que talvez possa ser considerado psicopata. O ex-ditador iraquiano Saddam Hussein é outro exemplo. Eu ficaria muito surpreso se ele não preenchesse todos os critérios para a psicopatia. Aliás, Saddam tinha um filho claramente psicopata (Udai Hussein, morto em 2003), dirigente de um time de futebol. Quando o time perdia, ele torturava os jogadores – ou seja, era sádico também. Já o líder nazista Adolf Hitler é um caso mais complexo. Ele provavelmente não era só psicopata.

A psicopatia é incurável?
Por meio das terapias tradicionais, sim. Pegue-se o modelo-padrão de atendimento psicológico nas prisões. Ele simplesmente não tem nenhum efeito sobre os psicopatas. Nesse modelo, tenta-se mudar a forma como os pacientes pensam e agem estimulando-os a colocar-se no lugar de suas vítimas. Para os psicopatas, isso é perda de tempo. Ele não leva em conta a dor da vítima, mas o prazer que sentiu com o crime. Outro tratamento que não funciona para criminosos psicopatas é o cognitivo – aquele em que psicólogo e paciente falam sobre o que deixa o criminoso com raiva, por exemplo, a fim de descobrir o ciclo que leva ao surgimento desse sentimento e, assim, evitá-lo. Esse procedimento não se aplica aos psicopatas porque eles não conseguem ver nada de errado em seu próprio comportamento.

No Brasil, os psicopatas costumam ser considerados semi-imputáveis pela Justiça. Os magistrados entendem que eles até podem ter consciência do caráter ilícito do que cometeram, mas não conseguem evitar a conduta que os levou a praticar o crime. Assim, se condenados, vão para a cadeia, mas têm a pena diminuída. O senhor acha que, do ponto de vista jurídico, os psicopatas são totalmente responsáveis por seus atos?
Eu diria que a resposta é sim. Mas há divergências a respeito e existem muitas investigações em andamento para determinar até que ponto vai a responsabilidade deles em certas situações. Uma corrente de pensamento afirma que o psicopata não entende as consequências de seus atos. O argumento é que, quando tomamos uma decisão, fazemos ponderações intelectuais e emocionais para decidir. O psicopata decide apenas intelectualmente, porque não experimenta as emoções morais. A outra corrente diz que, da perspectiva jurídica, ele entende e sabe que a sociedade considera errada aquela conduta, mas decide fazer mesmo assim. Então, como ele faz uma escolha, deve ser responsabilizado pelos crimes que porventura venha a cometer. Não há dados empíricos que deem apoio a um lado ou a outro. Ainda é uma questão de opinião. Acredito que esse ponto será motivo de discussão pelos próximos cinco ou dez anos, tanto por parte dos especialistas em distúrbios mentais quanto pelos profissionais de Justiça.

O senhor está para publicar um estudo sobre um novo modelo de tratamento para psicopatas. Do que se trata?
Trata-se de um modelo mais afeito à escola cognitiva, em que os pacientes são levados a compreender que até podem fazer algo que desejem, sem que isso seja ruim para os outros. Não vai mudá-los, mas talvez possa atenuar as consequências de suas ações. É um tratamento com ambições relativamente modestas – tem por objetivo a redução de danos.

http://veja.abril.com.br/010409/entrevista.shtml


UniCórnio


A Faculdade Jorge Amado é, agora, UniJorge.
Há dez anos, não existiam essas unis. Hoje, parece uma praga.

Notícia em primeira mão: vou mudar de ramo. Serei empresária da educação.
Atenção, vem aí a UniCórnio. "Passe os anos mais mágicos da sua vida com a gente, na UniCórnio, e realize a fantasia de ter um diploma universitário".
Já tenho a idéia para cinco cursos:

Administração com ênfase em barraca de praia
Nutrição com habilitação em acarajé e abará
Moda com ênfase em abadá
Letras com habilitação em dialeto baianês
Engenharia Civil com ênfase em resorts

E aí, que acham? rsss...

sábado, 25 de outubro de 2008

Growing fears

Os americanos usam uma expressão para designar o desconforto que todos nós sentimos enquanto vamos crescendo: growing pains (dores do crescimento). Cada geração lida com as suas dores específicas do crescimento, e a nossa não é diferente.

Tenho duas irmãs de sangue e duas primas que considero irmãs mais novas. Coincidentemente, formamos uma escadinha de 4 anos - com exceção da última, que é 8 anos mais nova que a mais nova depois de mim. Assim, tenho um painel de observação das dores de cada geração.
Muitas delas são comuns a todas as épocas: Será que vou casar? Será que vou ter filhos? Será que vou ser bem-sucedido na carreira? Será que vou ser feliz, enfim?... Todas elas, arrisco até, permeiam a história recente da Humanidade. Mas nesse intervalo de 20 anos que separa minha irmã mais velha de minha prima mais nova, já dá pra ver um movimento, que vai do idealismo e da busca da liberdade ao materialismo cínico.

O caso é que andei pensando sobre isso por conta de algo que aconteceu essa semana. Fui almoçar com algumas amigas, e uma delas me contou que havia terminado com o namorado. Detalhe importante: eles namoram desde que Cabral descobriu o Brasil e são o meu casal preferido, traduzem direitinho a idéia que tenho sobre ser um par bacana - Juju, aqui, quase engasgou com a azeitoninha quando escutou a novidade. Mas eu sei que tem volta. Quer dizer, eu espero, porque vai se tratar, então, da separação mais sem graça de todos os tempos. O que não falta ali é amor. Sabe aquele tipo de casal que nunca fez uma declaração, um gesto mais explícito, em público, mas que pelo jeito que se olham, que se relacionam, dá pra ver que tem muito sentimento um pelo outro? Pois é, são eles. Há, de quebra, muita afinidade, são supertranqüilos e nem a batidíssima desculpa de que faltam condições materiais atrapalha o caminho dessa dupla. O que falta é coragem para unir as escovas de dente. Ele se mudou de cidade. Ela roda a América do Sul. Porque a coisa emperra justo nesse ponto? Inexplicável. Ou melhor dizendo, inaceitável.

Segundo caso: trata-se de uma conhecida minha da adolescência. Aplicada que só, aos 17 anos passou na universidade mais famosa do Brasil e se mudou de Salvador. Virou uma mocinha independente cedo. Até para a Polinésia Francesa, sozinha, já foi. Ontem, passeando pelo Orkut, fui parar na página dela. Estava lá: até hoje ela não se formou. Se já, foi algo bem recente. Ou seja, ela passou 10 anos como estudante de graduação. Garanto, não é falta de capacidade intelectual. Também não se trata de necessidade financeira e nem de irresponsabilidade dela. Qual é o problema em se formar? - fiquei me perguntando. Aliás, não é só isso: ela se manteve praticamente na mesma vida desde que passou na faculdade em outro estado. Quer dizer, houve uma mudança, sim: finalmente, após séculos ficando com o mesmo carinha, assumiu um namoro. É difícil dar um palpite preciso sobre essas coisas, mas talvez seja uma tentativa de esticar um pouquinho mais a adolescência (até porque, a dela foi muito boa).

Por que a gente tá demorando tanto, hein?

Tudo bem, às vezes você até está disposto, mas ainda não aconteceu. Tem de esperar mesmo e cabô. Mas em outras ocasiões, a coisa tá ali, na sua cara, facinha, e você corre, como criança pequena com medo da onda do mar. Comportamento bem típico da geração que solidificou o "ficar". A gente pega mas não se apega. Isso vale para qualquer coisa. Não é algo ruim, mas às vezes tamanho preciosismo/procrastinação dá a impressão de que a vida não anda, que a gente não cresceu. Parece que falta alguma coisa para que, enfim, a gente possa agir. Será excesso de idealismo? A vida da nossa geração tá tão boa assim? Ou será apatia mesmo?

É difícil, mesmo, ser gente grande, viu!

Vergonha alheia

Por esses tempos, ando vendo pouca televisão. Pois é, não me pergunte como, mas a caixa mágica anda perdendo a graça. De vez em quando, sento um bocadinho com a minha mãe - noveleira crônica! - e vejo algo que esteja passando na hora.
Gente, estou de cara com a novela das sete, "Três Irmãs"! A novela é muito ruim!!! Eu chego a ficar constrangida por Antonio Calmon, por ele estar tendo a "coragem" de apresentar um treco daqueles em rede nacional. Sério! Calmon envelheceu e perdeu a mão legal. Eu sei que é feio ser preconceituosa e generalizar as coisas, mas o blog é meu (by Kiko, de Chaves) e, então, que se dane: por que as pessoas, depois dos 50, ficam esquisitas? Dançam de um jeito bizarro, têm uns rompantes adolescentes, ficam meio taradas (principalmente os homens), perdem a mão no penteado... Só pode ser hormonal! Envelhecer bem, até no horário nobre global, é uma arte!... Mas voltando à vaca fria, eu estou extremamente sentida e constrangida pelo elenco que foi escalado para esse mico em forma de folhetim.
Este blog decreta luto de 3 dias. Mas antes de procurar pelo seu melhor pretinho básico no guarda-roupa, confira a relação de atores de "Três Irmãs" e veja se eu não tenho razão (ló-giii-cooo que tenho! rsss).

PS: Cadê os fonoaudiologistas da Rede Globo que não consertam a voz de eterno gripado do Kayky Brito?!

Elenco


  • Cláudia Abreu - Dora Jequitibá Áquila
  • Giovanna Antonelli - Alma Jequitibá
  • Carolina Dieckmann - Susana Jequitibá
  • Regina Duarte - Waldete Maria de Nascimento Bezerra
  • Marcos Palmeira - Bento Rio Preto
  • Ana Rosa - Virgínia Jequitibá
  • Paulo Vilhena - Eros Pascolli
  • Vera Holtz - Violeta Vulgo Áquila
  • Rodrigo Hilbert - Gregg (Gregório de Matos)
  • Bruno Garcia - Galvão (Hércules Galvão)
  • José Wilker - Augusto Pinheiro Jequitibá / Lázaro
  • Marcos Caruso - Alcides Áquila
  • Dudu Azevedo - Xande (Alexandre Galvão)
  • Maitê Proença - Walquíria Pascolli
  • Marcello Novaes - Sandro Pedreira
  • Graziella Moretto - Valéria Gudiers / Pupa
  • Luís Gustavo - Vidigal / Pupo / Erasmo Trovão (Pinduca Pereira da Silva, falso Nereu Vidigal Castro)
  • Daniela Récco - Duda / Carlinhos / Laila (Maria Eduarda Bulhões da Silveira)
  • Kayky Brito - Paulinho (Paulo Fernando Vulgo Áquila)
  • Rafael Ciani - Toninho
  • Beth Goulart - Leonora Malatesta
  • Tato Gabus Mendes - Orlando Malatesta
  • Malu Valle - Neusa Santana
  • Aloísio de Abreu - Prefeito Nelson Santana
  • Roberto Bonfim - Pacífico Áquila
  • Débora Duarte - Florinda (Gata Flor)
  • Otávio Augusto - Chuchu / Ramon & Ramon Pallares / Big Little Ronnie (Arlindo Lamas Fulgo Chuchu)
  • Malu Galli - Liginha (Lígia Pedreira)
  • Othon Bastos - Dr. Polidoro
  • Solange Couto - Janaína
  • Aílton Graça - Jacaré
  • Bianca Byington - Sueli
  • Cecília Dassi - Natália Malatesta Santana
  • Ivan Mendes - Pedro Henrique Santana (PH)
  • Juliana Schalch - Juliana Galvão
  • Leonardo Carvalho - Alfredão (Alfredo Malatesta)
  • Guilherme Piva - Glauco
  • Roberta Rodrigues - Neidinha
  • Maria Eduarda - Carminha (Maria Carmem)
  • Otávio Müller - Gennaro Fortuna
  • Antônia Frering - Sylvie L'Éclair
  • Caio Vaz - Thor Pedreira
  • Estrela Blanco - Mel
  • Omar Docena - Jerry
  • Sidi Correa - Sávio
  • Créo Kellab - Anacleto
  • Kenya Costta - Iracema
  • Kelzy Ecard - Geiza
  • Ana Paula Botelho - Noêma

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Ronaldo nas Páginas Negras de Trip


Quando se trata de Ronaldo, é difícil separar a pessoa e o jogador. Tome como exemplo o momento atual: ele se prepara para voltar aos campos mais uma vez, depois de outra lesão no joelho sofrida em fevereiro; e se prepara também para recuperar sua imagem, depois de escândalos como a noite em que foi pego com travestis e as fotos em Ibiza em que apareceu fumando e com a barriga avantajada. “Quero encerrar minha carreira por decisão própria, não porque fui obrigado a encerrar”, diz o centroavante de 32 anos, em entrevista à Trip feita em meados de setembro, no Rio de Janeiro. “Quero terminar marcando gols.” Mais uma vez ele tenta mostrar que as previsões sobre seu fim estavam erradas – e que sua longevidade pode resistir a mais essa prova.

Conheci Ronaldo em 2001, quando fiz uma longa reportagem mostrando que ele voltaria – e bem – ao futebol. Em 2002, ele fez oito gols na Copa do Mundo, dois deles na final contra a Alemanha, e calou aqueles que diziam que “amarelava”, que era fenômeno apenas no “marketing”, que não passava de um “finalizador” e “baladeiro”. Mas, mesmo com essa façanha, Ronaldo continuou a ser objeto das mais variadas acusações – muitas delas de cunho pessoal. Nos últimos anos, ficou comum ouvir que se trata de um ex-atleta, de um ex-profissional, de um “gordo” fatigado do futebol e interessado apenas em dinheiro e mulheres. E que, ainda por cima, talvez nem goste tanto assim de mulheres.Ronaldo, porém, tem uma segurança: “Minha história está feita. Tem algumas páginas em branco ainda, mas está feita”. Quem o conhece um pouco garante que ele não sente necessidade de provar nada para ninguém, embora se ressinta do fato de que tudo com ele “ganha uma dimensão absurda”. Nega ser o jogador festeiro e relapso que tentam pintá-lo, lembrando os sacrifícios que passou para voltar das lesões. Mas na maior parte do tempo é um sujeito tranqüilo, ligado à família e aos amigos – e que sempre se despede nas ligações de celular com um “Fica com Deus”. É claro que Ronaldo é, digamos, paquerador e bom garfo. É comum que chegue a um ambiente cercado de mulheres e tome algumas cervejas; de vez em quando fuma também. Ele diz que nada disso é incompatível com a vida de atleta. Mas há um Ronaldo que pouca gente conhece: um Ronaldo que sonha em fazer faculdade, que tem um pai amante dos livros e que toma conta de todos os seus negócios como um presidente de empresa. “Presidente”, por sinal, é como jogadores mais jovens como Robinho o chamam na seleção. Como Robinho, Kaká, Diego, Pato e muitos outros têm Ronaldo como ídolo, como o melhor jogador brasileiro depois de Pelé, melhor ainda que Zico ou Romário.

A nova fase de Ronaldo pode acontecer no Manchester City, time inglês que também contratou Robinho. Outros clubes sondaram o Fenômeno, como o PSV, onde brilhou nos anos de 1994 e 1995, mas o projeto do time menos famoso de Manchester – movido a dinheiro árabe – o atraiu. Sua expectativa é jogar mais dois ou três anos em bom nível e encerrar a carreira. Quando joga e faz gols, Ronaldo diz que “emagrece” aos olhos do público e passa a ocupar a mídia mais por seu desempenho profissional do que por suas trapalhadas pessoais. Sobre a seleção, acha que Dunga não é culpado da má fase e, claro, gostaria de voltar a defendê-la. Na entrevista a seguir, fala sobre sua vida pessoal, a carreira e as polêmicas. E mostra as mágoas, como ao revelar que rompeu com o fisioterapeuta Nilton Petrone, conhecido como Filé, porque este teria cometido fraudes na clínica do jogador (procurado pela Trip por uma semana, Petrone não respondeu aos recados deixados em seu celular).

O abismo entre imagem íntima e imagem pública não angustia Ronaldo, embora ele se queixe da fama, observando, por exemplo, que nunca posou para a revista Caras. “Nunca quis ser celebridade”, diz. “Se sou famoso, é por mérito, por trabalho.” Ele se recusa a dizer seu peso ideal e a dar explicações para as derrotas de 1998 e 2006 ou para a decadência dos “galáticos” do Real Madrid. Prefere lembrar como é recebido nas ruas, como alguém que “fez muito pelo Brasil” e que foi eleito três vezes melhor do mundo. Sem falsa vaidade, conclui: “O que vão lembrar daqui a 50 anos é o que se fez dentro de campo”. Contra a maioria dos prognósticos, essa longa vida está garantida.

Quando deu o estalo “Vou ser jogador de futebol”? Você quis ser outra coisa na vida?
Não, minha paixão sempre foi o futebol. Uma época eu tinha vontade de ir para o exército, mas sempre quis ser jogador, desde pequeno. Todo Natal eu recebia uma bola de futebol. Eu jogava o tempo inteiro.

Na rua?
Na rua, descalço, perdendo unha... Todo mês eu perdia uma unha. Quando não tinha bola de verdade, era com bola de meia.

Já era flamenguista? Seu pai é flamenguista, não?
É. Sou Flamengo desde pequeno também.

Você nasceu em 76. Lembra do Flamengo de Zico, campeão mundial em 81?
Quase nada. Mas lembro muita coisa depois. Meu pai me levava sempre ao Maracanã. Aos 7, 8, 9, 10 anos... Eu ia em quase todos os jogos.

Da Copa de 82 lembra algo?

Lembro porque a gente fazia uma reuniãozinha na rua, na casa do vizinho da frente, que era militar da aeronáutica. Ele trazia coisas, refrigerantes, batata frita, e juntava umas 20, 30 pessoas na frente da TV.

Quando você jogava bola, os amigos diziam “Você tem de ser jogador, você é muito bom”, algo assim?
Eu me destacava. Mas era muito novo, né? Só quando fui jogar futebol de salão no Valqueire Tênis Clube, com 9, 10 anos, é que começaram a falar. Mas no dia da peneira tinha tanta gente – 20, 30 garotos – que eu decidi tentar a vaga de goleiro e consegui.

Goleiro?
É, fiquei um mês como goleiro. Depois mudei para a linha.

Já na frente?
Eu jogava de ala direito.

Mas por que futebol de salão?
Todos os meus amigos jogavam salão. Tinha um mais velho, o Renatinho, que jogou em vários clubes. Então me empolguei. Joguei um ano de salão e comecei a jogar campo simultaneamente. Aí já no São Cristóvão.

Vi um filme seu jogando salão ainda pequeno, fazendo golaços...

Aí já era no Social Ramos. Eu tinha arrebentado no campeonato carioca, e o Social Ramos tinha melhor estrutura, já dava ajuda de custo. Eu fazia muito gol, mesmo na ala. Tinha 14 anos, depois fui para o São Cristóvão. O Flamengo até me procurou nessa época, mas o Cruzeiro que me levou.

É verdade que você não foi para o Flamengo porque não tinha chuteira?
Não. Eu tinha feito peneira no Flamengo, quando jogava no Valqueire ainda, e passei no primeiro teste, no segundo, no terceiro... Quem coordenava os testes era o [ex-goleiro] Cantarelli. Mas aí meus pais disseram: “Filho, todos esses testes, não tá dando não”... Eram duas conduções para ir, duas para voltar. Aí eu pensei: “Vou pro São Cristóvão mesmo”. Era um trem só.

Quanto tempo você ficou nesses clubes?
Fiquei um ano e meio no Social Ramos, três no São Cristóvão. O salão era terças e quintas de noite, o campo era três tardes por semana.

Dos 12 aos 15 anos, é isso? Você lembra dos gols que fez nessa época?
Lembro, claro. Lembro um que eu fiz contra o Flamengo. Foi 1 a 1, lembro direitinho do gol.

Na escola você foi até onde?
Completei o primeiro grau no sufoco, lá em Belo Horizonte, já jogando no Cruzeiro. Eu jogava no júnior, treinava no profissional, e as pessoas começaram a me conhecer já. Eu ia para a escola pública ao lado da Toca da Raposa e os colegas me conheciam.

Sempre achei que você fosse mais ligado à sua mãe, mas você também é bem ligado ao seu pai, não?
Sou, muito. É que eles se separaram quando eu tinha 8, 9 anos. Mas meu pai é que ia sempre aos jogos, a mãe só de vez em quando.

Você também diz que ele gosta de ler muito. Você gosta?
Não como ele. Meu pai é maluco por livros, ele lê o dia inteiro. Gosta do Machado de Assis, por sinal. Conta que eu nasci em Itaguaí, onde se passa a história O alienista.

Por que você nasceu lá?
Porque naquele fim de semana o médico da minha mãe estava de plantão em Itaguaí, então meu pai pegou o carro e a levou até lá.

Como foi chegar ao Cruzeiro? O clube pagou US$ 50.000 pelo passe inteiro?
Não, por metade. A outra metade era do Alexandre [Martins] e do Reinaldo [Pitta].

Eles já eram seus empresários?
Eles que me compraram do São Cristóvão por US$ 7.000.

Você fala bastante com o Martins e o Pitta?
Faz algum tempo que não falo com eles, mas continuo falando, não brigamos nem nada. Eles precisaram deixar de ser meus empresários, mas entenderam isso.

Por causa das acusações (de lavagem e remessa ilegal de dinheiro ao exterior)?
É, mas eles negam tudo. Eu fiquei surpreso, mas acredito neles. Eles são do bem, sempre foram corretos comigo, nunca me roubaram.

Sua estréia no profissional do Cruzeiro foi em 1993?
Isso, numa turnê não me lembro em que país, acho que em Portugal. O treinador era o Carlos Alberto Silva.

Como era ter 16 anos, estar no Cruzeiro, valorizado?
Tudo aconteceu muito rápido, eu não tinha idéia do que estava me esperando. Sempre tive muita confiança em mim. Mas não imaginava a dimensão que seria.

Poucos jogadores usam a esquerda como você. Você não só chuta com ela, mas também conduz e dribla. Não é raro?
É bem raro. Ter a mesma coordenação com uma perna e com a outra. Já com o braço esquerdo eu não consigo fazer nada [risos].

O Zico é sua grande referência, né?
Sim, me inspirei também muito na sua conduta, no seu profissionalismo, na decisão de ir jogar fora. Eu sabia que se seguisse esse exemplo tudo ia dar certo.

O Zico foi “o cara” depois do Pelé?
Eu acho.

No Cruzeiro, no PSV e até no Barcelona você fez quase um gol por jogo. Hoje isso não é mais comum.
O futebol está muito disputado. Os zagueiros estão mais fortes, mais velozes. Eu mesmo fiz uns quatro anos seguidos, depois não fiz mais.

No PSV você tem mais força.
Pô, saí do Brasil com todas as dificuldades. Aí comecei a comer direito, a ganhar dinheiro [risos]. Tinha 17 anos, era idade normal de crescimento.

O Cruzeiro te vendeu por quanto?
Por US$ 6 milhões. Naquela época era muito dinheiro. Hoje mesmo seria, mas naquela época era mais. Hoje mudou bastante.

No futebol holandês você teve um aprendizado tático? Posicionamento, objetividade – o que você aprendeu na Holanda?
Na Europa em geral eles não têm a nossa técnica, a nossa habilidade, então precisam muito desse entrosamento. Eles fazem jogadas ensaiadas mesmo. Sincronismo total. A equipe toda indo para o lado direito, para o lado esquerdo, onde a bola estivesse.

Quem era o melhor colega lá?
O cara que até hoje eu digo que foi o melhor com quem joguei é o [belga] Luc Nilis. Ele me encontrava em qualquer lugar!

Se você tivesse ficado alguns anos no Cruzeiro, teria ficado forte como na Holanda?
Eu acho que não. Eu morava sozinho em Belo Horizonte, comia besteira em casa. Na Holanda treinava muito e tinha um acompanhamento total. Naquele tempo no futebol o treino era o mesmo para todo mundo, hoje melhorou muito. A gente corria 8 km todo mundo junto no mesmo ritmo. Não fazia sentido. Como eu vou correr 8 km no mesmo ritmo de um Cafu?

Você não tem resistência?
Resistência eu tenho. Eu não tenho muito essa capacidade aeróbica, para corrida de grande distância. É uma característica minha.

Romário foi inspiração para ir para a Holanda?
Não, foi a proposta que pintou.

Morar lá era difícil?
Era. Eu mal saía de casa. Tinha namoradinha, mas nem ia para Amsterdã [a 100 km de Eindhoven]. No inverno fazia menos 30 graus.

A Copa de 94 ajudou a projetá-lo?
Não. Fechei o contrato durante a Copa, mas nem joguei na Copa.

Você estava ansioso para entrar? Acha que ia bem se entrasse?
Acho que sim. Mas para mim estava tudo bem, só estar ali... Um dia o Romário disse numa entrevista que queria jogar com três atacantes: ele, o Bebeto e eu. Aí vieram me perguntar e eu fiquei em cima do muro, “Quero jogar, mas tá tudo bem”. No dia seguinte o Romário me deu um esporro: “Vem cá, você quer jogar ou não? Então fala que quer jogar e foda-se” [risos].

O Romário fala que é melhor que você no posicionamento na área. Concorda?
Qualquer comparação assim é complicada. Não fico me comparando.

Seu defeito é o cabeceio?
Eu sempre disse que era defeito, mas não sei se é defeito. É um recurso que usei menos, mas fiz muitos gols de cabeça. Eu não vou bem quando tenho de subir junto com o zagueiro, na disputa, não sei por quê. Sei lá se é medo de bater a cabeça.

Na Holanda você já fez uma primeira operação no joelho?
Foi uma besteira, uma raspagem de um ossinho da canela, que tinha crescido mais que o crescimento natural. Fiquei bom em um mês.

Sempre dizem que crescimentos como o seu foram com “bomba”. É verdade?
Nada. Nem dá para enganar, há exame o tempo todo. O que eu fiz foi comer bem e muito exercício. Os caras falam sem fundamento.

Dizem que os jogadores de hoje são muito festeiros, não treinam etc.
Não é verdade. Se eu não cuidasse do meu corpo, não teria trabalhado tanto para me recuperar das lesões. Não teria força, agilidade.

Você sempre se preocupou em combinar força com arte?
Sempre. A velocidade, por exemplo, você tem ou não tem. Mas a força você pode adquirir. E eu fui adquirindo.

O que tem em Barcelona que Maradona deu show lá, Romário, você, Rivaldo, Ronaldinho...?
É... Barcelona é uma cidade incrível, que inspira. O clube também.

Foi o melhor ano de sua carreira?
Esse e o seguinte, na Inter de Milão.

Compararam você com Pelé, numa montagem fotográfica, e houve a Ronaldomania, chamaram você de Extraterrestre...
Muito legal. Fizeram foto comigo vestido de astronauta.

Comparar com Pelé pesa?
Pesar, não pesa. Mas assusta um pouco. Começando a carreira... Tem que ter pé no chão.

E você teve?
Sempre tive, principalmente com apoio dos meus pais, da família. Falarem para você “calma, precisa treinar mais” etc.

O Ronaldinho sentiu esse peso antes de 2006?
Não sei, mas ele não foi o único culpado, todos fomos. Futebol é coletivo. Lá dentro é todo mundo igual.

É coletivo, mas também individual.
Sim, mas no sentido da confiança, aquele negócio de “mande a bola para ele que ele decide”. Tem aquela história incrível do Michael Jordan, que pegou a bola no último segundo umas 40 vezes e errou umas 25. Mas as vezes que ele acertava marcavam a história. O treinador dele contou num livro. Havia um jogador que era ótimo para cesta de três pontos, mas aí o treinador virou para ele e disse: “Olha, sei que você é um craque nos três pontos, mas se o jogo estiver no fim mande a bola para o Michael Jordan” [risos].

Na época do Barça você virou celebridade. Disseram que você era “fenômeno de marketing”, um produto de marketing. Um dia você disse: “Se sou produto, é porque produzo dentro de campo”. As pessoas parecem pensar que você é famoso porque é famoso...
É, porque decidiram gostar de mim... [risos]. Ou porque eu pago todo mundo... Não por mérito, não por trabalho.

E dizem que a Nike forçou você a jogar na final de 1998.
Absurdo. Falaram até que foi uma troca entre o governo francês e o brasileiro por armamento e sei lá o que mais... [risos].

Você se tornou uma celebridade e...
Mas eu nunca quis ser uma celebridade, nesse sentido de querer tirar foto para Caras, mostrar meu cachorro ou sei lá o que mais. Eu queria ser um bom jogador.

Namorou mulheres bonitas, como Susana Werner, Daniella Cicarelli, Raica Oliveira.
Acontece que eu sou um ser humano, me apaixono, erro, acerto. Como sou famoso, isso tem uma dimensão muito grande.

Teve o episódio do casamento no castelo, anunciado na Globo. Foi um erro?
Foi, mas a gente é cobrado a dar informação. É uma satisfação que tem que dar ao público.

O que afinal aconteceu entre você e a Daniella Cicarelli?
Nada, apenas não deu certo, levávamos vidas diferentes. Mas até hoje a gente se fala.

Sua atual mulher (Bia Antony, psicóloga) está grávida (de Maria Sofia, que nascerá em dezembro) e parece mais discreta, como era a Milene, mãe do Ronald. Como ela lida com o assédio que você sofre?
Ela tem ciúmes, mas sabe que é assim, que não adianta esquentar.

É muito ruim ser fotografado em tudo que é lugar?
Claro que é. A gente se acostuma, mas você não consegue ir ao shopping e passear com tranqüilidade. Se juntam três ou quatro, já vira confusão, fica chato. E hoje todo mundo virou paparazzo, com os celulares.

No Brasil é pior ou melhor?
Em algumas coisas é pior. Em 1999 comprei uma Ferrari e me criticaram, disseram que eu estava ostentando. Confundem muito as coisas. Nos EUA o cara compra uma Ferrari e eles o admiram pela conquista. É que no Brasil as pessoas desconfiam, porque nunca se sabe se o cara roubou o dinheiro ou ganhou trabalhando [risos]. No meu caso, é óbvio que foi por meu trabalho. Não roubei dinheiro público, não cometi crime, não passei por cima de ninguém.

E o episódio com os travestis?
Isso foi uma merda que eu fiz.

Você achou mesmo que fossem mulheres?
Achei. Quando fui ver os caras já tinham esquema com imprensa, com polícia e tudo o mais. Isso não me isenta de culpa, eu é que fui buscar garotas de programa. Me arrependo muito.

Você é baladeiro?
Não sou. Quando venho ao Brasil em geral estou em férias, então as pessoas acham que minha vida é assim. Eu saio pouco, me cuido, não fico em noitadas.

De vez em quando aparece tomando cerveja. E naquelas fotos de Ibiza você está com um cigarro.
Tomar uma cerveja de vez em quando não faz mal. Sou bem moderado. E aquela coisa do cigarro é uma bobagem. Não sou fumante.

Você não se arrependeu de ter saído cedo do Barça?
Não, porque o ano seguinte também foi bom pra caramba. As coisas começaram a acontecer na Itália também. Ou eu encarava aquilo como um desafio enorme, de ir para o campeonato mais difícil do mundo, ou nada.

Mas o problema foi o acordo financeiro com o Barça?
Eles tinham assinado o contrato. Já tínhamos comemorado. Aí do nada o cara voltou atrás e disse que tinha que me vender.

Mas porque viram que iam ganhar uma baita grana vendendo você?
Mais ou menos isso.

Você foi o melhor jogador da Itália naquele ano e o estrangeiro que mais fez gols na primeira temporada. Só faltou o scudetto?
Faltou, claro. Mas é até hoje o campeonato mais difícil.

O Maldini, que o marcou nessa época, disse que o Maradona e você foram os dois caras mais difíceis de marcar em toda a carreira dele, porque você, além da velocidade, escondia a bola. E ele marcou Baggio, Romário... Ele foi o melhor zagueiro que você enfrentou?
Foi, sem dúvida. O De Boer era mais lento. O Aldair jogava muito. Contra a Roma era fogo; ele tinha técnica, posicionamento. O Cannavaro também. E o Thuram.

O scudetto de 2002, perdido na última partida, é o que mais dói? Teve aquele pênalti que você sofreu contra a Juventus e o juiz não deu.
Aquilo foi absurdo, tanto que depois provaram que a Juve teve esquema com a máfia em várias oportunidades. Quem sabe naquela?

Essa é outra crítica que lhe fazem, a de ter ganhado poucos campeonatos nacionais. Não ganhou com Barça nem Inter.
Ganhei com o Madrid. E ganhei três copas com o Barça, a Copa da Uefa com a Inter.

Na final de 1998, o que explica a derrota para a França?
Eles jogaram muito. Correram pra caramba, estavam em casa, tinham um grande time. E fizeram dois gols no começo.

Em 2002 o time não estava mais maduro? O Rivaldo, por exemplo.
Estava. Acho que todos nós estávamos.

E a convulsão?
Rapaz, é que precisam sempre achar um culpado. Então acharam.

Mas o que aconteceu, afinal?
Não sei, não me lembro de nada. É como se nada tivesse acontecido. Se não tem explicação científica para isso, o que vou dizer?

Falaram epilepsia, stress, doença do sono, efeito de remédios...
Falaram um monte de coisa. Mas ninguém comprovou nada.

Você estava nervoso naquele dia?
Não, não estava. Fiquei assustado com o que aconteceu, mas eu me sentia bem. O fato é que eles jogaram melhor.

Em 99 começa a agrura das lesões. Você tinha dor no joelho em 98?
Não. Só dores normais, de pancadas etc. Futebol é isso. Dificilmente um jogador entra em campo sem nada, sem um roxo, uma unha arrebentada...

Mas na época do Barça faltou cuidar melhor do joelho?

Talvez. Hoje os preparadores prestam mais atenção ao estilo de cada jogador, às suas necessidades. E eu mesmo aprendi a ver em mim o que preciso fazer, um alongamento, um reforço.

Houve algum de preparação em algum momento para que você tivesse uma lesão tão séria e rara como a do tendão patelar?
Não, tenho certeza que não. Ela aconteceu, foi uma fatalidade que não poderia ter sido evitada. Não foi porque fiquei forte demais ou porque não me cuidei.

Você acompanhava os caras que diziam que você nunca ia voltar?
Acompanhava. Alguns pediram desculpas públicas, como o [médico] Moisés Cohen.

E havia poucos te apoiando na imprensa.
Mas esse pouco me dava ânimo. O que me ajudava mais que tudo era a companhia do meu filho, Ronald, que ainda era pequeno. O que me chateia é a crítica sem fundamento. É como agora: é lógico que estou acima do meu peso. Fiquei dois meses sem poder sair da cama, seis meses sem me exercitar. Como é que não vou ganhar peso? Mas as pessoas na rua dizem: “Você não tá gordo, vamos lá, você vai se recuperar”. É muito bom.

Alguns dizem também que você é “apenas um bom finalizador”...
Como se finalizar fosse fácil... [risos].

E você se considera apenas um bom finalizador? Não acha que as pessoas esquecem de ver suas qualidades técnicas, não só os gols?
Minha trajetória mostra isso. Primeiro, para fazer gol o cara não tem que estar só ali, para empurrar para dentro. Só vi um que fazia isso, o Hugo Sánchez, que fez 38 gols num ano, mas todos com um toque só. Não saía da área, só completava as jogadas. Outra coisa é que a maneira como eu faço as coisas dá a sensação de que é fácil, de que parece fácil. Hoje tem gente que está com o gol aberto para chutar com a esquerda, mas precisa dominar a bola, ajeitar o corpo para chutar com a direita... Finalizar em velocidade não é fácil. Se você vem correndo e driblando, não tem aquele apoio perfeito. O joelho está dobrado, o corpo desequilibrado.

E você não é muito de firula, de enfeite.
Vou dar um exemplo, porque falar de mim mesmo é complicado. Veja o Kaká, ele é o jogador mais moderno que existe. Ele é rápido, é ágil, é alto, é técnico, faz gol e ainda defende. Ele não é de dar pedalada, mas sem driblar o zagueiro ele é capaz de pôr a bola de lado e chutar para o gol, ou ele ganha na velocidade. Ele sabe lidar com o tempo da bola, é objetivo. O Cristiano Ronaldo também é excelente, melhorou quando começou a ir para o gol, mas eu prefiro o Kaká. Ele é mais decisivo. Não perde tempo fazendo jogada na ponta, driblando três e depois cruzando.

Muitos chamam isso de futebol-arte...
Isso é um mito que tem no Brasil. As pessoas não entendem que esse jogo do Kaká é bonito. Um zagueiro pode jogar bonito. Zagueiro que não deixa o atacante jogar também faz arte. O Pelé era objetivo!

Mas o Kaká não tem o drible curto, de salão; é mais da passada larga.
Ele tem isso também, mas não só. Tem vários outros recursos.

Uma firula não ajuda a tirar moral do adversário?
Não acredito. É tudo tão rápido, tão intenso.

Quando o Felipão deu um telefonema e disse: “Ronaldo, quero você na Copa de 2002”?
O dr. Runco, que para mim é o melhor médico do Brasil, me acompanhou o tempo todo. Aí o Felipão me deu aquela oportunidade contra a Iugoslávia. Fiz um bom fim de temporada na Itália e veio a convocação final.

O Rivaldo foi muito importante naquela Copa.
Foi, e o Ronaldinho também jogou muito, muito. Buscou bola no meio-campo, correu pra caramba. Aquele time era muito bom, tudo foi praticamente perfeito.

Qual foi o maior jogador com quem você jogou? O Zidane?
É difícil... Na posição dele, sem dúvida foi o melhor. Mas teve o Luc Nilis, teve o Romário, que foi bom pra cacete. Rivaldo. Maldini, na posição dele. Pô, o Roberto Carlos.

Quem são seus amigos verdadeiros?
No futebol? O Zidane é um, o Roberto Carlos outro. Dida, Adriano, Figo... Felizmente tenho bons amigos. Fora do futebol, tenho alguns de longa data.

É comum você dizer para os amigos ao telefone “Fica com Deus”. Você é religioso?
Sou, sim. Não sou de ir à missa ou de ficar rezando, mas acredito em Deus, sou católico.

No Real Madrid começou tudo muito bem. Vocês ganharam a Liga e a Intercontinental, você foi artilheiro, foi o terceiro melhor do mundo. Mas no ano seguinte tudo começou a piorar.
Aí eles mudaram o treinador, o Vicente Del Bosque, e alguns jogadores foram vendidos, como o Makelele. Mesmo assim, estávamos na liderança até quase o fim. No último mês, perdemos dois ou três jogos e o mundo caiu.

Quando o Beckham chegou, no ano seguinte (2004-2005), não foi aí que ficou grave?
Não por ele, mas por toda a atenção gerada.

Foi por causa do ambiente, do marketing?
Pode ser. Mas o time era bom.

Quando você tinha acabado de chegar lá, recebeu o troféu de melhor do mundo de 2002 e a torcida gritou “Raúl! Raúl”. Não tinha nacionalismo nesse comportamento?
Claro que tinha.

Em 2005 a torcida começou a pegar no seu pé. Você começou a ter muitas lesões e eles começaram a te chamar de “gordo”, “gordito”.
É que tinha as lesões e sempre você volta fora de ritmo. Talvez tenha voltado antes da hora algumas vezes, pela necessidade do time. Minha massa muscular aumentou, mas eu não estava gordo. O que importa é o percentual de gordura, e eu sempre tive um percentual compatível com o de um atleta. Sempre estive na média, em torno de 10%.

Na Copa de 2006 também?
Eu também estava voltando de lesão, o fisiologista explicou que eu estava na média, mas não adiantou nada.

Por que você não declarou seu peso ou subiu numa balança e acabou com tudo aquilo?
Porque não ia adiantar. O que conta é a massa muscular. A polêmica interessava, ia continuar do mesmo jeito.

O Filé (Nilton Petrone, fisioterapeuta de Ronaldo até 2002) disse que você deveria estar com 100 kg em 2006.
Em 2006 ele nem trabalhava comigo. Eu mandei o Filé embora porque a administração dele na clínica tinha fraudes. Nunca falei nada para não atrapalhar a carreira dele. Mas ele vai falar uma mentira dessas? Hoje a clínica dá lucro, o que nunca deu com ele.

Mas qual seu peso ideal? Os 94 kg que oficialmente estava pesando? Você tem 1,84 m e o site da CBF dizia que pesava 87 kg.
Não tem peso ideal. O ideal é estar abaixo de 12% de gordura. Mas aí as pessoas divulgam o que querem.

De qualquer modo, as pessoas se lembram de seus arranques no Barcelona, na Inter, e depois eles foram diminuindo.
Depois que voltei, em 2002, fiquei mais como centroavante mesmo. Mas dei alguns arranques também, só que nem sempre com gol. No Barcelona os adversários não me conheciam ainda. Eu também queria ser para sempre aquele garoto do Barcelona...

Depois de 2005 ficou comum ouvir que você estaria “cansado do futebol”, que era ex-profissional, ex-atleta. É verdade?
Não. Pode ver que estou voltando de novo. As pessoas falam os absurdos que quiserem.

Na Copa de 2006 o que aconteceu? O time tocava de lado...
Teve muita coisa errada em 2006. Toda vez que a seleção foi bem era porque o time ficava isolado, protegido, só treinando. A gente ficava mais concentrado, mais à vontade. Lá os treinos eram vistos por 10 mil, 15 mil pessoas, com transmissão ao vivo, imprensa.

Mas não dava para os atletas reclamarem?
Pô, não somos nós os responsáveis por isso.

E o time?
Acho que tinha muita gente voltando de lesão também, como eu. Mas não tem um problema principal. Não é igual a um carro que você vê qual o defeito e conserta. Foi um monte de coisinhas.

O Roberto Carlos ajeitando meião...
É lógico que ele não tinha que estar ajeitando meião [risos], mas a culpa não foi dele.

Também culparam as “torres gêmeas”, você e o Adriano na frente.
Mas quando perdemos para a França o Adriano não foi titular.

E a acusação de cada um querer bater recorde?
Qual o problema? Se você bate, é o grupo que sai ganhando. A competição dentro do grupo é saudável, ninguém tinha problema com isso. Se o cara bateu o recorde de presenças na seleção, é porque merece estar ali, ele conquistou aquilo, não é porque o Ricardo Teixeira gosta dele. As pessoas não entendem isso. Não entendem mesmo.

E daqui para a frente, Ronaldo?
Fico mais um tempo aqui no Rio, treinando, até arranjar um emprego [risos].

Mas tem propostas de Manchester City, PSV e outros, segundo a imprensa.
Tem, sim, mas primeiro quero ficar bom e depois decidir para onde vou. Sem pressa.

Volta a jogar antes de 2009?
Volto, sem dúvida. Em dezembro já devo estar jogando. Quero terminar por cima, jogando, fazendo gols.