Quando o conheci, tinha o maior pé atrás com ele. Não era para menos, o seu aspecto era péssimo: ele estava bem gordinho, usava uma bermuda que, diziam, não via sabão há quase um mês, não desgrudava dos óculos escuros bizarros, fumava que nem uma chaminé, e ele tinha um ar de enfezado que, cruzes!, intimidava. Estava a meio caminho de um visual a la João Gordo. Os boatos que corriam sobre ele, assim que começou o ano, eram os piores possíveis - tudo mentira, claro, pois o nosso colégio parecia mesmo uma cidade do interior e a fofoca corria solta. Acho que só não disseram que ela era ex-interno da Febem, que daí seria muita forçação de barra.
Pegávamos o mesmo ônibus - na verdade, ele morava na rua que ficava atrás da minha -, e eu, só pra não ser antipática, apenas sorria mas ficava calada, o que ele devia achar estranho, já que não é segredo pra ninguém que tenha estado comigo por mais de dez minutos que sou uma tagarela. Mas Batman sabia conquistar. Quebrou o gelo na primeira rodada de provas, quando um idiota da 8ª série tava querendo discutir comigo a posse de uma cadeira que, na verdade, fui eu quem buscou. Ele viu, de canto de olho, todo o meu esforço pra carregar a dita cuja (que era de madeira pura, pesada à beça!) de um andar para o outro, se levantou e deu uns dois berros no imbecil, que, com medo, devolveu-me a cadeira. Queria rir - porque a cara do garoto, há dois minutos tão arrogante, sendo humilhado na frente de todo mundo, era tri-engraçada -, mas me limitei a agradecer e me sentar. Sou uma lady (risos)!... Não preciso dizer que virou um grande amigo - meu e da torcida do Flamengo -; como digo, uma das cinco pessoas que conseguem me arrancar um abraço caloroso em público.
Ele era a tranqüilidade das mães ("Ah, Batman vai!? Então pode ir!"). Não era do tipo mandão, que ficava fiscalizando os passos da gente, mas fazia questão de ter todo mundo reunido junto com ele na hora de ir embora - importante dizer: ele era 3 anos mais velho, daí, também, a moral com a galera. Uma vez, se aborreceu num churrasco e quis ir embora. Ficou magoado com duas amigas que se recusaram a voltar com ele, e encarou o ato como uma deslealdade. Foi embora resmungando que nunca mais sairia com elas, o que caiu por terra na festa seguinte, diante de pedidos com jeitinho.
Batman era muito temperamental, vale dizer. Às vezes isso enchia o saco pra caramba; não fosse um sujeito tão afetuoso e generoso, teria perdido a paciência com ele uma dúzia de vezes. Sim, ele demandava nosso "saco extra", era teimoso como só um típico taurino sabe ser. Pra convencer esse homem a queixar uma colega de sala pela segunda vez, depois de levar um fora, deu um tra-ba-lho!... (Mas valeu a pena, pois, entre idas e vindas, estão juntos há 12 anos, e ela mesma brinca que não precisará de filhos se já namora Batman! haha) Entretanto, verdade seja dita, tinha um lado muito bacana nessa explosividade dele: se ele achasse errado, ia lá e brigava pelo seu ponto de vista. Enfim, às vezes bancava o mimado, mas de jeito algum era covarde. Gente assim, com sangue correndo nas veias, realmente faz falta!... Ô!...
Era muito inquieto, o rei das idéias que, a vistas largas, se via que não iam dar em nada. O pai era um engenheiro que rodava o mundo e ganhava em dólar - por conta disso, sabia falar inglês e espanhol fluentemente, e seus dois irmãos mais novos eram estrangeiros, nascidos na Venezuela -, mas ninguém desconfiava que era um garoto de classe média alta, e ele adorava se meter com o povão. Desconfio que foi a alegria dos pedreiros da redondeza (risos): com eles já montou uma banda de pagode e um time de futebol que não foram muito longe. Ah, sim, era um músico nato: sabia tocar guitarra, violão e cavaquinho muito bem.
Na última vez que fui a casa dele, em troca de uma conta no UOL, tive que retirar "Hairless Lolitas" (sim, era um site de pedofilia, mas foi coisa do irmão mais novo dele) da página inicial do pc e assistir inteirinha a sua performance do AC/DC, com direito a caras e bocas e solos de guitarra (pois é, "não basta ser amiga, tem que participar"!). Que figura!... Sorte minha que ele resolveu tocar na varanda, que, a propósito, é a melhor varanda das casas que conheço, daquelas de se esparramar no chão com a turma, sem medo de ser feliz ou de levar cotovelada (a casa dele é sensacional; aliás, essa é uma qualidade daquele local ali, o Farol de Itapuã. eu mesma já morei em uma casa que, quando me lembro, dá uma saaaaudaaaade!... mas isso é outra história, que um dia eu conto).
O contraste também batia ponto na sua vida amorosa, que ia fácil do 127v para o 220v. Se estava solteiro, era bagaceira pura, mas se estava namorando, era totalmente comprometido.
Quando o conheci, chamava os meninos da sala para "pegar umas ladronas" na Barroquinha. Houve uma fase em que era assíduo freqüentador da Jungle Night (nunca quis saber direito o que era isso. Deus me defenda!). Cenas de unhadas nas costas sempre me lembram o Batman daquela época. Um dia ele chegou puto com a "ladrona" da noite anterior, que o havia arranhado todo. "Baixo-astral isso, Juliana, muito baixo nível esse negócio de mulher cravar as unhas nas costas do homem", ficou resmungando uma cara do meu lado, e eu, claro, dando risada à beça dele. Eu pensava, divertida com o contraste: "Como é que pode? Se mete com as mulheres que topam qualquer coisa por R$ 15 e ainda espera classe?! Ou é muito sem noção ou muito idealista!".
Contava que teve a sua primeira vez aos 11 anos, levado pela mão pelo pai, que o deixou uma tarde inteira com uma prostituta chamada alguma coisa Del Fuego - não lembro agora. Saiu desidratado e foi direto para o hospital. Uma vez chegou rindo porque, na tarde anterior, Caio, Sílvio e ele (3 da mesma laia, também vizinhos do Farol) haviam convencido um bobão que morava perto da gente a gastar o cheque que a mãe havia deixado pro supermercado com uma prostituta - não preciso dizer que quem sobrou nessa história foi o pobre do menino.
Ficou a um passo da violência na ocasião de uma brincadeira infeliz de uma vizinha lá do Farol, a irmã "dada" do menino bobão da história anterior. Perguntada sobre onde iria tão bem vestida, a garota respondeu que ia fazer um teste de AIDS. A história se espalhou. Conclusão: os meninos fizeram as contas e se a criatura estivesse falando sério, 70 pessoas estariam infectadas também, entre elas, lógico, Batman. O homem ficou uma arara, disse que ia organizar um grupo para linchá-la, chamou-a dos piores nomes possíveis, e só ficou calmo depois que a verdade veio à tona. (Nunca ri tanto às custas de alguém! hehe)
E quando não gostava de uma pessoa, principalmente mulher, sabia ser perverso. Odiava uma funcionária da secretaria. Quando ela passava, ele dizia baixinho pra gente: "Por tudo que é mais sagrado, juro que essa eu não comeria nem com o auxílio de um litro de 51!". Era uma fala tão espontânea, embora fosse ultragrosseira, que não dava pra não cair na risada.
Mas era um amor de pessoa. Apesar do visual bad boy, era o rei da criançada e, como ilustrei acima, o irmão mais velho das amigas.
Nunca vou esquecer dele na época em que o pai da namorada morreu. Acho que ela e a irmã caçula só seguraram a barra por causa dele, que deu apoio em tudo. Ele disse pra gente que não sabia como ficaria a situação financeira delas, mas que, se preciso fosse, trabalharia e ajudaria - e eu sabia que não era uma promessa da boca pra fora; ele seria capaz disso mesmo caso tivesse sido necessário. A cunhada, que na época tinha 15 anos e já tinha perdido a mãe dois anos antes, há muito tempo não o considera mais o namorado da irmã: a figura se infiltrou de tal jeito que hoje é tão família dela quanto a própria irmã.
Foi com Batman, também, que percebi, pela primeira vez, que homem também tem sentimento, quando ele me contou uma história muito sinistra que aconteceu com uma ex-dele (é, porque pra maioria das mulheres, isso é que nem disco voador: há quem diga que existe, mas nunca provaram tal fenômeno).
Batman era a personificação da inquietude; aquele tipo de sujeito que desafia os limites da sua paciência, mas também traz consigo um bom sopro de vida.
DANUZA LEÃO
A paz dos inquietos
Eles vivem em eterna tensão, para o bem ou para o mal; só não podem é ficar parados. Os caminhos que escolhem são sempre os mais difíceis |
É A INQUIETAÇÃO; ou você nasce com ela ou não, e se nasceu, vai passar a vida inteira com uma pressão no peito e outra na alma, querendo entender e não entendendo, trocando de casa, de objetivo, de marido e de analista, sem chegar, nunca, a uma conclusão.
Um inquieto não tem sossego: se é pobre, gostaria de ser rico, se é rico, acha que o dinheiro atrapalha e que talvez fosse mais feliz se morasse numa pequena cabana. Se é inverno, ele se lembra com saudades do verão, mas se está debaixo do mais lindo sol, pensa em como seria bom se estivesse em Gramado no inverno, de botas, tomando um chocolate quente. Não é que ele queira sempre o que não tem; apenas não consegue viver o momento presente -não em paz. Ou está lembrando do passado ou pensando em como vai ser bom quando o futuro chegar. É duro fazer parte da tribo dos inquietos.
Com eles não há risco de monotonia; acordam te sufocando com beijos e abraços ou na mais fria das indiferenças, e o pior: sem saber o porquê. No meio do dia podem telefonar como a mais dócil das criaturas, sem conseguir explicar por que foram tão insuportáveis horas antes. Nem explicar, nem entender. É dura a vida dos que vivem perto de um inquieto.
Mesmo quando está tudo bem -o amor perfeito e o trabalho legal, alguma coisa atrapalha: é a tranqüilidade. Como é possível alguém viver em paz e em harmonia com as pessoas e com o mundo? Difícil de responder.
Difícil, a vida dos inquietos, e ninguém imaginaria o quanto essas pessoas tão vitais -porque vitalidade é o que não lhes falta- sofrem, mas que ninguém confunda sofrimento com infelicidade. Nada a ver. Para eles nunca há paz; há momentos de intensa e fugaz felicidade, mas paz, nunca. O grande momento dos inquietos é quando eles começam a planejar uma mudança de vida, seja essa mudança quebrar uma parede, mudar de profissão ou de país.
Eles vivem em eterna tensão, para o bem ou para o mal; só não podem é ficar parados. Os inquietos não se conformam com nada que se pareça com a estabilidade, e por isso os caminhos que escolhem, sejam eles quais forem, são sempre os mais difíceis. Os inquietos não sabem viver sem uma complicação, e a luta para eles é sempre melhor que a vitória.
Eles não compram, jamais, uma casa de campo pronta, mas um terreno; levam dois anos para construí-la e mais dois fazendo o jardim, decorando etc. No dia em que ela fica pronta, as flores crescidas, ele sente um grande vazio -que só se resolve quando encontra um comprador.
É que assim eles passam a maior parte da vida, com algumas pausas para refletir por que são assim e como poderiam se aquietar, para serem mais felizes; para encontrar uma certa paz, talvez -só que não conseguem.
Mas um dia eles compreendem que essas pausas foram tempo perdido e teria sido mais simples se tivessem reconhecido, há muito mais tempo, que com eles não há nada a fazer, e que é impossível mudar.
E é melhor que não saibam nunca: se souberem, terão, de uma certa maneira, encontrado a tal da paz -o que para eles pode ser fatal.